White Rose
1 Introdução - A Galeria de Guartena
Eu entrei na galeria enquanto soltava um grande suspiro de preguiça. Meus pais estavam logo a minha frente super animados conversando sobre como a "Grande exposição de Guartena" era um evento único e de como nós eramos sortudos de estarmos ali. Eu lancei um olhar de desgosto para a quantidade de pessoas que estavam logo na entrada da galeria.
Eu não queria estar ali. Assim que avistei uma espécie de sofá grande que adornava a recepção da galeria não hesitei em caminhar até lá e me sentar. Meu pai me lançou um olhar desaprovador, mas eu simplesmente ignorei e sentei assim mesmo. Já era de noite e me surpreendia que a galeria estivesse tão cheia. Talvez esse tal de Guartena tivesse realmente talento, mas eu não me importava com isso.
Assim que fiz menção de tirar meu celular da jaqueta, algo me chamou a atenção. Uma garotinha, pequena passou logo a minha frente me oncarando de maneira estranha. Ela não deveria ter mais que dez anos. Usava um uniforme escolar com uma saia preta. Ela segurava um ursinho em uma das mãos, enquanto a outra estava entregue ao que parecia ser sua mãe.
Encarei a menina de volta com a audácia que ela. Por quê eu era assim. Não levava desaforo para casa nem de uma criança. Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, ouvi a voz de meu pai me chamando
- Noah, acorde! Levante-se daí. Você deve vir conosco, e você sabe disso. Passamos naquele shopping porquê você pediu, agora é hora de retribuir um pouco do favor.
Encarei ele de cima a baixo por um momento. Meu pai já era um homem velho, com cabelos grisalhos e uma voz grossa. Já estava nos seus cinquenta anos, mas era muito mais disposto que a maioria das pessoas que eu conhecia. Isso inclui eu mesmo. Fisicamente, ele não se parecia em nada comigo o que me levava a pensar que eu era adotado.
Voltei o olhar para o corredor, mas a menina que estava ali a poucos segundos já havia sumido. Então voltei a prestar atenção em meu pai que me fuzilava com os olhos. Eu era teimoso, mas meu pai era mais ainda. Então, soltando um grande suspiro novamente, me levantei e comecei a caminhar ao lado dele, ele passou os braços em volta do meu pescoço e disse
- Vamos lá filhão vai ser divertido! Tenho certeza que você vai se identificar com pelo menos uma obra de Guartena.
- Menos pai, por favor — Disse enquanto tirava os braços dele de perto de mim.
A galeria na qual eu estava não era muito famosa. Justamente por isso a exposição de um autor tão famoso como Guartena atraiu tantas pessoas. Da recepção onde eu estava, havia dois corredores de acesso as obras, e uma escadaria que levava ao segundo andar. Meus pais optaram por seguir para o segundo andar de uma vez, já que o primeiro estava cheio de mais.
Foi a primeira decisão deles que me deixou feliz. Se havia algo que eu odiava era multidões.
Assim que chegamos ao segundo andar, fui capaz de ter um panorama geral da área. Diferente do primeiro andar. As obras de guartena não pareciam estar dividida em corredores como no primeiro andar, e isso me deixou um pouco mais contente. Ao menos as pessoas não ficavam tão coladas. Meus pais então, começaram a se aproximar da primeira obra que viram. Segui eles até a "obra" e cerrei os dentes ao chegar lá.
Eu estava de frente a uma série de manequins pretos, cada qual vestindo roupas coloridas diferentes.
Eles não possuíam cabeça, e estavam todos virados em direções opostas uns dos outros. Na placa em frente, havia o título da obra em letras garrafais: "A Morte do Individuo"
Minha mãe soltou uma grande exclamação, e começou a conversar com meu pai sobre qual seria o significado oculto daquela obra e quais teriam sido as inspirações do autor. Não consegui prestar atenção por mais de 5 segundos antes de chegar a uma conclusão: arte não era para mim.
Eu não conseguia ver nada demais ali. Na verdade, era uma ideia muito idiota. Cheguei a conclusão que Guartena não passava de um velho louco. E os apreciadores da arte dele, mais loucos ainda.
Comecei a bater meu sapato no chão da galeria, como uma criança impaciente, e após poucos minutos toquei o ombro de minha mãe e disse "Preciso ir ao banheiro" ela acenou com a cabeça, mas parecia estar tão entretida na conversa com meu pai que nem deve ter ouvido o que eu disse.
Comecei a caminhar para longe deles, em direção ao fundo da galeria do segundo andar. Eu não fazia ideia se haviam banheiros ali, mas eu só queria me afastar de todas aquelas pessoas, e da conversa entediante dos meus pais. Cheguei a uma área muito mais quieta dali, ao extremo sul da galeria. Ali, não haviam esculturas, apenas alguns pequenos quadros mais simples. Uma coisa que me intrigava é que mesmo a exposição de um dos "maiores gênios da arte moderna" não havia nada separando as pessoas das obras. Era possível tocar a peça. Claro, era terminantemente proibido esse tipo de coisa, mas com exceção de uma ou outra câmera de segurança, não havia nada que impedisse tal feito.
Poucos minutos após eu chegar, notei que aquela era realmente uma das áreas menos movimentadas da galeria. Com exceção de uma velha, não havia mais ninguém naquele setor. Olhei de cima a baixo para a idosa que estava ali, alguns metros ao meu lado. Ela deveria ter por volta de 80 anos, sua cara era completamente enrugada, e ela tinha um rosto sereno. Ela encarava fixamente um quadro que estava a menos de um metro de distância.
Antes que pudesse pensar em qualquer coisa mais, ouvi a voz dela, extremamente baixa, falando
- Jovenzinho... o que você acha desse quadro aqui?
Eu parei alguns segundos relutante. Como eu era o único ali, não conseguiria nem mesmo fingir que era com outra pessoa. Então, dei alguns passos para me aproximar dela e fitar o mesmo quadro.
O quadro retratava uma figura humana de costas, com os braços para cima cercado por várias nuvens.
O quadro inteiro tinha sido pintado com tons de laranja, o que fez minha visão embaçar por alguns segundos. Olhei o nome do quadro que dizia simplesmente "A iluminação"
Era uma bosta. Como todos os outros quadros que havia visto, esse não trazia nada demais. Nenhum detalhe, nenhuma história, apenas umas formas alaranjadas com um título aleatório. Hesitei por um segundo e respondi
- Han... profundo, eu acho.
A velha riu por alguns segundos, com sua voz suave e baixa e então disse.
-- Sim sim... profundo, definitivamente. Esse quadro retrata o momento da verdade. O momento que chegará na vida de todos nós, em que olharemos para trás e pensaremos em todas as nossas atitudes.
Nossas oportunidades, nossos erros. O momento em que você deixa de ser iludido e acorda para a realidade. Essa transformação pode ser natural e intuitiva... mas para alguns é uma experiência muito dolorosa e díficil.
Ao dizer a última frase, a senhora se virou para mim e me fitou diretamente. Como se lançasse uma indireta. Como se me desafiasse, eu cerrei os dentes pronto para dar uma resposta idiota para ela, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa ela simplesmente voltou seu olhar para o quadro e ficou em silêncio. Meu corpo começou a esquentar de raiva, por algum motivo. Comecei a andar para longe daquela mulher pensando em mil motivos para eu não estar ali naquele momento.
Quando meu frenesi acabou eu finalmente parei de andar e olhei ao redor para tentar me localizar.
Foi nessa hora que algo grande chamou minha atenção. Eu estava em uma sala de tamanho médio, não havia ninguém ali o que fez eu pensar que tinha invadido uma área da exposição fechada, mas não só por isso. Eu estava de frente para a maior pintura que já havia visto na vida
Com cerca de 10 metros de comprimento e 5 de altura, aquela pintura ocupava uma parede inteira. Eu não pude deixar de me assustar e dar alguns passos para trás. Elas mostrava várias formas de cores escuras e tons variados. Cada vez que eu olhava para a pintura, suas formas pareciam mudar. Hora eram árvores, hora eram pessoas, hora edificios...
Aquilo era realmente incrível. Uma pintura daquele tamanho com aquele efeito? Senti um calafrio grande percorrer meu corpo. Era como se a pintura me chamasse, me puxasse para perto, e meu corpo quisesse obedecer. Como uma peça magnifica como aquela não estaria em exposição? Como não havia ninguém ali?!
Por um segundo, as luzes da galeria falharam o que fez minhas pupilas dilatarem por um segundo.
Quanto mais eu olhava para a pintura, mais hipnotizado eu ficava, e quando finalmente eu pensei que deveria sair dali, era tarde demais.
A pintura parecia estar escorrendo para fora da tela. A tinta parecia sair do quadro e escorrer pelas paredes, até sujar o chão. Como Guartena tinha criado algo como aquilo? Era impossível...
Comecei a me aproximar lentamente da pintura. Tive um vislumbre rápido de seu nome "Mundo Fabricado" eu tinha que saber se aquela pintura era real. Eu tinha que toca-la.
Me aproximei do quadro com um certo receio, mas antes que pudesse pensar em qualquer coisa, meus dedos encontraram a tinta do quadro. Senti um gelo na ponta dos meus dedos, mas ao contrário do que eu pensei, a tinta não escorreu pelo meu braço. Meu braço simplesmente a atravessou. Sem conseguir me conter, meu corpo foi se aproximando cada vez para próximo do quadro, enquanto cada parte era sugada para dentro do que quer que fosse aquilo. Assim que minhas pernas começaram a serem sugadas também, finalmente recobrei a consciência e tentei gritar por socorro. Estendi meu único braço para fora do quadro desesperado, na esperança de que alguém pudesse me ajudar, mas eu sabia...
Não havia ninguém ali. Meu desespero era inútil.
Eu estava condenado.
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