Wildland: Return to Zero

7 Capítulo 06 - Lute Para Viver, Viva para Morrer


"Pugnare Superesse"

— Não temos muito tempo, não sei se Kiriel tá vivo ainda, e logo os quatro guardiões podem nos alcançar. Eu e Kiriel pesquisamos algumas saídas por aqui, tem um lugar que se andarmos por um corredor bem estreito iremos chegar no portão leste, lá só tem um guardião, a Celly, não quero soar desrespeitosa mas ela é a mais fraca e não é por ser mulher, tá, talvez seja, mas enfim, acho que com ela conseguimos lidar, ainda mais se acabarmos encontrando o Vincent no caminho. – Liss falava enquanto parecia uma líder nata, uma garota com a aparência dela que eu achei que fosse alguma mimadinha de família rica sensível que mal conseguia se defender, ela se mostrava de grande valor e tinha um ímpeto forte. Eu a invejava.

— Esquece esse maluco, ele deve tá matando uns ratos por aí ou indo atrás de bebida no castelo, não tem jeito não. – Remer se aproximou e olhou em meus olhos, ele começou a me analisar e isso me incomodava demais.

— T-tem algo errado?

— Você é a tal daquela moça que tavam falando?

— Que moça?

— Ela é mesmo uma das 7? Não sei não, me parece uma mulher comum. – Ingo também me olhava com estranheza, eu ainda não sabia o que era tudo aquilo dos 7 e como funcionava aquele mundo, mas parece que algumas pessoas colocavam certa expectativa em mim.

— Não vamos pressionar ela por favor. Só vamo embora daqui logo. Vejam, aquela é a saída. – Liss apontou atrás da mesa redonda, havia uma abertura estreita que mal dava pra passar uma pessoa de porte médio.

— Quer que entremos lá? O anão vai entalar.

— Vou entalar a sua boca com meu martelo. – Ingo bateu de cotovelo na barriga de Remer que reclamava depois.

— É o único jeito, vocês vão ter que se apertar, se der ruim, deu.

— Você é tão fria assim? – Remer olhou para Liss com desprezo mas nessa altura a garota parecia acostumada, eles pareciam ter uma relação boa, talvez já passaram por situações assim.

— Você vai na frente Ainna, com seus olhos da pra identificar se vai dar merda. Depois a Liv, depois eu e os dois aí ficam por último.

— Não sei porque mas essa escolha me incomoda – Ingo bufava mas o que Liss falava era absoluto, pelo visto. Entramos naquela pequena fenda, foi difícil passar, tínhamos que nos espremer, Ingo ficou preso em alguns momentos e teve que ser puxado por Remer, ele não chegava a ser gordo mas um anão parecia ter um corpo um tanto peculiar, pra não soar preconceituosa.

— Por aqui tudo bem, acho que tá no fim. – Ainna, a garota meio calada seguia na frente analisando o território, pelo visto ela tinha algum tipo de poder que identificava inimigos ao redor.

— Liv, escuta, ao subirmos um corredor ali vamos estar em um hall da fortaleza, já devem estar nos caçando, não importa o que veja, apenas corra seguindo a Ainna. – A voz de Liss naquele momento parecia preocupante, ela nunca quase fazia um tom sério, e isso me deixou apreensiva.

Ao chegarmos em uma parte aberta e com um piso de madeira no chão e vários moveis espalhados (parecia um quarto antigo) vimos que havia uma grande abertura no teto que emitia luz solar, parecia ser o ponto que sairíamos pra superfície.

— O anão conseguiu sair? – Liss falou isso enquanto Ingo estava exausto e todo machucado saindo da fenda.

— E se eu não tivesse conseguido porra?

— Bom eu já tinha pensado nisso, mas que bom que deu certo né? – Liss sorriu mostrando a língua para o anão que parecia espumar de raiva, Remer ria e acendia outro cigarro.

— Tem inimigos lá fora? Muitos deles?

— Hã? Isso é óbvio, aliás, qual o poder dessa aí? – Remer pegou em minha pulseira e fez uma cara de desgosto. – Nem no level 10 tá, não vai ser de utilidade nenhuma.

— Deixa ela, Remer, ainda temos tempo pra isso, por enquanto ela só vai observar e aprender.

— Tá mimando a garota demais, isso não pode ser bom, ela precisa aprender. – Ingo se aproximou de mim como se estivesse me dando um conselho.

— Ela passou por muita coisa, apenas deixem isso. Aliás, acho que não vai ser difícil sair, estamos em levels bem acima desses soldados, pra mim e Kiriel sozinhos seria impossível, mas com um [1]tank level 40, um assassino level 45 e uma bruxa level 50, duvido que isso vai ser problema. – Eu não entendia bem mas aquelas pessoas pareciam mesmo fortes. Eu estava no level 7, comparado com eles, o que diabos eu podia fazer? Aliás, percebi que ao lado do level apareceu algumas figuras, aquilo foi depois que eu enfrentei aquelas caveiras e saí daquela sala, era um símbolo de uma pequena adaga e ao lado tinha uma borboleta ou algum tipo de inseto. Olhei atentamente e antes de apertar, Liss pegou minha mão.

— Melhor não usar isso aqui, depois lá fora testamos, só temos que nos apressar. – Subimos depois que Liss fez algumas estruturas de terra semelhantes às que ela fez lá trás quando estávamos em perigo, ao subirmos pelo telhado quebrado, nos deparamos com vários prédios médios que faziam parte do conjunto daquela fortaleza, ficamos diante de um corredor com vários quiosques que tinham bancos e flores espalhados, descemos rapidamente, eu caí com os joelhos dobrados sentindo muita dor, mas Remer veio atrás de mim me ajudando.

— Parece que você apanhou um pouco mesmo, pode deixar com a gente, eu pareço meio fraco mas sou melhor lutando.

— Na verdade, você só é útil lutando. – Ingo olhou para Liss que parecia concordar.

— Ao menos tenho utilidade idiotas. – Ainna, vê se tem algum puto vindo. – A garota parecia se concentrar nos arredores enquanto mantinha seus olhos fechados, foi então que percebi que alguém apareceu por trás sem que ninguém pudesse perceber.

— Ratos sempre são ratos. – Uma mulher revestida de armaduras roxas reluzentes com detalhes que pareciam brilhar com o sol apareceu em cima de um dos telhados portando uma lança da mesma cor da armadura, ela tinha uma ponta afiada que parecia poder cortar qualquer coisa, usava um elmo em sua cabeça com penas enormes, seus sapatos mostravam que ela não estava ali por brincadeira, eram mais pesados que meu corpo todo, ela girava a lança com seus dedos da mão esquerda enquanto parecia escolher quem ela iria atacar primeiro. Remer se colocou em minha frente e jogou seu cigarro no chão.

— Essa é a Celly que você disse que seria fácil? Liss sua maldita. – Remer segurou suas duas lâminas e fez uma posição de defesa.

— Obviamente ela estava mentindo, mas era nossa única escolha. – Ainna se colocou na frente de todos ali, ela parecia ser a mais forte do grupo.

— Insolentes. Acham mesmo que ratos sairiam pela porta da frente? Ratos só saem no lixo. – A mulher com cabelos negros longos que ficavam por cima da grossa armadura em suas costas deu um salto e já estava na frente de Ainna, esta, por sua vez, balançou seu cetro e fez com que uma bola de energia azul afastasse a cavaleira que deu um pulo para trás mas, voltando sua lança para frente e apontando para Ainna, avançou com dois passos e deferiu vários golpes retos contra a garota que desviava facilmente. Liss segurou minha mão e nos afastamos dali, ela pegou o seu livro manchado de sangue e com um pedaço de grafite escreveu algumas coisas em uma página em branco, várias telhas saíram do telhado atrás da cavaleira e foram arremessados na direção da mesma, acertando-a mas não fazendo nada em sua espessa armadura, mas a distração foi suficiente para Remer avançar com as duas lâminas em suas mãos e bater várias vezes contra a armadura da mulher que não ficava nem arranhada, aquilo sim era um problema.

— Não vai fazer efeito essas faquinhas, tem que ter... FORÇA – O anão deu um pulo em direção a mulher e bateu seu martelo contra sua cabeça, mas ela parecia ter ficado em pé e não sentir nada, aquele elmo parecia ter a resistência da armadura, ela pegou o martelo com uma das mãos e jogou o anão contra uma das estruturas de casas fazendo-a desmoronar sobre ele.

— É burro como sempre. – Remer começou a correr rapidamente ao redor da mulher que rebatia com sua espada a energia que Ainna arremessava contra ela com seu centro, Liss começou a jogar sangue do seu dedo na página do livro e várias estacas de terra subiram do chão tentando atingir a cavaleira, mas de uma maneira incrível e que eu não consegui acompanhar, ela se esquivava tanto dos ataques de Ainna como de Liss, Remer tentava achar uma abertura mas ela parecia também concentrada no rapaz.

— Liss... o que são essas coisas de level que falam? Você consegue ver? – Perguntei enquanto Liss parecia aflita, ela não tinha muita esperança em conseguir fazer alguma coisa contra aquela mulher.

— Você não consegue ainda, né? Bem, nem queira ver, porque o level dela é outro nível. Na verdade, essa pessoa aí, não é um ‘ser humano’. – Comecei a tremer quanto mais via o quão assustador aquele mundo podia ser.

— O que quer dizer?

— Ela foi criada aqui. Está em um nível diferente, não dá pra derrotar apenas com duas ou três pessoas, na verdade, acho que ela foi feita pra se derrotar em... mais de dez pessoas.

— E vocês pretendem fazer o que?

— Temos escolha? Só tem a gente.

— Isso é suicídio! – Eu queria ajudar, mas sabendo daquilo, o que eu poderia fazer? Será que a minha pulseira me daria alguma habilidade? Olhei novamente para a mesma e vi os símbolos nela, haviam três já, além do boost que eu já sabia usar.

— Nem pense nisso, você não poderia fazer nada, se mataria nos primeiros segundos. – Liss viu que eu tentava fazer algo mas olhou para mim com repreensão. – Aquela coisa tá no level 60, estamos no máximo no 50, se somarmos todos os nossos níveis aqui até que conseguimos passar ela, mas os cavaleiros desse lugar são feitos com mais HP, eles aguentam muita pancada. – Liss sabia que ficar jogando sangue no seu livro não adiantaria, foi então que ela decidiu se levantar e ir para linha de frente. – Escuta, fica aqui. Não tente fazer nada, você não é capaz e precisa ser protegida, talvez você seja uma das nossas únicas esperanças, então por favor, confia na gente. – Mesmo dizendo que eles não tem chance ela me pede para confiar? Tentei me manter calma e fiquei atrás de um pequeno muro de tijolos enquanto presenciava a luta desigual, Liss foi para o lado de Ainna que já se mantinha afastada arremessando algumas magias que a cavaleira parecia desviar com mais facilidade quanto mais o tempo se passava.

— Ingo seu maldito, faça aquilo – Remer olhou para o anão que se levantava depois de receber um golpe que quase o fez desmaiar.

— Nem precisa me pedir! – O anão se levantou e com uma velocidade absurda para o seu tamanho e porte físico, se aproximou de Celly, ela se mantinha parada no mesmo lugar, sua aura parecia cada vez mais violenta e agressiva, ao seu redor emanava um brilho vermelho claro que parecia aumentar a tonalidade dependendo do dano que ela recebia. Ingo fingiu avançar sobre Celly mas parou no meio do caminho, pegou seu martelo e impulsionando-o para cima, o bateu contra o chão, naquele instante houve um terremoto que me fez cair de boca, toda terra ao redor tremeu, eu nunca tinha presenciado um tremor de terra na vida, mas aquilo devia ser de uma magnitude alta, Remer parecia já ter previsto isso – visto que foi ele que deu a ideia -, o rapaz estava saltando sobre os prédios com precisão no momento do abalo, enquanto viu Celly paralisada, ele arremessou suas duas adagas contra ela, a mulher rebateu uma com seu braço mas a outra ficou cravada em sua armadura no peito, em seguida, Ainna criou uma enorme gota d’água em cima de Celly e abaixando seu cetro enquanto se ajoelhava, deixou a cavaleira presa dentro dessa gota, aquilo parecia consumir energia demais de Ainna que gemia de dor, a próxima a se movimentar foi Liss que criou uma parede de concreto do chão em volta da cavaleira, ela agora estava em uma redoma de concreto e presa por uma camada de água, o próximo a se movimentar foi Ingo novamente que pegou seu martelo e bateu novamente contra o chão, mas dessa vez, fazendo uma enorme porção de terra se erguer, Liss parecia ajudar, a redoma com Celly ficou elevada em uma coluna a uns 5 metros acima, foi então que Remer subiu como um felino pela mesma e criando um pequeno buraco com uma faca, jogou algumas bolinhas azuis dentro do espaço em que a cavaleira estava, ele se afastou se pendurando em um prédio e em seguida houve uma explosão que emitiu vários feixes de luz de dentro da redoma que se partiu em vários pedaços. A água que prendia Celly caia sobre a estrutura de concreto e aos poucos a fumaça ia se dissipando e eu vi a cavaleira com sua armadura toda quebrada e ensanguentada ajoelhada sobre a terra. Ela segurava sua espada cravada no chão, havia perdido um olho, mas ainda parecia querer lutar. Celly deu um salto da estrutura e com três pulos ficou na frente de Ingo, com apenas um braço – visto que o outro estava quebrado – ela golpeou o anão cortando parte do estômago dele, Remer pegou o anão pelas costas e tirou ele dali, mas Celly parecia descontrolada, ela foi pra cima dos dois golpeando com força com sua espada, mas Liss os protegeu com uma barreira de terra, Celly ficou com a espada presa na terra que estava molhada graças a Ainna que jogou água sobre ela no mesmo momento, aquela foi uma chance para que Remer pulasse por cima da barreira, ele segurou uma adaga com as duas mãos, ela brilhou de maneira intensa e seu tamanho pareceu aumentar, com um rápido movimento, ele desceu até Celly como se fosse a gravidade o puxando, a adaga foi cravada nas costas da cavaleira que deu um grito que ecoou pelos arredores, ela se levantou e segurou Remer pelo pescoço, com sua cabeça começou a golpear o rosto de Remer com vários golpes seguidos, o rosto do mesmo começou a ficar desfigurado, Ainna apareceu por trás de Celly e apontou seu centro bem no meio das costas dela, ela tinha se teleportado a uns 10 metros, um tiro d’água perfurou a barriga de Celly que jogou Remer para longe o fazendo rolar pelo chão, a cavaleira quase toda despida e acabada se virou e segurou o cetro de Ainna que fez com que pequenos raios caíssem em cima das duas e com a água que emanava do cetro, a eletricidade se propagou fazendo com que ambas ficassem queimadas, mas Liss havia protegido Celly com um tipo de proteção em volta do seu corpo, mas a garota não havia resistido e caiu dura no chão, a cavaleira havia se ajoelhado, mas não caído, ela parecia imortal, a aura em volta do seu corpo estava vermelho escuro agora, seus olhos pareciam negros.

— Liv, foge! Corre daqui e vai pra o mais longe possível, só tem eu, não sei o quanto aguentarei. – Liss se colocou na frente de Celly, ela era a única em pé, mas eu não podia fazer isso. Depois de tudo que ela havia feito por mim, todas as vezes que me salvou, se não fosse por ela, eu não estaria aqui agora. Eu vou lutar.

— Não, chega de fugir do destino! – Eu me aproximei de Liss e olhei na direção da cavaleira que avançara novamente. Olhei para minha pulseira e usei o ‘boost’, em seguida apertei um dos ícones que tinha nela que era de uma fagulha, do nada eu me movimentei como flash para frente, havia ficado atrás da cavaleira que se virou com a espada em uma mão para me atingir, mas quando ela virou seu pescoço, Liss apareceu na frente dela e cortou seu pescoço com uma adaga, mesmo com sangue jorrando em uma abertura enorme, Celly ainda se movia, ela deu um soco no estomago de Liss e a fez voar alguns metros, eu não sabia o que estava fazendo, usei o outro ícone da pulseira e criei duas agulhas enormes em minhas duas mãos, elas pareciam emitir uma energia forte, olhei para Celly e as joguei como se fosse um jogo de tiro ao alvo, uma delas passou ao lado de seu rosto, a outra, foi enfincada em seu tórax mas pareceu não afeta-la, ela correu até mim com fúria. Eu iria morrer? Aquela era a linha final da minha vida? Eu tinha muitos arrependimentos ainda, não podia morrer agora, por que isso aconteceu? Deus, por quê? Eu queria voltar para o meu mundo apenas, estar com meu amado, com meus pais, com meu cachorro, voltar a minha rotina entediante e sem sentido, estar próximo daquelas pessoas que eu tanto desprezava, ser alguém melhor, eu queria realmente mudar minha vida, alguém... por favor... alguém.

— Eu disse que não é hora pra morrer ainda. – Liss se colocou na minha frente e ela tinha o seu pulso totalmente cortado com a carne viva, ela jorrou uma quantidade enorme de sangue no livro em sua mão e no mesmo instante, uma centopeia de uns 20 metros surgiu do chão e saltou até Celly, seus dentes eram afiados e sua aparência repugnante, ela tinha manchas pretas e sua pele ou casca estavam saindo, totalmente podre emitindo um odor fétido de carniça, tudo foi tão rápido que quando percebi havia um buraco no chão com aproximadamente 20 metros de diâmetro, a centopeia tinha desaparecido enquanto eu ainda sentia o chão tremer em decorrência da perfuração do solo, eu acabei caindo e Liss estava em minha frente desmaiada e sangrando demais, eu não sabia o que fazer, mas ela parecia estar morrendo, todos os outros membros daquele grupo estavam caídos também, eu era a única que permanecia em pé. Eu não vi mais sinais da Celly, finalmente acho que ela tinha morrido, mas o que diabos foi aquilo? Corri até Liss e tentei estacar o sangue dela com minha túnica, ela parecia sem pulsação, naquele instante o anão com sua barriga dilacerada se aproximou de mim e jogou um frasco com um líquido vermelho, e em seguida, cuspiu uma bola de sangue no chão.

— De pra ela metade e pra Ainna o resto. – Ele parecia estar nas últimas, vi que suas tripas saíam de sua barriga, foi então que notei que do horizonte, vários soldados corriam com lanças enormes em direção àquele pátio.

Notas finais
[1] Classe de RPG baseada em defesa e resistência