Why did you have to go?

1 It will be alright


Notas iniciais
[aviso de gatilhos como: ansiedade, depressão, menção a automutilação & suicídio; não leiam se são sensíveis a esses temas]

eu não sei, faz tempo q não escrevo e saiu isso
narrado do ponto de vista do Hifumi

não revisada;

O outono esfriava deveras depressa no Japão, mas parecia que no distrito de Shinjuku a temperatura corria para cair o quanto antes. As folhas em degradê do momiji nos parques locais despencavam dos galhos das árvores finas e medianas ao montar um acolchoado para as crianças se jogarem e brincar.

Tudo era tingido de laranja e vermelho; lembrava seus cabelos, aqueles que eu costumava passar horas e horas cuidando sem se importar, ou às vezes, só brincando entre meus dedos. Acalmava-o, sua constante ansiedade aquietava-se de forma agradável sob meus toques.

Insisti tanto quando éramos crianças para que pudesse fazer algumas mechas coloridas neles, indo contra os ideais de seus pais. Acabou que fui julgado como rebelde ainda no primário, porém, você não ligou, apesar de também não ter ido a favor ou prestar sequer uma mínima defesa em momento algum.

Todavia, mesmo que você reclamasse vez e outra quando eu puxava sem querer um pouco mais forte seus fios, parecia que isso o alegrava e o fazia sair daquela bolha que eu nunca consegui enxergar que estava dentro.

Os anos se passaram e a fase do colegial chegou a você de forma avassaladora. Talvez, mas só talvez, eu fingi não notar o que você passava e, por momentos, também julguei errado como todos os outros, vendo a minha dor como maior que a sua.

Elas sempre tiveram pesos completamente opostos, a divergência simples entre ambas era que a minha me assombrava com elas; a sua, apenas a sua simples existência — vazia, julgada por si mesmo — bastava para o atormentar e afetar.

Nós crescemos e suas cicatrizes também. A vida adulta não pareceu difícil para você até o momento de sua entrevista de emprego se concluir e você conquistar finalmente o tão desejado — ou necessitado — trabalho.

Tudo estava bem, era o que qualquer um imaginaria. Noites mal dormidas, dores de cabeça, pressão de chefe, responsabilidades, oras, isso era a vida adulta. Do que poderíamos reclamar?

Você sempre teve pouquíssima liberdade e engolia todos os sapos um atrás do outro, desculpando-se freneticamente por mínimos erros ou incômodos que causava a qualquer coisa. Suas opiniões eram pouco expressada e suas vontades raramente ditas em alto e bom som.

O dia que você contou a mim — naquele mesmo banco de praça após um expediente puxado enquanto tomava um café industrializado barato — que queria voar, eu acabei rindo sem pensar.

Faça uma viagem, poderíamos marcar na suas férias! foi o que respondi de automático, um sorriso de zero preocupações, sendo recebido em troca pelo o seu, torto, tímido, culpado de antemão, repuxar por de trás do bebericar da cafeína.

Mas não era esse tipo de viagem ou vôo que você estava se referindo. E de todas as possíveis pessoas, você nunca iria me querer como companhia nesse içar de asas quebradas.

E, deuses, como eu gostaria de poder fazer uma viagem para onde você estava agora. Eu queria me desculpar, por tantas coisas, mas o meu maior desejo era poder te abraçar tão forte que nunca mais pudesse se soltar de meus braços.

Em nossas brincadeiras de esconde-esconde você sempre costumava se esconder ou acabar em lugares que eu tinha dificuldade de alcançar. Não conseguia segui-lo. E você era quem me julgava inalcançável.

Seu sorriso e voz ainda aparecem em meus sonhos mais recentes, a hora de dormir sendo tão desejada e tão perturbadora. Acordar e não vê-lo no quarto ao lado, dormindo pesadamente sendo uma loucura.

Às vezes parecia que você só tinha puxado algumas horas extras de expediente, afinal, precisava de dinheiro. Sua vida nunca fora fácil e todos pareciam tragá-lo para baixo cada vez mais.

Naquela noite eu esperei com o jantar à mesa recém-feito, deixando-me orgulhoso já que você sempre elogiava minha culinária. Eu estava feliz, obviamente, e não existia motivo especial. O único que eu sempre falava era você. Só por tê-lo ali era o suficiente para ser um bobo alegre e contente em fazer tanta comida e aguardá-lo para comer cada grão.

Se eu soubesse que você não voltaria daquele dia em diante para nossos jantares após a carga horária de trabalho, eu teria dito que era mais do que somente você a causa de toda minha euforia e atos.

Na verdade, eu não sei bem o que eu falaria. Eu nunca soube me expressar corretamente em vinte anos dos quais nos conhecíamos algo certo para você parar com sua autodestruição.

Teria algo que eu pudesse ter dito ou feito que mudaria aquele desfecho, afinal?

Eu não conseguia parar de me culpar e sei que era algo que você odiaria que eu fizesse se ainda estivesse aqui, mas você não estava. E o que eu poderia fazer a respeito disso?

Já havia chorado por tanto tempo que acreditava que minha dor de cabeça se tornou crônica, indo dormir e acordando com olhos vermelhos e pesados.

Aquela tarde era a minha segunda fora de casa depois de tantas semanas do seu vôo realizado com sucesso, e eu tentaria pisar no chão em voltar a trabalhar naquela noite.

Doppo, você faz tamanha falta que meu peito ainda se rasga com a imagem de seu corpo ao chão atrás do nosso prédio. Você nem ao menos foi muito longe para abrir suas asas, deveria estar cansado demais até para isso.

Você tinha um rosto tão sereno, diferente de qualquer um que já esboçou enquanto em vida.

E enquanto as pessoas tumultuavam pelo barulho da queda, as sirenes altas de ambulâncias em ruas se aproximavam ecoavam naquele espaço tão pequeno, eu só sabia fazer o que sempre fiz em todos aqueles anos quando você parecia precisar de uma companhia:

Acariciar seus cabelos em mechas azuis feitas por mim enquanto sussurrava que estava tudo bem, você ficaria bem.

Notas finais
inspirado na música da aurora, link a seguir: https://www.youtube.com/watch?v=yxFoslu4hks
obrigado a quem leu
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!