Why Me?
42 Capítulo 42 - Sleep With Me
Notas iniciais
Lucie olhava para o garoto, perplexa. Seu irmão parecia irritado. Eles começaram a sussurrar entre si, mas não consegui escutar. Fiquei apenas observando o garoto do qual estava sobre. Seus olhos se abriram, revelando o azul dos mares da Grécia. Ele piscou múltiplas vezes e me encarou com felicidade.
– Mari!
Torci a boca. Eu não estava feliz de encontra-lo. Sentia vontade apenas de levantar a faca à sua face. Levantei-me rapidamente e quando o garoto fora se levantar também, o impedi com um pé em seu peito. Seu sorriso desaparecera e sua expressão tornou-se confusa.
– Você ainda está com aquilo na cabeça, Mari?
O encarei. Uma sensação de ódio subiu pelas minhas veias, senti uma vontade de chutar seu rosto e fazê-lo implorar por mim. Mas eu não o queria de volta. Eu não podia querê-lo.
– Mari? – Lucie chamou. – O que está acontecendo?
– Nada – a acalmei. – Não acontece nada. Vamos seguir em frente.
Retirei o meu pé de seu peito e virei de costas para o garoto caído. Eu provavelmente estava com uma expressão de raiva no rosto. Retirei uma mecha da franja do rosto e olhei rapidamente para o lado, fazendo um sinal para Lucie e Chris me seguirem. Fui andando até a próxima casa e ouvi passos pelo chão coberto de cascalhos. Senti um puxão em meu braço e me soltei, seguindo o caminho.
Me virei para Lucie e Chris, que pareciam chateados com a situação. Talvez confusos. Carl gritou por mim, mas o ignorei novamente. Até que ele deu a volta e apareceu na minha frente, andando de costas acompanhando meus passos para frente.
– Olha, eu sei que errei... Eu sei que fiz mal, mas eu te juro que...
– Pare de jurar. Você não sabe o significado dessa palavra.
Ele me olhou boquiaberto, chacoalhou a cabeça e olhou para o chão. Fui passar pelo seu lado, para poder seguir o caminho, mas suas mãos seguraram meus braços com força e eu olhei, pela primeira vez em tempos, em seus olhos. Senti aquele choque que costumava sentir, mas quis me impedir disso. Eu não queria sentir mais nada por Carl Grimes. Ele era meu passado. O que eu tinha que deixar para trás. O que eu não podia mais me importar.
– Mari, por favor... Me perdoe.
Ignorei-o e olhei para o lado, vendo Lucie e Chris com suas cabeças abaixadas. Sorri de canto para os dois e olhei apenas, somente, mais uma vez para Carl, com superioridade. Segui andando até chegar à outra casa.
Bati três vezes na porta, que não se abriu. Andei para trás e fiz um sinal para que as crianças se afastassem. Os dois se apoiaram na cerca da varanda e eu peguei velocidade e esbarrei contra a porta. Ela se abriu e eu toquei meu braço que doía por causa da colisão. Girei a cabeça e olhei para as crianças. Minha visão se focou atrás, onde estava o filho do Xerife parado, com seus olhos fixos em mim e a boca entreaberta. Senti uma pontada no coração, mas a fiz a sensação passar com apenas um pensamento negativo sobre aceitar isso.
– Mari! – Carl gritou. – Fale qualquer coisa, por favor!
Foi então que perdi minha paciência. Olhei para Chris, pedindo para que ele permanecesse parado, junto de sua irmã. Seus olhos claros me acompanharam por cada movimento. Desci os degraus em direção do garoto que estava parado. Empurrei seu peito com raiva e comecei a gritar:
– Você jurou coisas para mim, em seguida disse me amar, e me fez amar você, acreditando em tudo o que disse ou fez. Eu teria morrido em seu lugar. Eu não acredito que consegui ser tão burra a ponto de acreditar. Aliás, sei que fomos realmente um casal, mas o que você fez com Kelly, aquilo sim foi uma desgraça. Eu estava surtando, e vocês... Argh. Não preciso falar com você. Tudo o que eu tinha que dizer, já disse. O que mais você quer de mim? Já teve meu coração, meu amor e agora, minha tristeza. Você realmente não me merece.
Assim que terminei de falar, o garoto me olhou como se tivesse levado um choque de realidade como um soco na cara. Torci a boca e o observei derramar uma lágrima e dar meia-volta, indo para uma casa. Apenas ouvi sua porta se fechar e ignorei, voltei para a casa da qual havia arrombado a porta. Adentrei e esperei que as crianças entrassem também. Pedi para que elas ficassem paradas à frente da porta enquanto eu vasculhava cada centímetro da sala.
Era uma sala comum. Um sofá ao centro, um belo tapete peruano abaixo do sofá e da televisão, encostada à parede em cima de um móvel feito de madeira escura. Havia alguns quadros diferentes, pinturas abstratas, modernas e coloniais. Era estranho. As plantas em cada canto estavam mortas, as cortinas grossas impediam as luzes de passarem e iluminar o local, o tornando quase que sombrio. Virei-me e avistei a cozinha, onde não havia nada além de utensílios espalhados pelo chão e gavetas abertas. Abri um dos armários e achei comida. Cereais, etc. Dava para nos sustentar por ao menos uma semana.
– Mari? – a voz de Lucie invadiu meus ouvidos.
Sua voz parecia música, era doce, fina e amável. Ela parecia muito comigo quando eu era menor... Mas... Eu tinha essa sensação, mesmo não me lembrando de minha infância. Seus olhos sempre brilhavam quando ela conversava comigo. Era como se eu fosse sua última esperança. Eu me responsabilizei por eles a partir do momento em que os achei. Fui tão fria, como pude ser tão mole com apenas duas crianças?
Olhei para a garota novamente, saindo de meus pensamentos. Notei que ela parecia esperar uma resposta de algo, provavelmente, eu não havia prestado atenção.
– Desculpe, o que? – perguntei mordendo a bochecha internamente.
– Eu perguntei se podemos nos deitar no sofá.
Assenti com a cabeça friamente. Não era minha intenção não sorrir, mas só não consegui. A garota dos longos cabelos louros se deitou no sofá, ao lado de seu irmão que estava sentado. Olhei para a escada às minhas costas e voltei a planejar o que eu tinha que fazer em seguida. Posicionei minha mão no cabo da faca e fui até os dois.
– Eu vou checar o andar de cima – olhei para os lados e vi uma luminária grande. Chutei-a quebrei a cúpula de vidro com meu pé, despedaçando no chão. Peguei seu cabo e voltei à frente do sofá, sendo acompanhada pelos olhos atentos. Coloquei o cabo de aço aos pés de Chris. – Fiquem atentos. Qualquer coisa, vocês devem saber ao mínimo como fincar algo em um errante.
Ambos assentiram de modo assustado, como se soubessem que correriam risco. Dei minhas costas e fui em direção da escada, subindo cada degrau de madeira delicadamente enquanto retirava a faca de seu suporte. Quando dei o primeiro passo no segundo andar, notei que uma das portas estava aberta, de aparência de arrombamento. Andei até as outras e as fechei, por precaução. Aproximei-me lentamente da segunda porta, escancarada, e empurrei-a devagar. Quanto mais se afastava, mais revelava a imagem do quarto. Era, na verdade, um escritório. Havia uma escrivaninha no canto e uma estante imensa cheia de livros ao lado. Senti algo como uma alegria ao ver os livros. Ignorei isso e me virei, procurando por qualquer sinal de pessoa que pudesse ter entrado na casa. Foi então que ouvi uma batida forte, próxima de mim.
Virei-me rapidamente e notei que havia uma porta ao fim do cômodo. Aproximei-me, ainda com a faca levantada, preparada para o que viesse. Me encostei na parede ao lado e girei, lentamente, a maçaneta, abrindo-a e me virei, para que pudesse atacar o que estivesse adentro. Nada apareceu. Adentrei o pequeno armário, procurando por qualquer coisa que pudesse ter feito aquele barulho. Foi então que algo pulou em minhas costas. Virei-me rapidamente, para ver o que havia me assustado, e notei que um guaxinim saía diretamente pela janela.
Ainda trêmula pelo susto, saí do escritório e adentrei os outros dois quartos, que também estavam impecáveis. Sem sinal de invasão ou algo do tipo. Imaginei que os antigos donos da casa fugiram ao saber do caos que se tornava no mundo.
E, inesperadamente, ouvi um barulho alto na porta da frente.
Saí correndo e fui em direção da escada, mas enquanto corria, acabei levando um tombo e caindo e raspando a perna logo na parte quebrada do corrimão, o que me gerou um grande hematoma na canela, escorrendo sangue. Gemi e me levantei com dificuldade, descendo os últimos degraus e retirei minha faca do suporte, indo em direção à sala, mancando.
Ao chegar lá, uma raiva e um alívio inexplicável me preencheram. Estavam Lucie, Chris e Carl, sentados num sofá, papeando como se fossem todos velhos amigos se reencontrando. Olhei para Carl até ele notar que eu estava incomodada com sua presença.
– Oi Mari – ele sorriu de canto. – Como você pôde deixar essas crianças sozinhas enquanto caía da escada?
Senti uma louca vontade de esmagar ele com uma prensa. Eu riria tanto.
– O que você está fazendo aqui?
– Uma visitinha. Parece que você se machucou feio aí, hein?
Olhei para minha perna e só então vi o grau do machucado. Era um corte imenso, profundo, que sangrava bastante. Eu precisava cobrir com algo, caso não, poderia ter mais problemas. Olhei para o corrimão e notei que escorria sangue na parede e pingava da farpa da madeira. Fiquei irritada por não ter notado aquilo antes.
– Chris, pode procurar por bandagens na cozinha? – olhei para o garoto.
Ele assentiu, mas quando foi se levantar, Carl encostou-o no sofá novamente.
– Deixe comigo, eu procuro o que Mari precisa – e foi em direção à cozinha.
Chris pareceu um pouco irritado, e, sentou-se emburrado, apenas observando Carl vasculhar as gavetas. Lucie me ajudou a levantar e caminhar até o sofá. Deitei-me, com as pernas estendidas. Não queria receber todo esse cuidado. Fazia-me parecer fraca.
– Lucie, leve seu irmão para cima. Tem um quarto bem legal, cheio de brinquedos – falei com um fraco sorriso forçado.
A garota assentiu e cochichou algo ao irmão, que concordou junto e, assim, subiram as escadas lentamente, indo em direção ao quarto. Fechei os olhos por alguns segundos, até sentir movimento no sofá. Carl se sentou à ponta, e colocou minhas pernas sobre seu colo, e com uma risadinha, começou a molhar um pano em água, para limpar o ferimento.
– Você é ridículo – falei.
– Você não achava isso.
– Eu não achava que você fosse beijar minha prima à minha frente, mas as pessoas se enganam.
Ele ficou quieto por um momento, até que eu senti a dor da água em contato com meu ferimento. Tentei evitar a expressão de dor, a que eu provavelmente devo ter feito. Abri os olhos assim que notei que os havia fechado. Carl me olhava, pedindo a permissão para que continuasse a mexer no ferimento.
– Continue.
– Você está com dor.
– E desde quando você se importa com isso?
Ele chacoalhou a cabeça levemente e voltou a limpar o ferimento. Sua expressão era devastadora. Fechei meus olhos novamente, levando uma mão ao rosto, para poder pensar em outras coisas no escuro, enquanto a dor caminhava perfurando meu corpo.
– Eu sempre me importei com isso – Carl disse. Retirei a mão de meu rosto e o encarei. – Sempre me importei com você. Você só não se lembra. Não tem o direito de se achar a rainha da verdade a esse ponto. E, além disso, não sabe compreender também. Não consegue entender o meu lado.
Carl cortou a bandagem e deu um nó. Movimentei minha perna lentamente e já não sentia tanta dor. Levantei-me, sem agradecer, e subi a escada com dificuldade, indo à um dos quartos.
Deitei-me na cama, sobre os lençóis brancos impecáveis e fechei os olhos, entrando, alguns segundos depois, na fase entre sono-sonho. Ao mesmo tempo em que fui grossa, não gostaria de ter sido. Mas aprendi comigo mesma, que o sentido de não ter o coração partido, é não ter um. Respirei fundo, pensando em todas suas palavras indelicadas, e pensando se ele pudesse estar tão certo quanto parecia, e eu tão errada quanto demonstrava. Agora já me sentia errada em minha posição. Como se fosse um erro em tudo, sem saber explicar o por que.
Ouvi umas batidas na porta e vi-a abrir-se, revelando o corpo de Carl, que olhava para mim, arrasado. Ele se aproximou e deslizou parede abaixo, sentando-se ao lado da minha cama. Virei meu olhar para ele, apenas observando, sem expressão alguma.
Sem palavras, consegui ver que ele estava pedindo desculpas. Apenas com seus olhos azuis mirados à mim no escuro. Quis sorrir, mas preferi não ceder dessa maneira. Seus olhos pareciam mais cheios de luz, mesmo no cenário negro.
– Deite-se. Você está cansado – disse eu.
Ele assentiu e levantou-se lentamente, dando a volta na cama, até deitar-se do outro lado. Por um leve momento, quis que ele me abraçasse, mas não foi o que ocorreu. Ele se deitou virado para o outro lado, e assim, adormecemos.
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