Who stalk the stalkers?
14 Mini reunião
Não estava cansado quando finalmente cheguei no meu apartamento, então apenas adentrei o local e tranquei a porta. Parei e analisei rapidamente meu habitat natural, tentando decidir o destino da minha noite. Como de costume, minhas paranoias comandaram esta decisão e liguei meu computador. Saber belíssimos nadas sobre aquelas duas stalkers me incomodava profundamente, então era hora de tentar resolver isso. Enquanto a máquina ligava, tratei de preparar uma garrafa de café, pois não sabia quão longas seriam minhas pesquisas. Com meu combustível da madrugada em mãos, na minha fiel caneca negra, sentei-me à mesa do computador, declarando o início de uma nova aventura nada emocionante.
Fiquei horas ali munido apenas com os nomes de stalker das duas, cruzando informações do A.S.E. com notícias e dados da internet comum e de sua parte obscura conhecida apenas por gente como nós. Como eu era deste ramo, sabia os melhores locais para um stalker conseguir serviços e utilizei estes sites como referência para tentar traçar um perfil, mas infelizmente não fui bem sucedido. Assim como quando pesquisei sobre a famosa Senhorita Hiperatividade, o máximo que consegui com estas informações foi traçar uma área de ação bem grande em sua cidade. Sem a menor esperança de localizar um endereço, encerrei a aventura. Duas coisas interessantes surgiram desta busca que esgotou uma garrafa inteira de café: foi possível estipular mais ou menos a data em que as duas passaram a trabalhar juntas, pelo aumento na demanda e eficiência de seus serviços, que seria há uns dois anos entre agosto e outubro. A segunda coisa foi descoberta com minhas habilidades de hacker, totalmente por acaso. Enquanto eu verificava o histórico de serviços das duas, acabei me empolgando e fui até o histórico geral da região, checando a estrutura do programa por puro tédio. Nesta jornada, acabei me deparando com mais um arquivo contendo dezoito números, com vários zeros. Achei intrigante, mas ainda não tinha certeza se eram informações relevantes, então apenas segui adiante com minhas buscas, sem me preocupar com mais detalhes. Ao fim de minha aventura monótona em busca da verdade que terminou em um grande fracasso, decidi, enfim, aderir ao sono dos justos. Então desliguei meu amado computador, vesti meu fiel pijama e arremessei meu corpo sobre a cama.
Acordei quatro horas da tarde do mesmo dia, já que acabei dormindo por volta das sete da manhã. Se eu quisesse, seria capaz de me virar e dormir novamente, mas meu corpo já estava descansado, então simplesmente levantei. Deixei o computador ligando e fui preparar algo para alimentar meu estômago, que rugia de raiva por minha alimentação nada saudável. No fim, fiz um omelete com dois ovos e os comi rapidamente na cozinha, lavando a louça antes de retornar ao meu quarto. O computador já estava completamente ligado, então decidi executar o A.S.E. para verificar se havia alguma novidade, com sucesso. As duas stalkers marcaram uma reunião com nosso grupo na semana seguinte, o que frustrava minha ansiedade de descobrir mais sobre elas. Eu poderia tentar pesquisar mais, contudo estava desanimado com esta ideia. Stalkers sabem encobrir bem seus rastros. Sendo assim, passei o restante do dia descansando minha mente. Baixei alguns livros de fantasia pela internet e fui dormir às três da tarde do dia seguinte… Nada saudável, eu sei. Porém, eu terminei uma saga muito boa.
O toque do meu celular me despertou às dez da manhã do dia seguinte e meu corpo logo deu sinais dolorosos de minha falta de cuidados com minha saúde. Fraqueza, uma fome terrível e dores estomacais. Ignorei tudo isso, como de costume, e atendi a ligação, que revelou ser um convite de Leather para uma “mini reunião” em seu condomínio às três da tarde. Aceitei sem pensar duas vezes e fiquei em choque comigo mesmo assim que encerrei a ligação. Era meio assustador não ter mais medo daquela louca. Minhas paranoias odiavam estas mudanças em meu interior, mas eu liguei o botão do “foda-se” e segui com minha vida. Levantei e tomei um banho, vestindo uma camiseta vermelha sem estampas e uma calça jeans azul escura. Ainda tinha tempo, mas decidi ter uma refeição decente por pura pena de meu organismo e saí de casa, trancando o local meticulosamente logo em seguida.
Vaguei pelas ruas da cidade e peguei um ônibus que me levou até o centro, movimentado como de costume. Muito movimento e muita gente desconhecida sempre foram problemas para mim, então me apressei para chegar a um restaurante que costumava frequentar há uns anos. Era simples e pouco movimentado, por isso eu sempre gostei de comer ali. Não tinha café, mas as panquecas eram ótimas, então pedi duas de carne com uma porção de arroz, acompanhados por um copo de suco de laranja. Devorei a refeição em quinze minutos, paguei o garçom e deixei o local rapidamente. De volta à multidão, me vi novamente desconfortável e apressei meus passos até o ponto de ônibus, onde fui atormentado por minhas paranoias por dez minutos, até que o ônibus para o bairro de Petúnia chegou. Mais alguns minutos dentro do veículos e mais uma caminhada para queimar as calorias e finalmente cheguei aos portões do condomínio. Liguei para minha colega stalker, que rapidamente desativou a tranca do portão, permitindo minha entrada.
Caminhei lentamente por aquela vasta área sem o menor sinal de pessoas e senti uma paz enorme, cogitando a possibilidade de me mudar para um local assim. Sem vizinhos, sem problemas. Admito que tive vontade de andar pelo complexo e explorar as instalações, mas esta ideia foi logo destruída por um medo mortal de encontrar coisas que eu não deveria. Bem… Não se deve invadir a privacidade de uma garota, certo? Ainda mais se ela for uma stalker sociopata. É um bom conselho para se guardar na memória. Enfim, estava prestes a entrar no prédio da Leather quando ouvi o som do portão se abrindo e instintivamente me virei. Avistei uma figura feminina com um sobretudo negro até a canela, roupas pretas, botas de couro, cabelos arroxeados e longos entrando no condomínio. Uma visual tão exótico só poderia ser usado pela S.H., então decidi esperar por minha colega. Ela caminhou saltitante enquanto cantarolava alguma coisa e percebeu minha presença apenas depois de cruzar metade do estacionamento. Com seu sorriso característico, ela acenou para mim e apressou o passo para me alcançar.
— Chegou cedo, rapaz! — disse a garota, assim que chegou ao meu lado.
— Eu fui almoçar no centro e não aguentei a pressão da multidão, daí vim mais cedo do que planejava.
— Você tem sérios probleminhas, cara.
— Eu sei, mas eles são gente boa. Aliás, nem sabia que você vinha.
— Até parece que ia te deixar sozinho com a Leather, vai que você engravida!
— Seria realmente problemático se fosse possível. Mas vem cá, está me vigiando?
— Não, poxa. Ela me chamou também. Estou ocupada demais sendo uma diva maravilhosa para ficar te espionando.
— Nossa, ainda bem que conseguiu um espacinho nessa agenda lotada. Teve que desmarcar o chá da tarde com o presidente?
— Vai se ferrar, caveirudo.
Rimos e decidimos encerrar aquela conversa sem sentido. Cruzamos o corredor vazio até o elevador, parando no quarto andar. Mais alguns passos nos levaram até a porta fechada do quarto 404. Batemos nela e ouvimos a voz de nossa anfitriã, permitindo nossa entrada. Leather estava sentada no sofá de couro azul claro usando uma camiseta preta que parecia ser alguns números menores do que ela deveria usar. As mangas estavam bem próximas aos ombros e uma parte de sua barriga estava exposta. Ela usava também, um shorts azul curto, deixando bastante pele à mostra. Seu cabelo estava despenteado e esse conjunto me passava a ideia de que a garota não esperava visitas. Estranhei, mas logo me lembrei de que ela era doida e decidi abstrair e fingir demência.
— Boa tarde, meus lindinhos! — exclamou Leather com certa sonolência em sua voz. — Sintam-se em casa.
— Pode deixar! — disse Hiperatividade enquanto tirava seu sobretudo e o jogava em um canto qualquer da sala.
— Vou admitir que você me surpreendeu, Bob. — disse Leather. — Eu convidei a Ana antes porque achei que suas loucuras não te deixariam vir aqui sozinho, mas mantive essa informação em segredo para zoar contigo. Você estragou minha alegria quando aceitou de boa.
— Desculpe, mas se serve de consolo eu também estou surpreso com isso.
— Por acaso queria ficar sozinho comigo? — disse a garota, com um sorriso malicioso.
— Não dessa forma, eu acho que só confio mais em você agora. Aliás, não sei se tenho mais medo desse seu sorriso ou de eu confiar nele.
— Eu tenho medo de um Bob sem paranoias. — disse S.H.
— Relaxa que ainda tenho paranoias para dar e vender.
Ouvimos um barulho vindo do quarto de Petúnia e nos viramos instintivamente. Dalila saiu de lá, com sua expressão séria de sempre, cabelos arrumados, uma calça legging preta, descalça e com uma camiseta cor de rosa muito maior do que ela. Em uma sincronia quase perfeita, eu e Hiperatividade a analisamos, encaramos Leather e voltamos a encarar Dalila, entendendo exatamente o que tinha acontecido ali. Sorri por impulso, mas preferi manter minha descoberta para mim, o que obviamente não seria o suficiente para Ana:
— Meu Deus Petúnia! — exclamou S.H. — Quem diria que um dos seus famosos “se colar, colou” ia funcionar de verdade.
— Pois é, menina! — concordou Petúnia. — Até eu fiquei impressionada com isso.
Dalila manteve sua expressão séria atravessou a sala, sentando-se no sofá, ao lado de Leather. Fiquei impressionado com a habilidade da garota de tacar o foda-se tão bem.
— Boa tarde, pessoas. — disse a pequena.
— Sacanagem, não ficou nem vermelhinha. — disse Ana, claramente provocando a mini stalker. — Aliás, eu e o caveirudo não interrompemos vocês, não é?
— Não, não. — respondeu Petúnia. — A gente só acabou dormindo de novo depois que eu liguei pra vocês e perdemos a hora. Na pressa eu peguei essa camiseta apertadinha.
— Pressa? — indagou Dalila. — Achei que tinha sido de propósito para causar esse clima estranho.
— Foi, mas não precisava me dedurar, coisinha linda.
— Aliás, não espere que eu vá devolver essa camisa. — disse Ghost. — Ela é um ótimo pijama.
— Desde que eu seja seu cobertor, não me importo.
— Gente, chega dessas saliências aí, eu não vim aqui para segurar vela. — disse Hiperatividade.
— Tudo bem, queridinha. — disse Leather. — Vamos aos negócios então. Chamei vocês aqui por causa da reunião com a dupla dinâmica. Dalila queria saber mais sobre elas e sobre como vamos prosseguir, já que ela é a mais interessada nas informações.
— Exatamente. — completou Dalila. — Eu ainda não me habituei a todo esse lance de stalkers, Eye e muito menos àquela rede social estranha que vocês usam. Ouvi dizer que vocês falaram com essas stalkers antes do resto do grupo, então eu quero saber mais sobre elas. O que vocês sabem?
— Geralmente essa informação não sai de graça, mas vou abrir uma exceção porque eu aposto que o Bob também está louco para saber disso. — disse S.H.
— Sim, por favor. — disse.
— Elas são conhecidas minhas e são muito competentes. Heretic é uma hacker super fodona que é doida de pedra. Ela cultua o Watcher como se fosse um Deus por algum motivo e tem várias tatuagens de olhos pelo corpo. Ela geralmente é uma batata quando se trata de interação social a menos que você fale sobre uma de suas obsessões, porque daí ela se empolga até demais.
— Juro que nunca vou entender essa galera que cultua o Watcher dessa forma. — disse Petúnia.
— Pois é né… Enfim, a Doppelganger é uma mestra nos disfarces, assumindo até mesmo outras personalidades quando está disfarçada. Ela cria personas e consegue se convencer de que é a pessoa, mas é uma batata quando se trata de tecnologia. Aliás, eu nem sei se ela se lembra como era a verdadeira personalidade dela. Ou seja, as duas são loucas que se completam, é quase romântico.
— Entendo. — disse Dalila. — Vem cá, stalkers são todos loucos?
— Sim. — respondemos em coro.
— Heh, acho que não posso julgar já que agora sou uma de vocês.
— É isso aí, bem-vinda ao hospício. — disse Hiperatividade.
— Obrigado por fornecer umas boas levas de combustível de paranoias. — disse. — Mas como é melhor errar pelo excesso do que pela ausência, vou perguntar uma coisa que tem sido recorrente nas assembleias das minhas paranoias: você conheceu o Watcher, Petúnia?
Minha pergunta foi seguida por alguns segundos de silêncio. Dalila não devia saber ao certo do que eu estava falando, mas ainda assim se virou para Leather com curiosidade. Ana ficou parada, como se estivesse conectando as coisas em sua mente, e depois se voltou para nossa anfitriã. É bem capaz que ela sequer cogitou essa possibilidade. Hiperatividade não parecia se importar com essas coisas. Petúnia se espantou a princípio, mas logo riu e decidiu responder:
— Mais ou menos, mas como chegou a essa conclusão, jovem?
— Eu vasculhei bastante o A.S.E. durante meus longos períodos de tédio profundo e tenho certeza de que você, Sherlock e o Watcher fundaram o Eye. Mesmo que suspeite que houve o envolvimento de mais pessoas para a criação do A.S.E.
— Mas olha só, parece que alguém fez a lição de casa. Foi isso mesmo que aconteceu, ou quase. Eu e o Sherlock fomos os primeiros stalkers que o Watcher recrutou. Ele era devia ser dessa região para ter conseguido nos achar.
— “Devia”?
— Pois é, nunca vimos o sujeito em carne e osso. Conversamos por telefone e chamadas pelo computador e ele usava um sintetizador de voz. Isso nunca foi um problema para mim, já que o cara meio que me deu um sentido para viver na época. No começo, a ideia era só formar um grupinho de stalkers para aumentar nossa eficiência, mas a ideia para o Eye acabou surgindo em uma de nossas conversas e o Watcher levou bem a sério. Ele era um hacker incrível, melhor ainda do que a Heretic. Pena que ele não pôde ver o quanto a organização cresceu.
— O que quer dizer com isso?
— Ele entrou numa vibe muito louca depois de fundar de vez a organização. A confiança dele era invejável quando o conheci, mas ele foi lentamente consumido por suas paranoias, até perdermos o contato dele. O engraçado é que ele era um fantasma. No começo, ninguém sabia de sua existência, apenas eu, Sherlock e o Biohazard, o cara que nos ajudou a criar o A.S.E. Era uma de suas paranoias, ele não queria existir, sabe? Mas quando ele sumiu, começaram a surgir os boatos sobre sua existência e todo esse lance da recompensa pela identidade do cara. Dizem que ele foi morto e o assassino espalhou os boatos, outros dizem que ele enlouqueceu e criou essa cena toda. Tem gente que acredita que eu, Sherlock ou Biohazard fomos os responsáveis por essa treta toda. Enfim, tem mais de oito mil teorias da conspiração sobre isso. Nesse contexto eu só consigo sentir saudades dele de leve.
— Mas gente! — exclamou Hiperatividade. — Porque vocês nunca me contaram esse babado?
— Você nunca perguntou ué. Se eu saísse por aí contando para todo mundo, seria uma péssima stalker.
— Eu sei, eu sei. — reclamou S.H. — Nunca me importei com essa parte do Eye, mas poxa, mó daora saber disso.
— Achei que todos vocês fossem super curiosos. — disse Dalila.
— Até somos, mas não tanto quanto o Bob. — respondeu Hiperatividade. — Esse cara tem sérios probleminhas.
— Tenho mesmo, mas eles me ajudaram a descobrir isso e onde você mora.
— É a primeira vez que vejo um problema solucionar algo. — disse Dalila. — Com isso, desisto de vez de tentar entender vocês.
— É a melhor decisão que tomará em sua vida. — disse Petúnia.
Jogamos conversa fora por mais três horas. Eu e Ana deixamos o lugar para que as duas garotas pudessem aproveitar a companhia uma da outra. Era um grande alívio para mim imaginar que nunca mais seria alvo da malícia de Leather, alívio este que me fez agradecer pela presença da pequena Ghost em nosso grupo. Ainda não confiava nela e minha paranóias viviam discursando em minha mente sobre como ela mataria todos nós após obter sua tão sonhada vingança. Parte de mim ainda acreditava que tínhamos uma grande vantagem contra a novata e isso era a única coisa que me mantinha são perto dela. Hiperatividade não parecia se importar, aliás, ela não parecia se importar com nada. Talvez o peso de ser a responsável por suas irmãs torne o Eye como uma fonte de renda e não um passatempo, como é para mim e outros stalkers. Por algum motivo, me peguei refletindo sobre isso enquanto encarava seu rosto sorridente no ponto de ônibus. Eu gostava da companhia daquela garota pirada, mas quando entrei em meu ônibus e sentei sozinho, senti a solidão se arrastando para dentro do meu ser, aumentando à medida em que eu me afastava daquele ponto, onde minha colega permanecia esperando sua carona para casa. Porém, esta sensação não durou muito. Meu celular vibrou e o conferi, revelando uma mensagem de S.H. comentando sobre o novo casal do grupo. Sorri e a solidão se liquefez, pingando no chão metálico do ônibus e escorrendo até a porta, onde foi deixada em algum ponto aleatório da cidade. Senti-me um idiota por isso. Era impossível ser solitário em meio a tantos loucos como eu.
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