Wildland: Return to Zero
31 Capítulo 30 - Tank
Acordei mais uma vez naquela cama mofada e cheia de pulgas, aquele lugar estava quase se tornando comum pra mim, mas acho que esse ciclo estava chegando ao fim, olhei pra minha pulseira e sorri enquanto olhava pro guarda passando do lado de fora.
— Ei seu Zé. – Esse era o nome que eu tinha dado pra ele.
— O que disse?
— Você é um robô?
— O que? O que é um robô?
— Ah, nem isso você sabe. Acho que foram ensinadas poucas coisas pra você. Eu tenho pena sabe, de todos vocês aqui que são usados pra ocupar espaço, mas pensando bem, por que talvez eu seja um dos únicos humanos aqui? Será que essa merda de arena foi feita pra mim? Haha, vendo o comportamento do seu chefe eu acho que sim, mas pra que isso? Um castigo? Porra, já fiz muita merda, mas não pra merecer isso. Ah, você não tá entendendo nada né? – O seu Zé ficava me olhando com espanto e preparado pra sacar o seu cacetete, mas eu usei o eaq pra fazer tudo aquilo desmoronar em menos de 10 segundos. Usei o revestimento pra me proteger e saí do meio das ruínas onde pisei na arena e me deparei com aquele puto.
— Dessa vez, veio rápido.
— Não quero perder muito tempo sabe.
— Então, vai tentar enfrentar o meu ‘campeão’ de novo?
— Nah, agora eu acho que não precisa não, vamos direto pra luta principal. – Olhei nos olhos afiados de Low e ele balançou a cabeça negativamente mais uma vez, aquela descripância e arrogância me davam nos nervos, mas eu já tinha entendido, eu tinha percebido a única maneira de vencer.
— Está confiante dessa vez, aprendeu alguma habilidade nova? Vamos ver – Os olhos de Low se abriram ainda mais, acho que ele tinha como saber minhas habilidades, eu ainda não conseguia fazer isso, talvez precisasse de alguns níveis a mais.
— Hm, está no mesmo, level 62, você nem mudou nada quase desde as últimas cinco vezes. Então vamos ao ponto; Eu vou acabar com isso rapidamente.
— Você não respondeu muitas perguntas minhas até agora, mas eu já entendi quase tudo daqui. Você tá querendo me testar?
— Por que você acha que é tão especial assim pra receber esse tratamento?
— Tratamento? Essa tortura você diz? Tá tentando me punir por algo? Quem é você?
— Eu já disse, sou um dos 7 heróis.
— Eu não sei nada sobre essa merda de heróis, quero saber se me conheceu antes?
— Não, eu nem tinha ouvido falar de uma existência insignificante como você.
— Então por que eu to aqui? Por que to passando por isso?
— Você não lutou sua vida toda? Qual a diferença?
— Eu lutei porra, mas lutar contra monstros e demônios aqui, morrer mais de 100 vezes, acha que isso é igual você aguentar as coisas da vida?
— Acho. Você não perdeu ninguém aqui, você está mais forte, a cada retrocessão você fica mais resistente, você aguenta. Não era essa sua frase? Que tem que aguentar? Não precisa ficar se culpando por nenhum erro seu como na sua própria vida, você precisa apenas lutar, aguentar e ficar mais forte. O por quê? Existe um motivo pras coisas? Isso você mesmo tem que responder. Você está em pé na minha frente, lutando contra uma pessoa que é 100 vezes mais forte que você, e mesmo assim está com um sorriso em seu rosto, confiante e fazendo brincadeiras, você acha que todo sofrimento na vida é justificável? A maior parte deles, não, mas alguns nos mostram o quanto podemos ser fortes, aqui você só parece ter ganhado algumas habilidades e resistência, mas você ao menos tem um objetivo, você quer sair, não quer?
— Eu vou sair.
— Essa é a resposta para todas as perguntas.
— Então é isso né? Entendo. – Eu não entendi muito bem as merdas que ele disse, mas eu realmente tinha ficado mais forte, naquele lugar eu podia dar tudo de mim, consegui me reerguer mesmo depois de várias quedas, como isso? É porque sou egoísta assim? Se for se tratando de mim, então eu posso sobreviver? Não, eu quero proteger as pessoas, eu protegi a Irene a vida toda, eu me senti vivo com isso, não posso deixar meus filhos sozinhos, eu sabia o tempo todo, o que me dá forças aqui é querer proteger alguma coisa, não é só por mim.
— Prepare-se. – Low tirou seu terno, daquela vez era tudo ou nada. Ele avançou contra mim sem avisar, eu conseguiria. Aguente. Aguente. Aguente. Por quê naquela hora eu me lembrei daquele dia?
Estava sentado no barranco pescando olhando aquele belo pôr-do-sol, isso foi umas duas semanas depois da minha esposa ter morrido. Eu me retirei pra um lugar longe, queria esvaziar a cabeça, mas foi meio tenso, a solidão parecia me machucar mais, e pra piorar não tinha pescado quase nada naquela altura, mas quando eu senti a vara de bambu se mexer naquele momento em que olhava o põr-do-sol e sentia aquela brisa gelada do começo do outono, eu vi que havia algo lá para mim.
— Mas que... – Quando puxei a linha, havia algo ali no anzol, mas não era um peixe. Peguei aquela medalha na mão, naquele instante vi a vida passar diante dos meus olhos. Não consegui pensar em mais nada se não o que minha jornada até ali tinha significado.
Naquele momento em que Low se aproximava com seu punho fechado eu segurei firmemente aquela medalha que sempre guardava em meu bolso, ela estava lá o tempo todo. Isso podia parecer uma besteira de algum fanático, mas porra, isso era algo que me deixava mais forte. Fortaleci meu corpo o máximo que pude, quando Low estava a poucos centímetros de mim, usei ‘aquilo’.
— O quê? – Low se surpreendeu e ao atingir o meu peito, o impacto fez a terra atrás de mim se levantar, poeira foi levantada, um som estrondoso ressoou por aquela arena, a plateia começou a correr enquanto parte do palco desmoronava.
— Eu consegui... – Eu não havia morrido. O punho de Low atingia meu peito mas eu continuei em pé, ele me olhou com espanto e terror, se perguntava como aquilo era possível.
— Você...
— Eu... aguentei.
O mundo era mesmo injusto. Eu sempre me fiz de vítima a vida toda, pensando que sofri o suficiente para ser forte, apesar de tudo que passei, eu nunca fui forte. Achava que aguentaria tudo, como eu tinha o ego inflado. Talvez fosse porque todos tinham medo de mim no ensino médio, ok que já bati em muito marmanjo por aí, mas eu na verdade tinha medo, tinha medo do meu futuro, eu sabia o que iria me aguardar, porque se eu não estivesse lutando, eu então era mais uma pessoa fraca.
— Ei... por quê você me deu isso? Sabe que não sou supersticioso nem nada. – Naquele dia eu recebi aquela medalha, tirei até sarro da minha esposa, mas ela parecia ter feito isso de coração, ela acreditaria que eu iria me lembrar dela através daquilo, não sabia o quanto aquela coisa seria importante depois, mesmo com esse amor que foi me dado eu joguei tudo fora. Duas semanas depois eu comecei a trai-la, e mesmo uma semana antes de sua morte eu fiz sexo com aquela outra mulher que eu nem consigo mais lembrar o nome. Por que eu quebrei o meu escudo? Eu deixava a medalha em meu bolso toda vez que deitava na cama com aquela outra, eu não sentia culpa, só fui notar que minha barreira havia partido no meio depois que pisei pra fora do cemitério. Comecei a chorar quando vi tudo que tinha feito. Por conta da vida boa que ganhei através de toda minha luta, eu relaxei e me tornei uma pessoa fraca. Enquanto eu estava lutando e com dificuldades eu nunca abaixei minha cabeça para as fraquezas que consumiam o homem nesse mundo, eu era feliz, tinha uma família boa, mas tudo havia caído no vazio, meu corpo podia ser forte mas minha alma estava corrompida. Fui até o barranco onde costumava pescar e peguei aquela medalha e a mandei pro meio do rio, começou a chover 10 minutos depois, fiquei lá por uma hora chorando e pensando em me jogar daquele lugar, mas eu pensava nas crianças, porra, quão fraco eu poderia ser? Eu havia jogado fora meu amor, minha dignidade.
— “Eu não mereço me lembrar de você. Você é uma pessoa muito melhor do que eu iria merecer algum dia.” – Eu joguei aquela medalha fora porque não merecia, não merecia proteção de Deus, da terra ou sei lá do que eu teria com aquilo. Depois daquele dia de pescaria eu vi que havia algo que poderia juntar os cacos do meu escudo, não era eu mesmo que provinha minha força, não era por minha esposa ou meus filhos, por Irene ou qualquer outra coisa, por que eu tinha lutado todo esse tempo? Havia algo lá, além daquele pôr-do-sol que presenciei. As nuvens negras começaram a desaparecer, mas só iria perceber aquilo depois de anos, na verdade, no momento em que tomei o soco do Low eu vi o que me dava forças.
— Como pode?
— Hehe, então tá surpreso? – Eu dizia isso mas cospia sangue e me segurava para me manter em pé, eu havia segurado o soco do Low, maluco era quase um Deus, mas eu aguentei. Pra isso eu tive que usar o EAQ pra fazer um buraco pra amortecer o soco, ele tinha me matado em 4 vezes que me deu o soco no mesmo lugar anteriormente, foi então que testei uma vez abrindo um buraco no chão pra ele meio que perder equilíbrio e o soco diminuir a potência, mas não adiantava porque eu morria de todo jeito, então eu precisava de mais. As regras pra vencer era não morrer e não perder a consciência, mas depois de uma pancada daquelas era impossível, foi então que comecei a perceber que só havia uma maneira de ganhar, e não seria com força, mas usando a cabeça. Uma vez meu filho me disse que preferia os estrategistas do que os guerreiros que dependiam da pura força. Eu nunca fui muito inteligente, preferiria usar meus dotes físicos e meu esforço, mas sabia que algumas vezes eu precisaria usar a cabeça, pensei por 10 retornos, e depois comecei a ver que ele mantinha a mesma força em seus golpes, então eu poderia simplesmente subir de level para aguentar, mas se ele soubesse que eu tava aguentando mais, ele ia colocar mais força, então eu devia fingir que morria ou desmaiava na hora, e foi isso que fiz. Por 15 repetições eu tomei os socos, e mesmo que aquilo não me matasse, eu me jogava no chão e mordia a língua para me matar, porque eu sabia que não ia aguentar acordado ou morreria minutos depois. Fui aguentando esses socos até que eu tinha certeza que aguentaria, e foi usando aquele sexto da arena que notei que podia aguentar o Low. No penúltimo soco de Low eu não morri na hora, mas eu tirei meu fortalecimento para morrer, eu sabia que se tivesse usado todo o MP eu conseguiria.
— Não, você roubou. – Low ficou reto em minha frente e seus olhos pareciam sérios. – As regras mudaram, pra vencer, você não pode se ajoelhar ou cair. – O quê? Que porra ele ta dizendo? Não tinha como eu ficar em pé, eu podia não desmaiar, mas o impacto do sco me deixou com dor demais, eu precisava me deitar ao menos, meus ossos tinham se quebrado, umas costelas talvez, mal conseguia respirar, eu sempre caía depois de tomar o golpe, mas agora eu devia ficar em pé?
— Por quanto tempo?
— Dez segundos.
— Dez segundos? – Aquilo parecia pouco, mas eu não aguentava mais, fechei meus olhos e perdi a consciência, mas foi então que me lembrei... Daquele dia no penhasco. Eu vi toda vida em meus olhos, com os raios de sol refletidos na água, ao segurar aquela medalha que eu tinha jogado anos atrás. Puta merda, então tinha algo mesmo além do horizonte? – Eu abri meus olhos.
— Não. Vai ser hoje que vou sair, eu parei de ser fraco, pela primeira vez na vida. – Eu dobrei meus joelhos, eu não aguentava em pé, mas olhei para o céu daquele mundo. Era o mesmo que do meu. Eu sabia..
— Desista.
— Eu nunca desistirei, cara. Se tem algo que eu sei fazer é me esforçar. -5...4...3..2...- Eu venci. – Finalmente. 1. Eu caí com tudo no chão desacordado.
— Então, você acordou. – Abri meus olhos rapidamente e olhei pra cima, me levantei rapidamente e vi aquela arena vazia, apenas Low estava na minha frente sem seu terno, ele vestia uma camiseta social amarrotada e tomava um pouco de rum em uma garrafa que parecia bem cara.
— O que...? Dormi por quanto tempo?
— Umas 12 horas, não sei como mas você venceu mesmo. Parabéns, Ford, você passou do tutorial. – O quê? Tutorial? Do que aquele cara tava falando? Olhei rapidamente ao redor, não tinha nem sinais de corpos ou vida ali, então todos eles eram robôs mesmo? O que era tudo aquilo?
— Então somos só nós dois?
— Sempre foi.
— Que porra é essa? Era tudo uma ilusão?
— Não, eu te disse, você estava no tutorial.
— Tutorial do quê?
— Eu precisava que você fizesse.
— Então tu me colocou nessa merda pra me testar?
— Eu disse antes, não?
— E precisava me matar tantas vezes.
— Você acha que aguentaria meus socos com isso?
— É, tu tem um ponto. Mas por que diabos eu tinha que aguentar isso?
— Porque eu precisava que você ficasse mais forte.
— E por quê?
— Porque você vai lutar com pessoas do meu nível.
— Do que tá falando cara?
— Você terá que trilhar esse caminho, Ford. Você passou pelo teste, acho que pode até ficar mais forte do que eu. – Eu não entendia muita coisa do que ele estava falando, mas parece que minhas batalhas não iam acabar por ali.
— Eu não posso voltar pra casa né?
— Não, você sabe.
— Entendo. Haha, então, eu preciso lutar com quem?
— E se eu dissesse que é contra demônios?
— Eles são fortes como você?
— Não tanto quanto a mim, mas se você aguentou meu soco mais forte, então acho que pode lidar com eles, preciso que vá agora pro sul, há duas gurias lá que estão enrascadas contra um desses demônios, você precisa ajuda-las.
— Eu agora virei um tipo de herói?
— Não Ford, você nunca poderia ser um herói.
— Isso eu sei, mas não precisa jogar na cara. – Foi naquele momento em que me levantei que vi que eu tinha uma missão, não sei quem havia me dado ela, mas eu iria sair daquele lugar e voltar para meus filhos, eu aguentei até ali, mesmo com todos os meus erros e pecados, meu escudo estava de volta.
— Antes de ir, fique com isso. – Low me deu um escudo dourado com detalhes em bronze, ele parecia bem pesado, mas segurei aquilo como se não fosse nada.
— E quem é você afinal?
— Eu já disse, eu era um dos heróis. Mas agora deixo as coisas com você. – Aliás, foi difícil te curar algumas vezes.
— Como assim?
— Aquela mulher lá que você viu, foi ela que te salvou várias vezes. Eu não posso dizer quem é, mas agradeça a ela no futuro. VocÊ não voltou no tempo, todas as vezes que você morria ela te fazia reviver, usou muita mana nisso, mas parece que adiantou de algo.
— Então.. vocês reconstruíam tudo?
— De fato, somos administradores desse tutorial, mas não tínhamos muito tempo. Não esqueça de nada que passou aqui, agora vá e aguente como você sempre fez. – Eu olhei para o lado e vi o caminho que me levaria até a próxima batalha.
— Bom, acho que vou dar um jeito.
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