Wild Love (the kind that never slows down)
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Julieta chega a escola a tempo de ver dona Ofélia praticamente arrancando os próprios cabelos. Ela não consegue ouvir muito bem o que a outra mulher está falando, mas parece grave. Entretanto, como dona Ofélia costuma fazer esse tipo de coisa ao menos uma vez por semana, Julieta não se preocupa muito. A filha mais velha dela, Elisabeta, colega de Camilo, também parece despreocupada, apesar de um tanto irritada. Com os braços cruzados e olhos que reviram periodicamente, a menina ouve as reclamações da mãe com crescente impaciência.
Ao lado delas, Jane olha da mãe para a irmã receosa. Camilo, que normalmente está onde Jane está, observa a cena toda tentando abafar uma risada. Julieta levanta um braço, acenando para ele. Camilo sorri quando a vê, arruma a mochila nos ombros e se despede de Jane.
Ele corre em sua direção e Julieta começa desde já a se preparar para o momento em que ele pulará em seus braços. Oito anos de terapia e ainda assim Julieta sente dificuldade com toques. Ao menos com Camilo eles lhe dão menos trabalho. Ela o pega no colo e beija seus cabelos, colocando-o no chão em seguida, abrindo a porta do carro para ele.
Quando já estão na rua, Julieta olha para o filho pelo espelho retrovisor e pergunta:
— Como foi o seu teste?
— Bem. – Ele responde. – Eu vou ser o príncipe.
Camilo sorri para ela e Julieta sorri de volta. É claro que ele será o príncipe.
A peça da escola tem sido o principal assunto de Camilo nos últimos dias. Ele estava tão entusiasmado pela manhã, falando sem parar sobre o teste e a peça e o papel que queria. Julieta está feliz que deu tudo certo.
— Que bom que você conseguiu. – Ela diz. – Você ensaiou bastante.
Camilo assente satisfeito, olhando a paisagem pela janela e fazendo seu carrinho de brinquedo dar voltas no ar. Julieta lembra da mãe nada satisfeita em frente à escola.
— Camilo. – Ela chama sua atenção. – Aconteceu algo com as filhas de dona Ofélia?
Camilo solta uma risada, colocando o carrinho no colo.
— Ela estava chateada porque Elisabeta vai ser uma guerreira. Tia Ofélia queria que ela fosse a princesa.
— Elisabeta queria ser a princesa?
— Não. Ela queria ser uma guerreira mesmo. – Camilo fica calado um tempo, pensando. – Eu não entendo porque a tia Ofélia ficou tão chateada. Ser guerreira é legal. Ela disse que é coisa de menino. É?
Julieta olha para ele rapidamente, para confirmar que havia sido uma pergunta para ela. Camilo a observa confuso.
— Algumas pessoas pensam assim. Que existem coisas de meninos e coisas de meninas. Mas isso são apenas construções sociais. O que significa que poderia ser de qualquer outra maneira, mas as pessoas decidiram que seria assim.
Camilo fica em silêncio novamente.
— Mãe?
— Sim?
— Se eu quisesse ser a princesa, você não ficaria chateada?
Julieta sorri, parando em um sinal vermelho e voltando-se para Camilo.
— Você queria ser a princesa?
Camilo torce o nariz.
— Não! É chato! Ela só fica sentada no castelo. Só Jane e Ema queriam ser a princesa.
O sinal abre e Julieta volta a dirigir.
— É mesmo? Qual das duas é a princesa?
— A professora escolheu Jane, mas Ema chorou, então Jane deixou ela ser a princesa. Agora Jane é uma das fadas.
— Ah, isso é muito legal da parte de Jane. Mas também não se pode deixar os outros tomarem o nosso lugar sempre.
Camilo encolhe os ombros e faz o carrinho andar no banco ao seu lado.
— Jane é legal. – Ele diz.
Julieta olha para ele pelo retrovisor.
— Você gosta muito de Jane, não é mesmo? – Ela pergunta.
Camilo sorri.
— Gosto. Gosto da Ema. E Elisabeta e Ludmila e Januário. Até Ernesto. Mas eu gosto mais da Jane.
Aquilo chama a atenção de Julieta.
— Ernesto? Você é amigo de Ernesto agora? Ele e aqueles meninos não te incomodam mais?
— Não. Ele é legal também. Eu emprestei meu carrinho pra ele e ele me ensinou uns golpes de karatê. Nós somos amigos agora.
Julieta sorri da maneira singela como crianças fazem amizades, mesmo após momentos ruins. Fica satisfeita que Ernesto não esteja mais importunando Camilo e que esteja melhorando. Aparentemente o karatê tem ajudado a manter seu gênio sobre controle.
— Ah. – Camilo exclama, excitado. – Eu posso fazer karatê também? As meninas também vão.
— Claro.
— Isso!
Ele comemora e Julieta sente a familiar felicidade por ver seu filho feliz.
—***-***-***-
Susana está prestes a sair quando eles chegam em casa. Julieta faz cara de poucos amigos e Susana encolhe os ombros, nem um pouco envergonhada.
— O mesmo cara? – Julieta pergunta.
— Não. – Susana responde, sem dar mais satisfações.
Julieta ainda não entende bem como sua amizade com Susana nasceu. Quando ela se mudou para São Paulo, com o coração partido, um filho na barriga e pouquíssimo dinheiro, dividir um lugar com alguém era lógico. Acabou encontrando Susana, que também parecia fugir de algo. Elas eram muito diferentes, mas respeitavam uma a outra e isso era tudo o que Julieta mais precisava naquele momento. Elas não eram amigas nos primeiros meses. Não enquanto Julieta crescia como um balão, não quando cada uma trabalhava em um lugar diferente, nem mesmo quando faziam o mesmo curso na faculdade.
Foi apenas quando Camilo nasceu que as coisas começaram a mudar. Susana foi quem a levou para o hospital e ficou ali quando percebeu que ninguém mais apareceria. Foi Susana quem segurou Camilo primeiro e foi ela quem continuou segurando Camilo quando Julieta se recusou.
Foi para Susana quem Julieta contou o motivo de sua mudança para São Paulo, porque sentia que iria explodir se não falasse. Ou implodir, provavelmente. Ela foi a primeira pessoa a escutar que Julieta havia sido estuprada em sua cidade por um amigo da família e que seu pai se recusara a fazer qualquer coisa a respeito, não deixando outra opção para Julieta a não ser ir embora. Julieta havia passado na faculdade naquele ano, mas quando saiu de sua cidade, cortou relações com todos lá. Susana entendeu o motivo de Julieta não querer olhar para Camilo e pediu acompanhamento psicológico do hospital.
Com a ajuda do psicólogo, Julieta conseguiu superar a depressão pós-parto e a depressão que se abateu sobre ela após a violação e tantos outros problemas que surgiram por conta disso. Mas nas primeiras semanas, Julieta mal conseguia olhar para Camilo e foi Susana quem cuidou dele. Susana que não gosta de crianças, que reclamava sempre que tinha que trocar fraldas ou alimentá-lo, mas que fazia mesmo assim. Susana fez muito por ela e Camilo e, apesar de Julieta não saber quando exatamente a amizade das duas começou, ela começou.
Então quando já tinham condições de mudar para um lugar melhor, nenhuma das duas pensou que fosse necessário se separarem. Julieta gosta da companhia de Susana, mas, ultimamente, sua amiga tem saído com muita frequência, cada noite com um homem diferente.
— Como eu estou? – Susana pergunta, fazendo uma pose para Camilo.
O menino pede que ela dê uma volta.
— Lindíssima! – Ele responde.
— Lindíssima. – Susana o imita com voz infantil, sorrindo e apertando suas bochechas para lhe dar um beijo estalado. – Tchau, Camilito. – Ela olha para Julieta e dá uma piscada. – Não me esperem acordados, meus queridos!
Julieta revira os olhos, mas Camilo assente seriamente e recomenda:
— Tenha cuidado.
— Eu sempre tenho, Camilito. – Susana responde antes de desaparecer pela porta.
—***-***-***-
No sábado, Julieta leva Camilo para sua primeira aula de karatê. Não é a primeira atividade extracurricular que seu filho participa. Camilo gosta de testar coisas novas e Julieta também gosta que ele faça isso. Se não experimentar, jamais vai saber o que ele realmente gosta, quem ele realmente é. Ela espera que ele goste do karatê, principalmente porque ela o acha muito fofo em seu kimono.
Ernesto corre para falar com o menino assim que o vê, cumprimentando Julieta com animação e chamando Camilo para um grupinho de amigos. Elisabeta e Ludmila estão lá. Julieta fica feliz que o menino realmente esteja mudando. Camilo olha para Julieta, que se abaixa para apertar a faixa na cintura dele. Pelo canto do olho ela observa o pai de Ema, que acaba de chegar com a menina. Ele a nota imediatamente, sorrindo abertamente na sua direção e levantando uma mão no ar. Julieta decide fazer exatamente a mesma coisa que fez todas as vezes que encontrou com Aurélio nos últimos dias. Fugir.
Ela beija os cabelos de Camilo, promete que estará lá quando a aula dele acabar e volta para o carro o mais rápido possível, sem olhar para trás.
—***-***-***-
Seu terapeuta a observa atentamente, daquela maneira que deixa Julieta desconfortável. A razão para ele deixá-la desconfortável é a mesma que a deixa confortável na sua presença. Ele sabe coisas demais sobre ela.
— Tem alguma coisa te incomodando. – Ele diz calmamente, cruza os dedos das mãos e espera.
Julieta remexe as mãos nervosamente.
— Tem... Tem um homem que pode estar interessado em mim.
Ele arqueia uma sobrancelha, um pequeno sorriso se formando.
— Interessado em você?
— Romanticamente.
— Ah, sim. E você está interessada nele?
— Não. Não sei.
Ele a estuda por um tempo e Julieta se remexe na cadeira, pensando no que dirá depois.
— Julieta. – Ele diz devagar. – Você ainda não está pronta para se envolver romanticamente com alguém?
— Não. – Ela responde rapidamente. Pensa melhor e acrescenta: — Sim. Quero dizer, não sei. Eu não sei. Eu não sei o que fazer. Nunca me envolvi com ninguém. Bem, teve um ou dois meninos no colégio. Depois... ele. E eu nunca me envolvi com ninguém por minha causa e por causa de Camilo também.
— Por sua causa eu entendo. Você precisava de um tempo para se reconectar com você mesma. Mas por Camilo?
— Por Camilo sim. Qualquer relacionamento que eu tenha, Camilo será uma parte importante. Não posso colocar qualquer homem na vida do meu filho. E ele também tem uma filha. Será que eu quero me colocar na vida dela dessa maneira?
Ele tem um sorriso no rosto que faz Julieta parar. Ela estuda suas feições por um tempo. Aquele é um assunto que ela nunca soube lidar muito bem. Tantos anos na terapia, mas Julieta ainda tem dificuldade em se relacionar com as pessoas, em se permitir ser tocada. Ela pergunta:
— O que você acha?
Ele cruza as pernas, inclinando a parte superior do corpo para mais perto dela, sorrindo.
— Eu acho que você já pensou bastante a respeito disso. Por que não experimenta não pensar muito?
— Não pensar? Mas...
— Julieta, eu sei que você é uma mulher bastante racional, mas existem coisas que é melhor apenas sentir. Se ele gosta de você e você gosta dele, deixe-se levar. E se você não sabe o que fazer, então deixe que ele te guie. Já pensou que isso pode até ser um prenúncio de amor?
Ele pisca um olho para ela e Julieta sente-se tremer com a perspectiva. Não exatamente de uma maneira boa, mas não inteiramente ruim também.
—***-***-***-
Julieta caminha apressada para sala de Margareth Williamson. Sua chefa é conhecida por não ter muita paciência e detesta esperar. Julieta não quer sair das boas graças da mulher. Ela bate na porta da presidência da Empreiteira Williamson, seu rabo de cavalo balançando atrás de si e arruma seu tailleur quando ouve a voz da senhora Williamson mandando-a entrar.
— Ah, Julieta. – Ela diz olhando rapidamente para ela antes de voltar a assinar alguns papéis.
Julieta se aproxima da mesa e espera pela missão que ela com certeza irá lhe dar. Margareth termina seus papéis e levanta o olhar para Julieta.
— Você está a par da situação da propriedade de Afrânio Cavalcante?
— A propriedade Ouro Verde.
É assim que haviam apelidado a enorme casa que Margareth quer derrubar para construir outro prédio. Uma monstruosidade verde do século passado com uma ótima localização. O dono, o velho Afrânio Cavalcante, está endividado até a raiz dos cabelos e não parece que algo irá acontecer para mudar a inevitável ida a leilão. Apesar de inevitável, parece de suma importância para Margareth que o terreno seja deles o quanto antes.
— Essa mesma. – Ela responde curta e mal humorada, como costuma ser sempre. – Eu preciso daquela propriedade para ontem. Você vai assumir as negociações.
— Mas. – Margareth a fita imediatamente, não está acostumada a ser questionada. Julieta sente-se desconfortável, mas continua: — Susana é quem está trabalhando com essa propriedade.
Margareth balança a mão displicentemente.
— Susana é excelente negociadora, mas está demorando muito dessa vez. Quero que você assuma. Eu sei que você é racional, direta. Nunca me desapontou. Faça com que eles aceitem a proposta que lhes fiz e que saiam daquela maldita casa o quanto antes.
Julieta aceita a missão com um aceno de cabeça. Talvez Susana fique chateada, mas a decisão não está realmente nas mãos de Julieta, não é culpa dela. Fazer negociações é a especialidade de Julieta, já havia crescido muito na empreiteira em pouco tempo por causa de seu talento nato. Talvez no futuro ela até possa ter uma empreiteira que seja dela.
Quando Julieta está quase saindo da sala, Margareth fala uma última vez:
— Julieta, eu quero aquela casa no chão.
Julieta sorri.
— Já está lá.
Margareth sorri também, rapidamente, logo voltando a seu rosto mal humorado usual.
—***-***-***-
Com as palavras de seu terapeuta em mente, Julieta deixa Camilo na escola e, ao invés de ir embora antes que Aurélio a note, ela vai atrás dele.
Ele termina de arrumar a mochila de Ema nas costas da menina e ela logo está correndo na direção de suas amigas. Como ele continua olhando para a filha, Julieta dá dois toques rápidos nas suas costas. Aurélio vira-se no mesmo instante e sorri assim que percebe que é ela.
— Oi. – Ele diz.
— Oi. – Ela responde, dando um sorriso nervoso.
Os dois se olham por um momento, sem dizer nada, então os dois começam a falar ao mesmo tempo, parando em seguida e rindo. Como Julieta permanece em silêncio, remexendo as mãos e olhando para os lados de uma maneira que entrega seu nervosismo, Aurélio volta a falar:
— Não tivemos outra oportunidade para conversar desde a reunião.
Julieta assente sem graça.
— Não. Bem, eu estava... estava...
— Fugindo de mim?
Ela sente-se enrubescer levemente e desvia o olhar do dele. Aurélio ri.
— Tudo bem. Desculpe se eu fui um pouco invasivo quando nos conhecemos.
— Não, você não foi. – Ela o garante rapidamente. – Eu é que sou... me desculpe.
— Eu posso desculpar, se você aceitar meu convite para um café.
Julieta sorri.
— Tudo bem. Eu aceito. Mas eu tenho trabalho hoje.
— Eu também tenho um compromisso hoje. Amanhã?
— Amanhã.
Aurélio sorri vitorioso e olha para ela de uma maneira que a deixa sem graça. É um olhar gentil, carinhoso.
— Posso pegar seu número? – Ele pergunta. – Ou eu posso dar o meu, se você preferir.
Julieta pesca um cartão de dentro da sua bolsa, entregando para ele. Aurélio lê o cartão por um tempo e Julieta desconfia que ele dirá algo, mas ele apenas olha para ela, guarda o cartão e sorri.
— Até amanhã, Julieta.
— Até amanhã, Aurélio.
—***-***-***-
De tarde, ela vai para a reunião marcada com os Cavalcante. O velho Afrânio está esperando por ela em uma cadeira de rodas e um mau humor que ela pode sentir desde a porta de entrada. Ela estende uma mão para ele, mas ele só lhe lança um olhar irritado. Julieta abaixa a mão, mas não abaixa a cabeça. Tem uma missão a cumprir.
Ela começa a falar quando Ema entra na sala. Julieta olha duas vezes para ter certeza que realmente é a amiguinha de Camilo. Ema sorri para ela, jogando-se no colo do avô que a recebe de braços abertos.
— Oi, mãe do Camilo.
Ela a cumprimenta e Julieta responde atônita:
— Olá.
— Desculpe o atraso.
Ela ouve a voz de trás dela e vira-se apenas para ter certeza de que é Aurélio. Ele sorri para ela, mas Julieta não consegue expressar nenhum tipo de reação.
— Ela chegou agora. – Resmunga Afrânio. – Esse é meu filho, Aurélio.
— Nós já nos conhecemos. – Aurélio responde, sentando-se no sofá junto a ela. – Ema, vá para o seu quarto, nós vamos ter uma conversa de adultos agora.
Ema parece contrariada, mas dá um beijo na bochecha do avô e parte saltitante para as escadas, desaparecendo em seguida. Julieta permanece chocada por alguns segundos, até perceber o olhar nada amigável do velho Afrânio e a curiosidade de Aurélio.
Ela sai de seu estupor, abraçando-se ao seu profissionalismo e coloca na mesa a proposta de compra da empreiteira. Julieta faz o seu melhor. De maneira clara, direta e simples, ela explica exatamente o que vai acontecer. Se eles não pagarem suas dívidas, a casa irá para leilão e a empreiteira com certeza irá compra-la; mas eles prefeririam agilizar esse processo todo. A quantia que eles oferecem pela propriedade é justa, tendo em vista a dívida que a família possui.
Seu Afrânio ouve tudo com desdém, interrompendo-a sempre que possível. Julieta odeia ser interrompida, odeia ainda mais que a tratem como se ela fosse uma amadora. Apesar de jovem, Julieta sabe muito bem o que está fazendo. A reunião lhe enche com uma irritação crescente. Não apenas por causa do mal humorado e mal educado velho Cavalcante, mas também pelo silêncio de Aurélio. Especialmente pela maneira como ele a olha; como se eles não estivessem resolvendo um assunto estritamente profissional.
Ao final da reunião, eles chegam a lugar nenhum e Julieta sente frustração por cima da irritação que cresceu durante toda a tarde. O velho guia sua cadeira de rodas para outro cômodo, resmungando o caminho inteiro. Julieta decide não dar atenção para as palavras dele, pois preferiria não sofrer qualquer tipo de processo por agredir um idoso.
Aurélio permanece ali enquanto ela coloca os papéis de volta na pasta. Levanta-se quando ela levanta. Ele a observa o tempo inteiro e Julieta precisa de toda sua força de vontade para não perguntar o que ele tanto olha. Ela não o faz porque sabe que em sua irritação, a pergunta não sairia nem um pouco educada. Aurélio, por fim, se pronuncia:
— Nosso café ainda está de pé?
Agora é a vez de Julieta olhar para ele, estupefata, incerta de que ouviu realmente o que ouviu. Ela pisca algumas vezes, procurando palavras.
— Senhor Aurélio. – Ela começa mesmo incerta sobre o que dizer. Ri nervosa e volta a falar de maneira decisiva: – Absolutamente não.
— Por que não? Com certeza essa coincidência não precisa ser um impedimento...
— Coincidência? Senhor Aurélio, deixe-me explicar o que está acontecendo, porque o senhor parece um pouco confuso. A empresa para qual eu trabalho quer esse terreno, o senhor e o seu pai se recusam a vende-lo, logo nós estamos em lados opostos de uma pequena batalha. Esse é o meu trabalho e eu não pretendo ter qualquer relacionamento com o senhor além do estritamente profissional.
Aurélio fica sério, estende uma mão na sua direção, mas Julieta se afasta.
— Julieta.
— Estritamente profissional. – Ela garante. – Com licença.
Julieta vai embora sem dar chance para que ele responda.
—***-***-***-
Ela pensa bastante a respeito da atitude passiva de Aurélio durante toda a reunião. Chega a conclusão de que é melhor realmente não se envolver com ele além do espectro profissional. Afinal de contas ele não é o homem que ela achou que ele fosse.
Agora Aurélio lhe parece apático e acomodado, nem um pouco interessado em se movimentar para salvar a casa de sua família. E é claro que isso é bom para Julieta, cujo objetivo é justamente comprar aquela propriedade e colocar tudo a baixo. De qualquer maneira, ela fica um pouquinho desapontada.
Aurélio ainda procura por ela quando Julieta deixa Camilo na escola. Ela consegue sentir os olhos dele em suas costas, o sorriso que ele lhe dá sempre que seus olhos se encontram rapidamente. Julieta se pergunta se ele não tem qualquer amor próprio.
—***-***-***-
No fim das contas, Camilo realmente gostou do karatê. De seu grupinho de amigos, só restam ele, Ernesto e Ema, então Julieta tem que lidar com Aurélio nos sábados além dos dias da semana e das poucas vezes em que se reuniram para conversar sobre a propriedade Ouro Verde. Aurélio continua passivo, enquanto o velho Cavalcante estava cada vez mais irredutível. Apesar de nunca fazer frente nem com o pai, nem com Julieta, Aurélio parecia mais inclinado para o lado do pai. O que era compreensível. O que Julieta não conseguia entender era se seu silêncio era um sinal de incerteza ou passividade.
Ele a procura no fim de outro encontro improdutivo e desgastante.
— Podemos conversar?
Julieta solta o ar com força.
— Eu estive falando na última hora, se eu o senhor queria me dizer algo, deveria ter aproveitado a oportunidade.
— Julieta, por favor. É um assunto pessoal.
— Não tenho qualquer assunto pessoal para tratar com o senhor.
Ele olha para ela com irritação.
— Por que me trata assim? Eu fiz alguma coisa para você?
— Não trato o senhor de nenhuma maneira específica. O senhor e eu não passamos de vendedor e comprador.
Aurélio ri sem humor.
— Primeiro, essa casa não está a venda. – Ele diz. – Segundo, você sabe muito bem que essa não é nossa única relação. Julieta, estávamos nos dando bem antes disso tudo. Eu gosto de você, eu sei que você gosta de mim também.
— Senhor Aurélio. – Ela o interrompe, irritada. – O senhor não tem nem um pouco de amor próprio? De brio?
— Me desculpe? – Ele pergunta confuso
— O senhor está banhado em dívidas, prestes a perder sua casa, de um jeito ou de outro, e não me parece muito preocupado com isso. Ao invés de fazer algo para sair dessa situação, está mais interessado em continuar insistindo em algo comigo.
— Para ser franco, eu não sei mais o que fazer em relação a minha casa. Também não sei o que fazer em relação a nós dois, mas o que eu posso fazer se eu gosto de você?
Julieta sente as maçãs do rosto esquentarem, perde as palavras por um momento, sem saber o que responder. Ela olha bem para Aurélio e sente sua raiva aumentar ao ver aquele sorriso patético. Quer que esse joguinho entre os dois acabe de uma vez por todas, para que ela possa focar no seu trabalho e fazer logo o que ela foi enviada para fazer. Decide que a melhor tática para afastá-lo é feri-lo.
— E o que faz o senhor acreditar que eu goste de você? – Ele parece prestes a responder, mas ela não permite, falando por cima dele: — O senhor, que se manteve quieto esse tempo todo a não ser para me falar baboseiras. Acha mesmo que eu gosto de um homem como o senhor? Um homem acomodado, indeciso, submisso. Um fraco.
Assim que termina seu discurso, Julieta acha que foi muito dura. Ao ver a expressão no rosto de Aurélio tem certeza que sim.
— Nossa. – Ele diz, olhando-a como se ela fosse uma estranha. – Nossa. Me desculpe. Você tem razão. Tem toda razão.
Ele não diz mais nada, lhe lança um último olhar e se retira. Cabe a Julieta sair da casa dos Cavalcante sozinha. Ela se sente mal pelas coisas que disse, pelo jeito magoado de Aurélio. Sente-se irritada por se sentir assim. Decide naquele momento que está cansada daquela situação; com Aurélio e o velho insuportável e aquela maldita casa.
—***-***-***-
Julieta entra na sala de Margareth Williamson sentindo-se irritada e envergonhada. Ela faz uma breve descrição da situação.
— Você falhou, então? – Margareth diz, nem surpresa, nem desapontada.
Julieta sente uma nova onda de vergonha e irritação.
— Os métodos que tentamos até agora foram ineficientes. Eles não vão vender a casa. Talvez devêssemos tentar algo menos direto. Algo que eu, pessoalmente, não tenho qualquer influência sobre.
Margareth a estuda por um momento e pergunta, por fim:
— O que você sugere?
— O que podemos fazer para adiantar o leilão?
—***-***-***-
Aurélio entra na sua sala como um furacão, fechando a porta atrás de si com um baque. Julieta levanta-se de sua cadeira no mesmo instante, nunca o tinha visto daquela maneira e o susto é a única coisa que a impede de dizer algo.
— Como você pode? – Ele pergunta, perigosamente irritado, levantando alguns papéis no ar. – Minha casa irá leilão mais cedo do que imaginamos. Como você pode?
Julieta olha para os papéis e para o rosto contorcido em raiva de Aurélio.
— Sua casa iria a leilão de qualquer maneira. Eu não tive nada a ver com isso. Era apenas uma questão de tempo.
— Eu sei que vocês fizeram algo! – É quase um grito e Aurélio puxa a respiração com força para se acalmar. – Eu sei, Julieta. Também sei que era apenas uma questão de tempo. E era exatamente isso o que eu queria. Tempo! Um pouco de tempo! – De repente ele parece mais desesperado do que raivoso e Julieta fica ainda mais nervosa. – Você disse que eu não me importo com a casa, que não me mexi para salvá-la. Eu fiz tudo o que podia. Tudo! Não há mais nada que eu possa fazer. E você está certa, eu não me importo com a casa. É só uma casa. Eu me importo com a minha filha e com o meu pai. Só isso. A casa é importante para o meu pai. Ele nasceu nela. Ele já é um velho e não vai viver muito tempo, eu sei disso, ele sabe disso. Tudo o que ele quer é morrer na casa onde ele viveu a vida toda.
Aurélio se aproxima dela e, apesar de irradiar irritação, Julieta não se afasta. Ela sente-se hipnotizada pelas palavras deles, por cada movimento que ele faz.
— Pessoas como você parecem não entender isso. – As palavras dele são ácidas e a atingem mais do que Julieta gostaria de admitir. – Não entendem que alguns lugares levam memórias. Vocês não se importam com isso. Tudo o que importa é construir um novo prédio que é exatamente igual a todos os outros prédios dessa cidade! Ter mais dinheiro! Como se vocês já não tivessem o suficiente. Aposto que são todos ricos, que nunca passaram por um momento de desespero. Aposto que nem ao menos precisaram se preocupar com esse emprego. – Suas palavras são ditas para machucar e Julieta já não sabe se ferir sem sentir raiva. – Os pais conseguem tudo. E se não conseguirem, não custa nada dormir com alguém importante.
O tapa que ela lhe dá ressoa pela sala e o cala imediatamente. Julieta nem pensou a respeito, não foi um ato voluntário. Sua mão arde e seus olhos começam a se encher de lágrimas.
— Você não tem ideia. Você não me conhece, não tem ideia de quem eu sou. Nunca mais repita isso.
Ela levanta a mão para lhe dar outro tapa, dessa vez de forma bastante voluntária, mas Aurélio segura seu pulso com firmeza. Julieta levanta a outra e ele faz o mesmo, puxando-a para mais perto dele, prendendo-a contra ele. Ela sente irritação e mágoa e uma coisa elétrica ao redor dos dois. Os olhos de Aurélio parecem cheios do mesmo sentimento.
Os dois permanecem presos naquela espécie de abraço, presos no olhar um do outro e naquela névoa densa e elétrica que os mantém longe do resto do mundo. Aurélio olha para sua boca, a puxa para ainda mais perto e a beija.
Uma parte dela está magoada com ele, mas outra parte está inebriada por ele. Seu calor, seu cheiro, seus lábios. Ela o beija de volta e, quando ele solta seus pulsos, suas mãos se agarram a camisa dele. Julieta sente as mãos dele no seu corpo, entrando pelo seu blazer aberto e indo descansar na sua cintura. Ela sente tremores pelas suas costas, sente o calor dele pelo tecido delicado de sua blusa e de repente tudo aquilo é demais para ela.
Ela o afasta com um empurrão, dando passos incertos para longe dele, colocando a mesa entre os dois. Aurélio olha para ela confuso, uma mão tocando seus lábios. No instante seguinte ele parece arrependido, pelo beijo ou pelas coisas que disse antes ou pelos dois, Julieta não sabe dizer. Ele dá um passo na sua direção e Julieta dá outro para longe dele.
— Saia daqui. – Ela diz em um sussurro. Sente lágrimas nos olhos e um peso no peito que não sabe o que é. – Saia daqui!
Dessa vez é um grito e Aurélio se assusta.
— Por favor. – Ele diz. – Por favor, não grite. As pessoas podem escutar.
Mas quem não está escutando é Julieta. Ela só sente, mas não sabe o que fazer com aqueles sentimentos, então diz outra vez, mais baixo, porém com mais firmeza:
— Saia daqui.
Aurélio assente com a cabeça, olha para ela uma última vez e sai de sua sala, fechando a porta atrás de si. Julieta desaba no segundo seguinte.
—***-***-***-
Ela sai do trabalho mais cedo, vai buscar Camilo e o leva para tomar sorvete. Ele fala animado sobre seu dia na escola e Julieta faz o seu melhor para prestar atenção no que ele diz.
— Você tá triste? – Ele pergunta preocupado.
Julieta sorri para ele, passando os dedos pelos seus fios loiros. Ele a observa atentamente, seus olhos esverdeados cheios de preocupação. Julieta sente que poderia explodir de tanto amor que sente por esse menino.
— Não. – Ela responde. – Está tudo bem.
Ela rouba uma jujuba do sorvete dele, fazendo uma careta e Camilo ri.
—***-***-***-
— Julieta!
É Susana, que entra na sua sala sem bater. Julieta está cansada de pessoas entrando no seu espaço daquela maneira. Ela olha para a outra e encontra um buquê de rosas vermelhas no lugar do rosto da amiga.
Susana coloca as flores sobre a mesa, revelando um sorriso perverso em seus lábios.
— Acabaram de deixar para você. – Ela diz. – Quer dizer, mais ou menos. Eu passei os últimos 15 minutos relendo o seu nome para ter certeza que era realmente pra você, mas aí está. Julieta Sampaio.
Julieta olha das flores para Susana, sem saber como reagir àquela situação.
— Que brincadeira é essa, Susana?
Ela nunca havia recebido flores antes. Susana ri, encostando-se contra a mesa e mexendo nas flores.
— Não é nenhuma brincadeira. – Ela tira um cartão do meio das rosas e entrega para Julieta. – De quem são?
Susana a olha com expectativa e Julieta retira o cartão da mão dela receosa. Susana não é flor que se cheire e, por um segundo, pergunta-se se ela seria capaz de armar tudo aquilo. Susana passara os últimos dias chateada por ter sido posta para trás no caso da propriedade Ouro Verde. Decide que não e lê o cartão. Nele está escrito um pedido de desculpas e o nome de Aurélio Cavalcante. O coração de Julieta bate mais forte.
— Então? – Susana pergunta. – Quem te mandou as flores? – Ela se inclina na sua direção, sorrindo de forma conspiratória. – Eu conheço?
Julieta continua séria, percebendo, de repente, o que estava acontecendo desde o início. Olha para as rosas como se elas tivessem cometido um delito grave, irritação borbulhando dentro dela como um vulcão que está prestes a entrar em erupção. Ela amassa o papel e joga no lixeiro. Pega as flores e está prestes a dar o mesmo destino para elas, mas pensa melhor e as deixa em uma prateleira. Para que ela possa lembrar e parar de achar que pode se envolver com alguém.
Susana observa a cena toda.
— Mas... Julieta, o que aconteceu?
— Nada. – Julieta diz entredentes. – Nada aconteceu e nada vai acontecer.
—***-***-***-
Margareth Williamson compra a propriedade dos Cavalcante no leilão. Ela leva Julieta para pegar os papéis de posse da propriedade. Aurélio não está lá, é claro que não está. Julieta não fica decepcionada com isso, seria ridículo da parte dela. Mas ela se pergunta o que aconteceu com ele e sua família por um breve momento, cheia de preocupação. Mas logo espanta esses pensamentos, sentindo-se uma verdadeira idiota.
—***-***-***-
Julieta está arrumando sua bolsa para ir embora quando batem na sua porta. Ela solta a respiração irritada, já deveria estar a caminho de casa. Ela manda a pessoa entrar com um movimento de mão e sente-se ainda mais irritada quando vê quem é.
Aurélio sorri, esfregando as mãos de maneira nervosa. Ele olha ao redor de sua sala, olha para ela daquela maneira gentil que Julieta simplesmente não entende.
— Olá. – Ele diz.
— O que você quer aqui? – Ela pergunta ríspida.
Aurélio não se abala pelo seu mau humor e dá mais alguns passos na sua direção.
— Eu só queria... Eu... Bem... – Ele olha ao redor novamente, um tanto inseguro de repente. – Você recebeu as flores?
Julieta sente uma nova onde de irritação, misturada com um tanto de mágoa. Nunca haviam lhe dado flores. Aquela foi a primeira vez e por motivos que não agradam em nada a Julieta.
— Recebi. – Ela diz, cruzando os braços e encarando-o seriamente.
Aurélio engole em seco, tenta um sorriso amarelo e volta a falar:
— Sim, bem, eu achei que seria melhor se eu viesse oferecer minhas desculpas pessoalmente.
Julieta franze o cenho.
— Desculpas? – Ela descruza os braços e parece que está pronta para ataca-lo. – Senhor Aurélio, eu peço que o senhor não me trate como uma idiota.
— O que?
— Acha mesmo que eu não percebi sua tática? Desde a primeira reunião que tivemos. Agora aparecendo na minha sala a essas horas, com uma desculpa patética. Aquele buquê ridículo.
— Você não gostou das flores?
— O que eu não gosto é da sua atitude. Eu entendi essa tática barata quando o senhor ainda tinha a sua casa. O senhor estava querendo nublar meus pensamentos, achar uma brecha para que eu perdesse a racionalidade quando fosse tratar de seus assuntos. Mas agora isso já está fora das minhas mãos, não tem razão para continuar essa... essa conquista barata.
Aurélio escuta tudo atônito. Julieta parece cada vez mais irada e ele sente que ela vai continuar falando até expulsá-lo da empresa, então levanta as mãos e dá um passo na sua direção.
— Julieta, não tem tática nenhuma. Eu só queria pedir desculpas.
— Pelo que?
— Eu te beijei. Eu te beijei e não me arrependo, mas também disse coisas horríveis e disso eu me arrependo muito. Sei que te ofendeu. Que te magoou. E eu sinto muito por isso. Não era minha intenção. Não queria te machucar. Não você.
Aquilo a pega de surpresa e, apesar de ainda estar desconfiada, Julieta não consegue achar uma resposta. Ela estava tão irritada desde que recebera o buquê de flores. Não, para ser sincera, ela estava irritada desde o beijo. Porque achou que tudo não passava de um plano sórdido, mas aqui está Aurélio, com seus olhos gentis, garantindo que sua única intenção era se desculpar.
E ele deveria se desculpar, mas outra coisa chama a atenção de Julieta.
— Não eu? – Ela pergunta. – Por quê?
Aurélio sorri, relaxando, e se aproxima dela.
— Por que eu a admiro muito. Você é inteligente, profissionalmente bem sucedida em um negócio que eu nunca me daria bem. Você cria seu filho sozinha e está fazendo um trabalho maravilhoso. E eu admiro você por isso. Desde a reunião da escola, as coisas que você disse, o jeito como você falou. Eu não consigo tirar você da minha cabeça, Julieta.
Julieta escuta. Ela ainda está confusa; assustada com as palavras daquele homem, com a proximidade dele. Assustada mas, ainda assim, ela quer ouvir mais, quer que ele se aproxime mais. E, como se ele estivesse lendo seus pensamentos, Aurélio se aproxima, um sorriso tranquilizador em seus lábios.
— Fico feliz em saber que pensar em mim faz nublar seus pensamentos. – Ele diz, sua voz cada vez mais baixa, mas não tem importância, pois eles estão cada vez mais próximos. – Por que eu me sinto assim e me alegra que você sinta o mesmo. Você me faz perder minha racionalidade. Faz minhas mãos transpirarem. – Ele pega as mãos dela, desenhando círculos em sua pele com os polegares, e Julieta se sente tremer. Ele aproxima o rosto do seu e ela pode sentir a respiração dele contra seu rosto. – Meu corpo vibrar.
Ele toca sua bochecha e o toque dele é quente e gentil e a faz derreter contra ele. Julieta não gosta de toques, mas se vê inclinando-se na direção de Aurélio, regozijando-se com o toque dele. Ela fecha os olhos e sente em seguida os lábios dele contra os seus. Ele a beija gentilmente, mas com firmeza; as mãos dele descendo para sua cintura, trazendo-a para mais perto de si. Julieta aceita o contato de bom grado, deixando que ele aprofunde o beijo, enfiando os dedos pelos cabelos dele. Ela poderia ficar ali para sempre.
Quando o beijo termina, suas testas se encontram e eles ficam daquela maneira enquanto recuperam o fôlego. O coração de ambos batendo rápido, descompassados embora em sintonia. Julieta olha para ele e, de repente, Aurélio parece ser uma pessoa completamente diferente. Ele sorri e se afasta, olha para as mãos unidas entre eles, volta a olhá-la nos olhos.
— Boa noite, Julieta.
Ele está sorrindo ainda. Julieta sorri de volta, ela sente lágrimas começando a se formar.
— Boa noite, Aurélio.
Ele aperta suas mãos gentilmente e as solta, caminhando para longe dela e desviando o olhar apenas quando é absolutamente necessário. Aurélio caminha para longe dela e, ainda assim, os dois se sentem mais próximos que nunca.
Fale com o autor