Wildland: Return to Zero

23 Capítulo 22 - Insistência


Eu havia acordado naquela cela cheirando a esterco e tripas novamente, até então eu não sabia como era o cheiro de tripas, mas depois de passar por aquelas 17 mortes eu já estava acostumado, e eu que reclamava do odor do óleo e das peças antigas dos carros que eu mexia, que saudades da merda da minha oficina. Comecei a respirar fundo tentando contar mentalmente quanto tempo eu tinha até entrar na arena. Primeiro eu ficava meia hora na cela vendo vários guardas levarem alguns prisioneiros arrastados, eu ouvia gritos de mulheres apesar de nunca ter visto nenhuma por lá, imaginei que devia ter alguma sala onde estupravam continuamente as que foram capturadas, eu não me lembrava nada antes de acordar no inferno, a última memória que tenho era de dar boa noite pro meu filho e tomar um copo de whisky na cozinha antes de me deitar e me lembrar da minha esposa. Porra, me lembrava dela toda noite, mesmo naquele momento. O Jimmy vai ficar bem? Tem a Michelle lá mas, caramba, eu ter morrido assim aos 43 anos, bom, não dá pra reclamar, queria mesmo ter tido uma vida mais longa mas agora que se foda, não dá pra ter arrependimentos estando aqui, eu ainda tinha a esperança de cair fora, mas parecia meio difícil escalar e sair desse buraco. Depois de sentar e esperar eu seria o próximo a ser levado pelos guardas, no começo até tive uma resistência barata, mas os malditos eram fortes, deviam ter malhado pra caramba pra serem tão bombados assim, até me sentia mal em ser agarrado por um cara desses e aparentemente mais velhos do que eu. Os cretinos me levam pro corredor mas antes, como uma forma de compaixão ou sei lá o que, nos dão um pote de sopa do que parecia ser alguma mandioca estragada, eu nem ligava, comia tudo, não tinha muita fome mas talvez podia ser a minha última refeição, como de fato foi, por 17 vezes, agora talvez fosse a décima oitava? Porra, queria comer ao menos um churrasco texano. Mas peraí, pensando bem, por que diabos nos dariam sopa? Eles iam nos jogar pra uns demônios em seguida. Será que tem algo na sopa? Eu não comeria dessa vez. Peguei a pequena cuia de madeira toda nojenta e deixei de lado, um dos guardas me olhou feio mas ele pareceu nem ligar, se tivesse algo será que ele iria insistir? Não lembro de ter sentido nada naquele momento quando estava na arena, mas talvez possa ter algum efeito. Por que eu ficava me prendendo em falsas esperanças ainda? Haha, talvez fosse o instinto humano de querer sobreviver? Eu iria tentar, já decidi, ao menos saindo dali talvez eu poderia morrer de forma melhor, ou quem sabe sobreviver uns dois ou três dias.

Depois de ignorar a sopa fui levado para aquele corredor onde eu esperaria por quase uma hora ouvindo os gritos dos sujeitos abatidos brutalmente por aquelas feras, eu tinha analisado bem e tinha algo que me deixava feliz, pelo que vi fui o único a chegar no terceiro estágio, me senti fodão por um momento, talvez só eu ficasse nesse ciclo aí? Podia ser. Mas isso podia ser uma vantagem pra mim, talvez Deus tenha dado piedade um pouco e uma chance de me redimir, um purgatório, quem sabe? Eu era evangélico mas tinha ouvido falar disso da Michelle, era católica devota, ela meio que tentou me arrastar pra igreja uma vez mas ignorei, nunca liguei tanto pra isso, mas talvez agora eu estivesse sofrendo por ter dado às costas a esse tipo de coisa.

— Escutem seus filho das puta imundos, vocês vão passar por desafios e caso passem, bom, quem sabe, talvez vocês ganhem outro pote de sopa de merda. – Ele sorriu com seus dentes amarelos e rosto asqueroso, o guarda que ficara jogando as pessoas na arena era um sujeito de meia idade mas muito forte vestido com roupas que remetiam aos soldados romanos, o cara era um sádico filho da mãe. Ele provocava muito aquelas pessoas jogadas ali, eu nem ligava mais, até ria de umas piadas dele e por conta disso todos ali me olhavam com raiva. Ao todo eram 8 pessoas e mais três que foram jogados antes de mim que eu pude ver, devia ter mais antes, a arena tava bem suja de vísceras e sangue quando eu entrava, as lutas costumavam ser bem rápidas, duravam 20 minutos exatamente até eu ser jogado, nunca passava disso, às vezes eram uns 5 minutos a menos, outras vezes uns 5 a mais, dependia do quanto os dois antes de mim duravam, o primeiro sujeito era o mais teimoso, ele chegou a lutar contra um dos gigantes e deu trabalho, parecia que os inimigos eram iguais, devia ter uma dúzia de lobos e daqueles gigantes, o segundo derrotava o lobo mas depois tomava um teco do gigante e já morria. Nunca nada mudava, a sequência era sempre a mesma, exceto comigo. Isso me fez pensar que eu era o único mesmo naquele loop. Pensando assim... Mesmo se eu falasse com um daqueles caras lá não adiantaria nada, mas eu tentei várias vezes. Um gordão me disse que não lembrava de nada também e só queria voltar pra sua casa, um velhote chorava e pedia pra Deus o salvar, me ignorava. Um dos mais novos lá parecia empolgado pra lutar, ele disse que iria sobreviver, coitado, até admirava essa disposição dele. Faltavam 15 minutos pra eu ser jogado pra aquele lobo, eu não sabia mais o que pensar, já tinha pensado em tudo, eu só podia mesmo vencer? Foi quando percebi que tinha uma pessoa lá que eu não havia falado: O guarda sádico da frente.

— Ei babaca, você é bem pago aqui? – Eu chamei o desgraçado que me olhou espantado, ele pegou seu porrete e me deu uma cacetada no ombro, eu nem sentia mais dor naquele ponto, uma das vantagens de ser esmagado pelo pedaço de madeira do gigante era que nada que me atingisse iria doer tanto como aquilo ou as presas do lobo.

— Você tá louco? Quer morrer antes de entrar lá?

— Se puder seria melhor, prefiro tomar uma porretada na cabeça do que ser devorado, então vai em frente. – Provoquei o sujeito porque sabia que ele não podia fazer isso, ele tinha alguma ordem para não matar os prisioneiros ali.

— Quem é você? Você sabe o que te espera?

— Eu sei bem, e não ligo, na real eu quero te matar agora mesmo. – O guarda sorriu e outros prisioneiros também começaram a rir, eles achavam que eu estava louco de tudo, e talvez eu estivesse mesmo, foi quando senti o porrete sujo daquele sujeito afundando na minha testa, depois de apenas quatro golpes eu havia perdido a consciência, estava de novo naquela cama na cela.

DÉCIMA NONA VEZ

Que merda, eu estava errado, os guardas podem me matar, então o objetivo não era mesmo nos colocar na arena? Achei que eles deviam seguir uma ordem, mas pelo visto não, então o plano de tentar convencê-lo já não vai dar muito certo, mas tem algo bem errado, qual era o objetivo disso? Eu não era muito inteligente mas sabia que não era por nada aquilo. Eu iria tentar dessa vez falar com algum prisioneiro e convencer todos a se rebelar para tentarmos fugir, acho que 9 contra 2 guardas pode dar certo.

Quando estava novamente naquela fila no corredor, comecei a fazer um discurso bem bosta:

— Ei, todos vocês, somos 9 contra dois desses guardinhas, vamos nos levantar e dar uma surra neles, essas correntes não são nada, vamos pisoteá-los e então sermos livres! – Eu meio que forcei muito isso, alguns me viam novamente como louco, o mesmo guarda riu de uma maneira mais eufórica que anteriormente, o outro guarda que ficava no fundo do corredor sacou o seu porrete e parecia vir em minha direção, eu não podia parar de falar. – Vocês querem morrer aqui porra? Querem virar comida de monstro? Podemos morrer lutando aqui e ter a chance de cair fora, vocês são tão fracos? – Eu me levantei e o guarda da frente moveu seu porrete até minhas pernas, eu fui com minha cabeça até o queixo do mesmo que deu alguns passos para trás e cambaleou, um dos outros prisioneiros pareceu se levantar, percebi que aquilo podia ter efeito, mas logo que o outro guarda chegou lá na frente ele voltou a se abaixar, não havia reação de nenhum daqueles merdas jogados no chão. Todos mantinham a mesma expressão cabisbaixa de submissão, por quê? Por quê eles não lutam? Será que sabiam que era impossível sair dali? Talvez eu fosse o único lá que não sabia como era do lado de fora, certamente tinham muito mais guardas, acho que eles ficarem pra lutar e tentar vencer a arena era o único meio de sobreviver, eu comecei a achar o mesmo, ainda mais quando os dois guardas me jogaram no chão e começaram a me espancar, dessa vez não iria me entregar tão fácil para a morte.

— Seus filhos da puta, o que tem lá fora? Por que não querem fugir? – Enquanto era surrado em vários lugares e colocava meus braços na frente do meu rosto para me proteger, as pessoas no corredor me olhavam com dó e medo, sem dizer nada.

— Apenas me respondam! O que tem lá fora? – Eles continuavam calados. Eu vi que estava sozinho nessa, não podia contar com nenhum desses inúteis.