Wild Things
2 Oportunidades e outros inconvenientes
Eva estava na terceira xícara de chá quando Adam entrou na sala de desjejum com a expressão de quem tinha descoberto um cadáver.
Ela pousou a torrada.
— Se for o Vane, não fui eu.
O irmão parou à porta.
— Por que seria o Vane?
— Você está fazendo uma cara muito específica.
Adam puxou a cadeira diante dela.
— Ele quer a varinha.
— O pai ficou com ela.
— Quer também uma desculpa.
Eva tornou a pegar a torrada.
— O pai pode cuidar disso.
— E uma garantia de que não voltará a acontecer.
— Isso depende muito dele.
Adam ficou olhando para ela.
Eva mordeu a torrada.
— Dormiu bem? — perguntou.
— Pouco. Fiquei acordado ouvindo um homem explicar que jamais sacaria a varinha na casa de um amigo.
— Deve ter sido outro homem.
— Era o Vane.
— Então perdeu uma ótima oportunidade de se conhecer melhor.
Adam serviu café e se recostou. Estava com as mesmas vestes da noite anterior, embora tivesse desabotoado o colarinho. Eva decidira que aquilo era um problema dele e aparecera para o desjejum de robe, com o cabelo preso de qualquer maneira.
Seu pai já havia deixado a sala de desjejum.
Melhor assim. Damian ainda podia ter coisas a dizer sobre a festa, e Eva pretendia esperar que ele se lembrasse primeiro das coisas boas.
— Houve alguma reclamação sobre a comida? — perguntou.
— Não.
— Sobre o salão?
— Não.
— Então foi uma boa recepção.
— Você lançou uma Maldição Imperdoável num convidado.
— Antes da sobremesa. Ele teve tempo de se recuperar.
Adam passou a mão pelo rosto.
Ela empurrou o prato de torradas na direção dele.
— Coma alguma coisa. Está levando tudo muito a sério.
O irmão aceitou uma torrada.
Por alguns minutos, ficaram em silêncio. Eva abriu o jornal sem ler a primeira página. Uma fotografia se movia junto à dobra, tentando chamar sua atenção. Ela virou a folha.
— A última visita saiu muito tarde?
— Malfoy foi embora depois das quatro.
— Imagino.
— Com o vinho.
Eva baixou o jornal.
— Você disse que cuidaria dele.
— Cuidei. Levou uma garrafa em vez de duas.
— Um resultado extraordinário.
— Ele pediu que eu transmitisse seus cumprimentos pela safra.
— Devíamos transmitir os nossos ao calendário.
Adam sorriu para a xícara.
Eva tornou a levantar o jornal.
— E a irmã da Narcisa?
O irmão levou um tempo indecente para responder.
— O que tem ela?
— Saiu com os Malfoy?
— Por quê?
— Porque estou tentando estabelecer até que horas tivemos convidados. Não é uma investigação particularmente complexa.
— Bellatrix saiu antes deles.
Eva assentiu como se aquilo esclarecesse uma questão administrativa.
Adam continuava sorrindo.
— O que foi?
— Nada.
Ela dobrou o jornal.
— Se tem alguma coisa para dizer, diga.
— Achei que você fosse dormir.
— Fui dormir.
— Depois de passear no jardim.
— Sim, Adam. É possível fazer duas coisas numa noite.
Ele mordeu a torrada.
Eva percebeu que teria preferido ouvir uma provocação. O silêncio satisfeito do irmão era pior.
Um elfo apareceu à porta.
— O senhor Malfoy está no escritório, senhorita. O senhor Yaxley pede que vá até lá.
Eva olhou para Adam.
— Ele veio buscar a outra garrafa.
***
Lucius estava sentado diante da mesa de Damian, impecável de um modo que Eva considerou ofensivo àquela hora.
Ergueu-se quando ela entrou.
— Senhorita Yaxley.
— Senhor Malfoy.
O pai apontou a cadeira ao lado dele.
— Sente-se, Eva.
Ela obedeceu.
Sobre a mesa havia uma folha de pergaminho dobrada, um tinteiro e a varinha de Vane. Eva olhou para esta última por um instante.
Damian a guardou numa gaveta.
Lucius acompanhou o movimento sem comentar.
— Espero que tenha descansado — disse.
— O suficiente.
— Seu irmão foi muito prestativo ontem.
— Ele vai gostar de saber.
Damian entrelaçou as mãos sobre a mesa.
— Lucius veio falar de uma tarefa.
Eva voltou a atenção para ele.
Lucius deixou passar uma breve pausa.
— Estamos acompanhando alguns dos encontros de Dumbledore fora de Hogwarts.
— Encontros com quem?
— Essa é uma das perguntas.
Ela olhou para o pergaminho.
— E querem que eu descubra?
— Queremos observar uma reunião sem interrompê-la. O Cabeça de Javali recebe pessoas que preferem certa discrição. Dumbledore tem motivos próprios para frequentá-lo.
— E nós temos motivos para saber quem ele encontra.
— Exatamente.
Eva se acomodou melhor na cadeira.
O pai permanecia sério.
— Seu comportamento ontem chamou atenção — disse Lucius.
Ela não conseguiu evitar um sorriso pequeno.
— Percebi.
— Não me refiro apenas ao feitiço. Você viu a situação se alterar antes da maioria dos presentes e agiu.
Damian olhou para ela.
— Desta vez, espera-se que observe antes de decidir como agir.
Eva assentiu.
Lucius continuou:
— Seu nome abre portas, mas pode fechá-las naquele lugar. Não poderá depender dele.
— Sei conversar sem me apresentar.
— Ótimo. Também precisará saber ouvir sem parecer que está ouvindo.
Ela se perguntou se ele treinava aquelas pausas diante de um espelho.
— Quando?
Damian olhou para Lucius.
— Eva, ninguém pediu sua resposta ainda.
— Achei que estivesse implícito.
— A tarefa será conduzida por Bellatrix Black — disse Lucius.
Eva ficou imóvel por um instante.
Depois puxou uma das mangas do robe para cobrir melhor o pulso.
— Ela sabe que estão me convidando?
— Sabe.
— E concordou?
— Estará aqui esta tarde para discutir os detalhes.
Eva assentiu outra vez.
Agora precisava impedir que o sorriso voltasse.
— Severus Snape também participará — acrescentou Lucius.
Isso ajudou.
***
Eva trocou de roupa duas vezes antes de decidir que não precisava impressionar ninguém.
Na terceira, escolheu um vestido marrom.
Quando desceu, Bellatrix já estava na sala de visitas, de vestes escuras e cabelos soltos. Não havia diamantes visíveis. Snape ocupava uma cadeira perto da janela.
Adam estava junto à lareira.
— Achei que você tivesse se perdido — disse ele.
— Na minha própria casa?
— Não quis tirar conclusões precipitadas.
Eva ignorou o irmão e olhou para Bellatrix.
— Boa tarde.
— Finalmente.
Não era exatamente a continuação da conversa que ela imaginara.
Lucius, sentado junto à mesa menor, abriu o pergaminho que trouxera pela manhã. Damian permanecera no escritório; deixara claro que queria ser informado depois.
Eva sentou-se.
Bellatrix continuou de pé.
— A pessoa que vamos observar se chama Sybill Trelawney — começou Lucius. — Uma candidata ao posto de Adivinhação em Hogwarts.
Adam ergueu as sobrancelhas.
— Dumbledore está recrutando professores numa hospedaria?
— A reunião foi marcada lá — respondeu Snape.
Sua voz fazia qualquer pergunta parecer desnecessária.
Lucius apontou duas linhas no pergaminho.
— Temos o nome e o dia. Ainda precisamos confirmar o horário. Ela está hospedada no Cabeça de Javali.
Eva olhou para ele.
— Quem conseguiu isso?
— Alguém que não participará da operação.
Ela aceitou o limite com um gesto.
Bellatrix aproximou-se da mesa.
— Dumbledore não deve saber que estamos interessados na entrevista.
— Não me parece difícil — disse Eva. — Uma pessoa esperando emprego costuma gostar de falar sobre ele.
Snape olhou para ela.
— O dono costuma gostar de expulsar pessoas que fazem perguntas.
— Pretende avisá-lo de que são perguntas?
— Pretendo não fazê-las.
Eva cruzou as pernas.
— Podemos passar a tarde inteira concordando com isso, ou posso conversar com a candidata.
— Vestida assim?
Ela olhou para o próprio vestido.
— Não sabia que o estabelecimento exigia uniforme.
— Exige que não pareça estar comprando o estabelecimento.
Adam baixou a cabeça.
Eva sentiu uma irritação imediata. Snape ainda usava roupas que pareciam ter sido escolhidas sem a participação de um espelho, e julgava a capacidade dela de passar despercebida.
— Talvez eu peça orientação a alguém que parece desejar ser esquecido — respondeu.
— Basta não começar ameaçando o dono com sua varinha.
— Basta não insultar todos os presentes antes de conseguir uma bebida.
— Vocês dois — interrompeu Bellatrix.
Eva se calou.
Snape também.
Bellatrix olhou primeiro para ele.
— Você conhece o lugar?
— Conheço.
— A disposição dos quartos?
— O corredor e a escada.
— Então ficará com isso. Se Dumbledore subir, você encontra uma maneira de se aproximar.
Eva voltou a atenção para a mesa.
— E eu?
— Identifica Trelawney, confirma o horário e observa quem entra. Quero saber se a entrevista é o único encontro dele.
— Posso fazer mais do que vigiar uma porta.
Bellatrix apoiou as pontas dos dedos na madeira.
— Descreva Severus iniciando uma conversa amigável com uma mulher que está nervosa por causa de uma entrevista.
Eva olhou para Snape.
Ele sustentou o olhar.
Ela voltou-se para Bellatrix.
— Entendi.
Adam tossiu junto à lareira.
Snape ajeitou a manga das vestes.
— A candidata pode não estar nervosa.
— Então você vai precisar compensar — disse Eva.
Bellatrix virou o rosto para ela.
O aviso estava nos olhos.
Eva fechou a boca.
Lucius enrolou o pergaminho.
— Muito bem. Confirmem o horário e façam uma visita ao lugar antes da entrevista. Sem incidentes.
Eva olhou para Bellatrix.
— Você irá conosco?
— Mais tarde. Primeiro quero saber a que horas devo chegar.
***
Snape esperou por ela junto à entrada enquanto Adam acompanhava Lucius ao escritório.
Eva apareceu com um casaco escuro e a bolsa menor que possuía.
Ele olhou para suas mãos.
— Tire os anéis.
— Não estou usando anéis.
— Ótimo.
Ela apertou as luvas entre os dedos.
— Você sempre consegue transformar concordância em ofensa?
Snape abriu a porta.
— Quando há tempo.
Eva passou por ele.
O frio da tarde ainda era preferível à sala de visitas. Lá dentro, tinha começado a sentir que todos esperavam alguma coisa dela, embora nenhum deles parecesse disposto a dizer exatamente o quê.
Bellatrix a avaliara como se o jardim não tivesse acontecido.
Talvez fosse melhor. Talvez Eva devesse fazer o mesmo.
Até conseguir o horário, pelo menos.
***
Hogsmeade estava movimentada quando chegaram.
Uma carroça avançava devagar pela rua, e um bruxo discutia com uma caixa que se recusava a permanecer fechada. Eva afastou-se para deixar passar duas senhoras carregadas de embrulhos.
Snape indicou uma rua lateral.
— É por ali.
Ela acompanhou o gesto.
Mais adiante, a placa de madeira da hospedaria se movia com o vento.
— Vou entrar primeiro — disse ele. — Você espera.
— Quanto?
— O suficiente para não parecer que veio comigo.
Eva olhou para seu casaco.
— Isso pode levar algum tempo.
Snape se afastou sem responder.
Ela contou até cinquenta.
Depois atravessou a rua.
O interior do Cabeça de Javali cheirava a bebida, madeira úmida e alguma coisa que Eva decidiu não identificar.
As janelas deixavam entrar pouca luz. Um homem estava sentado junto à parede, com o rosto parcialmente coberto; outro dormia sobre os próprios braços. O dono limpava uma caneca com um pano que parecia aumentar o problema.
Eva encontrou Snape numa mesa afastada.
Não olhou para ele de novo.
Aproximou-se do balcão.
— Boa tarde. Estou procurando a senhorita Trelawney.
O homem ergueu os olhos.
Eram mais atentos do que ela esperara.
— Por quê?
— Acreditava que poderia encontrá-la aqui.
Ele continuou olhando.
Eva precisou resistir à vontade de preencher o silêncio.
— Está hospedada — disse ele por fim. — Não significa que esteja recebendo visitas.
— Posso esperar.
— Pode pedir alguma coisa.
Eva examinou o balcão.
— Chá.
O homem guardou o pano.
— Tem cerveja.
— Cerveja, então.
Ele lhe serviu uma caneca.
Eva pagou, levou-a para uma mesa e retirou as luvas.
Snape estava ocupado com a própria bebida. Se observava o que ela fazia, conseguia esconder bem.
Ela gostaria de poder dizer o mesmo sobre o homem do balcão.
Passaram alguns minutos.
Eva provou a cerveja. Não era tão ruim quanto a caneca sugeria.
Um ruído veio da escada.
A mulher que descia usava um xale largo, colares sobrepostos e óculos que faziam seus olhos parecerem grandes demais para o rosto. Parou perto do último degrau e olhou em volta antes de se dirigir ao balcão.
Eva aguardou que ela pedisse uma bebida.
Depois se levantou.
— Senhorita Trelawney?
A mulher se virou.
— Sim?
Eva deixou que o alívio aparecesse em seu rosto.
— Achei que fosse você. Disseram que estaria aqui.
— Quem disse?
— Estou procurando alguém para uma consulta.
Trelawney a examinou por cima dos óculos.
— Você tem uma aura muito inquieta.
Eva pensou em Snape, sentado a poucas mesas de distância.
— Hoje, particularmente.
A mulher pareceu satisfeita.
— Sente-se.
Eva escolheu a mesa de onde poderia vê-lo sem precisar virar a cabeça.
Trelawney acomodou-se diante dela, puxando o xale.
— O que a trouxe até mim?
— Estou diante de uma oportunidade.
— Ah.
— Gostaria de saber se devo aceitá-la.
Trelawney pousou a bolsa no colo.
— Muitas vezes, as oportunidades chegam disfarçadas.
Eva olhou para a cerveja.
— Isso explicaria algumas coisas.
A mulher lhe pediu a mão.
Eva estendeu-a.
Trelawney inclinou-se sobre sua palma. O dono da hospedaria deixou a bebida dela na mesa e se afastou.
— Uma linha muito marcada — murmurou.
— É bom?
— Depende.
Eva assentiu.
Era difícil discutir com aquilo.
— Há uma influência forte em sua vida.
Ela pensou no pai.
Depois em Bellatrix.
Preferiu não escolher.
— Uma pessoa?
Trelawney aproximou mais o rosto.
— Talvez.
— Entendo.
A mulher ergueu os olhos.
— Nem tudo nos é mostrado com a clareza que desejamos.
— Imagino que seja cansativo.
Por um instante, Trelawney pareceu olhar para ela de maneira diferente. Soltou sua mão e alcançou a bebida.
— Há dias em que as pessoas exigem demais.
Eva reconheceu a abertura.
— Especialmente quando acreditam estar pagando pela resposta.
— Exatamente.
— Meu pai faz isso. Pergunta o que penso e fica decepcionado quando não é o que ele pensou primeiro.
Trelawney sorriu.
Eva recostou-se um pouco.
A conversa avançou para os inconvenientes das consultas particulares. Trelawney falava com uma mistura de solenidade e irritação que Eva considerou muito mais fácil de acompanhar do que suas previsões.
Depois de algum tempo, perguntou se ela atendia ali com frequência.
— Não por muito mais tempo, espero — respondeu Trelawney.
Eva esperou.
A mulher ajeitou um dos colares.
— Fui convidada para uma entrevista. Um posto em Hogwarts.
— Adivinhação?
Trelawney assentiu.
Eva deixou aparecer um interesse que não precisou inventar.
— Com Dumbledore?
— Pessoalmente.
— Então ele já conhece seu trabalho.
A expressão de Trelawney se iluminou um pouco.
— Minha família tem uma longa tradição. Minha trisavó, Cassandra…
Eva escutou.
Fez uma pergunta.
Escutou mais.
Do outro lado da sala, Snape levou a caneca à boca.
Quando Trelawney fez uma pausa, Eva olhou para a escada.
— Você vai até o castelo?
— Não, ele virá aqui.
— Mais confortável.
— Esperava recebê-lo à noite, mas mandou antecipar a entrevista. Amanhã, às cinco. Parece ter outro compromisso depois.
Eva manteve os olhos nela.
— Ainda tem tempo para se preparar.
— Naturalmente. Eu já esperava uma mudança.
Eva sorriu.
— Então levou vantagem.
Trelawney passou um dedo pela borda do copo.
— Se quiser outra consulta, talvez seja melhor marcar antes de eu partir.
Eva pediu um endereço para correspondência.
Pagou pela consulta, embora Trelawney não tivesse mencionado preço algum até aquele momento.
Quando se despediu, recebeu uma advertência sobre decisões impulsivas e uma recomendação para evitar correntes de ar.
Considerou a segunda mais fácil de cumprir.
***
Snape a alcançou na rua.
— Quanto?
Eva olhou para ele.
— A entrevista é amanhã, às cinco. Foi antecipada. Dumbledore tem outro compromisso depois.
Ele parou de andar por um instante.
— Ela disse qual?
— Não. E eu não pedi que me entregasse a agenda inteira.
Snape tornou a caminhar.
— Perguntei quanto custou.
Eva informou o valor.
Ele olhou para ela.
— Você pagou por isso?
— Incluía minha linha da vida.
— Espero que seja longa.
— Pelo preço, também espero.
Por alguns passos, só ouviram o ruído da rua.
Eva sentia uma satisfação crescente.
Trelawney lhe dera o horário, confirmara a mudança e não parecera desconfiada. Eva não havia precisado erguer a varinha, mencionar o próprio sobrenome ou ameaçar a porcelana de ninguém.
Olhou de lado para Snape.
— Você ouviu a conversa?
— Partes.
— E?
— Ela gosta de falar.
Eva puxou as luvas.
— É preciso deixar.
***
Bellatrix estava esperando quando voltaram.
Eva entrou na sala de visitas e lhe deu o horário antes que pudesse perguntar.
— Amanhã, às cinco. A entrevista foi antecipada. Ele irá embora depois para outro compromisso.
Bellatrix olhou para Snape.
— Ela confirmou com Trelawney — disse ele.
Eva teve vontade de acrescentar que ele havia confirmado com uma caneca, mas se conteve.
Bellatrix tornou a atenção para ela.
— Trelawney acha que você voltará?
— Acha que vou escrever pedindo outra consulta.
— Escreva.
Eva franziu a testa.
— Para quê?
— Porque é o que faria se estivesse interessada numa consulta. Não vá mudar de comportamento agora que conseguiu o que queria.
Eva demorou um instante para assentir. Depois anotou que precisava escrever à candidata. A carta teria que parecer tão interessada quanto a consulta.
Snape retirou do bolso uma folha dobrada e a abriu sobre a mesa. Havia feito um esboço do térreo, da escada e do corredor.
Eva se aproximou.
Ele apontou para uma porta.
— É o quarto que ela está usando.
Bellatrix acompanhou o desenho.
— O dono viu você?
— Viu.
— Reconheceu?
— Não disse.
— Então não conte com isso.
Eva olhou para Bellatrix.
Ela parecia mais à vontade ali, inclinada sobre a mesa, fazendo perguntas curtas, do que no salão cheio de convidados. Uma mecha de cabelo caiu sobre o pergaminho; Bellatrix a afastou sem perder a atenção.
— Eva.
Ela ergueu os olhos.
— Amanhã, fique no térreo. Veja quem entra antes e durante a entrevista. Se Trelawney falar com você, seja a mesma pessoa de hoje.
— Aparentemente inquieta e muito interessada no futuro?
Snape dobrou o pergaminho.
Bellatrix olhou para ela.
— Consegue?
Eva sustentou o olhar.
— Consigo.
***
Na tarde seguinte, Eva escolheu um vestido simples, um casaco escuro e botas que já haviam visto lama.
Deixou as pérolas na penteadeira.
Adam apareceu à porta enquanto ela fechava a bolsa.
— Você está indo trabalhar ou fugir?
— Ainda não decidi.
Ele olhou para as botas.
— Pelo menos está levando calçados úteis.
— Estou cercada de opiniões sobre minhas roupas.
Adam apoiou o ombro no batente.
O sorriso dele diminuiu um pouco.
— Escute o que Bellatrix disser.
Eva fechou a bolsa.
— Pretendo.
— Sobre a tarefa.
Ela lhe lançou um olhar.
O irmão ergueu as mãos.
— Só achei que devia esclarecer.
Eva passou por ele.
Adam a acompanhou até a escada.
— E não aceite vinho.
— Você também aprendeu alguma coisa.
***
Faltava pouco para as cinco quando os três chegaram à rua lateral do Cabeça de Javali.
Bellatrix ajustou o capuz. Snape olhou para a porta da hospedaria, depois para a janela do andar superior.
Eva retirou as luvas.
Ele percebeu.
— Guarde isso antes de entrar.
— Já estou guardando.
— E deixe que eu peça a bebida.
— Para que eu não arruíne a discrição escolhendo chá?
Snape se afastou.
Bellatrix passou por Eva e deteve-se perto de seu ombro.
— Hoje, procure não encantar ninguém sem autorização.
Eva virou o rosto.
Estavam próximas o bastante para que não precisasse erguer a voz.
— Isso inclui você?
Bellatrix olhou para ela.
Por um instante, Eva achou que receberia outra ordem.
Então Bellatrix continuou andando.
Snape, que havia parado à porta, encarou Eva.
Ela terminou de guardar as luvas.
— Algum problema?
Ele abriu a porta da hospedaria.
— Vou precisar de outra bebida.

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