Caminhamos tranquilamente sob a luz do luar pelas ruas movimentadas do centro da Baía dos Pecadores até a lanchonete do Jhonny. Eu não tinha voltado ali desde o momento traumático que me foi proporcionado pela Senhorita Hiperatividade, mas estava tranquilo. Havia apenas um casal de jovens sentados em uma mesa e um velho caminhoneiro sentado em um dos banquinhos em frente ao balcão. Nos sentamos na última mesa, longe dos outros clientes. Daisy tinha acabado de sair da cozinha, carregando uma bandeja de alumínio com dois hambúrgueres e uma porção de batatas fritas com ketchup e rapidamente notou nossa presença. A garota serviu o casal e se dirigiu até nós, pegando seu caderninho e uma caneta do bolso frontal de seu avental.

— O que os dois vão querer? Sei que o Bob vai pedir café. — disse a garçonete.

— Pode deixar ele bem forte hoje. — respondi.

— Eu quero waffles com mel. — disse Hiperatividade.

— Não vou querer nada além do seu telefone. — disse Lance dando uma piscadinha e rindo logo em seguida.

— Tapado. — disse Daisy, enquanto terminava de anotar os pedidos em seu caderninho.

A garçonete dedicada voltou, então, para a cozinha, parando antes ao lado do balcão para perguntar se o caminhoneiro precisava de mais alguma coisa. A resposta do homem foi um simples balançar de sua cabeça, indicando que sua xícara de café era tudo o que precisava no momento. A garota desapareceu de nossas vistas e nossa atenção voltou à nossa mesa. Sim, todos observamos o trajeto de nossa companheira stalker sem motivos aparentes. Talvez seria mais um hábito em comum entre gente como nós, o que me motivava a escrever uma enciclopédia para gerações futuras. O mais cômico é que nos entreolhamos e simplesmente decidimos por telepatia que iríamos fingir que não estávamos observando a garçonete. Lance se aconchegou na cadeira enquanto ainda ria baixinho com a reação de Daisy à sua cantada barata. Hiperatividade estava ao meu lado e balançava sua cabeça alegremente, murmurando uma canção aleatória e animada. Fiquei curioso para saber como ela seria em dias tristes e se ela conhecia isso em sua vida, então decidi investigar a garota que invadiu meu apartamento assim que tivesse algum tempo livre.

Pouco tempo depois, Daisy retornou com a mesma bandeja de alumínio, carregando uma xícara preta de café e três waffles sobre um prato com muito, mas muito mel despejado sobre eles ao lado de um pequeno frasco de vidro contendo mais mel. Acho que seria mais adequado chamar aquele prato de mel com waffles. Hiperatividade ficou eufórica assim que a garçonete colocou o prato de mel à sua frente e rapidamente pegou os talheres que estavam do outro lado da bandeja para começar a aumentar drasticamente suas chances de ter diabetes. Daisy colocou o café à minha frente e encarou Lance, na esperança de ele fazer um pedido de verdade, mas ele apenas acenou negativamente com a cabeça, deixando-a livre de nossa mesa. A garota, então, voltou ao seu trabalho normal, como se fôssemos apenas clientes normais, mas era nítido que sua atenção se voltava para nós vez ou outra. A curiosidade de stalkers não é algo a ser subestimado.

Assim que deixei de prestar atenção na garçonete e peguei minha caneca de café, notei sua cor e rapidamente olhei para Hiperatividade, que comia os waffles como se não houvesse amanhã. Não me lembrava de ter sido servido em uma caneca preta nos últimos anos que frequentei aquele local, então só podia ser um sinal de que mais gente sabia dos meus segredos. Claro que não deveria ser uma surpresa, uma vez que era compreensível imaginar que meus dados foram compartilhados com todos os membros da região para decidirem se iam ou não me recrutar. Ainda assim, era extremamente desconfortável tentar imaginar o que aquela louca ao meu lado informou a todos e o que ela decidiu guardar para si. Depois de uns dois minutos, decidi deixar essa questão na pauta da próxima reunião das minhas paranoias e tomei um longo gole do café. Estava extremamente forte, do jeito que eu gostava.

Assim que meu café estava pela metade e só restava um waffle no prato de mel da S.H., Show Man pareceu se lembrar que estávamos ali a negócios e não para simplesmente aproveitar um lanche noturno e apoiou seus dois cotovelos sobre a mesa, descansando seu queixo sobre suas mãos e fingiu uma tosse. Hiperatividade espetou seu garfo no waffle e me cutucou, quase fazendo com que eu derramasse o café.

— Não precisava ter me cutucado, sua louca. Eu não sou lerdo.

— Ah, sei lá né. Não sei para onde sua mente vai quando você está em um ritual sagrado com seu café.

— Não tão longe quanto a sua está a todo momento.

— Parece que você já está enturmado, rapaz. — disse Lance.

— Nunca fui bom em trabalhar ou conviver em grupo, então não sei dizer. Só era bom em fingir essas coisas.

— No meu caso é exatamente o oposto, mas não estamos aqui para falar sobre isso, não é?

— É isso aí, meu irmão. — disse Hiperatividade. — O S.G. aqui se juntou à caçada pelo fantasma e acabamos de voltar da Leather.

— Mas olha só, até já foi à casa da Leather. Tá enturmadão mesmo rapaz.

— Preferiria não ter ido. Aquela garota me assusta.

— Ela assusta a todos nós… Mas e aí? Quais são as boas?

— Precisamos das suas habilidades sociais para investigar dois restaurantes onde Juan costuma se encontrar com seus contatos.

— Já tem aparência, nome ou qualquer coisa assim?

— Ainda não. Deve ser um fantasma mesmo para se encontrar com os outros sem que eles saibam como ele ou ela é. Então você pode começar pelo cara que revelou essas informações: Julles de Gulhé.

— Entendo. A Leather revelou em qual dos restaurantes o cara se encontrou com Juan?

— Não. Esse Gulhé deve ser um cara durão.

— Eu falaria tudo em poucos minutos. — disse.

— Dá pra te entender, irmão. — disse Lance em simpatia com minha situação.

— Enfim, você só precisa ir lá e fazer sua mágica pélvica com as pessoas dos lugares.

— Calma menina, são restaurantes chiques e não boates. Vai ser um pouco mais difícil do que isso. De qualquer forma, amanhã mesmo começarei a investigar. Por hora, vou voltar pra balada. Algum de vocês me acompanha? Juro que consigo a melhor noite de suas vidas.

— Eu passo. — disse sem pensar duas vezes.

— Hoje eu estou de boa, cara. — respondeu S.H. — Vou acompanhar o S.G. até em casa pra ele não se perder.

— É uma pena. Assim que eu tiver novidades informo vocês.

Lance deu uma piscadinha para nós, se levantou e foi andando até a saída da lanchonete. Ele parou ao lado de Daisy e disse alguma coisa, mas não pudemos escutar. Pela expressão de desgosto no rosto da garçonete, só podia ser mais uma cantada. O homem saiu rindo pela porta e só então eu e S.H. voltamos a atenção para nossa mesa. A louca sorriu para mim e voltou a comer seu mel e eu decidi terminar meu café.

Ficamos em silêncio por dois ou três minutos, até minha caneca estar vazia e o prato de Hiperatividade conter apenas alguns vestígios de mel. Daisy se aproximou da mesa, pegando novamente seu fiel caderninho de anotações para verificar se queríamos mais alguma coisa. Eu e a loucura em pessoa balançamos a cabeça negativamente e a garçonete apenas recolheu o prato e a caneca, indo diretamente para a cozinha. Ficamos ali, parados sem falar mais nada. Normalmente eu teria ido embora logo após o café, mas o turno da Fire Head estava quase acabando e algo em mim dizia que ela se juntaria à nossa mesa. Esse “algo” era o que eu e minha paranoias decidimos chamar de “fator stalker”, um elemento inexplicável do cosmo que garantia a seus portadores uma curiosidade insaciável. Resumindo de forma não poética, era apenas minha certeza de que ela estaria curiosa para saber sobre o que estávamos falando com Lance. Hiperatividade me acompanhou nessa espera e eu decidi não perguntar o motivo.

Cerca de quinze minutos de espera depois, Daisy entrou na cozinha e saiu após três minutos usando um vestido verde claro até o joelho, sem estampas e de costura simples, com uma bolsa de couro preta e cabelos soltos. Ela olhou ao seu redor e rapidamente notou seus dois colegas stalkers, ainda na mesma mesa e ainda em silêncio. A garota comentou algo com seu pai e tentou disfarçar sua ansiedade enquanto andava lentamente até nossa mesa. Ela se sentou no banco antes ocupado por Show Man e colocou delicadamente sua bolsa ao seu lado esquerdo, próxima da janela. Ficamos os três nos entreolhando por alguns segundos até que Hiperatividade decidiu quebrar o gelo:

— Sabia que você não ia aguentar de curiosidade, menina.

— É claro que não! Vai que vocês estavam falando sobre mim aqui no meu serviço! Se quiserem que eu não fique curiosa, vão ter que se encontrar em outro lugar. — respondeu a garota, nervosa, apoiando seu braço direito na mesa e descansando sua faça sobre ele.

— E perder essa sua expressão? Nunca.

— Relaxa Fire Head, estávamos falando sobre trabalho. — disse.

— Vocês podem me chamar pelo nome aqui, seria estranho se meu pai ouvisse meu apelido.

— Vocês burlam bastante a segunda regra, não é mesmo?

— Eu gosto de pensar que ela é situacional, sabe. — disse Hiperatividade. — Se seguirmos ela à risca podemos comprometer nossas identidades, não acha?

— É, talvez você esteja certa, Bananarang.

— Eu sempre estou certa... Tirando as vezes que estou errada.

— Você é maluca.

— Obrigada.

— Então, vão falar o assunto da reunião ou vão continuar me torturando aqui?

— Tudo bem, tudo bem, menina. — disse S.H. enquanto tentava segurar o riso. — Bob se juntou à nós na caça ao fantasma, falamos com a Petúnia e o Lance agora vai fazer a mágica dele em uns restaurantes chiques.

— Entendi… Eu simplesmente não suporto aquele cara! É uma pena mesmo ele ser talentoso.

— Tem duas coisas que estão me incomodando e gostaria que vocês duas esclarecessem para mim. A primeira é sobre a caneca que você me serviu, Daisy e a segunda é sobre essa tal “mágica” que o Lance faz.

As duas se entreolharam e começaram a rir. Não era minha intenção perguntar sobre a caneca, mas minhas paranoias me dominaram e falaram sozinhas, causando aquela situação constrangedora e que rendeu dois minutos de risadas.

— Por que não estou surpresa da caneca ser a prioridade? — debochou Hiperatividade.

— Acho que no fundo, somos todos estranhos. — completou Daisy.

— Eu adoraria se parassem de rir às minhas custas e me respondessem logo para acabar com isso de uma vez.

— Relaxa, S.G.! Eu não espalhei suas manias e muito menos seu histórico meio zoado da internet para o grupo todo. Só contei esse lance da caneca pra Daisy porque você costuma vir aqui.

— Achei que você preferiria a caneca preta. Quer que eu volte a te servir na branca?

— Não, não. Eu realmente prefiro nessa. É só que… Vamos esquecer disso e vamos à segunda pergunta, por favor?

— Tudo bem, Senhor Paranoia! — disse Hiperatividade enquanto fazia uma continência com uma expressão séria. — Lance é o que nós carinhosamente chamamos de “o carisma encarnado”.

— Daisy não parece concordar com isso.

— Não concordo mesmo! Mas o resto do mundo concorda, então fazer o quê.

— Como a ruivinha disse, o cara simplesmente tem o dom de fazer amizades e ganhar a confiança das pessoas. Esse dom já garantiu acesso a locais que nem mesmo policiais adentram sem mandatos. E o melhor de tudo é que ele não precisa se esconder pra isso! As pessoas deixam ele entrar por livre e espontânea vontade. Por isso eu chamo de mágica.

— Isso está completamente além das minhas habilidades sociais. — disse. — Então tem alguma noção de qual será o procedimento dele a partir de hoje? Porque não temos muitos detalhes para ajudá-lo.

— Relaxa! A menina do couro deve conseguir mais detalhes logo logo. É tudo uma questão de tempo. E a nós, resta esperar.

— Eu detesto essa parte das investigações: a espera. — disse Daisy.

— Ué, a gente só espera? Não vamos ajudar de alguma forma, só… Esperar?

— A não ser que você saiba outra forma de resolver essa situação, é tudo o que nos resta. Eu já fiz a minha parte nesta investigação invadindo a casa do Gulhé e tal. Até eu ter outro endereço ou um nome, pelo menos, não posso fazer mais nada. Uma coisa que você tem que se acostumar nessas investigações de grande porte é que elas podem demorar bastante e nem todos os membros agem ao mesmo tempo em todas as suas etapas.

— Entendo. É meio decepcionante, mas compreensível.

— Todos nós poderemos nos mover novamente assim que tivermos mais um nome, o que deve demorar só mais um ou dois dias. É uma medida de segurança também, sabe?

— Faz sentido. Temos que nos mover nas sombras não é?

— Exatamente! Nós podemos ser invisíveis para a maior parte da população, mas existem algumas organizações de segurança que investigam nossos passos.

— Deixe-me adivinhar… Essas organizações são nossos clientes.

— Ah, que isso, só 100% delas, coisa pouca. Gente que mexe com segurança nacional, estadual ou coisa do tipo adora obter informações de forma fácil e sem esforço. Mas nós sabermos de coisas que eles não sabem nos torna uma ameaça em potencial.

— É por isso que eu uso máscara e evito trabalhar com policiais inteligentes.

— São boas medidas de segurança. Mas relaxa, cara! A maior parte dessas organizações acha que somos pequenos grupos isolados ou investigam apenas um ou dois stalkers. Eu realmente nem acredito que alguém fora da rede saiba que nossa organização desorganizada exista.

— Isso é um alívio para mim, mas um forte combustível para minhas paranoias. Não sei se agradeço ou te mando à merda.

— Agradeça por eu ser tão linda e benevolente.

— Não, obrigado.

Com isso, encerramos nosso diálogo e deixamos a mesa em paz. Daisy teve sua curiosidade saciada por hora e eu tive minhas respostas, gostando ou não delas. Fomos os três até a frente da lanchonete, onde nos despedimos e seguimos caminhos diferentes. Depois de andar por uns dois ou três minutos, olhei para trás e ainda era possível enxergar as duas, de longe. Não era muito nítido, mas tive a impressão de que elas estavam fazendo o mesmo que eu. Voltei-me para frente, rindo baixinho do fator stalker e segui meu rumo.

Ao chegar no apartamento, abri a porta cuidadosamente e a fechei logo atrás de mim ao entrar. Travei duas trancas e vasculhei o restante do apartamento para ter certeza de que não tinha nenhuma Hiperatividade escondida. Assim que minhas paranoias estavam satisfeitas e certas de que eu estava sozinho, travei as outras trancas da porta e do restante do apartamento. Quando acabei meu ritual, estava cansado e com fome. Parei no corredor, à mesma distância da cozinha e da minha cama e refleti qual dos dois fatores era maior, decidindo em dois minutos que era o cansaço.

Tirei minhas roupas e vesti uma camisa verde escuro larga sem estampas e uma bermuda verde claro também sem estampa, conjunto que eu chamava de pijama e me joguei na cama de costas. Abri meus braços e encarei o teto branco com teias de aranha nos cantos e com boa parte da pintura descascando. Meu sono desapareceu por completo, mas meu corpo estava confortável demais para eu me mover até a cozinha. Decidi ficar parado ali até o sono resolver voltar, dando margem às minhas inúmeras reflexões e paranoias.

Entretanto, um sentimento estranho me invadiu quando me lembrei de todos os outros stalkers e como agiam. Eram todos malucos, cada um com suas peculiaridades e semelhanças estranhas. Todos loucos como eu. Não sei dizer bem o motivo, mas ao mesmo tempo que estar com aquelas pessoas alertava meu grande conjunto de paranoias incessantemente, também me fazia… Feliz? Tudo bem, talvez felicidade seja um termo muito forte para o que eu sentia, mas, no mínimo, era interessante estar com pessoas que compartilhavam de loucuras semelhantes às minhas. E foi imerso em debates filosóficos sobre esta sensação que fui visitado novamente pelo senhor do sono e desliguei completamente, apenas duas horas depois de me deitar.

Notas finais
EU VOLTEI DOS MORTOS AW YEAH Agora que eu sou oficialmente um Designer formado e meu TCC lindo foi aprovado, posso voltar a escrever e talz *fogos e outros sons comemorativos* Espero não ter perdido a prática da escrita e talz Enfim, sem mais delongas... Agradeço a quem leu até aqui, espero que estejam gostando e até a próxima =D