Why Me?
60 Capítulo 60 - Cold floor
Notas iniciais
— Bem, mocinha, você poderá dormir em sua própria cama hoje — Denise disse ao descruzar os braços para erguer um dedo de aviso em minha direção. — Mas sem qualquer movimento brusco, senão os pontos se soltarão. Aí você já conhece a dor.
A enfermeira se encontrava encostada à minha maca, olhando fixamente para mim e para Carl, que acabamos por desfazer alguns pontos em encontros. O garoto sorriu para mim com suas írises azuladas miradas às minhas. Denise dizia aquilo apenas porque sabia que eu havia quase chorado ao ter que costurar minha pele novamente.
— Eu a levarei para casa — disse Carl, já segurando minha mão.
— A casa dela — completou Denise.
— Mas… — protestei, mas a mulher olhou para mim de modo fatal.
— Não. A sua casa. Sem “mas”. — A enfermeira revirou os olhos e se retirou do quarto, voltando apenas para finalizar sua fala: — Peguem a cadeira de rodas no andar debaixo.
Assentimos e esperamos a mulher sair do quarto para deixarmos nossas risadas soarem ali. Todos os outros pacientes haviam sido curados, com exceção de pouquíssimos, que ainda repousavam. Era tarde, horário do céu ser pintado por aquarelas alaranjadas, e logo, pelas negras.
Carl apertou ainda mais minha mão e levou-a aos seus lábios, ali depositando um beijo suave, sorrindo em seguida. Ele vestia uma outra blusa, em tons verdes, junto de seus velhos jeans e o chapéu fazendo falta sobre seus fios longos. Me perguntei se ele havia implorado para Jessie não cortá-los.
— Melhor irmos logo — disse ele. — Quero que você já esteja na cama assim que a noite chegar.
— Você parece uma mãe — sorri enquanto ele exibia um movimento triste com os lábios, e me perguntei se havia tocado em uma ferida.
— Vamos — cortou o assunto, tocando minhas costas para que eu me levantasse.
Assim que me coloquei sentada na cama, ele me ajudou a descer dela e apoiou meus braços em seu corpo, me guiando na direção da escadaria. Nessa posição, fomos descendo degrau por degrau até meus pés fracos encostarem ao chão revestido em madeira fria. Eu estava descalça, e praticamente sem roupas para sair, apenas com a camisa branca que Denise havia colocado em mim, juntamente dos shorts de malha. A grande faixa rodeando minha cintura nua, bem exposta.
— Denise disse que suas roupas estão na lavanderia, então vão entregar mais tarde em sua casa — Carl disse ao me encostar à parede e pegar a cadeira de rodas no canto da sala, estendendo-a para que eu me sentasse.
— Certo — respondi ao me apoiar em seu ombro para me sentar.
— Diga adeus à enfermaria — disse ele ao massagear meu pescoço enquanto me encostava à cadeira. — Porque você nunca mais vai voltar para cá.
Sorri para ele em consentimento. Mas eu tinha o infeliz pressentimento de que estaria de volta ao local cedo, e não seria algo bom.
[...]
Quando havíamos chegado à varanda de minha casa, Carl me ofereceu o braço para que eu me apoiasse enquanto subia a escada. Deanna esperava sentada em um dos bancos, sorrindo levemente para mim. Assim que subimos todos os três degraus, a mulher tocou meu rosto, me dando um abraço lento e suave, para que não machucasse minha barriga, a área ainda sensível.
— Fico feliz por estar bem — saudou-me com as palavras.
— Obrigada — respondi ao me afastar dela, ainda apoiada em Carl. — De verdade.
— Sua cama está arrumada. Eu até lhe ajudaria a subir e dar apoio, mas parece que Carl já está aqui para isso.
Eu e o garoto trocamos um olhar rápido e sorrimos. Logo, direcionei minha visão para Deanna, que ainda sorria. Apenas retribuí os movimentos labiais, como forma de agradecimento, e caminhei para dentro da casa junto de Carl. Subimos todos os degraus lentamente, com cuidado para que eu não caísse ou fizesse movimentos rápidos que pudessem desmanchar os pontos de costura.
Por sorte, meu quarto era o primeiro do corredor, e já estava de porta aberta. Apenas apontei um dedo para a entrada, indicando-o para Carl, e o garoto assentiu. Quando adentramos, ele me posicionou na cama, primeiro me colocando sentada para depois me deitar. Eu não precisava de ajuda para isto, mas ele estava se esforçando tanto que deixei.
— Você tem noção de que horas são, mais ou menos? — Perguntei ao analisar a janela fechada. O quarto estava escuro, sem qualquer luz refletindo na parede de desenhos.
— Creio que já está perto das 21. Está tarde e você precisa dormir — ele respondeu ao sentar-se ao meu lado.
— Não está tarde.
— Está sim, ainda mais para uma garota machucada.
Reposicionei meu corpo no travesseiro, tentando não ficar totalmente deitada. O garoto estava de costas para mim, mas com o torso virado em minha direção. Seus olhos encaixados fixamente em minhas órbitas. Enroscou seus dedos aos meus, fazendo movimentos circulares pela minha mão com sua outra. Ele sorriu lentamente, o que acendeu um sorriso em meus lábios.
— Seu pai se importa se você dormir aqui? — Perguntei, apertando sua mão ainda mais forte.
Ele negou com a cabeça de imediato, o que me fez alargar o sorriso. Puxei sua mão, o que o fez levantar-se rapidamente, olhando para mim.
— Não posso dormir de jeans — respondeu. — É totalmente desconfortável. Você se importa?
— De modo algum — respondi e passei a mão em meus cabelos.
O garoto corou, talvez tendo interpretado minha frase para algo mais intenso do que era para ter soado. Ele se virou de costas e desabotoou a calça, deslizando ela pelas pernas. Procurei olhar para o outro lado, tentando não o deixar tão constrangido. Eu, no caso, não tinha roupas para remover, já que estava usando apenas a camiseta da enfermaria e os shorts de malha. Sutiã era o de menos, pois não tinha muito busto.
Assim que ele terminou, deu a volta na cama, enfiando-se debaixo das cobertas, de frente para mim. Nós normalmente dormíamos virados na mesma direção, abraçados de costas, mas dessa vez, seu braço atravessou meu pescoço e eu acabei por ficar contra seu peito. Como ele era maior que eu, seu queixo descansou acima de minha cabeça, enquanto sua mão estava pressionada de modo leve acima de minha cintura. Tentei me curvar na cama, mas os pontos acabaram por ser pressionados, o que me levou à dor. Desisti então e procurei ficar confortável junto do moreno.
[...]
Quando acordei, ainda estava no conforto dos braços de Carl. Me movi para ficar mais confortável e não deixá-lo com dor no resto do corpo. Depositei um beijo sobre seu nariz e o garoto começou a abrir seus olhos, assim, exibindo um curto sorriso no rosto. Em seguida, um bocejo. Suas írises estavam em um tom radiante, como se houvesse acordado de ótimo humor. Sorri enquanto tocava suas bochechas.
— Como está sua barriga? — Perguntou em um sussurro.
E eu havia me esquecido. Olhei para baixo, tocando o tecido de minha camisa para sentir os pontos. Quando as pontas de meus dedos encostaram a pele, senti um leve incômodo, mas nada muito dolorido. Voltei meu olhar para o garoto à minha frente e levantei uma das sobrancelhas.
— Não dói — disse eu ao puxar um sorriso lateral.
— Que bom. — Carl passou uma de suas mãos para minha cintura, tentando me puxar para mais perto dele. Quando me aproximei, o garoto depositou um curto beijo sobre minha bochecha e deitou o rosto na ligação do pescoço com o ombro, deixando as mechas escuras fazendo cócegas sobre meu queixo. Coloquei minha mão sobre sua cabeça e dancei meus dedos fio por fio. O calor de seu corpo era quase como um desejo real. — Bom, por mais que não doa, ainda precisamos cuidar.
Ele removeu o rosto de meu pescoço e retirou uma mecha de meus olhos, passando o polegar em um movimento circular sobre minhas maçãs. Torci a boca e olhei para baixo, tentando evitar seu olhar sob mim.
— Vamos, levante-se! — O garoto pulou da cama em um impulso que chegou a me assustar.
Pegou suas calças no chão do quarto e as voltou para a cintura. Tentei evitar a visão, mas não fora muito efetivo. Eu ainda usava os shorts de malha que Denise havia me conseguido, mas não eram roupas para usar no meio de outras pessoas. Notei que havia um cesto de roupas e imaginei que fossem as minhas que Deanna havia colocado para lavar. Como no dia em que levei o corte eu vestia uma regata branca que trouxe comigo desde Woodbury, não sofri com a perda. Peguei minha calça esverdeada e coloquei-a, não levando em conta que Carl estava no quarto.
Colocou-se sentado sobre a ponta da cama enquanto eu colocava os sapatos de volta aos pés e amarrava cada cadarço que subia o cano da bota. Carl sorria enquanto observava meus dedos se movendo para formar um laço e tocou minhas costas levemente, como um sinal para que eu me levantasse. Assim que o fiz, o garoto caminhou quarto afora, não antes de pegar seu chapéu e posicionar em seu devido lugar, e eu o segui.
— Para onde vamos? — Perguntei enquanto atravessava o aro da porta.
— Meu pai encontrou algumas peças de roupas ontem. Ele trouxe para os cidadãos, mas acho que ainda sobraram umas — disse o garoto assim que tocou o corrimão da escada, descendo com pressa. — Sabe, você precisa de novas calças.
— Não há nada de errado com as minhas — falei ao olhar para o par de jeans esverdeados que estavam em meu corpo. Certo que tinha alguns cortes e manchas de sangue que não saíram na lavagem, mas ainda assim, era algo que dava para usar por mais tempo.
— Agora que somos cidadãos também, Mari, temos de andar parecendo com cidadãos.
Tentando digerir sua frase, olhei para ele e notei que o par de jeans rasgado e com remendos não muito bem feitos não estava mais sendo utilizado por ele. Foram substituídos por novos jeans pretos e a camisa xadrez havia sido trocada por uma camisa de mangas longas e uma pequena abertura na gola.
— Quem disse que seremos estes cidadãos perfeitos, Carl? — Perguntei um tanto indignada com sua frase anterior.
— Você não gostaria de ser? — O garoto pulou o último degrau e virou-se em minha direção.
— Não tenho certeza. O mundo afora me soa tão familiar…
— Mas creio que a segurança se encontra aqui — Carl disse ao pegar em minha mão para que eu descesse os últimos dois degraus. — Lá fora sempre vivemos em desespero, amedrontados com o tempo e as situações que não eram nada fáceis. Além do mais, não sabemos os outros grupos que ali se encontram, mas já lidamos com vários. Os Wolves, Terminus, Governador…
— Eu sei, mas… — travei ao ouvir sobre o Governador.
— Nunca saberemos o dia de amanhã, ou o próximo minuto. Estaremos sempre presos na dúvida do futuro e sem saber lidar com o que estará para vir, mas não é essa a graça da vida? — Perguntou ele ao entrelaçar seus dedos aos meus rapidamente e beijar as costas de minha mão.
Eu sabia que, no fundo, concordava com ele. Mas tinha medo de permanecer eternamente naquela comunidade. Não me soava como algo bom, mas sim como uma gaiola e eu era um dos pássaros ali preso. E talvez aquela não fosse a vida que eu queria levar, mas me parecia seguro, como Carl disse. Sendo seguro, mantendo todos ao meu redor em segurança, era tudo que eu podia desejar. Um de meus medos era que ocorresse o mesmo que houve com a Prisão e Woodbury. Caíram de modo repentino, sem qualquer aviso prévio, e causaram dezenas de mortes e tragédias. Apenas por um conflito mal resolvido.
Carl caminhou para fora da casa e eu fui logo atrás. Naquela manhã, o dia estava ensolarado, com poucas nuvens cinzentas para o fundo da paisagem. Senti a brisa fria e me questionei sobre tê-la sentido anteriormente. Lembrei que, naquela hora, eu estava sem qualquer casaco ou jaqueta. Mas também não incomodaria Carl com a temperatura.
— Onde estão as roupas? — Perguntei, analisando o caminho que seguíamos.
— No arsenal — ele respondeu e olhou para mim enquanto eu o alcançava.
Andando lado-a-lado, seguimos a rua na direção da famosa casa onde o arsenal era estabelecido. Aquela mesma que eu invadi e destruí uma poltrona inocente. Chegamos ali em pouco tempo, e Carl bateu na porta duas vezes, esperando ao meu lado. Quando fora aberta, revelara o corpo de Olivia encostado ao vão, olhando para nós com os olhos estreitos e a famosa prancheta em mãos.
— Posso ajudar? — Perguntou de maneira séria, olhando para a prancheta mais uma vez.
— Viemos pelas roupas — afirmou Carl.
— Andar de cima — a mulher olhou para mim como se guardasse toda a compaixão possível para revela-la naquele olhar. No momento, não sabia o motivo dela estar me fitando de maneira tão triste, mas notei que eram visíveis as bandagens amarradas em minha barriga. Fora o fato de que toda a comunidade pudesse ter visto e comentado o acidente que ocorrera comigo. “Uma bênção que ela não esteja morta”.
Assentimos e subi as escadas na frente do garoto, que agora me seguia. O corredor de cima tinha apenas três quartos, e o primeiro era o que tinha uma placa indicando as vestes. Foi para lá que me direcionei de imediato, encontrando várias caixas e mancebos em ordem.
— Achei que não fosse sobrar nada — admiti enquanto analisava todas aquelas roupas dobradas e ajeitadas nas devidas categorias. — Tem mais do que eu pudesse imaginar.
— Vamos encontrar algumas camisetas e um jeans novo para você — Carl disse ao caminhar para as calças. — Um dia você vai me agradecer por ter se livrado desse.
— Eu não pretendo dar fim neste. Só usarei outro par pelo momento — revirei os olhos enquanto colocava as mãos nos bolsos traseiros de meus jeans. — Agora, mãos à obra.
Carl pegava as peças uma por uma enquanto analisava tamanho. Algumas ele havia me dado no dobro de minha medida e eu só pude cair na risada. Enquanto ele procurava por calças, eu procurava por camisas. Sabia que o frio estava chegando e não poderia passar o inverno todo sem casacos. Encontrei algumas peças que prestassem e imaginei que fossem de meu tamanho. Escolhi uma camiseta verde-musgo e duas blusas de mangas longas, sendo elas uma branca de mangas pretas e uma branca com listras azuis. Olhei para o garoto ao meu lado e ele segurava um jeans bege escuro e duas jaquetas, uma de couro vinho e outra jeans. Quando caminhei em sua direção, não satisfeita com apenas duas, encontrei mais uma, de estampa militar e resolvi levá-la comigo também. Carl escolheu duas camisas xadrez para mim, uma preta e branca e outra preta e azul. Me fizeram lembrar da época em que ele usava estas e sorri de relance.
— Tenho um ótimo bom gosto, não? — O garoto sorriu enquanto se levantava do chão e caminhava em minha direção.
— Pouco convencido — sorri juntamente e posicionei meus braços acima de seus ombros, olhando diretamente nos oceanos azuis de suas írises.
— Não estou lhe dizendo nenhuma mentira — Carl logo colocou as mãos em minha cintura e aproximou ainda mais o rosto. — Afinal, você gosta.
Antes que pudesse fechar ainda mais o espaço entre nossas bocas, um pigarreio soou ao fundo e nossos rostos se viraram no mesmo instante. Olivia estava parada em frente à porta, com a boca torcida como se estivesse irritada conosco. Notei que ela não estava com a prancheta, o que me parecia uma raridade. Carl colocou suas mãos para trás do corpo e eu removi as minhas de seus ombros, tentando disfarçar a frustração estampada em minha face.
— Trouxe uma sacola para vocês colocarem as peças — a mulher estendeu o braço para mostrar o objeto.
Peguei de sua mão e sorri, ainda sem jeito. Olivia deu de ombros e com um revirar de olhos, deu meia-volta e caminhou na direção da escada. A pouca iluminação do quarto já estava começando a me incomodar. Eu já queria sair do estabelecimento e voltar para casa, para o conforto dos braços de Carl. O garoto ajoelhou-se ao chão novamente, e, pegando as peças selecionadas, colocou uma por uma dentro da sacola. Ajudei-o com o que sobrara e notei mais uma coisa que ele havia pego: um par de botas.
— Você está exagerando — assumi enquanto analisava ele tentando enfiar os calçados dentro da sacola.
— Isso que está nos seus pés não podem mais ser considerados botas — Carl deu um leve tapa em meu joelho e fez uma expressão de nojo.
Revirei meus olhos e ajudei a ajeitar tudo dentro da sacola enquanto Carl se levantava. Com uma mão, ele ajudou-me a ficar de pé também.
— Espero que todas fiquem certas — falei enquanto analisava as peças.
— Se não der certo, é só trazer de volta — disse ele. — São só algumas roupas para o inverno. Deanna havia colocado algumas roupas para você, não?
— Sim, mas só tinha esse jeans e um short. Não se anda de pernas nuas no inverno — sorri enquanto ele colocava a sacola em seu ombro.
— Picolé de Mari — Carl riu enquanto se direcionava para fora do quarto.
Nós começamos a seguir o caminho das escadas e, assim que descemos, encontramos Olivia novamente.
— Vocês podem deixar a sacola aqui? Só para que eu liste as roupas e confira a quantidade — a mulher mordeu o lábio inferior. — É só por enquanto, eu levo na casa de Deanna mais tarde.
Assenti, estranhando, mas não comentei nada. Deixei a sacola com a mulher e esperei ela pegar a sacola das mãos de Carl e sair de meu campo de visão. Resolvemos que estava na hora de ir embora, mas não antes de eu pegar duas barrinhas de cereais que encontrei em cima duma estante. Por sorte, Olivia estava longe.
— Eu sempre gostei do inverno — disse Carl ao pisar sob o asfalto da rua. — Costumava ficar deitado na cama enquanto usava mais de três cobertas e o aquecedor no máximo. Minha mãe costumava reclamar do fato de eu acordar com suor na testa, mas era um dos meus maiores prazeres.
Notei um pingo de tristeza no tom de Carl, mas ele continuou a olhar para o chão, chutando os pedregulhos que encontrava. Eu sabia que ele havia perdido a mãe, e tinha uma vaga ideia de como, mesmo só lembrando que ele que teve que dar o tiro final. Coloquei uma mão sobre seu ombro e acariciei, lhe arrancando um rápido sorriso.
— Não entendo como as pessoas não gostam do inverno… Enid odeia, você acredita?! — Mudou o assunto rapidamente e sorriu de canto.
— Enid.
— Qual sua implicância com ela? — Carl virou a esquina e eu o segui.
— Não é uma implicância — comecei a me pronunciar enquanto olhava fixamente para o chão. — É frustrante como várias pessoas daqui a acham agradável e possuem afeições com ela.
— O mesmo com você!
— Carl, seu pai não gosta de mim. Aliás, praticamente todo o seu grupo guarda rancores de meu passado — olhei-o de relance enquanto umedecia meus lábios. — É diferente dela, porque ela nunca teve que matar pessoas inocentes e invadir locais sem consciência alguma do que estava fazendo.
Durante alguns segundos, o garoto manteve-se calado. Ele estava a quase dois passos à minha frente, então tive tempo de acompanha-lo com sua parada repentina. Carl olhou para mim com uma sobrancelha arqueada, mas com pessimismo na frase.
— O melhor de tudo — prossegui: —, é que eu não tenho qualquer moral como cidadã comum. Não posso ter qualquer fama boa ou recuperação de imagem, já que seu pai é líder novamente e meu passado me assombra.
— Isso não tem a ver com a Enid, Mari… — Carl se aproximou de mim e tentou posicionar as mãos sobre meu rosto, mas me afastei no mesmo instante.
— Tem! Tem a ver com ela. Principalmente porque você sempre me diz que aqui é seguro e prefere o lado de dentro ao lado de fora, mas sempre que há uma oportunidade, você corre para a floresta com ela — senti que meus olhos estavam juntando lágrimas, mas procurei não as despejar ainda. — Só me leva a pensar que você prefere passar seu tempo com ela do que comigo, assim como a grande maioria dessa comunidade.
— Por que você se diminui tanto? — O garoto umedeceu os lábios e olhou para os lados. — Céus, Mari! Você foi manipulada! Não teve culpa nenhuma de ter matado aquelas pessoas. Em sua visão, elas não eram boas. Tudo graças ao Governador, não à você.
Mordi o lábio inferior enquanto fechava os olhos. Não queria encarar o olhar de Carl sobre mim, então permaneci daquele jeito.
— As pessoas não se simpatizam com você porque não tiveram oportunidades de te conhecer. E as que já tiveram, jogaram fora por preconceitos pelo passado. Isso é ridículo! — Prosseguiu Carl, cuspindo as palavras. — Nunca deixei de falar bem de você para meu pai. Se reparar bem, ele mudou o comportamento, e eu espero que ele mude ainda mais. Não posso acelerar os processos também.
Carl aproximou-se de mim mais uma vez e eu cedi. Suas mãos foram posicionadas em minhas bochechas e sua testa repousava sobre a minha. Como ele era mais alto que eu, curvou-se um tanto para completar a ação.
— Odeio ver que você se compara à Enid. Ela nem está aqui! E ela é minha amiga, é leal, mas você é diferente! — Carl beijou a ponta de meu nariz. — A pessoa que eu quero em minha vida, agora e para sempre, é você. Porque eu sei que você se preocupa e tem os mesmos propósitos que os meus. E eu me preocupo mais do que imagina.
Ainda com a testa encostada sobre a minha, Carl avançou alguns centímetros e seus lábios se encostaram rapidamente aos meus.
— Você fez demais pelas pessoas daqui, uma hora elas perceberão — concluiu Carl, me envolvendo em um abraço ardente de carência.
Limpei as lágrimas sorrateiras de meu rosto e continuei com a cabeça encostada no peito do garoto. Pude ouvir sua respiração pesada logo acima de mim, e seu queixo fora repousado em meus cabelos. Minhas mãos dançavam pelo perímetro de suas costas enquanto as suas me aproximavam ainda mais de seu corpo.
De repente, senti uma leve pontada na região do machucado e me lembrei das bandagens. Eu precisava trocá-las, e tinha de pegar mais com Denise, já que meu estoque havia acabado. Me afastando lentamente de Carl, o que causou seu olhar diretamente em mim, sorri e deixei minhas mãos ainda em suas laterais.
— Preciso passar na enfermaria, pegar mais bandagens — falei enquanto ele ajeitava as mãos acima do machucado, como se me desejasse o cuidado.
— Eu vou com você.
Assenti e nos separamos, caminhando na direção contrária da rua. A enfermaria não era muito longe dali, por sorte, então só tivemos de andar um pouco até chegar à entrada. Subi os degraus e adentrei o local. Não havia batido na porta, então peguei Denise de surpresa. A mulher estava ao lado da maca, cuidando de um homem que tinha um ferimento sangrento na perna. Eu não o conhecia, mas havia escutado que ele havia se machucado em uma busca, junto de mais dois que morreram no caminho.
Denise ajeitou a franja atrás da orelha e umedeceu os lábios, olhando para mim e para Carl enquanto esboçava um sorriso nervoso. Ela conseguia ser bem estressada às vezes, e entrava em pânico quando não sabia como ajudar alguém, então presumi que ela estivesse numa situação de apuros.
— Precisa de ajuda? — Perguntei ao me aproximar dela, indicando o homem sobre a maca com a cabeça.
— Não, não… — Denise suspirou e encostou-se ao balcão. — Veio para pegar bandagens?
— Sim — respondi e olhei para Carl por cima de meu ombro.
— Eu as separei para você — a mulher andou na direção da cômoda onde abriu uma das gavetas e pegou uma caixa branca não muito grande. Caminhou em minha direção e colocou-a em minhas mãos. — Troque sempre que elas começarem a incomodar, coçar ou qualquer um destes sintomas. Se o ferimento voltar a sangrar, venha até mim e resolveremos com mais alguns pontos.
— Eu odeio pontos — comentei.
— Mas são necessários — sorriu Denise enquanto fechava a gaveta da cômoda e colocava as mãos sobre sua cintura. Lançando um rápido olhar para Carl, perguntou: — Você tomará conta dela?
— Deixarei ela morrer enquanto a última gota de sangue escorre de seu corpo — o garoto disse com sua expressão séria, o que deixou Denise um tanto tensa.
— Ele está brincando — sorri enquanto caminhava na direção da porta. Carl deu de ombros — Obrigada, Denise.
— Cuide-se!
Fechei a porta da enfermaria e desci os degraus da varanda, acabando com os pés novamente sob asfalto. O garoto estava atrás de mim e com uma expressão de perdido no rosto.
— Você fez o olhar para a Denise — comentei e o garoto pareceu confuso.
— Olhar?
— Sim, seu olhar fatal — olhei para o lado e encontrei o Padre Gabriel caminhando na direção da Igreja. — Aquele que você costuma fazer.
— Eu não faço um olhar — rebateu o garoto enquanto franzia o cenho.
— Não deve ter percebido, então, pois eu sei que você faz. Sempre olha por baixo com as sobrancelhas um tanto arqueadas e o rosto inclinado para o lado.
— Você faz o mesmo! — Carl arqueou uma de suas sobrancelhas e cruzou os braços.
— Tenho certeza que não.
— Eu mesmo já presenciei! Só nunca achei relevante comentar.
— Claro, Carl. Claro… — revirei os olhos. Quando abri a boca para fazer mais um comentário, fui interrompida por uma voz que soava perto:
— Mari! — Chamou e me virei na direção. Carl fez o mesmo.
Olhei para o lado e vi Ron correndo. O garoto parecia cansado apenas com sua expressão longínqua, e quando se aproximou, pude notar que ele guardava algo no bolso de sua calça, imaginei que fosse a faca. A única coisa que queria fazer naquele momento, era rir de Carl. O olhar cujo qual estávamos comentando momentos antes, estava agora estampado em sua face. E era especialmente para Ron, que pareceu evitar.
— Você está ocupada? — Perguntou ao olhar para mim, ignorando o garoto ao meu lado.
— Não, só estou a caminho de casa — disse ao mostrar a caixa em minhas mãos. — Trocar os curativos.
— Tem um minuto para conversar? — Perguntou. Carl, ao meu lado, seguia lançando seu olhar fatal.
— Só se você me acompanhar — falei ao virar na direção da casa.
Carl começou a caminhar novamente, ainda ao meu lado, quando ouvimos Ron pigarrear logo atrás.
— É uma conversa um tanto particular — afirmou e Carl olhou para mim, esperando alguma ação.
Nossos olhares se cruzaram e pude entender, apenas pelo movimento de suas írises, que ele estava incomodado. Umedeci os lábios e olhei rapidamente para os dois lados, evitando seus olhos para cima de mim.
— Podemos nos encontrar depois? — Perguntei quase que em um sussurro.
O garoto assentiu, mordendo o lábio inferior enquanto lançava, novamente, seu olhar para Ron. O outro desviou da fixação e passou a encarar a rua. Carl depositou um beijo estalado em minha bochecha que me pegou de surpresa, então procurei esconder o sorriso do outro garoto à minha frente. Com a cabeça, indiquei para continuarmos seguindo o caminho da casa.
— Pelo visto, você não ouviu qualquer um dos meus avisos — Ron bufou enquanto enfiava suas mãos no bolso. — O Carl não é quem você pensa, Mari!
— Corrigindo: O Carl não é quem você pensa, Ron — revirei os olhos e ajeitei a caixa em meus dedos. — Você o julga sem provas de nada.
— O pai dele matou meu pai!
— O pai dele me expulsou de sua comunidade, quase me matou e tem milhões de motivos para não gostar de mim, e isso não interfere na vida de Carl — rebati enquanto subia os degraus da varanda. — Rick não é mau, ele apenas faz o que lhe parece certo.
— Nem sempre o que lhe parece certo é o certo a se fazer — sussurrou Ron, adentrando a casa junto de mim.
Deanna ainda não havia chegado desde que acordei. Ela provavelmente estaria ajeitando esquemas de melhorias para a comunidade, e Spencer deveria estar a ajudando, pois também não havia o visto ultimamente. Mas a casa estava vazia desde a ida de Aiden e Reg. Reg era um homem que tornava o ambiente mais vívido, mais esperançoso. Quando tudo parecia estar mal, ele tornava as coisas melhores e sempre com seu sorriso de disposição explícito. Por mais que eu não tivesse passado tanto tempo naquela família, eu havia criado um laço, como se eu pertencesse àquele local, e como se eles pertencessem a mim.
Não tinha a mesma sensação quando morava em Woodbury, até porque tudo que eu fazia era receber ordens. Não possuía um conforto de um lar ou pessoas que me acolheriam sem qualquer interesse. A sensação mais próxima de estadia que cheguei a ter era na casa onde fiquei um tempo cuidando de Lucie e Chris. Até que os ocorridos me impediram de me familiarizar ao lugar.
— Sobre o que precisa falar? — Perguntei ao fechar a porta com o pé e caminhar na direção da cozinha, deixando a caixa logo em cima do balcão.
— Eu confio em você — disse o garoto com tanta confiança na voz que cheguei a ficar assustada. Me encostei ao mármore e inclinei a cabeça, o analisando de cima para baixo.
— Hm… obrigada?
— Todos estão morrendo — o garoto não desgrudou seus olhos de mim por um segundo, o que me deixou um tanto intrigada. — Enid está morta. Meu pai está morto…
— É um apocalipse zumbi, Ron…
— Carl está morto — o garoto disse e senti um arrepio percorrer meu corpo. Do que ele estava falando? — Eu estou morto. Eu estou morto!
— Ron, sobre o que…
— Você está morta — disse ele ao se aproximar de mim. Desviei o olhar, tentando evitar suas ações, mas não fora um ato de sucesso.
— Estamos todos vivos no momento, Ron… eu não estou te entendendo.
— Eles precisam morrer — o garoto disse quase que em um sussurro. — Todos devem morrer. Este não é o nosso mundo.
— Ninguém precisa morrer! — Segurei seus ombros e olhei em seus olhos, esperando que ele me escutasse.
— Eu vou matar a família. Eles não merecem estarem aqui — Ron mirou seu olhar na direção da porta. — Os Grimes destruíram tudo.
O garoto puxou da parte traseira de sua calça um revólver. Era uma Ruger, e eu sabia que ele não havia conseguido a arma sozinho. Alguém havia lhe dado, ou ele havia invadido o arsenal. Seus dedos dançaram pelo cabo e ele não havia mudado sua expressão. Continuava sério e me deixando cada vez mais preocupada.
— Ron, você não precisa matar ninguém. O que aconteceu com seu pai ocorreria em qualquer momento — levantei as mãos em modo de rendição. — Carl, Rick, Judith, nenhum deles precisa morrer. Vamos esquecer este assunto e tudo ocorrerá bem.
— Você não entende… não entende e nunca vai entender… — Ron olhou para o chão e reparei uma lágrima se formando na região ocular.
— Eu entendo, sim. Eu sei que você está triste, e sei que a dor vai passar, mas você precisa me escutar!
— Já me determinei disto, Mari — Ron deixou a lágrima deslizar pelo rosto e olhou para mim. — Desculpe, mas você não poderá me impedir.
— Ron! — Exclamei e o garoto ignorou, caminhando para fora da casa, enfiando sua Ruger em seu lugar anterior.
Corri em sua direção e agarrei seu braço, mas não fora a melhor opção para o momento. Quando ele se virou em minha direção, notei seu maxilar ficar tenso ao ponto de exibir seus dentes. Uma pontada gélida perfurou a região de minha coxa e tudo que pude fazer fora deixar meu queixo cair e um grito abafado por sua mão. Logo, a lâmina fora retirada de minha perna e o garoto tocou meu rosto levemente.
— Não posso deixar com que você me impeça — Ron limpou a lâmina da faca em minha bochecha e saiu da casa como uma bala.
Aquela faca. Justamente a faca com o acabamento de madeira logo no cabo e a lâmina do tipo C, aquela mesma que tive todo o trabalho para conseguir, e seu primeiro uso fora em mim. O sangue escorria borbulhando do ferimento e o depositado paralelamente em meu rosto caía para o pescoço. O ódio dentro de mim cresceu como uma chama acesa. Eu queria cortar a cabeça de Ron, mas não tinha muito o que fazer naquele momento. Não procurei gritar por ajuda, até porque atrairia toda a atenção para mim, e não para Carl, ou Rick, ou qualquer um da família Grimes, pois Ron estava atrás deles. Com uma mão firme sobre o ferimento, coloquei-me de pé com esforço e manquei na direção da cozinha, que parecia estar a quilômetros de distância em minha visão.
Meu pulmão doía, minhas energias já haviam se esgotado e meus dedos estavam cobertos de sangue. Abri a caixa e sentei-me ao chão, tentando enrolar uma das bandagens acima da calça. Agradeci aos céus por ter pego calças novas, até porque a minha antiga havia acabado de levar mais um corte. Levei uma das extremidades da bandagem à boca e segurei com meus dentes para dar o nó firme. O sangue já não era mais tão vermelho visto por todas as camadas de curativo, mas parecia rosado, então imaginei que fosse o suficiente.
E teria de ser o suficiente, pois eu tinha de avisar Carl.
Me aproximando da porta de entrada, tentando caminhar com a perna ferida e terminando sem muito sucesso, ouvi gritos desesperados. Não. Aqueles não foram causados por Ron. Que não fossem os Wolves novamente. Senti meu peito pesar em medo e meu corpo todo se enrijecer. Puxei a cortina para o lado, abrindo uma fresta em minha visão, olhei pelo vidro e vi o que havia acabado de ocorrer. Um barulho forte ecoou em meus ouvidos, seguido de um baque surdo. Precisou de apenas segundos para ouvir os murmúrios inconscientes e repletos de fome, fome de nós. E logo, a partir da poeira que subia, pude ver a manada que seguia na direção da cidade.
Os grunhidos infestaram meus ouvidos e só assim pude perceber a tragédia que estava por vir. Eu sabia, eu sabia! Aqueles muros não aguentariam tanto tempo. Não era seguro! Não, não, não, não… Ron não pode chegar até o Carl.
A faca, eu tenho uma faca.
Subi as escadas o mais rápido possível enquanto pressionava o ferimento. Todos os músculos em meu rosto estavam tensos pela dor marcante que circulava meu corpo, mas eu não podia parar. Cheguei ao meu quarto, cujo qual estava bagunçado por culpa dos rascunhos que não utilizaria em minha parede e acabaram no chão. Minha cama também não estava arrumada, e nem a janela aberta. Mas cheirava à perfume. Caminhei até os lençóis, me apoiando na cabeceira. Levantei os travesseiros e encontrei o pequeno lenço, onde minha faca estava enrolada. Joguei o material para longe e toquei o cabo de madrepérola, sem ver a lâmina, já que estava dentro da bainha. Sorri de canto e levei-a comigo. Ainda mancando, andei na direção do quarto de Deanna, procurando por qualquer arma que ela pudesse guardar. Imaginei que ela estivesse andando com a sua de companhia, mas eu precisava tirar a sorte da mesma maneira.
Eu não havia adentrado o quarto antes. Era incrível como a maior parte da decoração era montada por esquemas da comunidade, mapas de cidades próximas, listas e fotos de Reg. Talvez Deanna tivesse dado uma repaginada após o falecimento do amado. Abri cômoda por cômoda, vasculhei armários, revirei a cama e acabei por encontrar uma .44 Magnum logo dentro da caixa de gravatas, acompanhada de uma caixa de munição. Ali mesmo, também encontrei um coldre preto e não pude deixar de sorrir com o achado. Ajustei-o em minha cintura e coloquei a Magnum já carregada e suas balas em um bolso. Coloquei a faca com a bainha no outro lado. Assim, preparada, desci as escadas.
Segurei a bandagem enrolada em minha coxa e manquei em direção à cozinha, a caminho da porta dos fundos. Os errantes provavelmente estariam pela rota principal, e não por trás. O muro detrás ainda não havia caído. Saí da casa e tentei descer os degraus de maneira rápida. Em minha mente, formulei o mapa da comunidade, tentando decifrar onde estaria a casa do grupo de Rick. Ela ficava perto da “quadra” de basquete, ao lado da casa de Jessie.
Ah, não.
Não, não, não.
Tentando correr, apressei o passo reto, para virar logo em seguida. Torci para que os errantes ainda estivessem na área do portão principal, assim não teria de lidar com eles tão rápido. Segurei a cruz vermelha em meu pescoço e fechei os olhos durante alguns segundos, desejando força para avançar. Suspirei e abri os olhos, ouvindo os grunhidos se aproximarem cada vez mais. Contei até três e corri o mais rápido que pude. A dor era escandalosa e só dominava meus pulmões pela força que estava fazendo, mas tive de ignorar e seguir. Virei à direita e atravessei a rua, ainda sem precisar tirar qualquer coisa do coldre.
Avistei Carl, Rick, Deanna e mais algumas pessoas adentrando a casa de Jessie, ainda longe. Quis gritar, mas vi que havia errantes atrás deles. As criaturas cujas quais mantive longe durante um bom tempo, voltaram sem qualquer piedade, e agora haviam ignorado o fato de haverem humanos dentro da casa. Estavam novamente às ruas.
— Mari? — Soou uma voz atrás de mim. — Sua perna, o que é isso?
Virei-me e encontrei Olivia. A mulher olhava pasma, com uma machete na mão. Sinceramente, nunca pensei que a veria com algo além de sua prancheta como equipamento. Agarrando meu pulso, arrastou-me para dentro do arsenal, onde o portão estava entreaberto.
— Não, Olivia! — Me debati em seus braços, mas isso não a impediu de me colocar para dentro da casa. — Não posso ficar aqui!
— Você está machucada! — A mulher exclamou ao apertar um botão que fechava a garagem. — Isto é sangue em seu rosto?!
— Eu não posso ficar aqui! — Virei-me em sua direção com os dentes rangidos. — Eu preciso… avisar… Ai!
Gemi de dor e caí de seus braços diretamente ao chão. Notei que as bandagens já não ofuscavam a cor original do sangue, e agora ele transbordava. Arfei pelo cansaço que gerei ao tentar correr machucada, e Olivia pareceu preocupar-se. Um homem estava dentro da casa também, e se aproximou para ver o que estava ocorrendo. Mas deu meia-volta quando viu meu machucado, parecendo estar enojado.
— Céus… o que eu faço?! — Olivia murmurou para si mesma, mas fora audível. — Jonathan, me ajude!
— Eu não sei, Olivia! Nunca lidei com algo assim!
— O que ocorreu? — A mulher olhou em meus olhos, iluminados pela luz do lado de fora.
Naquele instante, eu estava a controlar os gemidos de dor enquanto segurava a bandagem, deixando o sangue pintar minha pele. Tive de pensar antes de explicar a situação, ou os motivos para estar do lado de fora enquanto machucada, mas também tinha de controlar as palavras para que ela não pensasse em qualquer suposta infecção. Eu não havia sido mordida, definitivamente. Dedurar Ron seria uma ótima opção?
— Olivia, me escute — falei em meio aos gemidos. — Eu preciso voltar para fora. Juro que tenho fortes motivos e uma ótima explicação, mas não é o momento. Por favor, abra o portão para que eu saia.
— Você endoidou?! Sua perna está parecendo um rio de sangue! Não pode sair no meio dos errantes, é perigoso — a mulher caminhou em direção às prateleiras procurando qualquer coisa que pudesse servir de ajuda ao ferimento.
— Eu estou bem…
— Não, não está — Olivia bateu contra a prateleira que vasculhava e baixou o rosto. — Por favor, me diga que isto não é uma mordida.
— Não, é uma facada — respondi severamente.
— Facada?!
— Olivia, eu não posso lhe dar muitas respostas, só preciso que me deixe sair imediatamente — respondi enquanto me levantava, segurando as bandagens mais uma vez.
— Fique aí — ignorando, a mulher saiu do cômodo e me deixou ali, de pé.
Não demorou muito para a morena voltar com um kit de primeiros-socorros. Me perguntei se aquilo era realmente necessário, pois para mim, amarrar uma camiseta no ferimento era o mais viável. Olivia não parecia pensar como eu. Esses civis que não conheceram a graça do mundo de fora.
— Jonathan, o que eu faço primeiro? — Pediu Olivia novamente.
— Eu não sei, Olivia! Eu não sei! Nunca fiz um curativo em alguém — o homem exclamou e colocou as mãos sobre a cabeça, confuso.
Quando se aproximou de mim e seus olhos se fixaram em meu machucado, pude jurar que o vi quase vomitando. Internamente, eu estava achando graça, mas sabia que a única expressão que era capaz de demonstrar era a minha de dor.
— Você tem filhos, Jon! Como nunca aprendeu a fazer um curativo?
— Minha esposa que cuidava desta parte. Eu nunca toquei em um machucado!
— Eu me viro, então! — Olivia abriu o kit e olhou para o machucado.
— Olivia, eu realmente preciso ir — disse eu entre gemidos. Meu maxilar começou a dor de tanto ser contraído.
— Não. Eu vou fazer o curativo e depois resolvemos este caso — a mulher umedeceu o lábio e começara a mexer nas bandagens enroladas em minha perna. — Eu não sei sobre curativos, mas sei que as bandagens não servem para conter o sangue.
Eu sabia, mas na hora da fuga, não pensei naquilo para fazer algo que fosse tomar conta temporária da facada. Denise já havia me explicado sobre os ferimentos e como eu tinha de colocar algodões ou curativos adesivos antes de enfaixar. Ela com certeza me bateria se visse minha perna naquele estado.
— Preciso colocar algo para segurar o sangue — afirmei enquanto a mulher indicava o algodão na maleta. Assenti e ela os separou ao seu lado.
— Vou buscar algo para limpar — Olivia levantou-se do chão e caminhou para dentro da casa, voltando em seguida com uma vasilha que continha uma mistura, suspeitei ser água e sabão. Em seu outro braço, pendia uma toalha branca, para secar a região.
Sentou-se de frente para mim, desenrolou as bandagens ensanguentadas, e fez um sinal para que eu abaixasse a calça rapidamente. O fiz, sem reclamar, sabendo que não havia tempo para isso. A mulher olhou para o ferimento com uma mão na boca, como se estivesse segurando o vômito, e suspirou antes de molhar os dedos na água e começar a limpar o corte. Ardeu, mas tive de ignorar a dor para aumentar a velocidade do processo. A morena, então, começou a secar com a toalha branca e deixou o ferimento intacto, pronto para um curativo. Peguei os algodões e pressionei acima do machucado, cobrindo as áreas profundas e as rasas, não deixando rastros de dor. Olivia pegou duas fitas cortadas de esparadrapo e posicionou-as acima dos algodões, segurando-os fixamente. Em seguida, ajudei-a a enrolar as bandagens novas e, selando com um firme nó, coloquei-me de pé, sendo impedida pela mesma mulher.
— Olivia, eu agradeço a ajuda, de coração — proclamei-me enquanto subia a calça ao seu devido lugar. — Mas eu preciso ir embora.
— Mari, você está machucada. Qualquer tombo pode ser fatal ali fora! Não posso deixar você sair.
— Não estou para brincadeiras, eu preciso! Se eu não for, coisas ruins ocorrerão!
— O que pode ocorrer de tão ruim?! — Olivia revirou os olhos.
Naquele instante, não pude conter as lágrimas pensando nas inúmeras possibilidades que me rodeavam. Era a última coisa que eu gostaria de fazer na frente de desconhecidos, mas fora involuntário, e eu apenas deixei fluir. Olivia pareceu assustada, como se não esperasse que eu choraria em sua frente, aparecendo para si em uma visão tão deplorável e fraca.
— Por favor, Olivia, por favor… — implorei enquanto soluçava e minha garganta pareceu mais seca do que nunca ao ouvir os grunhidos que empesteavam local afora. — Carl vai morrer… Eu não posso deixar…
— Oh, minha querida, Carl sabe se cuidar — A mulher abraçou-me e deixou com que eu me desequilibrasse no conforto de seus braços. — Ele está cercado por um grupo grande, eu mesma vi eles entrando na casa de Jessie.
— Este é o problema! Você não entende! — Exclamei enquanto soluçava novamente. — A facada, Ron que me esfaqueou. Ele está atrás de Carl.
— Ron?! — Olivia pareceu chocada, mas mesmo sem ter visão para seu rosto, pude imaginá-la soltando um sorriso cínico. — Impossível, Mari. Você está delirando.
— Você acha que eu não saberia quem foi o filho da puta que enfiou a porra de uma faca em minha coxa?! — Afastei-me dela, lançando o pior de meus olhares.
Olivia permaneceu quieta, agora com a boca entreaberta, como se fosse debater, mas acabara com as palavras mortas na ponta de seus lábios.
— Abra a merda desse portão logo! — Ordenei com os dentes rangendo enquanto Olivia olhava para mim, fixamente.
— Não, já disse que não abrirei!
Retirei a Magnum do coldre e apontei para sua cabeça de imediato. Não tive outra opção, mesmo que aquela fosse uma de minhas últimas. O plano D. Mas Olivia já estava a me irritar, e eu tinha uma missão a cumprir, uma vida a salvar.
— Abra. O. Portão. — Repeti deixando um espaço vago entre as palavras, indicando a saída atrás de mim.
A mulher levantou as mãos em modo de rendição e assentiu, caminhando para o controle do portão. O suposto Jonathan não estava no cômodo, e dei graças aos céus, pois não queria ter de apontar minha arma para mais de uma pessoa naquela tarde. Enquanto andava de costas, para perto da saída, a mulher seguia com os braços erguidos, até pressionar o botão. Aproveitando o momento, esquivei meu corpo na direção das prateleiras e peguei uma barra de cereais.
— Não foi fácil?! — Sorri e guardei a barra no coldre. — Passar bem.
O portão se fechou assim que corri para o lado de fora. Senti-me um tanto incomodada pelas providências que tive de tomar para que pudesse salvar Carl, mas ignorei o sentimento antes que começasse a me arrepender.
O céu ainda estava claro, mas eu sabia que logo escureceria, e não consegui imaginar o que ocorreria após a escuridão. Olhei ao meu redor, vendo a Igreja, a casa de Deanna pela frente e algumas outras casas próximas. A casa de Jessie se localizava atrás do lago, então era um caminho um tanto arriscado para seguir. Mas era meu único meio de chegar até Carl.
Meu pulmão já havia começado a doer antes mesmo de começar a andar. Ainda estava com a .44 em mãos, então deixei-a em posição de ataque, preparada para qualquer situação, junto da faca madrepérola que retirei da bainha juntamente. Um errante me notou, então fui precisa na hora de acertar a faca em sua garganta, subindo para o crânio. Assim que retirei, a criatura caiu e eu segui meu caminho. Eu estava perto da área em que o muro caiu, então os errantes não se localizavam muito perto, o que era ótimo para mim.
Mais dois errantes se aproximaram. O primeiro eu matei facilmente, com uma facada na lateral da cabeça, mas o segundo agarrou meus ombros, então eu não consegui fazer o mesmo. Empurrei-o para longe e avancei com a faca novamente, fincando a lâmina entre os olhos. Não era algo apropriado para pensar, mas eu sentia falta da sensação de perfurar crânios amolecidos.
Meus gemidos de ataque devem ter chamado a atenção dos errantes ao redor, e eu não estava me movendo rapidamente, então tive de fugir. Matar mais de trinta deles sozinha não daria certo. Olhei para trás e vi mais deles se aproximando. A minha única saída era para as ruínas.
Corri o máximo que pude, já não precisando mais segurar o curativo. Agora a minha perna não estava em um estado tão deplorável quanto anteriormente. Mas meus pulmões continuavam a estourar, de maneira mais cruel pelo tamanho esforço, o que eu não podia fazer. Nas ruínas encontrei uma outra estrutura, não tão longínqua, e parecia com uma outra igreja. Estreitei o olhar rapidamente e mentalizei uma rota rápida para desviar adas criaturas que se aproximavam cada vez mais. Quando percebi, aquele era meu único caminho restante, e fora o qual eu segui.
Meu correr não era um dos melhores, já que ainda havia um corte de grande medida na região de minha coxa, mas eu tinha de seguir para as ruínas. Minhas balas não seriam suficientes para aquela quantidade de errantes que estavam cada vez mais perto de meu campo de visão. No caminho, um errante apareceu, e não perdi tempo ao fincar minha faca já suja em seu crânio amolecido. A criatura não agonizou ao cair, e por sorte, caiu para o lado, assim não teria que desviar de seu corpo inanimado e não estaria perdendo mais tempo.
Cheguei às grandes portas da igreja e puxei uma delas, deixando-a fechar-se assim que adentrei o local. Para minha tão grande alegria, não havia nenhum resquício de errantes ali dentro, então me permiti respirar apropriadamente por alguns instantes. Não me preocupei com qualquer invasão de mortos-vivos, então apenas deixei a porta fechada da maneira em que ela se encontrava anteriormente.
Sentei-me em um dos bancos, olhando para o chão, mas a visão em foco. Tudo estava girando em minha mente e nada estava estável. Meus pensamentos me consumiam de maneira abstrata, deixando-me cada vez mais nervosa e ansiosa. Carl estava em perigo e eu não estava perto dele. Não poderia ajudá-lo.
Levantei-me do banco e comecei a procurar por meios de saída. Depois de percorrer todo — quase nada — do perímetro da igreja, cheguei à conclusão de que não havia outra rota de fuga que não fosse por uma janela ou pela porta de entrada. Nenhuma escapatória subterrânea ou qualquer coisa do tipo. Respirei fundo e comecei a procurar por armas.
Depois de abrir quase todas as bíblias e pisar sob o piso de madeira na esperança de encontrar uma tábua solta, decidi que estava caminhando em círculos e voltei à minha posição inicial: o banco. Estava começando a ficar sem ideias de fuga quando escutei gritos do lado de fora. Soavam como ordens, mas não soava como um grande grupo.
Rapidamente, saltei do banco e corri na direção do altar, me escondendo atrás do pódio, bem no espaço vazio, atrás do pano. Encolhida, procurei diminuir o ritmo de minha respiração desesperada apenas inspirando e expirando lentamente.
— Procure por tudo, livros, bancos, até mesmo no chão — uma voz conhecida pairava no ar, me causando curiosidade. — Não perca nada. Procure nas bíblias também, às vezes há cortes entre as páginas para esconder coisas.
— Isso é sério? — Outra voz, agora feminina, me causou ainda mais curiosidade, pois eu tinha uma vaga ideia de quem poderia ser.
Uma gota de suor deslizou de minha testa, molhando as pontas de minha franja e a outra, a mais sortuda, caiu em minhas mãos, posicionadas acima de meu colo enquanto permanecia curvada para não aparecer aos olhos do suposto grupo.
— As pessoas guardam muita coisa onde menos esperamos. Armas, munição, o que você imaginar. — Os barulhos da procura estavam ficando mais próximos. Se estas pessoas encontrassem algo, seriam parabenizadas por mim, que não encontrei absolutamente nada em tempo de busca por armas. — Procure também por toalhas, panos, algo que sirva para escalar os muros.
Um silêncio permaneceu, apenas com barulhos delicados da busca que estava sendo feita naquele ambiente.
— Enid — chamou a voz masculina.
Ainda sem processar o nome, mesmo tendo uma porcentagem de noção da dona da voz, permiti-me a entortar o rosto.
— Quando eu quis fugir… você disse: “é assim que perdemos as pessoas, mesmo depois que se foram.” — Uma pausa, e eu continuei tentando processar o ocorrido. — Que merda isso significa?
— Pessoas que ama, elas fizeram quem você é; ainda são parte de você. Se você parar de ser você, aquela última parte deles que permanece aí dentro, quem você é, somem.
— Quem são essas pessoas para você? — Perguntou Enid, de imediato.
— Meus pais, um homem chamado Dale, o pai da Maggie, Hershel, uma mulher chamada Andrea, um homem chamado Tyreese; quem são essas pessoas para você?
— Meus pais — afirmou Enid após uma curta pausa.
Quem são essas pessoas para mim? Quem foram as pessoas que me tornaram quem eu era? Por mais que a conversa estivesse em meus ouvidos indiretamente, a pergunta encalhou em minha mente, e me batia com um punhal de dúvida. Minha memória era falha, mas eu sabia que minha família fazia parte da porcentagem que formava a mim. Meus pais, meu irmão. O Governador, que mesmo tendo feito tanto mal, sabia que me trouxe ensinamentos. Toda noite eu tentava trazer as lembranças de volta, e mesmo que sem sucesso, sentia, no fundo, que algo que ele fez havia ficado de recordação. Minhas habilidades vinham parte dele. E por fim, vinha Carl, o garoto que me mostrou a o caminho para a lucidez. Me tirou do trauma eterno e me trouxe de volta ao meu verdadeiro "eu".
Mas não consegui me sentir comovida com os pensamentos.
Acabei por me perder na conversa, e quando me atentei novamente, já era tarde. Enid olhava perplexa para mim, de frente para o pódio. E com uma arma em suas mãos. Congelei no mesmo instante.
— Você só pode estar brincando — murmurei.
— O que você faz aí? — Suas palavras soaram com tanta repulsa que acabei por torcer a boca em questionamento.
— Quem está aí? — Perguntou a voz masculina que logo apareceu ao lado de Enid. Olhei para cima e descobri o dono do timbre: Glenn. — Mari?
— Como vocês vieram parar aqui? — Perguntei. — Você nos deu sumiço, Glenn. Todos acharam que estava morto.
— Não é uma história rápida, mas estou aqui, não estou? — O homem passou as mãos pela calça, ajeitando o pano e me encarou. — Por que está com uma perna enfaixada?
— Também não é uma história rápida — umedeci os lábios e saí debaixo do pódio, ficando em pé com uma rápida dificuldade. — Como pretendem sair daqui?
— Pedi para Enid encontrar qualquer coisa que ajudasse a Maggie — disse Glenn ao procurar acima das mesas atrás de mim. — Avistei-a em apuros e nosso tempo corre.
— Também preciso ser rápida. Tenho alguém em uma situação nada boa — respondi e caminhei até o homem.
— Encontrei algo — Enid disse ao pegar panos e faixas em suas mãos. Encarei-a e ignorei.
— Certo, vamos — Glenn desceu os degraus e caminhou na direção da entrada. — Você consegue acompanhar, Mari?
Assenti com a cabeça e segui caminhando atrás dos dois. Glenn abriu a porta, já segurando o revólver. Aproveitei para me equipar com minha faca também. Enid estava agora ao meu lado, caminhando em silêncio, tentando fazer o mínimo possível de barulho para que nenhum errante ao redor nos escutasse. Quando olhei para o lado, com incômodo, a garota já estava a me mirar, com seus olhos fixos em meu ferimento.
— Você foi mordida, não foi? — Perguntou, irritada.
— Vou fingir que você não disse isso — torci a boca e segui olhando para a frente.
— O que houve então?
— Já parou para pensar que não é de sua conta? — Respondi enquanto seguia o caminho. — Não temos nem 1% de intimidade e você me aparece com uma pergunta dessas?
— Você não é de meu interesse. Mas se isso for afetar aos outros, é de meu interesse — a garota persistiu.
— Creio que você deveria tomar cuidado com suas palavras — sussurrei. — Não acho que gostaria de ser jogada para os errantes.
— Você é desnecessária — Enid soltou em um murmuro audível. — Age de maneira infantil porque tem medo de perder o "amado", que nem ama tanto assim.
— O que você disse? — Voltei-me para ela, segurando firme o cabo de madrepérola de minha faca.
— Chegamos, Mari — disse Glenn. — Agora você vai para onde tem que ir.
Sua voz era rígida, como se estivesse ouvindo a briga e tentando separá-la. Enid permanecia a me encarar enquanto eu revezava meu olhar entre os dois. Mas sabia que tinha algo a fazer, e era bem mais importante do que apenas brigar com a garota. Mais tarde eu cuidaria de Enid.
— Obrigada, Glenn — acenei com a cabeça e caminhei para trás, dando a volta no muro, procurando a mesma abertura pela qual saí.
Notei que agora estava vazia, mas, infelizmente, todos os errantes haviam se movido para um canto qualquer. A aglomeração permanecia na comunidade. Em minha direita, avistei a casa onde Carl estaria morando. Olhei para cima, apenas para ter noção de horário, e notei que o céu estava adentrando nas colorações alaranjadas, ou seja, o final de mais uma tarde trágica.
Não tive nem tempo para pensar em meu próximo movimento, mas assim que vi a porta de entrada se abrir, escondi-me atrás de uma árvore. A casa estava em uma posição longínqua da minha, e repleta dos errantes. Sabia que não havia muito tempo para ficar escondida, e nem muitos meios para chegar até Carl. Meu coração gelou quando vi Ron saindo pela mesma porta, e de mãos dadas com quem disse que mataria, mais cedo. Quis gritar, correr, jogar minha faca em seu corpo, mas não pude. Estava longe e impossibilitada.
E, para melhorar, notei que outra mancha havia surgido no curativo. E a dor era indomável.
Saí de trás da árvore e tentei fazer algum sinal para Carl, mas o garoto estava concentrado demais. Notei que estava vestido com as tripas de errantes, imaginei que fosse para se camuflar. Ideia genial. Mas sabia que era perigoso vê-lo de mãos dadas com Ron. Aquilo não acabaria bem. Não conseguia me sentir bem com aquilo ocorrendo.
Sabia que se eu ficasse ali parada, algum errante apareceria. Não era seguro para mim. Por mais que eu precisasse ajudar Carl, tinha noção de que precisava cuidar de mim mesma.
Então pensei da pior maneira: teria de ser um tanto egoísta.
Parei com os sinais para Carl, vendo que nenhum havia sucedido, e resolvi que estava na hora de passar na enfermaria. Olhei mais uma vez para a frente, e nenhum contato visual havia ocorrido, então desisti de vez. Virei-me na direção contrária e segui mancando.
Por sorte, a enfermaria não se encontrava tão longe, nem tão movimentada. Não consegui enxergar sombras através das persianas, ou qualquer sinal de vida humana dentro. Segurando a faixa em minha coxa, caminhei o mais rápido possível até chegar à varanda. Olhei de relance para trás e enxerguei alguns errantes, mas não identifiquei Carl ou qualquer um dos outros que estavam vestidos com tripas dos mortos. Coloquei em minha cabeça que, se ele estava em um grande grupo, não haveria perigo com Ron.
Antes que pudesse bater na porta para entrar, ela abriu-se sozinha e uma mão puxou-me pelos ombros para dentro. Quase caindo em susto, olhei para frente e encontrei Denise me encarando na região da perna. No canto de meu olho estava Heath, segurando uma machete e posicionado fisicamente como se fosse me atacar.
— O que houve com sua perna? — Perguntou Denise, já tapando a boca com a mão. — Me diga, por favor, que não é o que estou pensando.
— Não é — respondi enquanto caminhava até a maca e desenfaixava o curativo, abaixando a calça até a altura de meus joelhos, ignorando qualquer presença na enfermaria. — Algo ocorreu e acabei machucada.
— Certo, bem… Heath, pegue as bandagens, álcool e algodões — ordenou a mulher enquanto colocava luvas plásticas em suas mãos.
Denise estralou os dedos e colocou a língua no lábio superior, como se estivesse concentrada em seu ato. Heath voltou com os suprimentos que a mulher havia pedido anteriormente e ela os separou ao meu lado, pegando um de cada vez até cuidar do corte ensanguentado. Mais uma vez, o álcool em colisão com a profundidade ardeu, mas tive de segurar a dor. As outras pessoas, incluindo Heath, saíram de perto, subindo ao segundo andar, comentando sobre ter uma visão melhor da situação afora. Denise passava o algodão pela segunda vez, após aplicar a anestesia, e agora já não parecia mais tão nervosa.
— Você estava sozinha do lado de fora? — Perguntou ao olhar rapidamente para mim.
Assenti com a cabeça sem muito ânimo.
— E Carl? — Seguiu o interrogatório. — Não estava contigo?
Neguei e mordi meu lábio inferior, segurando o pânico que estava para voltar.
— Como conseguiu o ferimento? Parece uma perfuração de lâmina. E não parece acidental. — Seus olhos subiram até os meus e ali permaneceram. Soube que não haviam mais desculpas perante a situação.
— Ron fez isso — assumi.
— Por que? — Denise pareceu espantada.
— Ele queria me impedir de fazer algo.
— Mas não há motivos para te esfaquear, Mari. O que ele tentou impedir?
— O objetivo de Ron é matar Carl. E Rick. E todos os outros — respondi, baixando o olhar.
— Ele não pode fazer isso. Ele não consegue.
— Ron não é emocionalmente estável — mordi o lábio novamente. — Eu não duvidaria.
— Nisso devo concordar, mas Carl deve estar com todo seu grupo agora. Ron não sabe atirar, e erraria de qualquer modo — a mulher levantou-se da maca e só então notei que ela havia acabado o curativo. — Acho melhor você ficar em repouso.
A mulher me apontou uma cadeira de estofado, logo abaixo de uma janela coberta pelas persianas. Assenti para ela e sentei-me na peça após uma curta caminhada da maca até o local. Denise pegou um banco para que eu posicionasse minha perna machucada ali. Sorri em agradecimento e deitei minha cabeça acima da almofada superior.
— A anestesia que apliquei trará sono para você. Então se quiser cochilar, fique à vontade.
Assenti e observei-a subir ao segundo andar. Durante alguns minutos, fiquei encarando a paisagem afora através das divisórias da persiana. Os errantes estavam a dominar cada vez mais o parque central, inclusive a árvore onde ocorriam meus encontros tardais com Carl. Meus olhos começaram a pesar de repente, e não consegui segurar os bocejos. Estava ficando cada vez mais difícil de piscar sem que fosse uma tentação ao sono, e logo desisti, como uma defesa natural de meu corpo. Acabei por apagar.
Quando abri os olhos novamente, senti uma adrenalina invadir meu corpo. Olhei ao redor e notei que as velas estavam acesas, mas algumas estavam apagadas, e o céu já estava escuro. Se nem todas as velas estavam em chamas, algo estava errado. Havia a ausência de pessoas na enfermaria.
Levantei-me da cadeira com dificuldade e umedeci os lábios.
— Denise? — Chamei, e mesmo esperando alguns segundos, não obtive respostas. — Denise!
Mais uma vez, o silêncio predominou.
Caminhei até a porta de entrada, a qual abriu no mesmo instante em que me aproximei. O vento que causara com a rapidez apagou a vela que estava ao meu lado, acima do balcão. Denise havia acabado de chegar à enfermaria, e eu já estava preocupada que ela tivesse morrido ou algo do gênero.
— Mari, sente-se, sua perna não está boa — disse ela, mesmo que seu olhar estivesse sobre a porta.
Ela parecia sob pressão, por mais que ninguém estivesse lhe dizendo nada. Aproximei-me da janela, na mesma cadeira para me sentar, sem muito esforço. Minha perna continuava perfurada, mas já não doía tanto quanto antes. Os tratamentos estavam fazendo efeito.
Puxei um trecho da cortina e olhei para a janela, vendo aquele tanto de errantes acumulados, caminhando para lugar nenhum. Me perguntei se o resto dos moradores estaria à salvo.
Mas aí notei uma movimentação pelo vidro. Duas pessoas em meio à escuridão, sendo uma Michonne, que matava os errantes em sua frente. Não identifiquei a outra pessoa de primeira, até que se aproximou da luz de um dos postes, e notei que era Rick. E ele carregava alguém: Carl. Havia algo de errado com o garoto. Ao aproximar-se ainda mais, notei muito sangue.
Não.
Caí da cadeira no mesmo instante, o que levou Denise a correr em minha direção. Eu apontei para a janela e a mulher olhou. Em menos de segundos, começou a gritar com todos que estavam ali, dando ordens seguidas de outras.
Eu estava perplexa. Sentia meu coração falhar em suas batidas e minha cabeça doía. Sangue? De onde havia saído aquele sangue?
Denise abriu a porta e Rick colocou Carl sobre a cama. Levantei-me no mesmo instante, ignorando todos os gritos que Denise dava. Aproximei-me de seu corpo lentamente, tentando enxergar algo em meio à multidão que se acumulava desesperadamente ao seu redor. Vi seu cabelo sobre o rosto, mas não enxerguei o sangue. As velas falhavam com a movimentação e impediam que eu visse seus traços.
— Mari, vá se sentar — Denise praticamente gritou, mas ao mesmo tempo que se virou para falar comigo, deu espaço para que eu visse o rosto do garoto.
Seu olho… ele estava sem seu olho. Um tiro. Eu reconheceria um tiro de longe. Forcei meu corpo para frente e toquei sua mão levemente, despejando todas as lágrimas que haviam acabado de se formar em meu rosto.
— Não — murmurei para mim mesma.
Ninguém parou a movimentação, mas ao me verem ali, com as mãos sobre sua mão direita, fizeram as expressões mais tristes que eu já havia visto. Não consegui sequer pensar em Ron naquele momento, apenas nas condições de Carl.
E eu não parei de chorar. Nem por um instante sequer.
Eu só queria deitar ao seu lado e abraçar seu peito, implorando para que ele não morresse ainda. Precisava dele por perto. Ele era meu controle.
Uma mão envolveu minha cintura e me encaminhou até o banheiro, sentando-me sobre a tampa da privada. Minha visão estava embaçada, e além disso, turva também, mas pude notar que era Michonne que falava comigo. Ela tentava me acalmar, mas ao ver que eu lutava contra seus braços e tentava sair dali, fechou a porta.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Levantei-me para voltar à enfermaria e ver Carl, mas a maçaneta não girava. E só havia uma única resposta para aquilo: Michonne havia me trancado.
E lá estava eu, caída sobre o piso gelado do banheiro, com lágrimas inquietas fervendo em meu rosto.
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