Who We Are
19 Carta XVIII - Querida Mags - Amar é uma arte.
Notas iniciais

— Isso é ridículo. — Amy passava os dedos delicadamente na enorme cicatriz do braço de Matt. — Ridículo demais até pra você.
— Você está dizendo que eu sou ridículo? — Matt perguntou, ofendido.
— Olha, estou dizendo que você é mestre em passar por situações ridículas. — Ela retrucou. — Como o dia em que nos chamou para acampar e levou aquela barraca horrível. Ou se atrasou em quase uma hora pra viajar. Ou me deixou plantada na sua própria padaria. Ou fez garotas de 13 anos de apaixonar por você.
—— Eu sei que eu tenho meus momentos de vez em quando, mas eu realmente não tive culpa nesse último. — O sorriso debochado já se formava na cara de Matthew. — Olha só pra mim! — Ele piscou e riu, como uma piada. Mas Amy não.
Amy olhou para ele, forçando um sorriso no canto dos lábios, confirmando tudo o que ele disse, mesmo que tenha sido ironicamente. Seus olhos castanho-mel correu os olhos cinzentos de Matt, e antes que desse finalidade aos seus pensamentos sórdidos, maliciosos e apaixonados sobre o Mellark, ele a segurou pelo queixo e a beijou.
Eles se beijaram, delicadamente e apaixonadamente por segundos que só foram contatos nos relógios dos céus.
— Há quanto tempo nós viemos ignorando isso? — Matt falou, depois de soltar-se de Amy, mas não ficando a centímetros de distancia de seu rosto.
Ele se referia ao beijo, e a última vez que isso aconteceu. Foi no exato mesmo local onde eles se beijaram outras vezes e agora estavam repetindo a dose: frente ao lago. Desde que se beijaram pela última vez, Matt e Amy levaram o fato como se nunca tivesse acontecido, como se isso fosse um acordo mútuo.
— O que eu poderia dizer? — Ela perguntou. — Esperei para ver o que você tinha a dizer.
— Não, eu esperei você reagir sobre. Mas desde então você tem estado normal comigo. Como se nunca tivesse chegado perto de mim e feito isso. — Matt novamente beijou-a. Ele simplesmente decidiu que agora que tinha coragem de fazer isso com frequência, não perderia nenhuma oportunidade de saborear os lábios de Amy.
— Eu te beijei três vezes antes de você me beijar, Matt. — Ela riu, depois de se soltar dele. — Acho que eu não tinha mais nada para deixar claro.
— Então se eu te perguntasse, nesse exato momento, se você namoraria comigo, sua resposta seria sim?
— Talvez. — Ela sorriu.
O talvez fosse muito mais do que uma resposta para dar charme. Amy passou os dedos novamente pela cicatriz no braço dele. Suspirou.
— Porque você se mete nessas coisas Matt? — Ela começou novamente, num tom pesaroso. —Você sabe. Isso é... Desnecessário. Você compra brigas que não existem.
— Se não existem, Amy, então porque eu quase fui preso por entrar numa sala proibida cheia de livros? — Matthew disse, elevando a voz sem perceber. — Livros! Não eram armas bioquímicas ou coisa assim.
Amy bufou alto.
— Viu? Você me enlouquece! — Ela reclamou. — De todas as maneiras possíveis. Você sabe o que eu quis dizer.
— Amy, sabe quem inventou uma distração para que eu pudesse subir ao andar proibido? Fiama. E quem me levou lá foi Dylan. De todos os meus amigos, achei que você fosse a primeira a compreender.
Matt estava um pouquinho cansado demais daquilo. Ele sabia que seus amigos se preocupavam com ele, porque todos sabiam as pequenas coisas irritantes que Matthew era obrigado a aguentar. E toda essa preocupação piorou ainda mais desde que Mags se mudou. Talvez ela tenha pedido para eles ficarem de olho, ou coisa assim. Mas, cara! Ele sabia mesmo o que estava fazendo. Seus amigos tinham que confiar um pouco mais nele. Dylan e Fiama aparentemente compreenderam. Mas Amy...
— Eu tento, mas eu fico louca de pensar que você estava gastando sua mente brilhante com nada! — Ela gritou.
— Não era nada! — Os olhos cinzentos de Matt, duros feito diamante, formaram um olhar que nem mesmo Amy, melhor amiga há dez anos, havia visto. Nem quando ele estava irritado. Nem quando estava sendo rebelde. Matt nunca reparou, mas naquele momento, algo a assustou um pouco.
— Viu? Já estamos gritando um com o outro. — Amy resmungou, controlando um choro. — Eu não vejo... como isso pode...
— Isso vai dar certo. — Matt sabia sobre o que ela se referia: aos dois. — Acredite em mim.
— Eu gosto tanto de você, mas eu não sei se é o suficiente. — Amy lamentou. Ela queria tanto estar com Matt, tanto!
— É o suficiente sim, eu sei. Tá tudo bem. Só diz sim.
— Só se você me prometer tomar juízo. Não ser maluco revolucionário.
— Tudo bem.
— Tenta entrar no Departamento com sua irmã. — Amy sugeriu simpática, num sussurro. — Eles estudam geografia lá. Você não gosta? Do mundo com M maiúsculo?
— Claro. Agora diga "sim".
— Ou só continua no News of Panem... — o rosto de Matt novamente chegava cada vez mais perto do dela.
— Amy. — Ele a chamou, sério. — Diga sim.
Ele riu, feito uma idiota. Então era assim que ela seria daqui pra frente? E era isso, Amy estava grudada à Matt como balões esfregados na cabeça e grudados a parede. Como eletromagnetismo. E isso a fez se sentir bem.
— Me pergunte então. — Perguntou a quase Amy Mellark.
— Amy Shields. Você quer namorar comigo?
Todas as flores da Campina renasceram, o arco íris ganhou mais uma cor, os olhos cinza de Matt adquiriu uma cor que nem as mais caras e bonitas aquarelas poderiam copiar quando Amy disse:
— Sim.
***
Não só pelo problema de audição que Dylan teve com 12 anos, mas Matt achava que ele era realmente surdo. No dia anterior, Dylan o fizera repetir umas 5 vezes que ele estava namorando Amy. Ele sabia que era brincadeira, mas era impossível que Dylan não escutou as vezes que Matt dissera para não colocar os pés no baú do lado de sua cama.
— Dylan.
— Tá, pés no baú. — Ele respondeu um pouco mal humorado. Provavelmente pela briga com o pai a respeito de cortar o cabelo – os cabelos negros de Dylan já estavam na linha do queixo, e em pouco tempo eles chegariam ao ombro, e ele os amava. Dylan, que estava deitado na cama de Matt, tirou as botas sujas e ficou de meias, olhando para o teto luxuoso que a antiga Capitol colocou nas casas dos vitoriosos. — Terminou?
Dylan se referia a crônica que Matt escrevia. Ele estava ali praticamente meia hora esperando Matt terminar para que pudesse ensina-lo física, mas ele tinha toda certeza que Matt estava enrolando, como sempre faz.
— Não. — Matt respondeu, sem importância. Depois fechou o notebook com uma cara cansada e olhou para a janela a sua frente. — É isso aí. Eu não consigo terminar. Eu travei.
— Era sobre o que, dessa vez?
— As condições precárias de saneamento básico nos distritos. — Matt respondeu, exausto.
— Matt irmãozinho, você sabe que eu te apoio em tudo, mas você parece um velho de 50 anos amargurado quando escreve. — Falou Dylan, se sentando na cama, empolgado. — Você nunca vai falar de algo legal na sua coluna no jornal?
— Tipo?
— Tipo, sei lá... Televisão.
— Dylan cara, eu não vou falar do Reality Show que você tá viciado. Sério. — Matt falou, entediado. — Você sabe o que é Reality shows. Panem et circenses...
— Eu sei, Plutarch Heavensbee explicou pra sua mãe e sua mãe explicou pra você. — Dylan interrompeu. — Mas Matt, que tal falar sobre coisas que as pessoas gostam, e precisam. Sobre coisas positivas. Sobre arte! Sobre amor, aproveitando seu clima apaixonado... Eu não sei. A vida não é só isso. — Dylan falou, pensativo, enquanto Matt o observava admirado — A vida é boa também. As pessoas vivem umas pelas outras, adotam cachorrinhos e... Melhores amigos.
Matt riu, e Dylan o acompanhou. Ele concordou com o amigo, e ficou impressionado em estar presente em uma das ocasiões em que besteiras não saiam da boca de Dylan. Da última vez que o fez alguma proposta, seu braço saiu cortado dessa e seus pais decepcionados. Ele prometeu que não ia deixar isso acontecer de novo – ouch, o braço doeu por dias!
— Às vezes você é um gênio. — Matt começou. — Mas nesse caso eu tenho certeza que você quer que eu fale de você no meu jornal, não é?
— Lembre-se de falar o quanto meu cabelo é bonito e que não será cortado. — Dylan sorriu e piscou na direção de Matt, que jogou uma bolinha de papel nele antes de começar a ser torturado pela pior matéria existente.
Querida Mags
Depois de diversas páginas, confusões e três beijos, Amy e eu estamos juntos. Sim, pode soltar seus fogos e fazer sua festa irmãzinha, eu te conheço. Sei que vai me constranger também, mas eu nem ligo. Agora, Amy e eu podemos andar de mãos dadas por aí. Nos beijarmos quando quisermos, embora ela seja um pouco tímida com essa coisa. Ainda não contei à Fiama, mas Dylan não perdeu a oportunidade de tentar tirar vantagem disso. Fiama, em todo caso, provavelmente já sabe tudo – inclusive detalhes, porque garotas falam.
E agora que eu estou com Amy, as coisas tendem a ser diferentes. Porque eu prometi a ela que eu não seria, como ela chama? Ah, tá. Ridículo. Às vezes ela usa imbecil. Sabe, eu nunca vi nossos pais usarem apelidos um com o outro, mas Amy é um pouco baixa nos dela. E eu a amo. Então, como eu prometi a ela que não seria idiota e eu fiz a mesma promessa para os nossos pais, eu realmente vou tentar cumprir. Sabe, eu vou estudar, e escrever moderadamente, e ajudar na padaria e... Esquecer Atlas.
Você sabe que eu tenho um fraco por essas coisas e que não vou conseguir, não é?
Não quando ainda não descobri quem foi Mahatma Gandhi do meu presente de aniversário e principalmente porque uso o nome de Abraham Lincoln e nem sei se ele foi um louco bandido ou não sei. Talvez foi um presidente, mas nem todos foram justos. Tá, enfim.
Por isso eu quero que você seja a única pessoa, a saber, que eu pretendo voltar à biblioteca, em breve. Eu entendi o recado “Não acho que você tenha errado. Não posso culpar você por se arriscar demais, foi para isso que fomos feitos. Mas Matt, não me culpe por tentar te proteger” e por isso, agora que eu sei que um cara três vezes maior do que eu esta lá, vou fazer de maneira certa, mas ainda um pouco errada. Eu sei que isso é o que Amy chama de estupidez, mas eles estão trancaram coisas realmente importantes lá, e você sabe disso. Eu sei que você vem passando por muitas coisas aí na faculdade, mas se fosse jovem como eu, iria ficar aguçada em saber o que está acontecendo. (Então, eu acho que acabei de te chamar de velha... foi mal).
Aliás, eu acho que eu esqueci de, no começo da carta, te agradecer. Você foi maravilhosa na última carta. Você não me deu uma bronca – não tão ruim – você me apoiou, e... Mags! Você não existe. Eu sei que você tem visto o mundo, de maneira diferença e mais intensa do que eu, e tem vivido na pele tudo de bom e ruim, e ainda sim se importa e se preocupa com o que eu estou prestes a viver. Você é realmente a melhor.
Sim, eu vejo os tabloides. Eu os compro, leio e queimo alguns nas fogueiras que eu faço pra ficar a noite na campina. Eu odeio aquele Calígula. (E eu faço meu melhor pra não deixar mamãe e papai verem, mas você tem que colaborar e lembrar-se de ligar toda semana).
Bom, falando em algo bom, eu estou muito melhor na escola. Ultimo ano é difícil, claro, mas eu não posso acreditar que eu estou vivendo. Já passou por isso? Quando você está em algo bom demais, ou ruim demais, ou um dia qualquer que você olha ao redor, vê que tem 17 anos e pensa: Uau, eu estou vivendo. E ai você acha tudo tão hediondo que começa a pensar em como seria não viver e tudo se torna estranho. Sabe, escrever sobre é ainda pior do que sentir.
Falando nisso, reparei que esse parágrafo ficou tão grande que parecia uma crônica, e como o News of Panem é uma das minhas poucas certezas, acatei uma sugestão de Dylan em escrever algo agradável. E, como sempre, eu espero que você goste da que estou mandando. Me lembrei da vez que nós falamos sobre arte, e música e a única vez que falamos de amor daquela forma – acho que você ainda estava meio encantada pelo filho do sapateiro – mas nós dois concordamos que tudo o que fazemos com amor deixa uma marca, e a arte é a única marca que deixamos sob a terra, o que conclui: Amar é uma arte.
Eu acho que eu estou sendo um pouco menos metafórico, mas depois que eu fui pego sendo um marginal, eu venho pensando mais no futuro de maneira sensata e menos fantasiosa. E eu queria a sua ajuda. Se puder me fazer um favor, veja o que diz respeito a área de geografia e estudos da terra do Departamento de Ciência e Química de Panem. Amy me deu essa ideia, já que eu vivo falando do Mundo, junto com jornalismo na Academia de Letras e Artes de Panem, aí na Capitol. Sei que ambos os Campus são próximos, então se puder visitar essa instituição para mim, ficarei grato.
Ultima notícia: Faltam dois meses para as férias e eu vou passar um tempo aí. Fala para Effie começar a comprar meus doces.
Do seu irmãozinho cada vez mais próximo, e que vai passar um bom tempo perto de você.
Matt Mellark.
PS: Eu nunca, na minha vida, vou culpar você.
FOLHA NÚMERO DOIS
PANEM ET ARS
Abraham Lincoln
Milhares de anos atrás, escrito em uma linguagem chamada Latim de um lugar chamado Roma, existiu o ditado Panem et Circenses, que se traduz para 'Pão e Circo'. O escritor estava falando que em retorno de abundantes estômagos cheios e entretenimento, suas pessoas têm que desistir de suas responsabilidades políticas e em consequência de seu controle.
Nosso país é nomeado a essa expressão latina e, não só foi regido assim durante anos como consequentemente nosso idioma e nossos nomes e cidades ainda tem conexões com a antiga Roma e o Latim. Um dos exemplos é a palavra Arte, do latim ‘ars’ que pode ser entendida como a atividade humana ligada às manifestações de ordem estética ou comunicativa, realizada por meio de uma grande variedade de linguagens, tais como: arquitetura, desenho, escultura, pintura, escrita, música, dança e cinema, em suas variadas combinações. O processo criativo se dá a partir da percepção com o intuito de expressar emoções e ideias, objetivando um significado único e diferente para cada obra.
Todos os dias, nós convivemos com arte em todos os mínimos detalhes de nossas vidas. Nos distritos, as músicas regionais, as danças típicas e a estrutura de cada prédio, casa e lojas – das palafitas do distrito quatro às poucas casas pau a pique do distrito nove – são exemplos pobres, no entanto não são menos práticos do que arte significa.
Arte é contato imediato com verdade que nós temos. A arte é bonita e feia, falsa e verdadeira, não compreendida. Os primeiros filósofos disseram que Arte é a imitação da realidade, e podemos ver que é, mas arte também cria uma nova. É uma constante criação, a metamorfose feita por mais de um homem, a junção de sentimentos que, no geral, tornam-se coisas físicas ou presentes. Em nosso país, por exemplo, a arte foi usada na forma de props e música (The Hanging Tree) durante a revolução e, logo após o fim da guerra, foi incentivada em todas as atividades para promover paz. Arte é grandiosa, porque é essencial e invisível para nós. Arte é como o ar.
As pessoas não se interessam por arte porque é um comércio, um fundo capital, um interesse momentâneo. Não. É porque arte é a única coisa que uma pessoa pode deixar para a humanidade depois que se for.
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