Wicked dreams
1 Wicked dreams — capítulo único
O som estrondoso tomou conta do cômodo em um ímpeto e com ele uma música tenebrosa vinha tomando conta dos corredores, caminhando pelo corpo e arrepiando os sentidos, congelando quaisquer que fossem os pensamentos e tornando suas presas, vulneráveis.
Era um piano, só podia ser um instrumento como aquele para ressonar tão bem, em um espaço tão amplo.
Aquele lugar se assemelhava e muito ao quarto escuro que ela dividira com Soul diversas vezes em meio a um embate perigoso, ela raramente cedia aquele lugar enquanto que Soul geralmente perdia o controle quando usava o poder contido naquele lugar. Cortinas densas, o piso dividido entre quadrados vermelhos e pretos, lustres de fogo azul iluminando um lugar perdido em meio ao breu.
Ela estava sozinha mais uma vez, não havia ninguém ali para lhe fazer companhia. A melodia ganhara um tom mais urgente, guiando-a pelas cortinas que deslizavam pelo chão sempre que passava por elas. Seu corpo tremia, antecipando o que poderia encontrar do outro lado, ela sentia sua alma sendo dedilhada a cada passo, o som do salto que usava ecoando infinitamente pelo lugar. Até que tudo parou quando ela tocara em uma determinada camada de veludo escuro. Do outro lado estava Soul, sentado em frente a um piano negro o encarando ceticamente, seus dedos sobre as pernas. O pequeno demônio vermelho, trajando um terno escuro estava sentado sobre o piano, estalando os dedos em um ritmo que ela desconhecia.
— Soul?
Nada, ele nem sequer demonstrara que ouvira alguém o chamando.
Um arrepio correu o corpo de Maka, quando concluiu que aquele a sua frente não era a sua arma.
Era um boneco.
Seco, sem vida alguma, que acabara de cair sobre as teclas do piano, causando um estrondo horrível de se ouvir.
Para em seguida o som de uma serra elétrica ser ligada viciosamente.
O demônio riu.
— Parece que ele te achou gatinha.
Em um instante, as luzes azuis se tornaram borrões coloridos, enquanto Maka corria em qualquer direção que a afastasse do som. O medo subia em sua mente a níveis alarmantes, cada vez que o som se aproximava mais.
Um grito agudo ecoou pelo quarto no exato momento em que seus olhos se abriram.
O som vibrava em seus ouvidos, correndo por seus ossos como se fosse algo real.
Sua respiração estava descompassada, enquanto procurava por qualquer indício de luz.
Ainda era noite, e Maka acabara de ter um pesadelo como nunca tivera.
— Ei! Maka, o que aconteceu?
Soul e Blair estavam no batente de sua porta, ambos pareciam claramente preocupados, mas ela não conseguia articular uma resposta, estava tremendo.
E se não fosse pelos dois, ela demoraria mais tempo para sair daquele torpor que mais parecia piche.
— Eu tive um pesadelo daqueles, quase caí da cama com o susto — ela fingiu riso.
A bruxa em forma de gato se acolhera sobre as pernas da artífice, a observando com seus olhos grandes e curiosos.
— Quer que eu durma com você, Maka-chan?
Os olhos esverdeados que já transmitiram tanta esperança estavam agora nublados de insegurança, temendo que aquele som a perseguisse mais uma vez.
— Imagina Blair.
— Não — murmurou Soul — nós vamos dormir com você.
Por um momento os dois se encararam, discutindo entre sim e não para no final, ambos se espremerem em uma cama de solteiro com uma gata encolhida entre seus corpos. Estava frio naquela noite, já deveria ser tarde da madrugada e ela nem sequer conseguia pensar nisso, não quando a sombra de seu pesadelo se diluía em meio as presenças que tinha espremidas a seu lado. Em algum momento do dia ela se lembraria daquele sonho ruim, ele ainda a perseguiria por momentos da sua semana como um lembrete irritante, mas agora não era o melhor momento para pensar nisso.
Ao menos agora, Maka poderia dormir tranquilamente.
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