Ao fim da reunião, o stalker continuou amarrado e estava livre para ser levado de volta à sua casa. Entretanto, ele acabou ficando mais um pouco e conversamos sobre histórias de serviços antigos. Nikolai, como ele disse se chamar, nasceu em uma família rica em seu país e mesmo assim se viu incapaz de resistir ao lado negro da sociedade, caindo em uma vida de roubos, assassinatos e tudo o que um criminoso tem direito. Em algum momento de sua vida devassa, ele se apaixonou por uma vida muito mais interessante e sensacional: a vida dos stalkers. Ele acabou se sentindo em casa em meio a todos aqueles loucos, mas obviamente seu histórico e o fato de ainda ter tantos contatos no submundo o colocaram no topo da minha lista de pessoas para se temer e desejar distância. Silenciar minhas paranoias foi a tarefa mais difícil que já enfrentei.

Cheguei em casa por volta das dez da noite e tratei de trancar tudo e ligar o computador para checar as histórias daquele homem e tentar cruzar essas informações com notícias, boatos e qualquer coisa que pudesse silenciar minhas paranoias. No fim, passei a madrugada inteira movido por três garrafas de café e acabei apagando com a cara no teclado. Acordei seis horas mais tarde, desorientado, com fome e exausto. Porém, eu era um pedaço de lixo triunfante. Pesquisei em noticiários, invadi sistemas da polícia, busquei por famílias ricas e encontrei o suposto pai de nosso colega. Ele foi muito sincero, o que me deixou ainda mais preocupado.

Precisei de um dia inteiro para me recuperar de minha luta sem sentido e só voltei a ser um ser humano depois de dormir por doze horas seguidas. Pois é, quem diria que minha primeira vitória em uma busca por identidades de colegas stalkers seria recompensada com um belo punhado de nada. Tomei um longo banho de água quente para limpar minha alma e recarregar minhas baterias e fui direto para o computador. Para minha surpresa, havia uma mensagem do Sherlock me esperando. O stalker me convidou para passar a tarde na lanchonete em que sempre nos reunimos sem motivos relevantes. Seria a minha primeira oportunidade de presenciá-lo em uma situação casual, então não pude resistir à minha curiosidade.

Peguei três ovos na geladeira e preparei um dos meus famosos omeletes crocantes com pequenos fragmentos de cascas, queijo e duas folhas de alface que estavam perdidas há semanas. Devorei minha refeição matinal em menos de cinco minutos e voltei até o computador. Passei algumas horas pesquisando sobre novas franquias de livros para ler em meus momentos de tédio supremo. Vesti meu fiel casaco preto e saí de casa por volta das duas da tarde. Estava estranhamente animado, com um sorriso idiota no rosto, provavelmente devido à exaustão do dia anterior. Observei atentamente os rostos naquele ônibus, desde idosos sonolentos a crianças barulhentas e adultos cujos rostos denunciavam sua falta de esperança na vida. Parte de mim via essa observação das vidas alheias como apenas mais um passatempo bizarro de um stalker, mas eu tenho certeza de que algumas paranoias estavam se certificando secretamente que Nikolai não estava me seguindo.

Cheguei a um cenário completamente familiar, assim como o som do sino da porta que anunciava minha chegada. Ao fundo da lanchonete, em uma mesa ao lado da janela, estavam Sherlock, Daisy e Hiperatividade. Não pude deixar de conferir meu relógio e ter a certeza de que estava vinte minutos adiantado, o que me deixou confuso momentaneamente. Assim que voltei novamente meu rosto para a mesa e meus olhos perceberam que Ana tentava segurar seu riso, entendi o que havia ocorrido. Poderia ser um presságio do fim do meu reinado absoluto como o stalker mais pontual da história. Deixando esses pensamentos idiotas, apenas sorri e fui até a mesa, sentando-me ao lado da S.H.

— Bom dia, flor do dia! — exclamou Hiperatividade.

— Boa tarde, pessoa doida. — disse.

— Fico feliz que tenha aceitado meu convite, Sr. Bob. — dise Sherlock.

— E eu agradeço pelo convite, Sherlock.

— Por favor, pode me chamar de Jason. Desculpe por demorar tanto para revelar meu nome verdadeiro, mas eu sou bastante cauteloso quanto a esse tipo de coisa. Acredito que você me entenda.

— O que posso dizer? Sou o Sr. Paranoia. Isso significa que eu subi de nível como stalker?

— A próxima etapa será defender seu mestrado em como hackear o site dos correios. — disse Ana.

— Desde que você não esteja na banca, eu topo tranquilamente.

— É engraçado como vi você falando em alguns meses mais do que em todos os anos que você frequentou a cafeteria do meu pai. — disse Daisy.

— Acho que só me sinto à vontade no meio de loucos como eu.

— Bem-vindo ao clube. — disse Sherlock. — Para falar a verdade, te chamei até aqui para te conhecer melhor. Como sabe, fui um dos fundadores do Eye, assim como a nossa boa amiga Petúnia e sinto que é meu dever saber quem está ao meu lado.

— Jason, meu rapaz. — disse Hiperatividade. — Não precisa ser todo formal com esse caveirudo.

— Pois é, cara. — disse. — Relaxe! Minha paranoias preferem um papo mais informal. Formalidade demais me deixa meio tenso, sabe? Eu fico no “modo de negócios”.

— Tudo bem, tudo bem. No meu caso, acho difícil não ser formal. Passo tanto tempo negociando contratos para o Eye que eu acabo me esquecendo de como socializar em situações como essa.

— Nosso detetive é um rapaz muito ocupado. — brincou Daisy.

— Podem me chamar de viciado em trabalho, pois é a pura verdade. Hoje cedo estava falando com Dalila sobre todo o lance do Nikolai. Devido à natureza dos envolvidos, decidi confiar a tarefa à Ghost e Leather.

— Tenho certeza de que as duas são mais do que o suficiente para ajudar um sujeito a levar uma bala no crânio. — disse.

— Por isso, estamos todos de folga até que essa situação seja resolvida. — disse Sherlock alongando seus braços para relaxar. — Então vamos direto ao ponto. Como entrou nessa vida, senhor Bob?

— Cara… É uma pergunta difícil. Mexo em computadores desde que me conheço por gente. Sempre fui uma pessoa muito curiosa e paranoica, então uma coisas meio que levou à outra e quando percebi, estava ganhando dinheiro com isso.

— Eu era doidinha em um vizinho meu que era mais velho quando adolescente. — disse Hiperatividade. — Daí aprendi a invadir lugares despercebida e coisas do tipo. Quando percebi que era boa nisso, tratei de fazer dinheiro. Foi minha salvação, já que tinha que cuidar das minhas pequenas.

— Como devem imaginar, eu adorava ler histórias de detetive quando criança e prometi a mim mesmo que trabalharia com isso. Cheguei a abrir uma agência, só que tudo sai do controle quando fiquei obcecado por uma garota da vizinhança e… Hehe, prefiro não falar dos detalhes. No fim, o Watcher me encontrou e cá estou.

— Por incrível que pareça, não entrei nessa por causa de uma paixonite ou coisa do tipo. — disse Daisy. — Sempre gostei muito de boatos, principalmente dos verdadeiros. Nunca começava, só ouvia atentamente e averiguava o quanto podia… Até que inventaram uma mentira sobre mim. Fiquei puta da vida e não parei até expor o culpado. Daí percebi que era boa e passei a investigar boatos da escola, vizinhança e da cidade quando não estava na cafeteria do meu pai.

— Poxa, até me sinto mal depois dessas histórias. — disse. — Sou o único que simplesmente aconteceu.

— Era seu sonho de infância, que nem o do Jason? — debochou Ana.

— Não… Na verdade, eu não tenho lembranças da minha infância.

— Bob, achei que já confiasse em nós. — disse Hiperatividade.

— Estou falando sério. Tudo antes dos meus dezessete é um grande vazio para mim. Isso já foi palco de inúmeros pesadelos e assembleias das minhas paranoias até que eu decidi apenas aceitar e seguir em frente.

— Mas gente, que loucura. — disse Ana. — Deve ser um efeito colateral dessas suas paranoias. Vê se vai com calma, rapazinho.

— Pode deixar, senhorita Hiperatividade. De uns tempos para cá elas tem maneirado comigo. Aliás, gostaria de dizer que devo a vocês essa façanha.

— Pare com essa palhaçada, caveirudo. — disse Hiperatividade. — Já falei isso antes e direi novamente. Esse progresso é meu mérito e de mais ninguém. Sou a única diva o suficiente para isso.

— Realmente é impossível negar. — debochou Sherlock. — Ela até compôs uma música para o Eye.

— E é agora que o senhor Jason cala a boquinha. Esse é um segredo que deveria ir ao túmulo com você, dedo duro.

— Ah não. — disse. — Preciso ouvir isso.

— Ah pronto. — exclamou Ana. — Jason, sério cara. Vou invadir sua casa e te matar enquanto dorme seu filho da puta.

Depois de algumas risadas o detetive recebeu uma ligação e foi atender fora da lanchonete. Eu e as duas garotas continuamos conversando sobre nossos primeiros serviços como stalkers profissionais, assunto que rendeu várias gargalhadas, muita vergonha alheia e uma hora. Um dos meus primeiros clientes foi um garoto de quinze anos que supostamente queria o gabarito da prova da professora de biologia. Entretanto, o que o interessava realmente era a anatomia da professora de vinte e poucos anos. Hiperatividade levou duas horas para arrombar a janela de um apartamento só para descobrir que o cliente tinha passado o endereço errado. O alvo era um senhor solteiro de quarenta anos e ela entrou no apartamento de uma garotinha de cinco anos, cheio de unicórnios em toda a parte. A parte engraçada? Ana ficou paralisada por dez minutos com medo de encontrar fotos daquele velho com roupinhas de unicórnio. Daisy investigou uma garota por semanas só para descobrir que o cliente estava interessado na garçonete e usou o trabalho como pretexto para que eles se falassem.

Por mais estranho que possa parecer, a ligação do detetive demorou tempo o suficiente para que pudéssemos compartilhar essas desventuras e quando ele retornou pudemos entender o motivo. Quem o telefonou foi nossa boa amiga Petúnia, a louca, reportando os detalhes da missão que foi cumprida com excelência. Dalila usou seu nome no mundo do crime para marcar um encontro entre o alvo de Scarface com o grande Juan de la Montana para negociar a venda de alguns escravos ou coisa do tipo em um restaurante chique. Obviamente, quem foi ao encontro do alvo era um dos subordinados descartáveis da fantasminha com o única função de entreter o criminoso até que Nikolai se posicionasse e realizasse o serviço. Eles negociaram por duas horas e meia e nosso colega stalker efetuou dois disparos, o primeiro atingiu a nuca do sujeito azarado que caiu na armadilha, atravessando sua garganta e despedaçando o prato de sopa à sua frente. O segundo projétil penetrou pelo olho direito do bode expiatório e explodiu a cabeça do homem, fazendo-o cair sobre seu prato de carne assada. Assim, achariam que o alvo principal era Juan de la Montana e que o atirador não era tão profissional, já que errou o primeiro tiro.

Estando a vingança de nosso colega concretizada, era chegada a hora de ele cumprir sua parte do acordo. Mesmo que relutante, Nikolai disse ser um homem de palavra… Ou quase, e garantiu que entraria em contato com as duas stalkers do Campo dos Sussurros assim que possível. Não o culpo, uma vez que eu também teria esse receio se tratando daquelas duas. Para ser justo, meu problema é com a Heretic. Aquela garota me dá arrepios e saber que ela poderia driblar os sistemas de segurança do meu querido computador me dava um desespero de leve. Embora as capacidades de disfarce da Doppelganger fossem um problema grave para minhas paranoias… É, não dá para ser justo, as duas são deveras problemáticas.

Depois de nos explicar detalhadamente o sucesso da operação da qual tivemos o imenso prazer de não participar, Sherlock se despediu e deixou o local, pois sua folga havia acabado. Tive pena do pobre homem por alguns minutos, mas logo lembrei-me de que trabalhar era seu vício e decidi ignorá-lo. Daisy precisava voltar para casa mais cedo para ajudar seu pai a limpar a cafeteria e coisas do tipo. Restaram apenas eu e Hiperatividade. Conversamos até a lanchonete fechar e a acompanhei até o ponto de ônibus. Entretanto, paramos em uma praça porque segundo ela suas irmãs chegariam mais tarde naquele dia e ela não queria ficar sozinha. Não tinha planos, amigos comuns ou um trabalho de verdade, então meus motivos para recusar a oferta eram nulos.

Por alguns minutos, ficamos apenas sentados em silêncio no banco de madeira, encarando o chafariz iluminado por algumas lâmpada esverdeadas e por alguns postes que rodeavam o caminho por onde pedestres como nós passam. A lua estava cheia e o céu estava livre de nuvens, deixando todas as estrelas visíveis. Admirar a imensidão do espaço sempre me deixou para baixo, me sentindo pequeno perante ao tamanho do universo, mas por algum motivo fui incapaz de me sentir assim naquele momento. O silêncio foi quebrado pela voz da minha companheira, em um ritmo animado e contagiante:

— We are the shadows that walk in the darkness.

— We are the all-seeing eyes.

— We are the ears of the walls.

— Always stalk! Never get caught!

— We are the stalkers! Who stalk the stalkers? No one!

— We are the shadows of the night.

— We are the all-seeing eyes.

— We are the ears of the walls.

— We are those who know your life.

— We are the stalkers!

Esperei em silêncio, prestando atenção em cada verso e em seu ritmo até o que parecia ser o fim da música. Adoraria que algum instrumento estivesse tocando ao fundo. Talvez um ukelele, bongos ou algo do tipo. O rosto sempre tão confiante de Ana demonstrou um sorriso sem graça enquanto ela virava seu rosto em minha direção, receosa.

— E… É tipo isso a musiquinha. Nunca cantei ele para ninguém antes, então me dá um desconto, tá?

— Dou cem por cento de desconto, menina. Eu só queria saber tocar algum instrumento para te ajudar.

— Não sei se está me zoando, mas prefiro nem perguntar. Se contar isso para alguém, juro que te mato e apago sua existência da história.

— Relaxe! Eu nem saio de casa, só tenho você ou as suas irmãs para contar.

— Isso é bem triste, mas muito reconfortante.

O silêncio voltou a reinar naquele cenário onde estávamos sozinhos. Ficamos ali por mais dez minutos até que Ana recebeu uma ligação da irmã do meio, anunciando que era hora de partir. Fomos conversando até o ponto mais próximo e seu ônibus foi o primeiro a chegar. Estava sozinho ali com meus pensamentos e paranoias, sorrindo sem saber o motivo. Eu realmente apreciava a companhia daquela garota, mas isso me assustava. Já tive dois relacionamentos no passado, mas foram apenas um disfarce para não acharem que eu era um maluco que só ficava trancado no quarto. Uma delas não entendeu bem o sentido da coisa e acabei magoando-a sem querer. Depois disso, desisti de fingir e apenas aceitei ser um sujeito invisível para a sociedade com a desculpa de que ganhava a vida consertando computadores.

Assim que adentrei o transporte público cheio de almas sem esperança, fui envolto na melancolia que o fim de um dia de expediente carregava consigo. Um momento desses deveria ser comemorado, mas na Baía dos Pecadores, a maioria das pessoas vivia vidas medíocres com empregos detestáveis e tinham aceitado sua condição como miseráveis. Não era à toa que eu preferia ficar sozinho ou com meus amigos desajustados. Enfim, toda aquela energia negativa me contagiou, talvez com uma pequena ajuda das minhas paranoias e tive a certeza de não estava pronto para levar o meu relacionamento com a Senhorita Hiperatividade mais adiante. Todas as minhas colegas paranoias ficaram satisfeitas com essa conclusão e eu apenas aceitei sem reclamar porque alguns genes de otimismo brotaram no meu ser, talvez adquiridos por osmose da minha colega stalker. Então, eu sabia que, por mais que aquele cenário estivesse fora de cogitação naquele momento, não seria assim para sempre e essa parte estranha da minha alma acreditava que Ana entendia essa minha existência peculiar e complicada.