Why Me?

69 Capítulo 69 - Order


Ajeitei minhas costas no banco desconfortável de pedra e respirei fundo, tomando o cheiro das macieiras enquanto virava a página do livro, navegando o olhar pelas palavras escritas. O Reino não era exatamente adepto ao meu tipo de movimentação; tudo ali era baseado na paz e calmaria, encontrando crianças tendo aula, pessoas pendurando roupas recém-lavadas em varais, pássaros ciscando de migalhas de pães espalhadas pelo chão… a única coisa que diferia da pausa total eram os centros de treinamento, onde os jovens atiravam flechas ou facas em alvos, mas não lutavam corpo a corpo.

Uma vaga memória de Woodbury acabou aparecendo na frente de seus olhos a se lembrar das vezes em que seus treinadores lhe ofereciam cargos cada vez mais altos e treinos cada vez mais intensivos, manipulando sua mente de criança e lhe dando o poder que não se daria para qualquer um.

Ouvi movimento perto de mim e levantei o rosto, encontrando o Ezekiel caminhando em minha direção enquanto segurava o cajado e o tigre de estimação em sua coleira, como se estivessem fazendo um passeio matinal. O homem abriu um curto sorriso ao me encontrar e sentou-se ao meu lado, deixando o tigre ao lado e me trazendo alguns calafrios ao ver cada uma das pontas de seus dentes afiados.

— Bom dia, Mari de Alexandria — cumprimentou-me.

Fiquei um tanto confusa se eu me levantava e fazia uma reverência ou seguia em minha posição. Sem muito ânimo, permaneci onde estava e sorri de canto, não muito contente.

— Bom dia — respondi e o homem virou-se para mim, como se exigisse que eu pelo menos o chamasse por rei.

Ignorando seu olhar, prossegui analisando os arredores sem demonstrar o receio de ter um tigre tão perto de mim.

— Como passou sua noite? Seu quarto te satisfaz?

— Está tudo bem, eu acho — fechei o livro e o encarei de volta. — Processo de adaptação nunca é fácil para mim.

— Para ninguém, minha jovem — respondeu o homem, acariciando a cabeça do tigre com as pontas dos dedos. — Imagino que sinta falta de seu lugar de origem.

— Depende de o que você quer dizer com origem.

— Alexandria não foi sua primeira comunidade?

Mordi o lábio inferior e neguei com a cabeça, não me sentindo muito confortável para discutir sobre Woodbury, ainda mais com um estranho. Olhei para o animal incomum e resolvi trocar o assunto.

— Qual o nome dele?

— Dela — corrigiu Ezekiel. — Shiva é um dos deuses supremos do hinduísmo, deus da destruição e renovação da energia vital. Também foi o criador da yoga.

Soltei uma leve risada com o contraste de sua seriedade para o humor.

— Vocês ensinam a lutar por aqui? — Questionei e o homem torceu a boca, não muito confortável com a conversa. Analisei suas mãos que subiam e desciam pelas coxas enquanto ele parecia formular as palavras na mente.

— Ensinamos o básico para que nossos jovens saibam se defender.

— É engraçado — comentei ao fixar meus olhos aos dele, curiosa —, vocês negam que possa haver um conflito um dia, mas sempre encontro os jovens treinando em todos os períodos do dia.

— O treino não serve apenas para a luta contra os humanos, Mari de Alexandria — respondeu o homem, ainda descontente. — Caso nossos muros caiam um dia, nossos jovens saberão como se defender dos mortos.

— E caso se deparem com vivos? — Lhe lancei um olhar desdenhoso e o homem fechou sua expressão.

— Então veremos, mas a possibilidade é baixa — o homem levantou-se do banco com rapidez e voltou o sorriso nos lábios, contrastando com o restante de seu rosto que mais expressava raiva. — Tenha um bom dia, Mari de Alexandria.

Com isso, Ezekiel saiu do local e caminhou na direção de onde ficava o auditório. Percebi que belisquei seu nervo logo que sua expressão fechou, e não me arrependi um único instante de tê-lo feito. O fato é que eu já estava me cansando de ver lugares que fantasiavam um mundo perfeito e não tinham noção do que era a realidade atual. Gente que acreditava que morreriam após vários anos de vida sentados em uma varanda, observando o sol, não eram meu tipo de pessoa. E me irritavam.

Eu segui com o plano de Carol mesmo no Reino. As pessoas não precisavam saber sobre meu passado, e com certeza nenhum deles sabia, então me fora um problema a menos. Naquele meio, eu era apenas a garota que caminhava com um livro nas mãos e lia sob a sombra das árvores enquanto observava a paisagem cautelosamente. Não conversei com ninguém além de Ezekiel nos últimos tempos, conectando-me apenas comigo mesma; ora ou outra encontrava Daryl e Morgan, mas não puxava assunto. Cada um com seus problemas.

Naquela manhã, sendo a primeira, quis que a impressão fosse boa. Coloquei minha camiseta branca com as calças verdes junto da jaqueta preta. Ajeitei meu cabelo após penteá-lo algumas vezes e prendi a franja atrás da orelha para evitar que ela ficasse caindo sobre o rosto. Meu quarto no alojamento tinha alguns suprimentos que eu nunca havia imaginado que veria novamente, como maquiagem e esmaltes, o que me intrigou. Eu não sabia usar nenhum dos dois, então coloquei-os de lado.

— Hm… oi — chamou alguém atrás de mim e virei-me no mesmo instante, fincando as unhas sobre a capa do livro em susto.

Encarei a figura de uma mulher que usava saia longa e uma bata branca que voava com o vento. Ela estava no auge da idade e tinha os cabelos castanhos desbotados presos em um coque bem feito.

— Meu nome é Amelia — comentou ela. — Você é a Mari, certo?

Assenti lentamente, ajeitando-me no banco.

— Bem… o Ezekiel pediu para que eu te avisasse sobre como funciona o sistema no Reino.

— Hm… ok?

— Certo — a mulher murmurou para si mesma e sentou-se ao meu lado, não agradando muito com sua presença, mas procurei sorrir mesmo assim. — Para os jovens nós trazemos períodos de estudo e períodos de treino básico. De onde você veio há escola?

— Havia — respondi e torci a boca. — Mas a professora morreu.

— Ah… entendo. Quantos anos você tem? — Neguei com a cabeça e ela entendeu o que eu queria dizer. Quando o apocalipse começou, eu podia me lembrar de minha idade, mas a partir do momento em que os conflitos surgiram fora de Woodbury, eu já havia parado de contar. — Por volta de dezesseis, não seria?

— Talvez.

— Enfim, nós temos as aulas no período matinal todos os dias da semana e o treino apenas nas segundas, quartas e sextas — Amelia seguiu dizendo. — É obrigatório, mas Ezekiel disse que em sua antiga comunidade havia treinamento, então fica opcional se você deseja ou não participar.

— Claro — sorri. — Eu não tenho muito jeito com movimentos e tudo mais.

— Isso melhora com nosso treinamento — a mulher sorriu, convencida. — E de qualquer modo, como você veio sem família, deve contribuir em algo.

— Quais são as opções? — Abri um curto sorriso, entrando no papel.

— Podemos fazer um pequeno tour enquanto eu te mostro, o que acha? — Sugeriu Amelia e eu me levantei do banco, caminhando para perto dela.

A mulher caminhou pela calçada da rua principal, seguindo pelos campos de hortaliças e os passos lentos perante aos guardas que corriam sobre o asfalto, treinando. O cheiro de terra úmida e flores silvestres invadiu minhas narinas e procurei abraçá-lo como uma das vantagens de ter sido deixada naquele local. A paisagem era perfeita, e as pessoas também, e isso me incomodava.

— Aqui temos nossas hortas gerais. Plantamos de tudo, desde batatas até abóboras e colhemos ao fim do ciclo, arrancando sementes para mais. Para ser sincera, eu acho que esse é o melhor trabalho que temos por aqui, já que mexer com a terra é como um calmante natural — Amelia acrescentou um curto sorriso nos lábios, observando as pessoas com os braços cruzados. — Também temos os campos de flores, que não são realmente necessárias, mas gostamos de mantê-los apenas para um hobby de nossos jardineiros. Às vezes distribuímos algumas delas em ocasiões especiais.

— Isso é bom — comentei, cruzando as pernas enquanto analisava por cima.

— Sim, mas vamos, temos mais estações.

Sorri e segui-a rua afrente. Amelia caminhou só mais alguns passos até chegar ao lugar que mais me parecia como um centro de treinamentos sem o treinamento. Alguns jovens atiravam flechas em alvos que eram sacos de palha e se ajudavam com a mira e postura. O que me intrigou foi ver alguns deles que não tinham braços ou pernas, usando membros de metal no lugar, como o que Merle tinha muito tempo atrás.

— Aqui é nosso campo de treinos. Em nossa frente temos o arco e flecha, que é um sucesso entre os jovens; mais para a direita tínhamos alvos para tiros e para a esquerda era o campo de treino corpo a corpo, mas o rei resolveu abdicá-los.

— Posso perguntar o porquê?

— Bem… ninguém sabe ao certo, já que ele evita o assunto, mas alguns acham que foi após uma de nossas guerras que acabou com a vida de muitos — comentou Amelia, abraçando o próprio corpo. — Que Deus tenha suas almas.

— E ninguém reclamou sobre?

— O que há para reclamar? Estamos seguros! — Amelia jogou os braços para cima e riu, como se eu tivesse lhe contado a melhor das piadas.

[…]

Após o tour, apenas sorri para a mulher e disse que pensaria melhor sobre meu trabalho. Nenhum ali se encaixava com minhas habilidades. Era tudo sobre limpeza, colheita, serviços de quarto, cozinha e coisas que eu não sabia fazer nem que me pagassem para. Talvez eu pensaria uma segunda vez sobre trabalhar na biblioteca, já que era o mais próximo de mim, mas eu ainda sentia uma leve necessidade de ajudar com ataque e defesa.

Era muito tolo da parte de Ezekiel acreditar que todos ali estariam salvos eternamente. Seu trato com os Salvadores me soava fraco, como se pudessem sofrer ataques a qualquer momento por conta da bipolaridade de Negan, e mesmo assim, o homem que liderava o reino das fantasias parecia ignorar todos os sinais. Chacoalhei a cabeça e desisti de pensar sobre, já que eu apenas estava naquele local para me esconder e não para criar qualquer revolução. Até porque eu poderia ser expulsa por minhas ações.

Respirei fundo e ajeitei o livro em meus braços, seguindo o caminho para a biblioteca, determinada a trocá-lo por um novo. Apenas em dois dias eu já havia lido três, e isso significava que eu não estava fazendo nada além, me desesperando cada vez mais.

Cheguei ao grande prédio de tijolos vermelhos e empurrei a porta de madeira, emitindo um ruído que ecoou entre as estantes cheias de livros já velhos. Caminhei com passos que marcavam os sons do carpete em oco e segui para a estante de livros devolvidos, depositando o que estava em meus braços. Com isso, andei até as estantes categorizadas em suspense e procurei por algum romance policial que pudesse me intrigar nas próximas horas. Peguei um dos livros e percebi que estava novo, como se ninguém ainda tivesse pousado seus olhos entre as páginas. Li a sinopse e me interessei, caminhando até o balcão para poder assinar que o livro estava comigo.

O atendente atrás do balcão não parecia muito interessado na movimentação atrás de si, já que estava de costas para mim enquanto batucava os dedos sobre as estantes de devolvidos. Procurei por uma caneta para assinar a tabela, mas acabei sem encontrá-la, então pigarreei para chamar a atenção do garoto. Vendo que ele ainda não havia percebido, revirei os olhos e caminhei em sua direção, cutucando seu ombro.

Percebi que o garoto havia retirado fones do ouvido e a música começou a zumbir no ar, contrastando com o silêncio estabelecido ali. Seus olhos pairaram sobre os meus e abri um curto sorriso de saudação.

— Desculpe, você vai levar esse? — O jovem colocou-se de pé e pegou o livro de minhas mãos. — "O Amanhecer Noturno". Ótimo livro, recomendo!

— Ainda bem, faz tempo que não leio algo sem ser repetido — revirei os olhos e o garoto riu.

— Nova por aqui?

— Cheguei esses dias — respondi e o moreno sorriu novamente.

— E o que acha? — O garoto carimbava o livro enquanto me olhava de relance.

— Não sei. Não tenho muito a dizer — umedeci os lábios enquanto pegava o livro de volta. — Odeio adaptações.

— Uh, adaptações — sua expressão se contorceu em forma de nojo e suavizou em seguida, acompanhada de uma leve risada.

E eu me encontrei rindo também junto do garoto da pele cor de cacau. O mais engraçado era que eu não estava focada em seguir o papel que cheguei atuando.

— Sou a Mari — torci a boca rapidamente.

— Wikus — respondeu ele e esticou uma mão em forma de cumprimento. — Já que você é nova por aqui, o que acha de ser apresentada para uma galera legal? Meu turno acabou há dez minutos.

— Ótimo — sorri e ele saiu detrás do balcão.

[…]

Wikus e eu seguimos para fora do local lado a lado, conversando sobre coisas idiotas e rindo de coisas mais idiotas ainda. Era bizarra a maneira como eu me senti bem apenas de conversar com alguém que não fosse o Carl, sabendo que ele me conhecia e já tinha em mente cada fala que eu poderia dizer. Com Wikus era legal, pois ele não tinha a mínima noção de quem eu era e, assim, não julgaria.

Seguimos em direção à um prédio como o que eu estava hospedada, mas este era do outro lado da cidade. Wikus fez um sinal para que subíssemos as escadas e eu segui sua figura iluminada pelas velas acesas.

— Nós estamos indo para o apartamento do Ermes, todos estão lá — comentou Wikus enquanto seguia para a próxima escadaria, arfando. — Não se preocupe, eles são gente boa.

Assenti e segui o caminho. Logo que chegamos ao que presumi que fosse o terceiro andar, Wikus caminhou corredor abaixo e bateu na penúltima porta rapidamente, aguardando e me lançando um curto sorriso ao perceber um traço de meu nervosismo.

Estar perto de tanta gente rodeando minha idade apenas para passar o tempo não era algo que eu havia me acostumado a fazer. Talvez eu tenha perdido muito da adolescência e devesse aproveitar, mas ainda assim, eu estava nervosa. Nervosa de conhecer e interagir com gente nova, já que minhas experiências anteriores não foram as melhores.

A porta se abriu e revelou um garoto pálido de cabelos bem escuros penteados para trás. Ele tinha a estrutura magra e vestia roupas… intrigantes. O suéter era um tanto sofisticado demais e as calças de grife não combinavam com as tendências do apocalipse.

— Wikus — sorriu o garoto e tentou se aproximar do moreno para um abraço e os dois acabaram não se encontrando, então desistiram e mantiveram-se nas posições originais em um momento embaraçoso demais. — Hm… quem é esta?

— Essa é Mari, ela é nova aqui então pensei em trazê-la para apresentar aos outros.

— Ah, sim, prazer, Moore — o garoto estendeu a mão e seu sotaque britânico ressaltou logo que ele disse meu nome.

— É Mari — corrigi e saudei-o. — M-A-R-I. Mas a pronúncia é a mesma.

— Oh, perdão. O sotaque — o garoto sorriu e fez um sinal para que eu adentrasse o local.

— Eu entendo — sorri de canto. — Meu pai era britânico também.

Caminhei para dentro junto de Wikus enquanto Ermes fechava a porta. Ali dentro estavam duas garotas sentadas no pequeno sofá dividindo um cigarro e no outro sofá havia um garoto mais jovem que jogava xadrez sozinho, ao que parecia. Pressionei um lábio ao outro e encarei as pessoas que me encaravam de volta.

— Wikus trouxe companhia — afirmou Ermes ao caminhar para o centro da sala, seguindo até o sofá onde estava o garoto com o tabuleiro de xadrez. — Essa é Mari.

— Venha, vou te apresentar — Wikus pegou meu pulso e me deixou um tanto alarmada, mas relaxei, lembrando que não havia perigo naquelas pessoas.

Seguimos até o sofá com as duas garotas. Elas pareciam estar conversando, mas pararam logo que nos aproximamos. Uma delas usava uma touca preta e tinha fios claros caindo aos ombros enquanto a outra tinha fios curtos e escuros enquadrando o rosto com traços asiáticos.

— Estas são Indigo e Ava — apresentou Wikus enquanto as garotas levantavam as mãos em formato de aceno. — Na maior parte do tempo, elas são insuportáveis, mas se você tiver sorte, elas serão legais.

— Cala a boca, Wikus — revirou os olhos a de fios claros, Indigo. — Não dê ouvidos para ele. Normalmente tem uma vara enfiada bem fundo no…

— Certo, In — a outra garota cortou-a com um leve riso. — Você é nova, certo? Acho que não te vi nas aulas.

— Eu começo amanhã — respondi e ela assentiu. — Vocês estão aqui há quanto tempo?

— Muito — prosseguiu Ava. — Mas é o melhor lugar possível. Minha família está com Ezekiel desde o começo, praticamente.

— Eu cheguei há alguns meses — comentou Indigo e apontou para o garotinho no sofá. — Somos eu, o Clay e nosso irmão mais velho, Storm.

— Pode rir, os pais da In tinham obsessão com a natureza — afirmou Ava.

— Eles curtiam essas paradas hippie — prosseguiu Indigo, empurrando a amiga levemente. — De qualquer modo, seja bem-vinda, Mari.

— Obrigada — sorri e voltei o foco no cigarro que pousava na mão de Ava.

Ela pareceu ter notado, pois me ofereceu com um curto sorriso no rosto.

— Se você quiser…

— Ah, eu estou bem, obrigada — sorri novamente e Wikus abriu outro sorriso.

— Pelo menos alguém preserva o pulmão — replicou ele e um riso suave escapou de mim. — Mas vamos conversar mais, Mari, quero saber sobre você.

Por mais que todas aquelas pessoas parecessem de confiança, ainda assim, eu não queria abrir espaço no muro que demorei para construir. Mantive o sorriso no rosto e lembrei-me de quando Carl foi embora, apenas dizendo que "eu me sairia bem". Antes, eu não teria entendido, mas tendo em vista toda a situação entre os Salvadores e Alexandria, eu conseguia ter uma vaga noção do porquê de estar ali.

O fato era que Morgan não concordava com o Reino se unindo à guerra, e Daryl… Daryl era o Daryl, e não saía muito de seu papel. Mas Carl sabia que eu conseguiria convencer a nova comunidade a se juntar, até porque eu estava seguindo passos de uma cidadã de confiança, e talvez, tudo aquilo pudesse cair bem em minhas mãos. E aquele seria meu dever.

— Eu não sou muito interessante — afirmei com um largo sorriso. — O que você quer saber?

— Hm… de sua vida antes ou durante o apocalipse. Eu tenho curiosidade para saber como as pessoas chegaram aqui.

— Ah… bem, eu não me lembro muito — meu sorriso falhou um tanto com a sinceridade. — Sei que minha família não está mais entre nós, e meu… Carl, me deixou aqui.

— Seu Carl? — Questionou Ava, tragando.

— Eu entendi! — Indigo intrometeu-se, sorrindo um tanto malicioso. — Envolvidos romanticamente, certo?

— É, sim.

— E ele te deixou aqui? Simplesmente? — Questionou Wikus ao arquear uma das sobrancelhas. — Qual a finalidade?

— Nossa comunidade foi ameaçada — torci a boca. — Estava perigoso demais e o Rei permitiu que eu ficasse alojada aqui.

— Oh, certo — complementou o garoto.

— Eu nunca fui boa em me defender ou usar armas — soltei uma leve risada. — Sério, muito ruim. Mas eu escutei que aqui tem treinamento, certo?

Ava e Indigo se entreolharam enquanto Wikus parecia estar em seu próprio mundo.

— Bem… é algo mais voltado para o básico do básico — respondeu Ava, mordendo o lábio inferior. — Na verdade, nunca nos rendeu de muito. Quem treina mesmo são os guardas da cidade.

— E vocês nunca exigiram o treinamento? — Questionei, intrigada.

— Por quê? — O moreno pareceu caçoar de minha questão. — Estamos seguros aqui.

[…]

Naquela terça-feira — que eu tive de começar a acompanhar por ter um calendário pregado no quarto e novos deveres — tivemos aula de manhã. Não era algo que eu pensava muito ou contava quando listava coisas das quais eu sentia falta do mundo anterior, mas agora eu podia dizer que eu definitivamente não sentia falta alguma.

Em primeiro lugar, eu havia saído tarde do apartamento de Ermes, acompanhada por Wikus que morava no mesmo bloco que eu. Naquela noite, após o moreno me afirmar que não havia problema algum no Reino, fiquei ainda mais intrigada e procurei tirar algumas dúvidas dele, mas todo o assunto tomou uma outra rota que acabou com Wikus dizendo o quanto ele gostava do britânico e eu revirando os olhos.

Durante a aula, eu quase dormi enquanto a suposta professora tentava explicar algum sistema matemático do qual eu não tive o mínimo interesse em prestar atenção, mas fingi do mesmo jeito. Ali tentei conversar com outros alunos para que pudesse entender suas mentes, e, infelizmente, todos achavam que não havia motivo para treinos mais avançados.

Então, naquela tarde, cheguei em passos tempestuosos e me encontrei batendo na porta do auditório com raiva borbulhando em meu sangue. Jerry, o companheiro de Ezekiel, me atendeu e abriu seu imenso sorriso, tentando ser alguém agradável do qual eu não dava a mínima.

— O Rei está ocupado! — Afirmou ele e eu torci a boca.

— É realmente importante, Jerry.

— Não posso atrapalhar o Rei, senhorita, volte para…

Desviei de sua figura e corri para o centro do auditório, encontrando Ezekiel que conversava com um de seus guardas, sendo este aquele que nos acompanhou enquanto deixávamos o local. Lembrei-me de que este era o homem que concordava com a união das comunidades e sorri para mim mesma. Ótimo momento.

— Mari de Alexandria, eu estou no meio de uma conversa a qual não lhe condiz — o rei não parecia muito alegre, mas mesmo assim eu permaneci.

— É importante, vossa majestade — respirei fundo e não aguardei permissão para começar a dizer: — Eu espero que você tenha noção de que seus súditos ou sei lá o que você chama não tem um pingo de consciência de que os Salvadores existem. Eles acreditam que não exista uma única ameaça e de que o Reino é o suposto paraíso, mas não é. Você já devia saber do que Negan é capaz.

— Eu sei do que ele é capaz — o rei continuou irritado, mas seu guarda sorria genuinamente. — E não aprecio que venha me confrontar assim, jovem garota. Não está em suas mãos decidir o que será dessa comunidade.

— Mas está em minhas mãos decidir o que será da minha — aumentei o tom de voz. — Evidentemente, o senhor não tem a mínima ideia de quem é Negan. Apesar de ter comentado sobre a tal guerra e sua desistência, o que eu acredito ser um ato de covardia, não sabe do que ele é realmente capaz.

— Então conte-me, Mari de Alexandria, sobre sua experiência pessoal com tal alma — respondeu o rei.

Eu quis contar. Quis abrir minha boca e despejar tudo que Negan já havia feito para nós e tudo que ele fez ao trazer problemas para minha sanidade. Mas eu não contei.

— Eu posso treinar essas pessoas! Seus guardas podem ajudar, Daryl, Morgan… vários! Tudo pode se acertar se houver esse tipo de trabalho, e nós precisamos disso mais que tudo.

— Sinto muito, senhorita — o rei continuou com a expressão fechada. — Retire-se, é uma ordem.

— Ezekiel! Eu conversei com os moradores e a maior parte disse estar segura aqui dentro! — Exclamei, sem paciência e notando alguns dos guardas se aproximando de mim. — Você sabe que não há como prometer isso para essas pessoas. Não há um lugar seguro!

O rei apenas me encarou com desdém enquanto seu guarda ao centro do auditório me lançava um curto sorriso de apoio. Respirei fundo, aguardando ansiosa pela resposta do outro que se sentava sobre o trono. Após alguns segundos de silêncios e dois guardas me cercando, Ezekiel pronunciou-se:

— Tirem-na daqui — ordenou e senti meu corpo estremecer de nervoso. — E não ouse mais atrapalhar a calmaria dos cidadãos; caso contrário, será enviada ao exílio.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.