Wildland: Return to Zero
20 Capítulo 19 - Healer
— Uma healer, você é rara, certamente é ‘ela’.
— Ela seria quem? Me conte sobre esse lugar, por favor. – Quando olhava para Lou, agora, conseguia perceber que podia ver também o level do mesmo e o seu ‘cargo’ ou sei lá como poderia ser chamado, ele estava no level 29 e seu cargo era Tank.
— Você tem que viver, mas não acabou. – Lou se levantou e me puxou para trás dele, ele parecia totalmente recuperado, achei que tínhamos nos livrado do perigo, mas percebi uma força sobre humana se aproximando daquele lugar, meus sentidos aumentaram para com tudo, eu ouvia e enxergava muito mais, vi de longe uma sombra percorrendo aquela floresta de pinheiros em nossa frente, de uma moita saiu uma figura que me lembrava a do Papa, era de um homem de aproximadamente 30 anos com um chapéu que pareciam os chapéus papais, uma roupa que remetia a de um sacerdote e ele trazia consigo um cetro enorme com uma pedra verde na sua ponta e vários detalhes que pareciam ser ouro.
— Lou da raça Dinir, você está sendo levado para a prisão da Legião pelo crime de traição, deserção e apostasia. Você pode escolher ir tranquilamente ou, as ordens são para que leve apenas seu cadáver. O homem falava enquanto lia um pergaminho esticado, ele olhava para nós como se fossemos apenas ratos.
— Cai fora daqui. – Lou colocou seu escudo para frente e segurou em sua espada de maneira firme, ele olhou rapidamente para mim. – Mocinha, você fez bem já, obrigado por me dar mais uma chance, a chance de ver que você é ela mesmo, agora preciso que saia daqui, corra o mais rápido que puder.
— NÃO! – Interrompi Lou no meio de sua fala, eu não iria deixa-lo morrer mais uma vez, nunca mais deixaria alguém para trás para morrer, mesmo que isso me custasse a vida
— O que...
— Não vou abandonar ninguém, você me salvou, você não tem porque morrer.
— Você deve ser Elizabeth. Não esperava que passassem pelo melhor Kobold da fortaleza, já que é assim não se incomodariam se eu usasse ‘aquilo’. – O homem vestido de Papa apontou seu cetro para baixo e em um piscar de olhos Lou foi arremessado para longe, seu escudo saiu voando e ele deixou a espada cair ao lado do seu corpo esticado no chão. Eu apontei as duas mãos na direção daquele homem e tentei jogar um pouco de energia no mesmo, mas ele fez uma barreira roxa em sua frente com seu cetro que bloqueou o ataque.
— Já está no 15, deve ter a ressurreição, ainda bem que são só os dois. – O homem se preparava para me atacar mas Lou apareceu em sua frente deferindo vários golpes com sua espada, todos bloqueados pelo homem com seu cetro com apenas uma mão.
— Sabe com quem está lidando ser insignificante?
— Você é um dos 10 da ordem, e eu com isso?
— Se sabe, porque não se rende? Se vier comigo deixo ela viver.
— Vocês nunca deixariam ela viver! – Lou deu um salto para trás, eu ativei as setinhas naquele instante e ele ficou mais rápido ao ponto de pular para perto do seu escudo e segurá-lo, com ele, ele bloqueou um ataque de uma energia verde estranha arremessado pelo homem, ele começou a atacar consecutivamente, Lou se ajoelhou para segurar seu escudo com mais jeito e bloquear os ataques, mas em seguida ele voltou os ataques em minha direção.
— “Boost” – A voz na minha mente de alguma maneira me aconselhou, eu falei aquela palavra e comecei a andar muito rápido, de maneira que estava ao lado de Lou, apertei o botão da gota na direção dele, a criatura se levantou e arremessou sua espada contra o homem, mas a espada estava em volta de chamas com vento, o ‘bispo’ tentou bloquear usando o escudo verde de novo mas Lou olhou em meus olhos e em senti o que ele queria dizer, eu podia usar as setinhas na espada, apontei minhas mãos para a espada e ela foi preenchida com o brilho prateado, o homem arregalou seus olhos e antes de se virar, a espada perfurou aquela barreira e foi enfincada em seu ombro.
— Agora! – Lou olhou em meus olhos me pedindo que fizesse mais um movimento, eu tinha agora 4 opções na minha pulseira, de alguma forma eu podia saber os nomes daquelas habilidades, cura, fortalecimento, relâmpago e ressurreição, todas pareciam ter um tipo diferente de barra para carregamento, as últimas demoravam mais para o símbolo ficar completamente azul, a cura e o fortalecimento eram mais rápidas, além de ter aquele ataque que eu podia fazer usando minhas mãos sem precisar de nenhum carregamento.
No momento a pessoa em nossa frente estava tentando tirar aquela espada do seu ombro, o fortalecimento estava carregando, Lou não parecia precisar da cura, a ressurreição devia ser pra pessoas mortas apenas, então eu apertei o relâmpago e mirei as mãos em direção ao homem com chapéu de papa. Imediatamente ao ver faíscas em cima de minhas mãos, o homem levantou sua mão esquerda e fez um risco colorido em cima de sua cabeça, o raio que emiti bateu nesse risco que criou uma barreira e fez com que a energia elétrica de espalhasse pelos arredores, mas quando voltou a olhar para frente, Lou estava preparado e com um só soco, arremessou o homem para metros dali, o fazendo rolar no chão até parar de bruços, seu chapéu chamativo havia caído, ele também deixou que seu bastão ficasse longe o suficiente para Lou, em um salto, pegá-lo e parti-lo.
— Você entende o que está fazendo seu ser imbecil e irresponsável!? Essa mulher vai fazer a profecia de 1000 anos, seu tolo! Por quê vocês sempre visam pela destruição?
— Não sei do que você tá falando, minha missão é salvá-la e levar em segurança pra vila, eu vou. – O homem tentou se levantar mas Lou, com seu pé, o fez ficar grudado com o chão pressionando suas costas.
— Como pode isso... Essa raça maldita, você não liga de estar a vida toda sendo manipulado? Sendo um cão?
— Meu dever como guerreiro é fazer o que os líderes pedem.
— Eu devia imaginar, não tem jeito mesmo. – Naquele instante, o homem que estava sendo pisado por Lou se transformou em uma serpente enorme, ele se esquivou de Lou e deu um bote em sua perna direita.
— Isso não... – Lou, com sua outra perna, chutou a cobra pra longe, mas ela se recompôs e começou, com o corpo curvado, encarar Lou parecendo sorrir. Era uma serpente de uns 2 metros com escamas que pareciam aço, ela tinha 4 presas afiadas e seu chocalho era roxo e parecia ter uma luz dentro.
— É uma pena criatura, mas tomamos a legião antes. – Lou começou a cambalear, eu me mantinha afastada, queria correr, queria ir para o mais longe possível, mas não podia deixa-lo lá, eu iria salva-lo com toda certeza.
— Boost! – Apontei as luvas para Lou, mas dessa vez, nada aconteceu, mesmo sabendo que poder havia saído da minha mão. Olhei para a pulseira e essa habilidade de fortalecimento estava carregando novamente.
— Elizabeth, vai. – Lou olhou para mim com os olhos vermelhos, mas antes que eu pudesse questiona-lo, o mesmo caiu duro no chão. A cobra pareceu se afastar e se esconder no meio da vegetação que havia ao redor. Tudo ficou silencioso, eu mirei as mãos na direção de Lou e acionei a habilidade de cura, mas parecia mesmo não ter efeito.
— Lou, não.. Eu tinha te salvado... – Me aproximei de Lou e coloquei minhas mãos em seu ombro, tomei um susto ao ver seu pescoço se inclinando, ele me fitou segurando em meu pescoço, me jogou para o lado com força, dei duas quicadas no chão e deslizei enquanto tive a testa rachada e alguns ferimentos no meu cotovelo esquerdo.
— M-me... mate. – Lou avançou até mim com seu escudo, se ele me acertasse, eu morreria. Eu devia usar a ressurreição de novo! Por mais que o ícone parecia que podia ser ativado, mesmo apertando, nada acontecia. Usei o boost e corri rápido para trás, mas ele era mais rápido, me alcançou facilmente, antes de chocar o escudo contra minhas costas, eu pulei para o lado, o escudo chegou a pegar em meu ombro e caí no chão com uma forte dor na coluna.
— Do que tá falando? O que aconteceu?
— Eu não sou mais eu, me mata agora, eu vou me segurar. – Lou parecia lutar contra si mesmo, ele fincou o escudo no chão e não o soltava, via veias saltarem de seu rosto e suas mãos, ele fazia força para não avançar até mim.
— Foi aquela cobra? Se eu mata-la você volta ao normal?
— Não dá. O veneno de uma naja quimilac controla o corpo de qualquer um com nosso sangue, eles são os inimigos naturais da nossa espécie, parece que tudo foi... pensado. – Me negava a acreditar naquilo. Eu tinha que ter uma forma de salvar Lou, eu fiz isso antes.
— Existe um jeito, tem que ter. Alguma habilidade que ainda posso liberar?
— Não tem... Só matando.
— Não vou te matar!
— Se não fizer isso eu irei te matar!
— Mesmo que eu morra...
— Não pode, você é uma delas, eu sei. Não fui enviado por nada.
— Eu não quero mais deixar ninguém morrer, e por minha culpa ainda!
— Não, eu escolhi. Eu me voluntariei. Eu fiz isso.
— O que é esse mundo? O que é tudo isso?
— Não sei de nada disso, mas você precisa chegar na vila, precisa ir pro norte.
— Se eu buscar ajuda, acha que consegue aguentar até lá? – Eu poderia encontrar alguém que ajudasse, era isso, aquele mundo talvez poderia ter um recurso desses. Eu não iria deixa-lo morrer. Deus, isso é uma provação? Isso é uma missão para que minha fé seja provada? Deus não permitira que eu matasse ninguém, eu sabia disso! Eu tinha que ser morta por Lou, talvez esse fosse o meu expurgo.
— Não aguento mais... – Lou pegou o escudo e arremessou contra mim, eu devia me mover? Devia desviar? Se eu morresse ali, meu expurgo estaria feito. Eu teria feito a obra do Senhor. Era isso não é? Via o escudo se aproximar de mim, ele de alguma forma parecia vir em câmera lenta, toda minha vida, e o final seria... ali. –
“Não! Elizabeth, viva!” – Eu ouvi uma voz feminina em minha cabeça, era uma voz familiar. Ao ouvi-la, eu me abaixei na hora, o escudo passou por cima de mim fincando no chão levantando terra. Lou corria em minha direção com uma de suas facas.
— Quem é você? O que eu preciso fazer? Deus? – Gritei para que alguém pudesse me ouvir, algum anjo, Jesus, Deus... – Lou me apunhalou no braço direito, usei a cura logo em seguida e corri tropeçando, tentei usar o boost mas ele pulou na minha frente e me segurou pelos cabelos.
— Faça algo, faça agora Senhora... – Por que ele me chamou de Senhora? Eu via a expressão de sofrimento de Lou, ele estava... chorando? A criatura em minha frente parecia fraca e submissa, ele chorava com dor em seu coração, aquilo foi uma cena dolorosa.
— Eu clamo, me mate, assim eu terei passado na missão, eu terei honrado meu clã, me faça ter minha única conquista... – Ele chorava cada vez mais enquanto apertava minha cabeça, ele segurava sua outra mão com a faca para trás, em um movimento ele podia me decepar. Deus, qual era sua vontade? O que era aquela voz? Eu não fui levada lá pra morrer, se fosse assim... Por que eu estava viva? Deus quer alguma coisa de mim, mesmo que eu tenha que fazer sacrifícios, eu tenho que lutar com minha própria força.
— “Thunder...” – Eu falei isso e um raio caiu no escudo de Lou que estava atrás do mesmo, a energia elétrica refletiu sobre o mesmo o fazendo me soltar, suas costas pareciam estar saindo fumaça, ele se ajoelhou e arremessou a faca contra mim, passando de raspão em minha bochecha.
— Eu juro... Eu vou cumprir a sua missão! – Me levantei chorando olhando para o céu. Eu tinha uma só escolha, Deus não me perdoaria se eu fizesse a errada.
— “Thunder.... Thunder. Thunder. Thunder. Thunder. Thunder. Fortify. Thunder. Fortify. Thunder. Fortify. Thunder. Eu fechei os olhos e sabia o que estava acontecendo, enquanto repetia essas duas palavras, um raio caía em Lou e eu me forticafava em seguida para recuperar energia, eu não podia mais voltar. Havia escolhido o inferno ou o céu? O perdão ou a lamuria? Abri lentamente os olhos e senti o cheiro podre de carne em minha frente, não queria olhar, não queria, mas Deus não iria querer essa fraqueza, olhei o corpo de Lou eletrocutado em minha frente de joelhos, ele estava sorrindo, seu rosto carbonizado junto de seu corpo todo preto, algumas cinzas saiam de sua pele escamosa, o chão estava todo preto com várias manchas. Silêncio. Não havia nada ao redor. Nem vento, nem estrelas, nem sombras. A figura de Lou morto na minha frente me fez entender que eu não podia fugir do pecado.
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