O barulho incessante de seu celular atrapalhava o seu sono. Recusava-se a levantar e conferir o aparelho, sabia quem o perturbava.

Uma rotina adquirida com o passar dos anos que estava o levando a loucura. Não dormia direito aos finais de semana pois ele insistia em o atormentar. Cada mensagem, cada ligação, o fazia lamentar a maldita hora em que houvera se confessado.



Veja bem, ele era apenas um jovem sonhador e, até mesmo um pouco ingênuo naquela época. Acabou se confessando, porque o peso do sentimento guardado em si estava lhe sufocando.



Não foi uma boa decisão.


Eram amigos, colegas de faculdade e vizinhos. Não tinham contato amoroso, mas estranhamente começara a apreciar as pequenas ações que o outro fazia, coisas simples. O que para os demais significariam nada para si era motivo de sorrisos bobos e noites em claro.

Toda vez que lembrava da história sentia um burburinho no estômago, um nervoso que o consumia. Se conseguisse manter a concentração naquela lembrança poderia materializar a expressão dele na sua mente. Pensou que o afastaria, que o deixaria com raiva... Claro, não fora fácil, ele ficou estranhamente pensativo. Precisou de alguns dias para que ele retornasse ao seu apartamento. Ele tinha a chave, uma intimidade que acabaram nutrindo com anos de amizade; estava dormindo e teve o desprazer de ser acordado por um moreno alcoolizado que sorria facilmente para cara resmungo que fazia. Foi a primeira vez que servira de babá; o jogou embaixo do chuveiro e lhe serviu um café bem forte. Naquela madrugada ele não parava de tocar no assunto da sua confissão, pareceu ter usado a bebida como estimulante, mas não dera muito certo. Conseguiu entender algumas palavras emboladas, sabia que ele só poderia lhe oferecer amizade e nada mais. Depois daquela noite nunca mais tocaram no assunto; resolveu deixar as coisas como estavam, mesmo que ainda se sentisse sufocar.


Apesar disso, os finais de semana começaram a ser comprometidos. Não conseguia dormir por culpa dele. Nunca fora de sair muito de casa o que obviamente dava uma vantagem para o outro, pois este sabia que o encontraria alí, disponível para o ajudar. Era oficialmente a babá do moreno.


3:45 AM

Zayn: lism

Zayn: hY

Zayn: vocebao vai vir me biscr

Zayn: lEEYUM

Zayn: psnsei q voxe me amsva

Zayn : liAM


Não entendia, por que tinha que ser justamente ele? Não é como se o moreno não tivesse outros amigos que pudessem fazer esse sacrifício. Respirou fundo, sabia que ele não tentaria ligar para mais ninguém; afinal quem seria idiota suficiente para perder uma noite de sono pra ficar de babá de um marmanjo? Olhou no relógio ao seu lado, quatro da manhã.



Se levantou, espreguiçou-se; aquela definitivamente seria a última vez que atenderia o chamado dele.



4:00 AM


Zayn: lYyyy

Zayn: trmuncsraawui

Zayn:elehbonit

Zayn: psreccimvose

Zayn: vou fslarckm ele

Zayn: xau



4:35 AM


Zayn, onde você está?

ZAYN

✔️✔️

Ótimo, mais essa agora. Tinha um Zayn Malik, bêbado, dando sopa nas ruas em plena madrugada. Quando botasse os olhos nele daria uma surra, onde já se viu o fazer passar por esse tipo de coisa.


4:50 AM


zAYN

aparece

juro que vou acabar com você

ZAYN APARECE

EU NÃO TO BRINCANDO

ZAYN JAVADD MALIK

✔️✔️


Sua mente fértil já havia criado inúmeras situações, nenhuma delas seria agradável.


O que ele estava fazendo que não poderia retornar suas mensagens? Quem era aquele rapaz com quem o moreno fora conversar? Onde ele estava? Por que insistia em o perturbar?


Estava quase tendo um ataque. Queria sair porta a fora e ir atrás dele, mas e se ele voltasse ao apartamento e não encontrasse ninguém? Queria gritar, odiava se sentir impotente.


As horas e os minutos se passavam, daqui a pouco o sol nasceria e o moreno ainda não havia dado sinal de vida. Havia até mesmo entrado no apartamento dele, nenhum sinal de sua volta. Já não aguentava mais aquele sumiço do amigo.



5:00 AM


z, onde você está?

por favor aparece

me diz onde você está

estou ficando nervoso

para logo de palhaçada

aparece


Já houvera roído todas as unhas e até mesmo a pele em volta delas, agora era seu lábio estava sendo castigado. Seu estômago resmungava alto, sentia ânsia de vômito e estava começando a suar frio.


Nunca mais se deixaria passar por isso, era a última vez, repetia para si mesmo.

Desde que a estranha rotina começara, Zayn nunca tinha sumido por tanto tempo, apesar de tudo ele sabia que Liam se preocupava e o respondia com o máximo de precisão que sua condição no momento permitia. Mas nessa noite, essa bendita noite, a mesma que Liam havia decretado ser a última ele fazia uma dessa. Havia prometido para si que não levantaria para ir atrás dele de novo, deixaria ele mandar quantas mensagens quisesse, mas não correria atrás; pois bem, agora estava em pé, cansado e desesperado, por culpa de certo par de olhos castanhos.

Se odiava por ainda nutrir algo que não tinha futuro. Eram tão diferentes e cabeças duras. Não poderiam levar aquilo adiante, mas parecia tão difícil deixá-lo.


Toda vez que decidia se afastar ele aparecia na sua porta com alguns doces e um pretexto pra se aconchegar em sua cama. Assistiam alguns filmes... Quer dizer... Ele dormia. Dizia que sua cama era mais confortável. Eram coisas assim que o faziam desistir. Tinha vontade de gritar com ele, parecia que era uma brincadeira com a sua cara, que ele estava o fazendo de idiota; tentou perguntar se era isso mesmo, uma piada, mas teve medo da resposta.


Tão estúpido aquele sentimento tolo e frágil que corria por suas veias.


Sabia que tudo aquilo era estranho, mas mais estranho seria se não tivesse se apaixonado por aquele menino do olhar singelo e luminoso.


Amaldiçoava as noites que perdera imaginando como seria estar com o moreno. Como seria ter aquele sorriso direcionado para si? Como seria sentir o calor do corpo dele? Como seria acordar ao lado daquele homem? Como era a voz dele ao acordar? Como era ser tocado intimamente por ele? Como era o sabor dos beijos dele? Teriam o gosto mentolado do cigarro que tragava? Como era a expressão que ele tinha ao atingir o ápice do prazer? Quais os pontos do corpo dele que o faziam gemer? Como era ouvir o gemido dele? Como era ouvir um eu te amo proferido por ele? Como era pertencer a ele?


Eram tantas questões, jamais obteria a resposta, isso o deixava triste. Como se tivesse recebido um soco na boca do estômago.


Amava, mas não era amado.


Estava na cozinha, servindo-se da terceira xícara de café; não conseguiria retornar a dormir mesmo; quando seu celular vibrara em cima da bancada. Nunca correra tanto para verificar uma notificação como naquele momento



6:00 AM



Zayn: aind penso no que disse

Zayn: acho q tbiem gosto de vc


Zayn, por favor

✔️✔️


Zayn: eu n quero isso

Zayn: e se eu fider tudo?


Encarava o aparelho na sua mão. Deveria estar imaginando coisas, não? Aquele não poderia ser o mesmo Zayn que o fazia pegar sua correspondência, que consistiam em revistas pornográficas e algumas contas de praxe. Havia algo errado.


O celular continuava anunciando novas mensagens. Um lado dentro de si queria acreditar no que lera e o outro queria quebrar o aparelho na cara daquele que o importunava, por todo o desespero que houvera passado.


6:05 AM


Zayn: n quero t machucar

Zayn: mas e se eu te beijasse

Zayn: e se eu quisesse vc

Zayn: eu deveria me afastar



Zayn

✔️✔️



Zayn: andei a noite inteira tentando tirar vc da minha cabeca

Zayn: mas parece impossivrl

Zayn: eu quero tentsr


Zayn, pfvr

✔️✔️


Zayn: abre a porta pra mim liam

Largou o celular na bancada e correu para a porta. Não a abriu. Se recostou nela e escorregou até estar sentado no chão.


— Você está aí?


Ouviu a voz dele através da porta. Poderia dizer que ele recostara a cabeça contra ela.


— Liam...


— É verdade?



Sua garganta doera quando falara, como se tivesse passado a noite gritando.


Ouviu o barulho do isqueiro e depois uma risada de escárnio.


— Se você me dissesse que eu estaria gostando de um homem anos atrás eu provavelmente riria, mas agora... O mundo dá voltas mesmo.


Ainda não acreditava no que ele dizia. Beliscara o próprio braço; definitivamente não era um sonho.


— Por quê?


— Olha Liam, eu não sei, ok? Eu só gosto.


— Se isso for uma piada pra você Zayn eu juro que...


— Eu gosto de você porra! Eu gosto de estar com você, eu gosto do seu jeito... Olha, eu sei que não sou uma pessoa fácil e que tudo o que eu digo agora parece ser mentira, mas não é. Eu gosto de tudo em você, mas ser só seu amigo não me é mais o suficiente.


Seu estômago estava revirado, se estava nervoso antes dele aparecer agora estava dez vezes mais. Deveria estar feliz, não? Era isso que queria, tê-lo para si. Mas algo gritava que já o tinha a muito tempo. Então, uma vontade de gritar com o seu vizinho o corroeu.


Estava sentado no chão da sala, o sol já havia raiado e mais além chegaria aos seus pés. Pensou em voltar pra cama e dormir até que tudo se normalizasse, não se sentia preparado para enfrentar aquilo, mas seu corpo parecia não o obedecer.



— Liam, abre a porta, me deixe entrar.



Malik quase caíra para frente quando subitamente a porta se abriu, ele poderia reclamar da ação repentina do outro, mas quando o viu sentiu aquela sensação gostosa, como se estivesse retornando para casa. Apesar da expressão fechada que o outro tinha a única vontade que teve foi de beijá-lo.



— Por que você só me manda mensagens quando está chapado?

Notas finais
Obrigada por estar aqui. :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!