Who is mad?!
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Os portões enferrujados da escola estavam falando comigo. Na verdade, eles estavam rindo da minha cara. “Vocês já passaram a metade das míseras vidas de vocês dentro dessa escola, mas, mesmo assim, estão presos aqui por mais uma noite de sábado”, era o que dizia a grande porta do bloco B, enquanto os alunos adentravam o prédio com um entusiasmo tão grande quanto o de zumbis que vagavam por aí.
Esse semestre estava sendo insuportável na Escola Estadual de Sofia, uma cidade do interior esquecida pelo resto do mundo e cheia de caipiras mal-educados. Porém, um aluno de Intercâmbio da Índia veio para cá, e pelo visto a prefeita de Sofia viu nele a chance perfeita de “mostrar o melhor da nossa cidade pouco valorizada” — foi o que ela disse — e, agora, todo maldito mês tem acontecido um projeto diferente na escola. O desse mês era que nove alunos da turma do Adit — o indiano azarado que, provavelmente, não teve dinheiro para ir fazer o intercâmbio na capital — seriam sorteados e passariam uma noite inteira na escola, para conversarem e promoverem a integração do colega. E, para meu azar, eu fui sorteada.
Para piorar a situação, eu não faço ideia de quem foi sorteado junto comigo, só sei que estarão lá o professor de Sociologia, uma pedagoga, o intercambista, eu — Marina, a azarada máster — e Luna, a única emo alegre que conheço. A perturbada ficou feliz por ter sido sorteada, e até me ligou para combinar roupas e o lanche para o meio da noite. Fiquei muito tentada em desligar na cara dela.
Quando finalmente parei de filosofar sobre o portão de ferro que ria de mim, caminhei para dentro da escola. O prédio tinha três andares, e nós iríamos ocupar uma sala no primeiro. Consequentemente, os outros dois andares estariam vazios e escuros, como em um pesadelo em que andamos pelados na escola.
A sala era pequena, com as paredes em cor branca e o piso em madeira extremamente polida (provavelmente para causar uma boa impressão no Adit). Logo, todos os alunos acomodaram-se em cadeiras estofadas e arrumadas em forma de “U”, assim podia-se ver claramente cada um dos ali presentes.
Logo na primeira cadeira, estava Adit, que usava uma jaqueta de couro e uma calça preta — e eu imaginando que indianos só usavam vestido —; do lado dele, estava John, usando uma blusa de manga comprida, toda preta e com pequenos gatinhos brancos espalhados pelo tecido — sim, ele era gay, inclusive o nome dele era inspirado no meu cantor gay favorito, Elton John (os pais dele eram super liberais) —; do lado dele estava a Jackye, melhor amiga do John — a tadinha era apaixonada por ele... Até desistir de transformá-lo em heterossexual.
Meu celular vibrou. Cacei-o em minha mochila de couro até achá-lo, e quando olhei no visor, era só o alarme. Notei que ele estava totalmente sem sinal. Estranhei, pois a escola era onde o sinal pegava mais forte.
Continuei minha análise dos alunos. Na sala estavam também Susan e Geórgia, que pareciam gêmeas. Na verdade, Susan era a típica popular, linda e falsa da escola, com cabelos loiros e lisos naturais — vadia sortuda — e olhos cor de amêndoa (que eu chamo carinhosamente de cor de bosta); já a Geórgia era a melhor amiga dela, que fazia de tudo para ficar igual, com cabelos pintados de loiro e alisados à base de chapinha e ferro de passar roupa. Os olhos eram a única coisa natural nela, de um azul turquesa que só faltavam brilhar no escuro, causando inveja até na própria Susan.
Não pude evitar um sorriso. Peter estava lá também. Não que eu fosse afim dele ou coisa parecida, mas o garoto era bonito demais para ser de verdade; tinha as mesmas características de Susan, aliás, já que era irmão gêmeo dela. Junto a ele estava Josh, um negro que parecia um muro; ele provavelmente passava mais tempo na academia do que na escola, o que explicava suas notas baixas — mas ele sem camisa não era uma visão tão ruim.
Algumas cadeiras depois, mais excluídos, estavam Lucas e Luna, os dois emos-felizes-namorados da sala, e na última cadeira do “U”, ao lado de Luna, estava eu, com meu maldito cabelo loiro ressecado.
A verdade é que eu sempre sofria bullying por ser uma criança acima do peso — resumindo, eu era uma menina de 12 anos, gorda e antissocial — até que passei pela puberdade e consegui emagrecer um pouco. Eu disse um pouco. Já não era mais tão gorda, mas adolescentes são maldosos e não esquecem que não gostam de você. Minha brilhante ideia para esquecerem meu antigo eu foi pegar meus curtos cabelos castanhos, pintá-los de loiro e pôr aplique. Adotei a política de que se a roupa era estranha e ninguém usaria, eu comprava. Também adotei colares grandes e tribais, botas, bolsas de couro e muitas cores de batom — resumindo, agora sou uma garota de 17 anos, fofa, que se veste igual a uma cigana, e muito antissocial.
— Boa noite, garotos — disse o professor de Sociologia, o Sr. Carman. O cara era um total gênio, que fez doutorado em interações sociais no campo com vinte e nove anos, e resolveu escrever suas teses numa cidadezinha do interior. Foi assim que veio parar em Sofia. — Hoje faremos certa quantidade de atividades, a fim de nos misturarmos, pois vocês são um dos grupos mais heterogêneos com os quais já trabalhei... E não foram convidados aqui aleatoriamente.
Revirei os olhos diante do “convidados”. Nós fomos intimados a estar aqui, ou então levaríamos bomba em sociologia.
— Escolhi cuidadosamente cada um aqui presente, para analisar como pessoas de rodas sociais tão diferentes interagem entre si. Meu objetivo é que, quando terminarmos, assim que o sol nascer, cada um aqui entenda um pouco da realidade dos outros e — ele deu um sorriso torto —, se der certo, pretendo escrever um livro sobre a experiência desta noite.
Ele olhou nos olhos de cada aluno e viu a falta de entusiasmo estampada neles, depois sussurrou para a pedagoga que estava ao meu lado:
— Essa vai ser uma noite difícil.
E ele nem imaginava o quanto.
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