Why?

1 Ficlet


Notas iniciais
É só um ficlet, por isso é bem curta.

“Por que, Gerard?” Você me perguntou antes que eu saísse definitivamente pela porta. “Por que as pessoas que eu amo sempre acabam me deixando?”
Eu tive vontade de gritar na sua cara, tive vontade de jogar o que quer que fosse que eu tinha na mão em cima de você, quebrar a porta, ou te segurar pelos ombros e te chacoalhar até que você percebesse o real motivo das pessoas que você ama te abandonarem.
Eu devo ter ficado muito tempo sem responder, de costas, observando seu reflexo ao contrário e embaçado na maçaneta que eu deveria estar girando em meus dedos naquele instante. Eu queria me socar. Havia tanta dor na sua voz, na sua pergunta tão complexa de ser respondida, e tão simples de ser ignorada.
Você deixou de ser criança há muito tempo, quase tanto tempo quanto eu, mas ainda agia com a inocência de uma em certos momentos. Era como se não conseguisse entender quando errou, ou quando alguém falava sério – você tinha que ir cometer os mesmos erros de novo, e rasgar em cima da mesma ferida de novo, e de novo, quando ela ainda sequer havia cicatrizado. Tão cego e tão inconseqüente.

Você vai morrer antes dos trinta.
Você sabe disso.
Você sabe que se não parar você vai continuar afastando de você as pessoas que você ama, porque as pessoas que você ama te amam também e não querem te ver morrer!
Eu não quero te ver morrer.
Eu segurei a maçaneta com a força que eu segurava as lágrimas naquele instante. Não passou de minutos, mas o silêncio pesado tornava aquilo uma eternidade.
No fundo eu não queria ir embora.
Eu devia ter gritado, devia ter jogado em você o que eu estava segurando, devia ter quebrado a porta, devia ter te chacoalhado pelos ombros e ter feito você perceber que as pessoas não te deixam porque querem, elas te deixam porque em certo ponto elas percebem o quanto você poderia ser diferente, o quanto poderia prolongar sua vida, o quanto poderia fazer bem a si mesmo e não quer.
Você escolheu isso, Bert.

E no fundo você sabe.
E eu poderia ter feito tanta coisa...
“Eu não sei, Bert.” Eu disse simplesmente, girando enfim a maçaneta na minha mão.
Eu não olhei pra trás, eu não queria ver a dor nos seus olhos, porque eu poderia acabar voltando pra você e isso não te faria bem. Eu já havia tentado de tudo e nada mudou, agora era só esperar que você percebesse o que faz.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!