Who stalk the stalkers?
3 The Eye
Descansei meu corpo apenas o suficiente para aguentar a suposta reunião e chegar em casa, vivo. Abri meus olhos com dificuldade, procurando cegamente meu despertador com minha mão direita. Tenho o costume de dormir de bruços e de manter meu despertador distante da cama quando preciso dormir pouco. A distância entre o som irritante e meu corpo servia para me obrigar a levantar e, consequentemente, acordar sem chance de escolhas. A posição não tem muitos motivos, mas ouvi de um colega há uns anos que ajudava a acordar mais fácil e me apeguei ao hábito. Levantei rapidamente, ainda com os olhos entreabertos, e tratei de colocar meu organismo para funcionar, inundando meu estômago com uma caneca cheia de café requentado. O gosto não era dos melhores, mas minhas papilas gustativas reconheciam o ritual e logo avisaram o restante do corpo para funcionar com a energia reserva.
Feita minha pequena rotina “matinal”, vesti uma camiseta marrom e calças jeans escuras com um casaco negro por cima, carregando uma mochila com minha máscara e mais alguns objetos que poderiam ser úteis, caso o pior acontecesse. Sai do meu apartamento e o tranquei, como de costume. Eram seis e alguma coisa da tarde e eu tinha alguns ônibus para pegar. Porém, não me sentia mais à vontade no meio de multidões. Não queria correr o risco de ser espionado por um stalker aleatório no trajeto. Pensei em ir à pé, mas a distância do meu refúgio até o local de encontro era desanimadora. Pensei um pouco enquanto ia até a rua e decidi chamar um táxi. Antes um stalker que podia ser vigiado pelo meu olhar fixado no espelho retrovisor do que vários estranhos me observando de todos os lados. Esperei mais ou menos dez minutos até que uma alma atenciosa parasse à minha frente. O carro era de um amarelo forte, com a pintura bastante desgastada pelo tempo de uso. O pequeno letreiro em cima da carroceria piscava pausadamente, em um ritmo lento e contagiante. Ao entrar, pude analisar um pouco mais. Bancos de couro marrom escuro remendados aqui e ali. Um par de aromatizantes na forma de pinheiros verdes estava pendurado no retrovisor, por onde eu conseguia ver o motorista. Era um homem alto e esguio, com cabelos ligeiramente grisalhos cobertos por uma boina acinzentada de pano. Seus olhos castanhos demonstravam cansaço, fazendo par com seu sorriso forçado, com dois ou três dentes tortos.
Trocamos três ou quatro frases durante a viagem de quarenta minutos. Parecia apenas um taxista comum, mas estive atento o tempo todo. Paguei o sujeito e me virei para meu destino: uma pequena lanchonete com um nome comum aleatório. A aparência do local era tão inofensiva que minha suspeita chegou ao seu ápice. Tinha tempo de sobra e fiquei discutindo com meu cérebro para decidir se usaria ou não minha máscara. Uma melodia acelerada e repetitiva me tirou de meu debate imaginário, alertando-me que tinha apenas dez minutos para entrar no local. Perdi tempo demais em meus pensamentos e acabei decidindo ignorar algumas paranóias e dar logo um fim àquela luta. Adentrei a lanchonete sem minha máscar, analisando cada milímetro do local. Um pequeno sino de metal tocou com a abertura da porta, anunciando a chegada de mais um possível cliente: eu. Havia apenas quatro mesas quadradas com duas poltronas cada, coladas com as duas paredes laterais do estabelecimento. Mais ao centro, um grande balcão de madeira coberto com algum tipo de tecido branco com listras azuis servia de apoio para clientes que decidiam se sentar nos pequenos bancos de madeira circulares à frente do balcão. Atrás do balcão estava uma garçonete de cabelos loiros e curtos, com olhos verdes e pele clara que anotava alguns pedidos do único cliente nos banquinhos. Logo atrás dela, ficava uma entrada para o que deveria ser a cozinha, pelos sons e cheiro de fritura. No fim do local, na última mesa, estavam três pessoas olhando fixamente para mim. Duas eram figuras conhecidas: Senhorita Hiperatividade e Daisy Jenkins. Me assustei um pouco ao ver a garçonete ali, mas logo vasculhei minha memória e consegui visualizar a garota fazendo parte do coro bizarro e traumático que ouvi na lanchonete de sua família. A terceira pessoa era um homem na casa dos vinte anos, com cabelos castanhos e ondulados, olhos também castanhos e pele morena. Ele vestia um longo sobretudo cinza escuro e uma boina também cinza, com sua aba voltada para a esquerda.
Hiperatividade logo acenou para mim freneticamente, de forma que seria impossível não notar sua presença. Seus cabelos estavam vermelhos como o fogo e seus olhos, lilás. Era realmente uma pessoa com gostos exóticos. Aproximei-me normalmente, enquanto tentava esconder meu nervosismo parei em frente à mesa. Cada poltrona suportava três pessoas, uma ao lado da outra. Em uma delas, estavam Daisy e o homem desconhecido, de quem eu preferia distância por ser nosso primeiro contato. Senhorita Hiperatividade estava sozinha, me encarando com seu sorriso largo. O mais agradável para mim seria sentar ao lado da garçonete, já que era uma figura mais familiar, só que isso me deixava mais próximo do cara de boina, me deixando em um dilema paranóico. Notando minha dificuldade, a hiperatividade em pessoa se aproximou mais da janela e bateu duas vezes no estofado ao seu lado enquanto olhava para mim. Sem muitas escolhas, sentei ao seu lado.
Ficamos todos se entreolhando em silêncio por alguns minutos. Deve ser algum tipo de ritual de stalkers analisar as pessoas com que tem contato. Claro eu geralmente faço isso enquanto outros estão falando, o que disfarça um pouco minha ação. Como só havia gente como eu naquela mesa, o silêncio tomou o lugar da falação de terceiros enquanto fazíamos o nosso trabalho. Daisy relutava em me encarar diretamente, talvez pelo tempo que nos “conhecemos”. O rapaz não hesitou um momento sequer, demonstrando grande concentração ao me analisar. Assim que as “formalidades” foram encerradas, decidi tomar a frente e matar um pensamento irritante antes que ele decidisse me atormentar durante a noite:
— Então… Desde quando está nessa vida, Daisy?
A garota, que olhava atentamente para minha mochila, se assustou com minha pergunta e desviou o olhar para baixo, mordendo os lábios e segurando seu braço direito com a mão esquerda. Ela não parecia muito disposta a responder no momento, então minha dúvida ficou para outro dia. O homem se intrometeu em nosso debate unilateral e colocou sua boina sobre a mesa, estendendo sua mão direita para mim. O cumprimentei por impulso, chacoalhando sua mão duas vezes.
— Pode me chamar de Sherlock. — disse ele. — E seria melhor chamar a senhorita ao meu lado de Fire Head.
— Deixe-me adivinhar, “nomes de stalkers”?
— Prefiro chamar de nome artístico ou profissional, como preferir. Não vá na onda da Dark Rose.
— Vai sim cara, ele não sabe de nada, confia em mim. — disse a Senhorita Hiperatividade, enquanto colocava duas colheres de açúcar em seu chá.
— Dark Rose? Prefiro Senhorita Hiperatividade.
— Pode me chamar até de Bananarang se quiser quando estivermos a sós, mas aqui eu sou a Dark Rose.
— Tudo bem, tudo bem. Nesse caso eu suponho que me chamarão de Skull Guy, correto?
— Exatamente. — disse Sherlock. — Estes encontros são frequentes, então logo se acostumará. Esta é uma das poucas regras que existem neste grupo.
— Entendo. O que, exatamente, nós somos? Temos algum tipo de nome?
— Não se sabe ao certo quando tudo isso começou oficialmente, mesmo para um membro antigo como eu, mas a única certeza que temos é que nosso fundador é conhecido como The Watcher.
— Parece um bom nome para um stalker.
— É o que a maioria diz. Basicamente, somos um grupo social que visa a obtenção e o compartilhamento de informações que seriam de difícil acesso para um stalker sozinho. O grupo é carinhosamente apelidado de The Eye, o que gera algum fanatismo de alguns membros e várias tatuagens de olhos.
— Chega a soar engraçado, mas é compreensível de uma forma estranha.
— Concordo. Enfim, temos poucas regras e não há líderes, então todos os membros possuem a mesma “autoridade”.
— Nem mesmo o tal Watcher?
— Não, foi uma das primeiras regras impostas. Existem apenas três regras: nada de líderes, não chamar os membros por seus nomes e nunca vazar informações sobre o grupo para terceiros.
— Parecem regras fáceis de se cumprir, mas não detém uma organização no grupo.
— Isso é um problema com o qual estamos acostumados a lidar.
— O grupo é um verdadeiro caos em algumas áreas do mundo. — disse Rose enquanto colocava mais quatro colheres de açúcar em seu chá. — Mas é aquilo, né? Sem líderes nem regras morais e éticas, não há certo e errado, caos ou ordem. O pessoal dessa região formou uma espécie de conselho, onde decidimos quem entra e colocamos alguns limites em nós mesmos, por meio de votações e conversas.
— Isso não contraria a primeira regra?
— Não somos líderes. — disse a garota. — Não cabe a nós expulsar membros, apenas decidimos pacificamente e em conjunto nossas ações como um grupo organizado.
— Entendo, então parece que tive sorte em morar por aqui.
— Claro que teve! Não é qualquer um que pode tomar um cházinho com a senhorita Dark Rose aqui.
— Me pergunto o motivo...
O sino da porta tocou novamente e a atenção de todos se voltou para a entrada. Uma mulher alta com cabelos loiros, curtos e bagunçados adentrou a lanchonete enquanto bocejava e esticava seu braço direito para cima. Ela vestia uma calça roxa de moletom com duas listras lilás verticais em cada perna, com um casaco com capuz da mesma cor e padrão. Seus olhos azuis percorreram todo o local e pararam ao nos avistar. Havia duas grandes olheiras abaixo deles, contrastando com sua pele pálida. Se eu fosse chutar, diria que ela raramente saía de seu quarto. Ela arrastou seus pés, revestidos por duas pantufas de coelho roxas até nossa mesa e sentou-se ao meu lado, apoiando seu cotovelo esquerdo na mesa e usando sua mão como apoio para sua bochecha. Seus olhos fixaram-se em minha face por alguns minutos, enquanto um sorriso sutil se formava em seu rosto e todos permaneciam em silêncio. Foi assustador.
Meu corpo estava paralisado com o olhar daquela garota estranha de pijamas e já era praticamente impossível esconder meu nervosismo, transparecendo em pequenas e tímidas gotas de suor que escorriam pelo meu rosto. Daisy se mostrou minha salvadora e pôs um fim àquele momento eterno e bizarro:
— É raro vê-la em uma reunião a essa hora, Leather Face.
A garota de pijamas, que me encarava sem sequer piscar, piscou duas vezes, mostrando ainda estar viva e se virou para Daisy, soltando uma risadinha seguida de uma pequena crise de tosse.
— Não seja má comigo, Fire Head, eu só queria dar boas vindas ao nosso novo companheiro.
— Parece que te jogaram na calçada direto da cama. — disse Dark Rose.
— Estou tão acabada assim?
— Mais do que o normal. — disse Daisy.
— Oh, sinto muito então. Eu não durmo há alguns dias… Quantos mesmo?
Leather Face apoiou suas costas na poltrona e levantou suas mãos à altura de seus olhos, fazendo algumas contas em câmera lenta dentro de sua mente. Sua aparência e atitude indicavam que seu corpo poderia ceder a qualquer momento, o que era meio desesperador. Aliás, falando em desesperador. Seu nome profissional, artístico ou sei lá o que me incomodava muito. Não conseguia pensar uma coisa boa sequer saindo de um nome desses e pensar que a dona deste título ficou me encarando por alguns minutos sem piscar era um bom motivo para reforçar todas as trincas do meu apartamento.
Enquanto eu delirava de medo, estresse e entrava em um looping de desespero imaginário com possíveis situações bizarras e aterradoras acontecendo com minha pessoa, a garota terminou de contar e voltou a falar, lutando com todas as suas forças contra a exaustão.
— Acho que faz uma semana hoje. Devo dormir uns dois dias diretos quando chegar em casa.
— Você vai morrer cedo se continuar desse jeito, Leather. — disse Sherlock. — Já é a terceira vez em três meses.
— Não posso evitar. Estava extraindo informações importantíssimas sobre Juan de La Montana.
O nome era muito familiar. Tão familiar que me tirou de meu looping paranóico e me colocou no caminho da razão, rumo às terras longínquas de minha memória. Após uma viagem de algumas horas imaginárias, consegui me lembrar de onde eu conhecia aquele homem. Na verdade, eu não conhecia, mas ele era supostamente um famoso traficante de humanos da região. Tudo o que eu li sobre Juan eram rumores que surgiam de tempos em tempos na internet e algumas notícias sobre tentativas de captura falhas em jornais. Pelo que me lembrava, sua identidade e endereço eram pedidos constantes de alguns clientes policiais meus, mas nunca aceitei por temer por minha vida. Admito que fiquei impressionado e extremamente curioso sobre o resultado da pesquisa da rainha de meus pesadelos.
— Teve algum progresso? — perguntou Sherlock.
— Elementar, meu caro. — respondeu a garota enquanto segurava o riso. — Não há informação que eu não consiga se me dedicar por alguns dias. As pessoas sempre acabam falando seus segredos para mim.
Um calafrio subiu minha espinha e minha curiosidade sobre o assunto morreu de súbito. Voltei minha atenção para a mesa e permaneci calado, esperando continuarem o assunto sem mim. Porém, o assunto foi assassinado ali mesmo, de forma fria e cruel por sua criadora.
— Bem, acredito que isso seja o suficiente para a primeira reunião de nosso novo companheiro. — disse Sherlock, da forma mais natural possível. — Só lhe resta entrar em nosso canal de comunicação. Aqui estão todas as instruções que precisa.
O homem arremessou um dominó sem números, que agarrei no susto com minha mão direita. Todos nos despedimos e saímos do local educadamente. Daisy parecia querer evitar contato comigo e andou apressada para longe de nós quando estávamos do lado de fora da lanchonete. Dark Rose e Sherlock saíram juntos, conversando e me deixaram com a Leather Face, que mal se aguentava em pé. Pensei que seria ali o local de minha morte, mas a garota simplesmente bocejou e começou a se afastar de mim, dando um tchauzinho de costas. Suspirei aliviado, mas logo me desesperei de novo. Ela parou e se virou novamente para mim, sorrindo.
— É realmente uma pena. — disse ela. — Eu queria muito ter sido sua recrutadora, Skull Guy. É realmente… Uma pena...
Seus olhos vazios e penetrantes adentraram minha alma e me levaram mais uma vez em uma jornada de desespero, interrompidos por mais um bocejo da garota, que se virou e saiu andando lentamente até desaparecer de minha vista. Demorei cerca de meia hora para conseguir me mover de novo e corri para a loja de ferramentas mais próxima para comprar trincas e cadeados novos.
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