Why Me?
53 Capítulo 53 - Whisper
Naquela mesma tarde, fiquei sentada no balcão da cozinha, enquanto observava Deanna fazendo listas. Minha mão estava praticamente afundada em meu rosto e eu piscava duro, com fadiga de não fazer nada. A mulher formava palavras com a boca, mas todas sem qualquer som, como se estivesse dizendo para si mesma. Reg não estava em casa, devia estar tomando chá no quintal, não me lembro de ter visto ele.
— Lasanha ou macarrão? — Perguntou-me. — O que serviremos hoje?
— Gosto dos dois.
— Sou mais a favor da lasanha — adicionou mais palavras ao caderno e sorriu.
Quando fui mexer minha perna na cadeira, senti uma dor horrível. Gemi e atraí a atenção de Deanna para mim. A mulher me encarou, distraída, tentando entender o que havia ocorrido. Aproximou-se de mim e tocou a coxa, fazendo eu gemer de dor mais uma vez, e percebeu que havia bandagens amarradas em torno do ferimento. Ela só não havia visto-o ainda.
— O que é isto?
— Eu caí — falei e pulei da cadeira. — Não é nada.
— Quero que vá ver Pete.
— Não é nada, Deanna.
— Mas eu quero. Por favor — a mulher me encarou rapidamente.
Assenti com a cabeça e saí da casa. Pelo que me lembrava, Pete era marido de Jessie, mãe de Ron. E eu sabia onde eles moravam, havia decorado parte do local. Desci da varanda e caminhei pela calçada quente, devido ao sol forte que se prolongava acima de mim. Enquanto caminhava, notei que alguns moradores me encaravam como se eu fosse a estranha, mas não liguei. Eu era a estranha, a garota que havia chegado e só havia trocado palavras com três pessoas. Cheguei à casa bege e subi à varanda, batendo na porta duas vezes, esperando alguém atende-la.
— Sim? — Ron surgiu à porta. — Ah, oi, Mari.
— Seu pai está?
— Sim, entre.
Entrei e sentei-me no sofá, por mais que sem permissão. Ron sentou-se ao meu lado e sorriu tímido, mas não retribuí.
— E então... Deanna vai dar uma festa hoje, não?
— É.
— Para os novos moradores. Aliás, você já os conheceu?
— Não tive oportunidade.
— Tem um garoto de nossa idade. Creio que um tanto mais velho, não sei — disse e ajeitou o cabelo. — Ele e Enid não se deram bem, assim como você e ela — riu e ajeitou as mãos no colo.
— Ela é estranha.
— Você também.
— Mas eu sou diferente.
— Vou chamar meu pai — forçou o maxilar e levantou-se, subindo as escadas.
Alguns minutos depois, o homem desceu e me encarou, com a expressão séria. Pete tinha rugas nos cantos dos olhos e na testa. Ele parecia preocupar-se com tudo, o que o tornava ainda melhor do que aparentava. A tensão era visível em seus olhos, e eu não sabia dizer o porquê. Ele caminhou com passos largos até onde eu estava e levantei-me.
— Você precisa de algo?
— Deanna mandou eu vir até aqui. Estou com um machucado na perna.
— Corte? Desde quando?
— Acho que há uma semana.
— Machucou em ferro?
— Não, madeira.
O homem me encaminhou até a enfermaria local, que era uma casinha pequena e branca, bem humilde e confortável. Pediu para que eu sentasse na maca, onde tirei a calça e as bandagens. No começo, eu mesma me assustei com o ferimento, mas logo, recuperei-me do susto. O homem pegou um pano com álcool e passou sobre o corte, o que me fez forçar todas as musculaturas do rosto. Doeu mais que tudo nessa vida.
— Não aparenta infecção — olhou-me de relance, pegando outras bandagens. — Você quem fez o curativo?
— Sim.
— Instinto de sobrevivência — sorriu e soltou uma leve risada. Sorri junto para não tornar a situação tão sem-graça. — Pode voltar para sua casa. Está tudo certo.
— Obrigada, Pete.
— Volte em duas semanas para tratarmos disso — apontou. — Vou lhe dar algumas bandagens novas para trocar após os banhos.
Assenti e peguei-as, guardando em meus bolsos. Cumprimentei o homem com a mão e saí da enfermaria, pegando a rota das calçadas ferventes mais uma vez para casa. Era tão estranho dizer “casa”, parece que disse isso há uma eternidade atrás. Quando cheguei à casa novamente, Deanna estava parada à porta, como se estivesse de saída.
— Oh, Mari, logo a festa começará. Por que não vai tomar um banho?
— Claro.
— Por que não usa seu vestido azul? Seria a ocasião perfeita, não acha?
Sorri para ela e subi as escadas num impulso. Corri para o quarto e deixei o vestido esticado sobre a cama. Logo, caminhei para o banheiro, onde despi-me, tirei as bandagens e adentrei o banho. Esfreguei cada parte de meu corpo com força, ansiedade para vestir a peça que me aguardava. Apenas o corte que esfreguei com delicadeza, para não tornar pior do que já estava.
Saí do banho e enxuguei-me na toalha, limpando os pés no tapete, logo, saindo do banheiro e andando em direção ao quarto. Coloquei as roupas íntimas, e em seguida, o vestido. Não havia percebido, mas demorei mais do que devia no banho. O céu já estava escurecendo, e eu havia acabado de colocar a peça azul. Mexi na saia, sentindo-me linda. Coloquei as botas, já que não tinha outro calçado para usar. Passei a colônia que Deanna havia deixado em meu quarto e olhei-me no espelho. Meus cabelos caíam pela lateral do corpo, com as leves ondas formando-se em meus ombros.
Logo, desci as escadas e analisei as poucas pessoas que haviam chegado. Ninguém ali me parecia novo, já havia visto parte daqueles moradores. Andei até a cozinha, onde encontrei os aperitivos sobre o balcão. Peguei uma torrada e mordisquei. Senti o maravilhoso sabor dentro de minha boca. Havia muito tempo que não comia torrada. Aquilo pareceu como estar no céu. Depois, voltei para a sala, onde havia chegado mais algumas pessoas, mas nada novo. Quando a festa começou a chegar à metade, eu estava entediada suficientemente para sair dali, e era o que eu planejava fazer. Assim que vi Enid caminhando até a varanda, senti que era o momento de ir para algum outro lugar. Como ali era minha casa, seria muito rude subir as escadas, então saí pela porta principal, parando na calçada, pensando em qual seria o caminho mais rápido para a árvore do parque.
Assim que fiz meu mapa mental, comecei a andar reto, acabando no outro lado da rua, que ficava muito próximo do parque. Enquanto caminhava, olhei para trás para ver o movimento que estava chegando à festa. Toquei o colar de rubi vermelhos, apenas para sentir se ele permanecia em meu pescoço. Voltei o olhar para a árvore, seguindo adiante. Logo, ouvi barulho na grama seca e senti alguém agarrando minha cintura por trás. Assustada, virei meu rosto e vi os cabelos afundados em meu pescoço. Pude jurar que ouvi um choro baixinho, mas ignorei, apenas segurei os braços sobre minha barriga e fechei os olhos. Não havia nenhum som ao nosso redor, apenas o de nossas respirações. Soltei seus braços de mim por um instante e agarrei-me em seu abdômen, ficando ali durante mais tempo.
— Não se afaste mais. Por favor — disse ele, quase que num sussurro.
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