Who Owns My Heart?
22 Asleep
Notas iniciais
O primeiro a entrar foi meu pai. Ele tinha vindo imediatamente quando soube do que estava acontecendo, e quando ele entrou no quarto, eu preferi que ele não tivesse me visitado. Ele não havia mudado muita coisa desde a última vez que eu vi, mas seus olhos estavam vermelhos e inchados, e seu rosto estava muito pálido. Meu pai quase nunca chorava, não porque ele fosse machista ou algo assim, mas porque ele era muito feliz. Quase nada abalava o meu pai, mas acho que o fato de eu estar com câncer o havia deixado tão comovido que ele não estava aguentando a pressão.
– Oh, Annie! – ele disse, quando me viu. Em seguida me abraçou, e senti lágrimas quentes rolando pelas minhas bochechas, indo até meu queixo. Ele me abraçou forte, seu corpo quente contrastando com a frieza da minha pele. Eu amava tanto o meu pai, e sentia tanta falta dele! Jamais esperava que nosso reencontro seria assim, comigo á beira da morte.
– Pai – respondi, com a voz embargada de lágrimas. Ver meu pai nessa situação me fez piorar um pouco, tudo o que eu menos queria é fazer meus pais sofrerem. Se fosse para eu morrer, que fosse bem rápido, pois eu nunca perdoaria o sofrimento que estava causando á minha mãe e ao meu pai.
– Filha, eu conversei com seu médico mais cedo – ele disse, acariciando meu rosto – e as notícias são boas. O adenocarcinoma ainda não está em estágio avançado, e está apenas em uma parte do estômago. Além disso, há apenas as pequenas infecções que você já tem conhecimento, mas elas começaram a ser tratadas ontem, como você sabe. O tratamento da anemia é bem simples, e em breve você estará recuperada dela. O médico disse que vai fazer mais alguns exames, e a quimioterapia deverá começar daqui a poucos dias.
Comecei a chorar ainda mais. Para mim, a quimioterapia era pior do que o cancêr, o tratamento era agressivo demais e debilitava o paciente por meses. Além disso, eu sentia que meu pai estava bastante preocupado, e estava falando daquele jeito para acalmar nós dois. Aquilo abriu uma ferida enorme na minha alma.
– Annabeth, meu anjo, não chore. Vai dar tudo certo, confie em seu pai.
Ele me abraçou e não disse mais nada. E pela primeira vez, eu não confiava nas palavras que me pai dizia.
Meu pai ficou quase o dia todo no meu quarto. Conversamos sobre várias coisas, menos sobre a doença. Colocamos as novidades em dia, falamos sobre como nossas vidas estavam. Foi ótimo conversar com meu pai assim, eu não tinha percebido o quando sentia falta dele. Agora já era noite, e ele me deixou á sós para descansar. Mas minha mente não descansava, e eu só pensava em Percy. Eu não tinha notícias dele desde que tinha vindo para o hospital, minha mãe não havia tocado no assunto, e eu também não comentei nada. Será que ele sabia que eu estava com câncer? Será que ele ao menos sabia que eu tinha vindo para o hospital? Ele iria vim me visitar? Ou já tinha partido para o exército? Será que eu ainda iria vê-lo algum dia? Eram tantas perguntas sem respostas, que acabei adormecendo, sentindo as lágrimas da saudade escorrendo pelo meu rosto.
Acordei algumas horas depois, com um toque suave no rosto. Uma mão forte acariciava minhas bochechas, e eu presumi ser meu pai. Sorri sem abrir os olhos, e de repente um cheiro de brisa marinha invadiu meu nariz. Abri os olhos lentamente, e tive uma surpresa tão grande que não consegui evitar um sorriso. Percy estava bem na minha frente, ajoelhado ao lado da cama, lindo como sempre. Sua pele bronzeada contrastava com a camisa azul céu, e seus olhos verdes pareciam mais acesos do que nunca. Sua barba estava feita, e seu cabelo tinha sido cortado bem rente, no estilo escovinha típico do exército. Ele ainda nem havia partido, mas já tinha cara e jeito de militar.
– Boa noite – ele disse, sorrindo.
– Percy? O que você está fazendo aqui? – perguntei, a voz em um sussurro.
– Sua mãe me contou tudo. Partirei amanhã de manhã, então tive que vir agora. É proibido fazer visitas durante a madrugada, mas contei minha história e o hospital abriu uma exceção. De qualquer forma, não posso ficar muito tempo.
Meu coração se partiu em um milhão de pedacinhos. Essa seria a última vez que eu iria vê-lo durante muito tempo. Eu não conseguia suportar isso, doía demais, doía mais do que a doença que estava tomando posse do meu corpo. Eu não aguentaria viver sem Percy. Em poucos meses ele havia se tornado tudo para mim, e poderia parecer clichê, mas eu simplesmente não conseguia imaginar como seguir em frente sem ele. Ainda mais na situação em que eu me encontrava. Lágrimas já escorriam pelo meu rosto quando eu disse:
– Sente-se aqui.
Me levantei e sentei no outro lado da maca, dando um espaço para ele se sentar ao meu lado.
– Olha Annie, seus pais me explicaram tudo, e eu conversei brevemente com o médico, e acredito que vai ficar tudo bem. Estamos todos muito positivos, vai dar tudo certo, você vai ver. Eu não estou falando da boca para fora. Mas não vamos ficar falando disso, ok?
Assenti, sem condição de falar, de tanto que estava chorando. Será que era assim com todos que estavam no hospital? Todo mundo sempre tentava te colocar para cima, mesmo sabendo que nada ia ficar bem? Todos nós tínhamos consciência de que minha situação não era boa, eu, meus pais, Percy, os médicos. Eu estava com câncer, tinha grandes chances de morrer. Mas todo mundo queria mentir para si mesmo, e fingir que estava tudo em ordem. Talvez era mais fácil de aceitar dessa forma, fingindo que eu não estava morrendo. Mas dentro de mim, aos poucos, eu sentia que estava indo.
– Conheci seu pai hoje. Ele é um homem maravilhoso, assim como a filha.
– Obrigada. Meu pai é incrível mesmo.
– Eu adorei conversar com ele. Ele é simpático, e me desejou uma boa viagem. Eu vou amanhã, no vôo das 7:30. Estou muito ansioso para começar o treinamento – ele disse de maneira irônica, e sorrimos.
– Quando você acha que volta?
– Minha primeira licença está marcada para daqui a 6 meses. Meu alistamento é válido por um ano, mas tem grandes chances de eu ser dispensado daqui a 6 anos. Então, dentro de no máximo um ano estarei de volta. Se a guerra prosseguir, eles chamarão outro no meu lugar.
– Que ótimo, amor.
– Sim. E quando eu voltar, manterei minha promessa. Você já estará fora deste hospital, linda e completamente saudável. Vamos nos casar, e arrumar um apartamento, e vamos para a faculdade juntos. Depois teremos um filho, nos mudaremos para uma casa maior e compraremos um cachorro. Nosso filho irá crescer, e envelheceremos juntos. Morreremos lado a lado, na mesma cama, e seremos enterrados no mesmo lugar. Iremos juntos para a eternidade.
Não consegui evitar as lágrimas depois do que ele disse. Provavelmente nada do que ele dizia iria acontecer, pois eu poderia morrer aqui, neste hospital.
Ele me abraçou e sussurrou no meu ouvido:
– Eu te amo. Independente do que acontecer, eu te amarei para sempre. Obrigada por me ensinar á viver.
Ficamos por um longo tempo abraçados. Tudo o que eu sentia era seu corpo contra o meu, nossos calores sendo trocados. Eu me sentia protegida por ele, e mais uma vez me perguntei como iria viver sem ele. Nos beijamos, foi um beijo bom, terno e calmo. Nunca me senti tão em paz. Infelizmente tivemos que nos soltar depois, e ele disse:
– Annie, tenho que ir agora. Me mandaram fazer uma visita breve, infelizmente. Assim que eu chegar á base te escreverei uma carta, e enviarei imediatamente. Vamos manter contato sempre ok? Vou deixar o telefone da base com sua mãe, e ligarei sempre que puder. Quero respostas á todas as cartas, ok?
– Sempre – respondi.
Ele me deu um último beijo e saiu, sem olhar para trás, para eu não perceber as lágrimas em seus olhos. Mas eu vi, e tentei não pensar que aquela poderia ser a última vez que eu iria vê-lo.
Fale com o autor