Why Me?
27 Capítulo 27 - Nothing Matters
Notas iniciais
POV – Carl
Não comia. Não dormia. Não chorava. Resumindo, não fazia mais nada. Notei que eu estava muito magro e pálido esses dias. E eu ainda não conseguia acreditar no feito de meu pai. Não conseguia acreditar em nada. Tive de esconder todos os livros para não chorar ao ver a capa. O sofrimento era imenso. Avistei uma sombra perambular por perto. Logo, meu pai se encostou no canto da cela e olhou para mim. Eu via as fotos que tirei naquela noite em que dormimos em uma cidade distante.
Meu pai sorriu para mim e se sentou ao meu lado, com algo nas mãos. Ele estendeu o braço e vi que ele segurava uma barra de chocolate.
– Coma. Você não se alimenta há dias.
Neguei. Me lembrei de quando Mari me disse que ela não gostava de chocolate e olhei para a barra. Minha visão se embaçou por culpa das lágrimas e eu queria poder saber por que haviam matado Mari.
Meu pai assentiu e saiu da cela. Eu permaneci lá mais um pouco e me levantei da cama. Tinha certeza de que Mari não gostaria de me ver naquele estado. Coloquei meu chapéu e fui andando devagar até o refeitório. Sentei-me em uma mesa e guardei a foto em meu bolso. Carol apareceu com um prato com algumas ervilhas. Tudo me lembrava Mari. Eu já estava paranoico com isso. Já havia perdido Sophia, minha mãe, muitas pessoas, e eu apenas chorava por Mari. Eu consigo superar, pensei.
Comi as ervilhas e engasguei assim que ouvi berros do lado de fora. Devia ser Michonne voltando de uma de suas buscas. Meu pai e todos saíram do refeitório para ver o que acontecia, e eu fui junto. Avistei Michonne em seu cavalo, mas havia alguém atrás dela e outra pessoa em um carro, em seguida. Estreitei os olhos para identificar quem eram.
Perdi o fôlego por um momento. A garota que estava no cavalo de Michonne era familiar. O mesmo nariz, os mesmos olhos, o mesmo formato de rosto. As únicas coisas que mudavam era o fato de seus lábios finos e a cabeleira loira. Tive de tapar minha boca para não deixar um soluço escapar.
Michonne entrou e o carro também. Ela ajudou a garota a descer do cavalo e a porta do carro se abriu. Do carro saiu uma menina mais velha, de cabelos castanhos. Ela sorriu para todos e fechou a porta do carro. A menina loira aparentava ter minha idade, e ela sorriu, mas não para todos, apenas para mim.
– Achei essas duas em um supermercado. Estavam quase morrendo por uma horda e eu ajudei. – Mich olhou para meu pai.
Ele assentiu e se aproximou das meninas e começou a falar com elas. Uns minutos depois, ele se aproximou de mim e sorriu. As meninas foram com Beth até as celas e meu pai me cutucou.
– Aquela loirinha tem sua idade.
– E daí?
Saí pisando duro. Fui para minha cela e despejei todo o conteúdo de minha mochila na cama. A maquina instantânea e algumas fotos caíram. Eu as joguei da cama com raiva e me joguei no travesseiro. Eu não conseguia ser forte toda hora. Eu precisava chorar. Humanos choram. Eu sou humano.
Me levantei da cama e peguei as fotos uma por uma, as guardando na gaveta novamente. Vi os livros lá dentro e meus olhos se embaçaram novamente. Eu não queria chorar, não agora. Fechei a gaveta e me joguei violentamente no chão. Pousei minhas mãos sobre meus olhos e senti minha respiração em meus pulsos.
– Ela está morta. Não tem mais volta. – Repeti para mim mesmo.
Fiquei repetindo a frase até as palavras perderem seu sentido. As lágrimas finalmente chegaram e eu as deixei jorrar de meus olhos. Afastei as mãos de meus olhos e observei um pedaço de papel embaixo de minha cama. Engatinhei até lá para pegar. Era uma foto nossa. Eu abraçando Mari por trás enquanto ela ria. Coloquei a foto em meu coração e engoli todos os soluços. Me deitei na cama e coloquei a foto debaixo do travesseiro. Pousei minha cabeça e adormeci.
[...]
Acordei com fortes risadas vindas do refeitório. O lugar era longe, e não conseguia imaginar como as vozes chegaram até a cela. Levantei o travesseiro para checar se a foto permanecia lá e em seguida o abaixei. Caminhei até as escadas e fui em direção do refeitório. Ao chegar lá, todos estavam rindo e se divertindo com as garotas novas, como se a morte de Mari não lhes importasse. Senti uma pontada de irritação no peito e me sentei em uma mesa, sozinho.
Pude ouvir meu pai conversando com aquela garota morena, e ele a chamava por Adélia. Ela parecia legal, mas eu preferia a companhia de minhas fotos. Não sabia o nome da outra menina e preferia não saber. Seu rosto me trazia más lembranças, e eu não queria mais chorar.
Não estava com fome, então saí do refeitório e fui em direção do pátio. Me sentei na grama e inclinei a cabeça para cima. O céu estava claro, com o sol radiando no canto. Não havia uma nuvem sequer. Respirei fundo. Como eu queria estar morto também. Mas não tinha como me matar, meu pai tirou todos os recursos possíveis. Olhei para baixo e ouvi passos.
– O céu está lindo, não? – Aquela menina loira.
Não respondi. Ela sorriu e se sentou ao meu lado, olhando para cima.
– Sou a Kelly. – Um frio percorreu meu corpo. Já havia ouvido esse nome antes. – E você?
Ela tinha um modo de falar persuasivo. Ela me lembrava muito a... Droga. Eu precisava esquecê-la.
– Carl. – Falei.
Ela sorriu novamente e seu sorriso me parecia cada vez mais familiar. Me levantei e fui diretamente para minha cela, batendo em minha cabeça, para tentar esquecer de tudo. Esquecer do mundo. Peguei a foto do travesseiro e, quando notei, minhas lágrimas estavam caindo sobre ela. A guardei na gaveta e deslizei pela parede, até cair sentado, chorando.
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