Why Me?

59 Capítulo 59 - Caught


Meus olhos se abriram e se fecharam no mesmo instante devido à claridade que se encontrava diretamente neles. Coloquei uma mão sobre eles para que os abrisse em paz, e assim o fiz. Olhei para cima, enxergando a luz amarela pendente e o teto branco. Virei minha cabeça para o lado e notei que ali se estendia um armário com medicamentos aparecendo em sua porta de vidro. Mais para o lado, alguns equipamentos de enfermagem e uma maca móvel.

Virei minha cabeça para o outro lado e notei que a claridade vinha da janela que ficava logo ali. As cortinas eram finas e estavam entreabertas. Senti meu torso ficar quente por causa daqueles fachos de luz que invadiam minha pele. Também pude ver algumas pessoas longínquas caminhando nas ruas, mas não as reconheci por culpa da grande distância. Aquela, com certeza, era a enfermaria local. Onde Pete trabalhava antes de Denise. Mas não tive sequer um sinal da mulher, e também não tive noção do porquê de eu estar ali.

E eu estava deitada em uma maca.

Quando fui me colocar sentada, senti uma dobradura incômoda em minha barriga e gemi bem alto de dor. Assim que estava deitada sobre o travesseiro mais uma vez, toquei a mesma região onde doía e senti pequenos traços de costura. Costura sobre minha pele. Senti um enjoo tão profundo que jurei que vomitaria ali mesmo.

Ouvi alguns passos próximos e avistei Denise surgir de uma divisão das paredes, olhando para mim com curiosidade, que logo mudou para uma face sorridente. Seus cabelos estavam presos da maneira de sempre e seus óculos pendiam sobre o nariz. A mulher se aproximou e colocou as mãos sobre o espaço da maca onde eu não ocupava.

— Você me assustou — suspirou a mulher, abrindo mais um sorriso. — Fico feliz que tenha acordado. Não foram dias fáceis para este bonitinho — seus dedos apontaram para minha barriga nua.

E então, pude me lembrar de como havia conseguido aquele ferimento e só senti mais vontade de vomitar.

— Há quanto tempo estou desacordada? — Perguntei sem interesse nos pontos localizados em minha barriga.

— Um dia e meio, já que está entardecendo — a mulher se afastou da maca e abriu o mesmo armário de antes, pegando um dos medicamentos e procurou algo em outro móvel ao lado, onde minha visão não chegava.

— Não perdi muita coisa, então — disse para mim mesma, mas Denise acabou por ouvir.

— Na verdade, muita coisa ocorreu neste tempo — a mulher me olhou de relance e se aproximou com uma seringa em mãos.

— Como assim?

— Não vai doer, segure a respiração — cortou o assunto rapidamente ao aplicar a injeção ao lado do corte. Senti vontade de gritar novamente, mesmo sabendo que aquilo só melhoraria toda a dor ali presente. — Acabamos.

A seringa foi removida de minha barriga e a mulher a jogou no lixo. Tentei me sentar novamente, mas desta vez, consegui, com muito esforço para ignorar a dor ao máximo. Denise caminhou na direção do mesmo móvel que agora entrava em meu campo de visão e molhou um algodão no álcool, passando na região onde aplicara o medicamento. Senti um pequeno ardor e contraí meu maxilar.

— E então — continuei, atraindo a atenção da loura para mim. —, o que houve neste meio tempo?

— Enid sumiu — disse ela ao jogar o algodão em outra lixeira. — Carl disse que ela costumava saltar o muro em grande frequência, mas ela não voltou.

Não direi que senti pena, porque não estaria dizendo a verdade.

— Onde está ele? — Perguntei ao olhar para minhas costelas sobressaltadas.

— Quem?

— Carl — mirei-a com um olhar desafiador.

— Ele veio te visitar há pouco tempo e depois voltou para sua casa — comecei a me levantar da maca com dificuldades e gemi de dor novamente, o que fez com que a mulher tocasse meus ombros e me colocasse deitada de novo. — Não, não. A senhorita está de recuperação. Não pode sair daqui até que eu diga.

A encarei novamente. Desta vez, com mais fúria nas órbitas. A mulher virou-se para não ser fuzilada pelo olhar e caminhou para fora do cômodo, dando um passo para trás e me checando de relance.

— Vou procurar alguém para te carregar até o segundo andar — completou ao sair pela porta de entrada.

[...]

Eu já estava começando a ficar enjoada de ver a cara de Denise naquele dia. Assim que olhou para mim com aquele sorriso de disfarce para sua preocupação com os outros pacientes que sofreram ferimentos graves no ataque, soube que pelo menos algo bom estaria ocorrendo. Seus passos na direção da cama foram lentos, e suas mãos se posicionaram sobre a barra da camisa nova que havia me arranjado, levantando-a e olhando o curativo duas vezes antes de abaixa-la.

— Você tem um visitante — disse a mulher ao olhar para porta, revelando uma figura.

Fechei os olhos e soltei uma risada, me ajeitando sentada na cama, suspirando numa mistura de dor e alegria.

— Demorou para vir, não? — Disse eu ao colocar um braço sobre os olhos.

— Não sabia que estava esperando minha visita — soou a voz de Ron no quarto.

Removi o braço da frente de minha visão e o encarei, com um tanto de surpresa. Esperava Carl no seu lugar. Nas mãos do garoto, um pote com alguns biscoitos dentro. Ele caminhou em minha direção e se sentou na cadeira ao lado da cama, encostando na cortina que separava as camas. Ouvi uma tosse do outro lado do quarto, mas ignorei, como estive fazendo desde que cheguei ali. Vários moradores sofreram com o ataque.

— Ron? Desculpe, achei que fosse…

— Carl? — Perguntou o louro ao bufar. — Ele ainda não veio te visitar, certo?

— Denise disse que ele veio mais cedo, mas eu ainda não havia acordado.

Ron olhou para trás e para os lados, se aproximando ainda mais de mim. Sua proximidade começou a me deixar nervosa, ainda mais quando ele soltou uma risada abafada.

— Mari, a Denise mentiu — sussurrou, tornando sua expressão séria.

— Como assim? — Perguntei enquanto inclinava meu corpo, na esperança de mostrar que estava desconfortável.

— Eu moro aqui ao lado — disse ele. — Nenhum desses dias eu vi Carl passar por aqui.

O olhar do garoto à minha frente era sério, mas não parecia confiável. Por mais que fosse uma das únicas pessoas que eu tinha esperanças de melhoras na comunidade, ainda tinha minhas dúvidas.

— O que é isto em seu colo? — Perguntei ao apontar para o pote.

— Biscoitos. Carol os fez e levou para minha mãe — o garoto abriu o pote removendo as duas travas e tirando a tampa. Entregou um dos biscoitos para mim e pegou outro para ele. — Minha mãe acha que Sam anda comendo demais, então mandou trazer comigo.

— Estão muito bons — saboreei a mordida. — Mas me diga, o que te traz aqui?

O garoto olhou para o lado, onde ficava a porta e baixou o rosto. Pude notar que ele mexia a perna freneticamente, como se estivesse muito ansioso. Não compreendi o motivo, mas segui o encarando até seus olhos castanhos encontrarem os meus.

— Quero aprender a usar a faca — disse ele ao tornar sua expressão sombria durante alguns segundos, voltando ao olhar comum.

— Não vai acontecer enquanto eu estiver aqui — apontei para minha barriga, mas o garoto não desviou seus olhos dos meus.

— Preciso de alguém que me ensine, não posso ser mais indefeso.

— Você tinha um canivete e não sabia usá-lo? — Arqueei uma sobrancelha. — Carl pode te ensinar.

— Ele não. — O garoto fechou a expressão novamente.

Mudei meu olhar para a direção de onde as tosses clandestinas vinham e fiquei ali, por alguns segundos, pensando. Voltei-me para ele mais uma vez, torcendo a boca.

— Rosita está com um grupo — disse eu. — Ela está ajudando a manusear facões, mas pode te ajudar com a faca.

— Obrigado, Mari — disse ele ao sorrir levemente para mim. — Você está sendo boa demais para mim.

— Tudo bem…

— Um último recado antes de sair: Carl não anda presente. Tome cuidado.

— O que você quer dizer com…

— Cuidado, Mari — ele me interrompeu, deixou o pote de biscoitos em meu colo e saiu do quarto.

Assim que Ron saiu da divisória como se nada tivesse acontecido, trombou com Carl, que não parecia muito feliz em ver o outro garoto. Seus cabelos estavam cobertos pelo chapéu e eu sorri, sabendo que ele o usava em minha homenagem. Por mais que estivesse radiado de alegria, seu olhar já não expressava a mesma coisa.

O moreno se aproximou de mim ainda com os olhos fixos na porta, por onde o louro havia acabado de sair. Revirei os olhos quando ele se virou em minha direção, vendo que eu estava ali, por fim.

— Ron? Sério? — Disse ele ao apontar para a porta enquanto se sentava na cadeira.

Abri o pote de biscoitos e peguei outro, mordiscando a ponta enquanto dava de ombros para o garoto.

— Não reclamei do seu tempo com Enid — mastiguei vagarosamente enquanto analisava sua expressão.

— Não estou reclamando — disse ele ao olhar para o biscoito com desgosto.

— Se você diz…

Ele ficou quieto durante um tempo, com expressão de emburrado. Logo, seu rosto se contraiu em boquiaberto, olhando para mim com desentendimento.

— Perdão, não perguntei como você está — ele tocou meus dedos com suas duas mãos.

— Dói bastante onde os pontos foram colocados — levantei a barra da camisa branca que haviam me dado e mostrei o curativo que não era tão grande, assim, revelando parte dos pontos.

— Eu sabia que tinha que ter te levado — disse ele ao encarar o ferimento com tristeza. — Tive um pressentimento que…

— Carl — cortei-o, baixando a barra de minha camisa. — Eu que escolhi ficar em casa. Não havia nada que você pudesse ter feito.

— Não, eu…

— Se você tentasse me obrigar a ir, teríamos brigado e isso poderia resultar em pior — apontei para a barriga, dando ênfase na frase final.

Carl assentiu e olhou para o chão. Eu já imaginava que ele se sentiria culpado, pois era sua reação para qualquer coisa que me ocorresse. E, dessa vez, ele não teve qualquer interferência. O corte que levei foi por distração minha, e nada a ver com ninguém. Com alguns movimentos bruscos, em tentativas de me aproximar de seu corpo, gemi e acabou sem sucesso. O garoto levantou o olhar e riu ao ver minha posição totalmente desajustada.

— O que você está tentando fazer? — Perguntou ao soltar uma risada leve.

— Tentando te beijar, mas se vai rir de mim, me recuso — disse eu ao tentar voltar à posição anterior, sem sucesso novamente.

Ele se aproximou de mim e segurou meu rosto com suas mãos em formato de concha. Não nego que doeu um tanto para ficar daquele jeito, mas a dor valeu a pena. Seus lábios eram quentes e macios sobre os meus, enquanto imaginava que a única sensação que ele poderia provar dos meus, era o ressecado. Minhas mãos subiram para suas costas, puxando-o para mais perto. Não demorou quase nada para que ele praticamente subisse em mim, com um joelho entre minhas pernas, sobre a cama, e a outra perna ainda esticada.

As mãos do garoto deslizaram para meus cabelos e ali dançaram, se enroscando delicadamente. Pude sentir o pânico e a ansiedade em sua boca, pelo simples fato da coordenação estar disparada. Ele não parecia querer sincronizar nada, apenas seguir de modo desesperador. Como se eu fosse o último copo d’água no Saara.

Deus sabe como o Saara está agora.