Why Try?
3 Capítulo 3
–Onde fica meu quarto, PineTree?
–Boa pergunta. Tio-vô Stan, onde vai ser o quarto do Bill? –questionei o mais velho que me olhava ainda se recuperando de tantas risadas.
–Ora, garoto, nada mais justo que o Bill dividir quarto contigo, afinal, foi você quem o trouxe pra cá. – Stan falou ficando um pouco mais sério.
–O que? –eu e Bill falamos em uníssono.
–M-mas eu divido quarto com a Mabel! Para onde ela iria? –entrei em desespero. Não é nada legal dividir quarto com seu maior e não tão pior inimigo.
–Hum... O quarto com o carpete! Vamos nos livrar daquela velharia e por pra vender, talvez. Ela finalmente vai ter o quarto que tanto queria. –o velhote deu uma risadinha e saiu do recinto deixando eu Bill a sós.
Em menos de duas horas, Tio-vô havia retirado tudo que era da Mabel do nosso quarto e colocado naquele quarto sinistro que agora era dela. Eu estava indignado, como assim eu havia sido separado da minha irmã para dividir o quarto com um doritos flutuante em sua versão humana? E a Mabel, ao invés de sentir-se como eu, estava indo imediatamente chamar Grenda e Candy para fazer uma super festa da irritação ou coisa do tipo. Essa ingrata, me arrependo amargamente de ter dividido o útero com ela!
Fui ao não tão mais meu quarto, onde encontrei Bill sentando na cama que era para ser da Mabel.
–Onde estão suas coisas? –perguntei com a cara meio amarrada.
–Aqui que não estão, ué. –ele falou meio sarcástico. –Na verdade, eu não tenho muita coisa e elas estão na minha dimensão, tecnicamente.
–Então, você não tem nada? Olhe, eu não vou gastar meu dinheiro comprando roupas pra você, já não basta dividir o quarto? –falei meio confuso, como uma pessoa muda de dimensão sem ao menos trazer roupas decentes.
–E quem disse que precisa comprar roupas para mim? –O loiro sorriu marotamente e estalou os dedos.
Quase que automaticamente, me vi imerso em uma metade do quarto a qual era estranhamente organizada. A cama da garota, que normalmente era coberta por uma imensidão de pelúcias, estava com um lençol amarelo e um travesseiro comum, a madeira da metade do quarto, que estava velha e um pouco desgastada havia sido restaurada até ficar em perfeito estado, o guarda-roupa havia enchido-se de roupas parecidas com as que o garoto estava usando. Parecia quase que novo, recém-usado. Organização era a última coisa que eu esperava de Bill Cipher.
–Wow... –Murmurei impressionado com toda a simplicidade que este demônio poderia possuir.
–Está surpreso? –ele deu um sorriso digno de levar as calcinhas das garotas ao chão em questão de segundos.
Tudo bem, eu esperava que para um demônio perturbado, o quarto dele fosse uma bagunça com coisas macabras saindo por cada lado que ele pudesse ter. Imaginei algo grandioso, digno de uma mente tão insana quanto a de Bill. Esperava qualquer coisa menos um quarto daqueles.
–Não. –afirmei e deitei-me em minha cama. Estava cansado, afinal fora um dia longo.
–Consigo sentir quando mente, PineTree. –ele afirmou voltando a sorrir e sentando-se em sua cama.
–Se consegue sentir quando eu minto, imagina o que mais consegue sentir. –sussurrei, mas de alguma forma ele ouviu e deu uma risadinha.
Apenas virei para o lado, fechei meus olhos e a escuridão me cobriu.
Eu estava correndo, estava em um lugar desconhecido. Parecia uma versão caótica do mundo que eu estava acostumado. Olhei ao redor e vi Mabel correndo ao meu lado. A garota, que costumava estar sempre sorridente e feliz, estava com uma expressão de puro terror no rosto, como se tivesse visto coisas horríveis, tivesse feito coisas horríveis. Pude perceber que no seu pescoço havia uma marca, uma espécie de tatuagem: um triângulo com um olho só.
–Dipper, depressa, se você continuar devagar assim, ele logo vai nos pegar, temos que ir mais rápido! –ela falou gritando, como se fosse uma ordem. O que, tecnicamente, era.
–O que? Correr de que? Por quê? –perguntei, começando a me assustar mais do que já estava.
–Você ficou louco? Ou já esqueceu o que ele fez? Pare de falar bobagens e corra mais depressa, bro bro. –ela me chamou pelo habitual apelido. Mas, dessa vez, de uma forma mais sarcástica, como se estivesse zombando de mim.
Continuei correndo o mais rápido que conseguia, mesmo quase morrendo por falta de ar. Finalmente reparei na minha aparência, que não estava nada boa, por sinal. Mas antes que eu pudesse dar-me conta de qualquer coisa, Mabel tropeçou em um galho e caiu. Parei instintivamente para ajudá-la.
–Não pare, seu idiota. Continue correndo. –ela gritou e logo tentou levantar-se, porém algo a fez cair novamente.
–Não, eu não vou te abandonar nesse maldito lugar. –gritei de volta.
–Vá logo s... Dipper! –Mabel gritou e logo a vi sendo literalmente sugada por uma massa negra desconhecida que estava em todo lugar, como uma constante devastação.
Parei em choque, senti as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Tudo parou por um segundo, mas logo voltou, na mesma intensidade, a realidade me atingiu como um raio e eu voltei a correr. Era isso ou minha vida também teria um fim.
A única coisa que eu conseguia ouvir enquanto corria, além dos meus passos, era uma risada completamente forçada.
Acordei alarmado, já havia amanhecido. O Bill de 17 anos estava ao meu lado, lembrando-me de que o dia anterior não havia feito parte desse sonho psicótico. Levantei-me, suado e mais cansado que quando fui dormir. Olhei para o garoto adormecido e sentei-me ao lado dele. Ele parecia tão calmo, tão sereno, tão imerso no seu próprio mundo. Quase inofensivo.
E então ele acordou.
–O que raios você está fazendo? –O loiro parecia assustado.
–Nada, oras, eu ia te acordar. –falei na defensiva. Só me faltava essa, eu tento ajudar e a pessoa vem toda desconfiada. Até parece que eu iria sequer imaginar ‘’segundas intenções’’ com Bill Cipher.
–Eu não preciso de uma babá para me dizer a horas que eu preciso acordar! –Bill protestou me olhando torto.
–Então morra se comendo com sua cama ou sei lá mais o que! –saí irritado do quarto. O dia mal havia começado e eu já estava com os nervos à flor da pele.
Realmente não seria fácil lidar com o Bill.
Depois de pronto, encaminhei-me a cozinha deparando-me com Grenda, Candy, Mabel e o Stan conversando alegremente como se não tivesse um maldito e ingrato demônio triangular dormindo sob nosso teto.
–Bom dia, bro bro! –Mabel falou dando um sorriso alegre e algo associado ao velho apelido passou pela minha cabeça, só não conseguia lembrar o que.
–Bom dia, Mabel. –respondi e cumprimentei as outras duas garotas com um pequeno aceno de cabeça. As mesmas se prontificaram a dar um sorriso comum.
Ouvi passos descendo as escadas e logo depois Bill estava ao meu lado, completamente deslocado e surpreso ao ver as visitas na cozinha. As duas garotas abriram a boca num perfeito ‘o’, como se estivessem vendo a perfeição encarnada à sua frente.
–Então, Dipper, porque exatamente elas estão me encarando? –o outro garoto perguntou com uma das sobrancelhas arqueadas. Por que somente eu não conseguia fazer isso?
–E eu que tenho que saber? –revidei revirando os olhos.
–Mabel, por que você não avisou que tem um anjo na sua casa? –Grenda perguntou dando um sorriso imenso. Eu, Mabel e até Bill rimos da menina.
Afinal, ela tinha errado feio ao dizer anjo.
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