Why Me?
37 Capítulo 37 - Nice to meet you
Notas iniciais
“Você jurou.”
Foi a única coisa que falei assim que vi minha prima debruçada sobre Carl, que estava sem camisa. Ele havia me jurado que nunca iria me abandonar, mas eu estava presenciando aquela cena. Já devia ter suspeitado desde aquela noite em que ouvi os dois conversar sobre algo estranho. Aliás, nunca devia ter confiado em Carl. Ele era um prisioneiro. Só estava me usando para ganhar tempo, e me mataria depois.
Em pouco tempo, consegui correr até o balcão da cozinha e pegar a faca que estava sobre ele. Não olhei para Carl. Não consegui ver se ele tentou ir atrás de mim. Apenas abri a porta da frente com força e saí correndo. Pude ouvir gritarem meu nome de longe, mas ignorei. Minha mente estava muito confusa para eu poder me concentrar em um caminho.
Ocorreram coisas loucas comigo nos últimos dias. Pessoas que eu nunca vi em minha vida tentaram me estuprar por “o que eu fiz com os amigos dele”. Eu sequer conhecia aquele homem.
Imagens loucas começaram a entrar em minha mente. Eu via uma mulher de olhos verdes e cabelos escuros de meia-idade, que chorava em um posto enquanto uma daquelas coisas devorava seu braço. Eu gritava, um garoto ao meu lado gritava e uma menina estava desmaiada no meu colo. Mais tarde, um garoto, creio que seu nome era Lucas, me chamava, e em seguida, um errante mordia seu braço e ele chorava, olhando para mim com seus intensos olhos azuis. “Isso é culpa sua”. Era tudo que ele dizia. E, logo em seguida, ele e mais várias pessoas que me pareciam familiares, olhavam para mim, com olhos vermelhos e algumas mordidas de errante pelo corpo. As lágrimas escorriam pelo rosto e todos repetiam a mesma frase: “isso é culpa sua”.
Foi aí que eu surtei e fui correndo para a floresta. Me perguntava se aquelas pessoas eram imagens de meu passado que foi oculto por algum acontecimento, que também não conseguia me lembrar.
Agora, mais uma tragédia para a coleção. Fui traída pelo meu namorado. Que namorado? Era tudo uma mentira. Aposto que era encenação pura. Kelly não era minha prima. Carl não era meu namorado. E eu era Mari? Não tinha resposta.
A floresta se tornou mais escura. Ainda era dia, dava para ver no céu. Podia ouvir os pássaros cantando, e eu seguia a correr. A faca começou a furar meu bolso. Eu havia esquecido a bainha na casa, e eu não voltaria só por ela.
Tropecei em uma pedra. Caí bem de cara no chão, e as folhas se quebraram em meu rosto. Me levantei com pressa, sem me importar se havia algo por perto, até que meu ombro foi tocado. Me virei, olhando para a figura estranha. Era uma garota, com aparência de dezessete anos. Seus cabelos eram castanhos e tinha sardas. Seus olhos poderiam ser considerados negros. Ela não parecia normal. Estava pálida e vestia um vestido branco e sandálias. Quem usa isso em um apocalipse? Ela não sorria, e não parecia feliz.
– Pare.
Ela falou, mas eu ignorei e segui correndo para frente. Sua figura apareceu em minha frente novamente e estendeu uma mão sobre meu rosto.
– Pare!
Ela já não estava mais falando, estava advertindo. Eu tapei meus ouvidos e fechei os olhos, caindo de joelhos no chão, enquanto gritava.
Fiquei daquele jeito por um tempo, até que abri os olhos, e a garota não estava mais lá. Eu me levantei e sequei as lágrimas em meu rosto, e, quando fui me virar para seguir andando, acabei caindo de algum lugar.
[...]
A queda estava intensa. Eu sabia que morreria assim que chegasse ao fim. Apenas fechei os olhos e senti o vento bater contra meus cabelos e fazer um ruído ensurdecedor em meus ouvidos. Lágrimas saíam de meus olhos e eu esperava a morte se aproximar.
Mas, apenas apaguei.
[...]
– Ela acordou – ouvi uma voz assim que abri meus olhos.
Só consegui gemer e olhar para cima. Alguém tocou meu rosto e minha testa, como se estivesse vendo se eu estava com febre.
– Traga água! – outra voz soou.
Um homem com cabelos castanhos apareceu. Ele estava com uma expressão preocupada e carregava, em suas mãos, uma garrafa d’água. Me sentei na cama, ou onde quer que eu estava, e analisei o local. Senti uma imensa dor de cabeça assim que me sentei. Um garoto louro estava à minha frente. Ele vestia uma camisa listrada por cima de uma regata cinza. Em seu pescoço, havia um cordão com uma palheta pendurada. Seu sorriso era confortável, largo como o de um latino. E ele parecia tentar esconder a preocupação. Não tinha minha idade, claro. Parecia ter uns quatro anos a mais. Parecia ter idade de Lucas. Espera. Quem é Lucas?
O homem ao seu lado aparentava ter meia-idade. Tinha cabelos castanho-claro e estava com uma expressão preocupada.
– Ela não é uma daquelas coisas, é? – o homem se aproximou lentamente.
– Acho que não – o garoto louro me encarou.
– Não, Leighton! – o homem puxou o garoto de volta. – Não podemos confiar.
Eu espirrei, e no mesmo momento, ambos apontaram facas para mim. Eu levantei os braços em modo de rendimento. O garoto tocou o braço de seu pai e ambos abaixaram as facas. O sorriso dele se abriu diretamente para mim, me deixando sem ação.
– Você tem nome? – ele me encarou.
– Mari – falei. – E isso é meu.
Olhei para as mãos do homem mais velho, que segurava minha corrente. Ele olhou para mim e em seguida, para o garoto, aliás, acho que seu nome era Leighton.
– Desculpe. Achamos que você estivesse morta e enterraríamos com você – o homem falou. – Não me apresentei. Sou Carlo e esse é meu filho, Leighton.
– Oi – falei.
– Bom, não sabemos sobre você. Somos boas pessoas, podemos te abrigar. É um grupo pequeno, mas confiável. Você tem grupo? – Carlo falou.
– Ahn... – me lembrei de tudo. – Não.
– Ótimo! – Carlo riu. – Vou montar uma barraca para você.
O homem saiu da barraca, deixando apenas Leighton e eu. O garoto ainda sorria descaradamente. Eu sorri, sem pensar.
– Não é todo dia que alguém cai do céu, diretamente na minha barraca – ele riu.
– Não vai acontecer de novo.
– Você parece mal. Está com fome? Sede?
– Não. Estou bem.
Ele me estendeu um braço para descer da maca/cama. Eu segurei e desci. Senti minhas bochechas queimarem. Ele era muito alto. Tipo, uns vinte centímetros maior que eu.
Eu soltei seu braço e fui caminhando para fora, onde vi Carlo parado, de frente para a barraca que havia acabado de montar. Havia poucas pessoas caminhando pelo local, que mais parecia uma cova imensa no meio do nada. A vegetação estava em um dos picos, dos quais eu provavelmente despenquei. Me aproximei de Carlo, e ele abriu a barraca, me deixando entrar. Fiquei surpresa ao ver como eles eram atenciosos. A barraca estava pronta. Havia uma mochila nova, minha faca e roupas no canto. Abri a mochila e achei comida. Eu fiquei realmente feliz ao ver como se importavam comigo. Pela primeira vez.
– Uau – apenas o que consegui falar.
– Bem-vinda – Carlo sorriu. – Agora você é da família.
Uma família. Algo que eu não tinha, agora eu poderia aproveitar essa chance.
– Temos uma garota da sua idade. Ela saiu em uma busca com Jared. Ela é um doce, você vai adorá-la!
– Espero.
Foi só o que eu disse antes de me deitar no colchonete e adormecer.
[...]
Era manhã, e eu acordei feliz, pela primeira vez. Havia sonhado com tantas coisas boas. Com uma nova vida nesse grupo. Até que Carl entrou em meus sonhos. Ele chorava e me implorava por perdão, até ser mordido no pescoço. Eu não me importei, mas isso foi suficiente para não conseguir dormir mais.
Abri a barraca e saí, recebendo a luminosidade do sol em meu rosto. O cheiro de ar puro podia ser notado pela primeira vez. Eu vi Leigh cortando algumas lenhas junto de Carlo, que sorriu ao me notar.
– Mari! – ele exclamou.
Havia uma garota loura virada de costas para mim. Ela parecia ter minha altura.
– Essa aqui é a menina mais doce do mundo. Aposto que vocês serão super amigas – Carlo sorria.
A menina se virou, e eu pude ver seus intensos olhos azuis. Ela sorria, mas sem felicidade, e estendeu a mão para mim.
– Gabrielle, prazer – ela piscou com um olho. – Tenho certeza de que seremos super amigas.
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