Wildland: Return to Zero

24 Capítulo 23 - Padrão Seguido


Eu havia sofrido demais já, era o suficiente. O inferno podia ser bem pior do que imaginava. O que caralhos eu tinha feito na vida pra merecer isso? Tá, ok, eu desrespeitei muito minha esposa, eu a traí, mesmo depois dela morrer com câncer eu ainda pensei naquela outra mulher, talvez isso seja o bastante para me colocar nessa situação. Lembrei também da vez que cobrei mais caro de um cliente porque vi que ele era cheio da grana, e também teve a vez que quase matei um cachorro na rua por pura diversão, se eu continuasse a pensar e lembrar das coisas acharia mais motivos para estar ali.

Dessa vez eu fui jogado na arena sem a menor intenção de lutar, eu queria apenas observar novamente a arquibancada. Tinha algo bem curioso, e aquela pessoa que eu vi naquela vez...Olhei o mais rápido que pude para todos os cantos, o que eu via começou a me espantar. Eu já tinha entrado mais de 17 vezes ali, mas o padrão das pessoas lá era o mesmo, isso poderia ser explicado se isso fosse uma repetição, mas eu tentaria uma coisa agora. Comecei a desviar das mordidas do lobo que não parecia se cansar nunca, eu ignorei o mesmo e corri até a arquibancada. A mais baixa ficava perto do portão de entrada, com um salto eu conseguiria me pendurar na mesma, tinha uns cinco guardas espalhados ao redor, eu seria pego rapidamente mas ao menos precisava testar aquilo. Quando pulei, apoiei meus braços naquele muro concretado e subi, na minha frente tinha um senhor com um chapéu de palha bem magro, uma criança com orelhas pontudas e uma criatura azul com três olhos, eles se afastaram mas pareciam sem espanto, olhei para cima e vi outras pessoas e criaturas olhando para arena e continuando a xingar e torcer. Eles repetiam as mesmas palavras, eu não conseguia entender estando lá embaixo, mas era um padrão, todos nem prestavam atenção em mim que estava embaixo deles, peguei um pedaço de madeira dos bancos e dei no rosto da criatura azul com três olhos, ele caiu para trás mas em seguida se levantou e continuou olhando para a arena.

— Mas que porra...

— EI! – Quando olhei para trás tinha uma lança vindo em direção ao meu rosto, não consegui nem piscar e já acordei naquela cama suja.

Dessa vez eu tinha conseguido uma grande informação. Aquelas pessoas não eram reais. Quem ali era real na verdade? Talvez apenas eu? Todos que olhei ao redor daquela merda pareciam bonecos, menos aquela pessoa que vi antes, ela tinha uma camiseta do meu mundo e óculos de sol, aquilo me chamou muita atenção, talvez ela fosse o caminho para sair dali.

VIGÉSSIMA PRIMEIRA TENTATIVA

Agora eu acho que daria bom. Essa mulher, ela com certeza não era um jogador que existia só naquela arena, acho que a maioria de todos ali eram tipo robôs, programados pra fazer as mesmas ações, mas ela não, as duas vezes que a vi ela estava em lugares diferentes, apenas ela. Eu já pensei em mil e uma alternativas pra cair fora daquele lugar, mas até agora não vi uma solução se quer pra isso. Tentar sair pelas arquibancadas era impossível, tentar sair daqueles corredores também não iria rolar, convencer os outros prisioneiros muito menos, nem mesmo podia contar com a sorte naquela merda de lugar.

— Ei guardinha, é permitido entrar qualquer pessoa aqui na arena? – O guarda que andava pelo corredor vigiando as celas me olhou franzindo sua testa, ele andou em minha direção e me encarou com certo nojo, como se pra ele fosse um pecado alguém como um prisioneiro falar com pessoas tão superiores como eles.

— O que disse?

— Você é surdo?

— Tá querendo morrer é?

— Pelo visto são todos iguais. – Todos aqueles guardas tinham a mesma aparência, pessoas de uns 40 ou 50 anos, todos com rostos sujos e enrugados mas corpos musculosos com espadas e porretes e aquela roupa brega meio troiana e meio spartana, se bem que acho que nem sabia a diferença dessas duas.

— Não me enche o saco seu lixo.

— Só queria que respondesse a pergunta. Qualquer pessoa pode assistir os duelos? – Ele me olhou com os olhos mais abertos dessa vez, era nítido o estranhamento em seu rosto, ele mirou seus olhos nas outras celas para ver se outros presos estavam prestando atenção.

— Como sabe disso? Como sabe que tá em uma arena? E não, aqui é só pra convidados.

— “Então era isso. A maioria ali foi capturada e levada até lá sem consciência, eu devo ter morrido mesmo ou desmaiado e movido pra cá, aposto que os outros presos também.” – Digamos que já passei por aqui, tenho experiência.

— Por que quer saber se todos podem entrar aqui? – O guarda parecia indignado ainda com meu conhecimento, ele olhava cada vez mais atento para ver se ninguém ouvia nossa conversa, devia tá com medo de algum superior descobrir que sabemos de alguma coisa.

— Porque na vez anterior eu vi uma mulher meio suspeita aí no meio sabe. – O guarda se aproximou mais ainda da cela, ele parecia suar frio.

— Suspeita como?

— Ela tava com umas roupas estranhas.

— Me dê mais detalhes.

— E o que eu ganho em troca?

— Vai tomar no cu, se não falar eu te mato aqui e agora. – O guarda pegou seu porrete e deu uma bancada contra as grades da cela, aquilo chamou atenção dos outros presos, mas em seguida já voltaram a olhar para a mesma posição com seus rostos acabados, como de costume.

— Vamos lá, eu mereço alguma coisa pelo menos. Não vou pedir que me liberte nem nada, quero informações ao menos. “Sim, minhas armas naquele momento eram informações. No estado atual, não tinha como eu sair de lá, então precisava recolher o maior número possível de informações para encontrar um meio pra minha fuga e fim daquele ciclo de mortes. Se eu falasse da mulher provavelmente eles iriam atrás dela, e se ela reagisse, era certeza que era uma pessoa real, talvez ela até pudesse lutar contra os guardas.

— E o que quer saber?

— Digamos que quero saber só quantos inimigos temos que enfrentar, sabe, cheguei até o terceiro só.

— Mas que caralhos? E como tá vivo aqui?

— Eu tive uma ajudinha, se posso dizer. – O rapaz me olhava com suspeita, eu meio que tentava instiga-lo cada vez mais, e parecia que estava dando certo. – Primeiro foi o lobo, depois o gigante, depois o leão ou sei lá o que era. E depois, o que temos?

— ... – O guarda pareceu furioso, ele não podia deixar que aquelas informações corressem de lá, então talvez isso pudesse deixa-lo na minha mão.

— São 10? – Eu chutei um número aleatório.

— Se fosse 10 você acha que vocês putos conseguiriam passar? Se bem que duvido que consigam passar do terceiro mesmo, quem dirá do sétimo. – Ele meio que me respondeu indiretamente, então eram 7 desafios? Aquilo era mais difícil do que imaginei, mesmo se fossem 5 ainda seria quase impossível, mas com aquilo eu já sabia que aquilo teria um fim.

— Se é só isso então vai descansar e aproveitar seus últimos momentos seu merda. – O guarda pareceu ter perdido a paciência e se afastou, parecia estar com medo. Enfim eu tinha uma confirmação que poderia sair dali, mas eu tinha mesmo que vencer 7 adversários daquele porte? Provavelmente os outros eram ainda mais fortes.