Who stalk the stalkers?
16 Scarface
Acordei cedo e pude ver o ritual matinal da casa de minha colega stalker. Ana levantou com uma animação invejável e começou a preparar a caçula para sair de casa. Lisa demorou a aparecer e seu rosto não era de muitos amigos. Como era de se esperar, a pequena Luna acompanhava a mais velha com um largo sorriso no rosto. Tomei o melhor café da manhã em anos, com direito a ovos mexidos, duas fatias de bacon crocante e, obviamente, uma caneca preta com café forte. Várias paranoias insistiam que eu estava sendo um intruso desagradável, mas por motivos desconhecidos eu era incapaz de me sentir assim. Acompanhei as três até o ponto de ônibus e me despedi daquele cenário totalmente diferente do que encontraria em meu apartamento.
Resolvi passar no centro da cidade por puro capricho e aproveitei para dar uma olhada nas lojas especializadas em computador em busca de uma peça nova para o meu bebê. Como já era de se esperar, foi uma grande perda de tempo e assim que os minutos passaram e o volume de pessoas começou a aumentar, fiquei extremamente incomodado e resolvi voltar para meu lar.
Um dia entediante se passou, onde o ponto alto foi uma mensagem de Dalila no nosso grupo do A.S.E. dizendo que estaria com o contato do informante dentro de alguns dias e que nos informaria assim que possível. Cogitei a possibilidade de pensar em formas de rastrear nosso novo alvo, mas lembrei-me de meus fracassos anteriores e apenas me conformei. Só seria possível encontrar dados úteis em um contato direto com o suporto stalker. Porém, minha mente estava em paz e imersa em um tédio profundo, então deixei minhas paranoias tomarem a dianteira para supor teorias da conspiração sobre os próximos capítulos dessa história.
Três dias monótonos depois do último contato da fantasminha, o grupo finalmente registrou um pequeno movimento. Todos os membros foram convocados para uma reunião no condomínio da nossa querida amiga Petúnia para planejar os próximos passos de nossa operação. Parte de mim estava surpreso em saber que nenhuma das duas psicopatas tinha se matado ainda e a outra metade agradecia o fato de que Leather ainda tinha um alvo fixo para suas taras e olhares maliciosos.
A reunião aconteceria por volta de cinco da tarde do dia seguinte, me dando bastante tempo para finalizar minhas teorias da conspiração com e sem sentido. Acordei cedo, porém demorei a levantar. Quando o fiz, fui direto até o banheiro e tomei um banho rápido, vestindo uma calça preta, uma camisa vermelha lisa de mangas curtas e um casaco de moletom branco com capuz. O percurso até o condomínio da sadomasoquista já não tinha mistério algum para mim e tampouco me causava medo ou receio. Almocei um pacote de macarrão instantâneo maravilhoso e calculei o tempo exato que levaria no trajeto, saindo de casa a tempo de chegar meia hora adiantado.
Estranhamente, fiquei distraído por todo o percurso. Estava empolgado para me certificar de quais teorias poderiam ser postas em prática, caso alguma fosse, claro. Contrariando minhas expectativas, não fui o primeiro a chegar. Parada em frente à porta do prédio de nossa colega stalker, com um sorriso triunfante, estava Hiperatividade, que acenou em minha direção assim que me viu. Ela usava uma peruca de cabelos castanhos claros e ondulados até metade das costas, com um vestido florido até seus pés. Sorri ao me deparar com aquela figura louca e andei até ela:
— Boa tarde, senhor caveirudo. — disse a louca.
— Boa tarde, senhora maluca. Não esperava que chegasse tão cedo.
— Eu sei que suas paranoias te impedem de chegar atrasado e queria ver sua reação se eu já estivesse aqui.
— Mas olha só, tudo friamente calculado.
— Antes eu sofria, hoje eu sou fria querido. Além do mais, é perigoso deixar um jovem sozinho junto com a nossa querida Leather.
— Acho que ela já está entretida com uma certa fantasminha.
— Sei lá, vai que as duas decidem fazer uma festinha a três. Você é puro demais pra essas coisas.
— De puro eu tenho nada, mas admito que pensar nessa possibilidade me dá arrepios. Já estou de boa com a Petúnia, mas aquela baixinha me dá muito medo.
Conversamos sobre coisas sem importância por mais dez minutos e finalmente decidimos entrar. Ainda assim, éramos os únicos ali. A porta do apartamento de nossa colega estava trancada, para nossa surpresa, e tivemos que esperar por uns três minutos para que nossa anfitriã finalmente nos recebesse. Petúnia usava uma camiseta alguns números acima do dela, indo até seus joelhos, com estampa de unicórnios. Seus cabelos estavam bagunçados e seu sorriso característico acolhia nossa presença. Ela nos guiou até seu quarto, onde Dalila aguardava sentada na cama. A garota usava um vestido branco liso sem detalhes de costura ou estampas. Trocamos algumas palavras e saímos do apartamento, andando até o salão de festas daquele prédio, onde havia uma grande mesa redonda de madeira coberta por um pano branco e oito cadeiras. Havia algumas bebidas, copos e petiscos ao centro da mesa. Sentados ali, só nos restava esperar pelos outros.
— Nosso ilustre Dead Man Walking mandou uma mensagem mais cedo dizendo que não poderia comparecer. — disse Petúnia. — O que não é bem uma surpresa, já que não tem cadáver algum envolvido.
— A gente fica assustado quando ele decide sair da toca. — debochou Hiperatividade.
— Só consegui ver o rosto daquele sujeito uma vez e eu ainda acho que ele já está morto há muito tempo e apenas não se tocou. — disse, acompanhando a zoeira.
— Mas olha só ele! — exclamou Leather. — Você mudou bastante, senhor paraneia.
— Pois é menina, dá até um orgulho. — disse S.H. — Sabem que a maior parte desse progresso é mérito meu.
— Se você está dizendo, quem sou eu para negar. — disse.
— Estão vendo só? Aliás, minhas irmãs pediram para eu dizer que adoraram aquela noite. As duas gostam muito de você.
— Pode dizer a elas que é recíproco. Sempre me divirto quando visito vocês.
— Que fofis, é bom saber. Vou te chamar mais vezes então.
— Tenho certeza de que nem eu ou minhas paranoias vamos encontrar um motivo para recusar esse convite.
— Boa resposta, rapaz. Agora se me dão licença, preciso usar o banheiro.
A garota saiu da mesa e andou saltitante pelo salão, desaparecendo de nossa vista pouco tempo depois. Acompanhei-a com o olhar e depois voltei-me para as outras duas stalkers, que me encaravam com sorrisos maliciosos no rosto. Já esperava essa reação da Leather, porém ver Ghost sorrindo fez um arrepio percorrer minha espinha e minhas paranoias gritarem por socorro.
— O-o que foi? — perguntei em uma tentativa falha de controlar meu nervosismo.
— Desde quando vocês dois são íntimos assim? — perguntou Petúnia.
— Íntimos? Somos só amigos se é o que quer saber. Ela é amigável com Deus e o mundo.
— Isso é verdade, mas eu a conheço há alguns anos e só fui à casa dela uma vez. Dark Rose é muito carismática, porém é uma irmã super protetora e não costuma levar stalkers pra sua casa.
— Bem… Em toda as vezes meio que aconteceu.
— Vou acreditar em você e aceitar que ainda não rolou uma pegação nervosa, mas não há como negar que você é mais do que um colega de trabalho.
— Esse é um dos motivos de eu odiar os homens. — disse Dalila. — Parece que são idiotas de propósito.
Antes que eu pudesse revidar, fomos interrompidos com a chegada de Hiperatividade, Sherlock, Daisy e Lance. Todos se cumprimentaram e sentaram à mesa, assassinando de vez o assunto e as intenções maliciosas da anfitriã e sua namorada. Conversamos como um grande grupo de amigos com interesses estranhos por alguns minutos até Dalila chamar a atenção de todos para o verdadeiro propósito daquela reunião.
— Senhoras e senhores stalkers. — disse a pequena. — Deixemos os assuntos banais para outra ocasião. Chamei vocês aqui para dizer que consegui falar com ele por meio de um site de bate papo. Entrei em contato com ele mais cedo e disse que retornaria dentro de um ou dois dias. O negócio é o seguinte, é impossível encontrar com ele pessoalmente assim como conseguir outro meio de comunicação. Agora que conhecem o cenário, comecem a trabalhar em soluções.
— Muito objetiva essa menina, gente. — disse Hiperatividade.
— Bem, nesse caso muitas de nossas mãos estão atadas. — disse Sherlock, coçando a cabeça. — Ser um mestre dos disfarces será inútil nesse momento.
— Pois é gente, acho que sobrou para mim. — disse. — Por sorte, estamos dentro de um dos inúmeros cenários fictícios que eu e minhas paranoias criamos nesses últimos dias.
— Que orgulho desse menino doido de pedra. — disse Ana.
— Se você me passar suas informações de login, posso entrar em contato com nosso alvo e enviar um vírus não letal ao computador dele, para extrair informações de seu IP e nos dar sua localização. Deve ser fácil hackear o site e resolver o resto. Depois disso é com vocês.
— Eu e a Daisy podemos sondar a área e descobrir os hábitos do cara, se tem amigos, colegas, se ao menos sai de casa. — disse Lance.
— Pois é, se tem uma coisa em que somos bons é extrair esse tipo de informação de pessoas comuns. — complementou Daisy.
— Assim que tivermos as informações, eu e o meu amorzinho aqui podemos trazer o sujeito para cá. — disse Petúnia. — Daí… O resto a gente improvisa.
Assim, todos os pontos do plano foram acertados de uma forma um pouco duvidável. Não sabia como sequestrar o cara faria ele se juntar às duas stalkers, mas decidi ignorar isso por hora. Tratei de ir embora do condomínio junto com todos para evitar que Petúnia revivesse aquela conversa constrangedora. Já estava escuro quando cheguei no meu humilde apartamento e simplesmente decidi fazer belíssimos nadas até pegar no sono.
No dia seguinte, acordei por volta de nove da manhã e rapidamente saltei da cama. Liguei meu computador e fui preparar uma garrafa de café. Assim que voltei com minha fiel xícara em mãos, executei o A.S.E. e abri a notificação de mensagem. Dalila tinha me enviado as informações que precisava para prosseguir com o plano. Estalei meus dedos, tomei um grande gole do café e entrei no site de bate papo. A estrutura e a aparência eram simples e exibiam uma estética um pouco ultrapassada. Se tratava de um lugar esquecido da internet que um dia já fez algum sucesso e hoje apenas atraía saudosistas e criminosos, pelo jeito.
O serviço era simples, mas decidi ir até a cozinha e trazer a garrafa inteira para garantir um ótimo desempenho. Como imaginei, levei apenas quatro horas para romper todas as defesas do site e mais duas para criar meu vírus e garantir que ele seria enviado sem que o alvo percebesse. Assim, entrei em contato com o suposto Scarface, que me respondeu por volta das quatro da tarde. Enrolei o homem por meia hora, me passando pelo grande Juan de la Montana, acertando contratos sobre supostos contatos que ele precisaria espionar e coisas do tipo. Nos primeiros dez minutos o arquivo foi enviado e no final da conversa já estava funcionando perfeitamente.
Horas mais tarde, recebi uma mensagem no site contendo a localização do computador do alvo. Enviei os dados para o grupo do A.S.E. e apenas esperei pelos resultados. Nosso grupo de reconhecimento levou quatro dias para confirmar que o homem morava sozinho, não tinha amigos, saia de casa apenas para comprar suprimentos ou frequentar o bar local. Era um estrangeiro da Grande Geleira com péssimos hábitos e sem ligações familiares no nosso país.
Os resultados foram extremamente rápidos, uma vez que Petúnia e Dalila conseguiram sequestrar o stalker um dia depois de receberem as informações coletadas por nossa dupla de reconhecimento. Assim, todos nós fomos convocados novamente para o condomínio da Leather. Novamente, o encontro seria às cinco da tarde e eu fiz questão de chegar meia hora mais cedo, encontrando novamente a Senhorita Hiperatividade. Era um claro sinal de que eu teria que lutar por meu posto de stalker mais pontual ou aceitar mais uma derrota para aquela garota. Conversamos por dez minutos ali fora e o resto do grupo chegou, para nosso espanto. Todos decidiram chegar adiantados, exceto nosso querido zumbi, obviamente.
Fomos direto até o salão de festas, onde havia uma grande mesa retangular coberta por um pano preto e com sete cadeiras, uma ao lado da outra. Em frente à mesa, estava o nosso alvo com as mãos e as canelas algemadas à cadeira de madeira com um capuz de pano preto sobre sua cabeça. Petúnia estava ao seu lado segurando uma seringa com um líquido transparente e Dalila estava sentada à mesa. Assim que todos se acomodaram, Leather aplicou o líquido no braço do homem e retirou seu capuz, sentando-se logo em seguida. Ele devia estar na casa dos trinta anos, com cabelos loiros, curtos e desarrumados, barba a fazer, alto, com músculos avantajados e uma grande cicatriz cortando seu olho esquerdo. Usava um terno cinza claro com calças sociais da mesma cor, camisa branca, gravata vermelha e sapatos sociais negros. Alguns minutos depois, seu corpo começou a apresentar alguns espasmos e ele finalmente acordou. Seus olhos azuis fitaram o ambiente e ele suspirou profundamente depois de analisar tudo o que pôde.
— Quanto estou devendo a vocês? — perguntou o homem com uma voz grave e um sotaque carregado.
— Boa noite, senhor Scarface. — disse Sherlock. — Está devendo o total de zero créditos a nosso grupo.
— Então qual é a parada? Matei algum amigo de vocês?
— Relaxa meu bom homem. — disse Petúnia. — Nós somos do Eye, assim como você.
— Espera aí, são stalkers? Não podiam falar comigo pelo A.S.E.?
— Até poderíamos, mas não resolveria nosso problema. — disse Dalila. — Uma dupla de garotas stalkers quer fazer uma parceria com você e você não tem ajudado.
— Ah sim… Aquelas duas tem um parafuso a menos e eu não confio em ninguém além de mim.
— Skull Guy, você arranjou um concorrente. — disse Ana.
— Não entro em uma luta para perder. — disse.
— Enfim, reconheço alguns desses nomes. — disse Scarface. — Vocês são aquele grupo da Baía dos Pecadores, certo?
— Exatamente! — exclamou Petúnia. — Temos experiência em trabalhar em grupo e funciona muito bem, afinal, aqui está você.
— Você tem um ponto. — disse o homem. — Entretanto o que vocês vão ganhar com isso? Qual é a parada?
— Preciso de informações sobre alguns criminosos do Campo dos Sussurros e elas só vão nos ajudar se convencermos você a se juntar àquela dupla.
— E qual seria o seu interesse com essas informações?
— Quero me certificar de que todos acabem mortos e tenham seus corpos queimados.
— Agora estamos falando. Você veio do mundo do crime assim como eu, posso dizer apenas pelo seu olhar, garotinha. Nesse caso, eu aceitarei me unir àquelas duas com uma condição.
— Qual é o seu preço? — perguntou Petúnia.
— Trabalhei por muito tempo vendendo armas no mercado negro e teve um infeliz que me traiu, custando meu olho esquerdo. O nome dele é Billy Mallok e eu faria qualquer coisa para ter ele na mira do meu rifle carregado. Consigam isso e eu ajudo vocês.
— Meu caro, eu tive a infelicidade de conhecer esse maldito. — disse Ghost. — Nós temos um acordo.
A vingança de nossa querida fantasminha ficou mais próxima e mais distante ao mesmo tempo. O que deveria ser apenas um acordo com uma dupla de stalkers com probleminhas na cabeça se transformou em um sequestro e agora em um plano para se tornar cúmplices de um assassinato. Bem, não que isso seja um problema para mim. Minhas paranoias não gostavam da fragmentação do plano original, mas eu estava achando tudo muito interessante. Quanto mais desafios, menos tempo eu teria para ficar imerso em tédio.
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