– Então o vovô, eu andei treinando em casa sozinho. Olha o que eu consigo fazer! – o pequeno Ren disse antes de dar um pulo rápido para trás e se posicionar com as pernas abertas, a base, e o braços aberto, porém ligados pelas duas mãos, o primeiro passo do movimento, suas roupas começaram a brilhar fracamente e a balançar como se ventasse. Aquilo era tudo e exigia grande poder mágico. Poucos segundos depois, Ren estava de joelhos no chão, apoiado nos braços recuperando o ar que lhe faltava. – É pouco, mas é um bom começo.
O garoto começou a se levantar, mas ao erguer-se, tombou e caiu de costas no chão. Sem forças para mover nenhum musculo. Kazumi sabia que se tivesse forças, ele estaria sorrindo. E sentia em sua pele o poder mágico que exalava do corpo do menor.
– Acho que chegou a hora, Ren-kun. Vamos visitar a guilda! – o velho disse, mas não esperou que seu neto levantasse. O pequeno estava estatizado no chão, roncando. – Ora essa...

Algum tempo depois, Ren já não sentia mais seu corpo vibrar. Sua mente já estava clara e podia ouvir claramente tudo ao seu redor. Desde que começara a praticar magia seus instintos ficaram mais aguçados e seu corpo mais resistente, mas logo ao ativar a magia, Ren sentia que seu corpo estava prestes a explodir.
O chão frio tocava as costas do garoto, pelo cantar dos passarinhos e da água correndo, ele ainda estava no dojo.
– Finalmente, Ren-kun. Achei que fosse esperar o pôr do sol. – Kazumi disse se equilibrando da ponta do dedão num arco de madeira resistente cravada dentro do rio. Ren sentiu inveja de seu avô. Queria ter habilidades como aquela, mas mal sabia andar sem tropeçar na própria perna.
– Preparado para o treino antes de partirmos?
– O-onde nós vamos, velhote? – ele perguntou se levantando devagar.
Sem resposta e sem ideia de onde o avô estava.
– Vovô? – respirou fundo, fechou os olhos e saltou. – Esse truque não vai funcionar de novo!
– Muito bem, como soube que eu iria acertar seus pés?
– Hoje o dia está mais calmo, os passarinhos estão cantando, mas não voando. O arco de treino estava vazio e você não é rápido o suficiente para dar um pulo até aqui e se esconder. Sua única opção era mergulhar na água ou se esconder na árvore, onde sem querer você fez as folhas farfalharem. Não me atingiria em cima, pois meu ponto fraco são meus pés.
– Muito bem. E como soube que eu não iria mergulhar?
– Hoje o dia não está muito quente para secar o kimono...
Kazumi-sensei preparou mais uma flecha e atirou. Ren engoliu em seco esperando o momento certo para desviar, mas não seria necessário. O barulho do sino tocando foi um sinal de alívio para o garoto, estava esperando ouvir aquele sino desde que jurara treinar com seu avô até sua magia despertar. Aquilo era mesmo o que ele estava pensando?
– Troque de roupa Ren-kun. Vamos a um lugar muito especial hoje.
– Lá?
– Sim. Ren-kun. Hoje você vai poder entrar na Sala Escura.

Em algum lugar de Earthland, em alguma vila pequena estavam seu avô e o jovem Ren, que tremia tanto de ansiedade que Kazumi estava surpreso pela estaticidade que o jovem estava. O velho alisou a barba longa antes de passar a mão nos cabelos escuros bagunçados de Ren.
– Preparado? – o velho perguntou.
– Sim! – Ren respondeu num pulo de alegria.
Kazumi seguiu direto, empurrou a porta da guilda – uma velha mansão com aspecto de abandonada, o símbolo da guilda (um fantasma com um lençol e uma careta nada assustadora, porém cômica) pendurado numa placa podre e mofada pendurada por só uma alça e janelas sem vidro que exibiam uma falsa realidade de quartos e fantasmas — e atravessou para uma sala onde todos tinham a mesma marca que o velho tinha protegida em sua costela, protegida pelo braço.
Haviam quatro mesas ocupadas de gente. Pessoas muito diferentes umas das outras. Alguns magos mais jovens, outros da idade de Ren, outros mais velhos, outros da idade de Kazumi, outros mais novos.
– Bem vindo a mansão mal assombrada. O lar do fantasma branco! – disse Kazumi empurrando Ren para dentro da mansão velha.
O piso branco reluzia com a luz fraca do sol. As janelas eram bem adornadas e estavam abertas e surpreendemente inteiras. Um lustre de cristal caía pendurado no teto. Haviam quadros de magos que pertenceram ao redor de toda a sala. E o principal estava lá no meio, recebendo com um sorriso de boas-vindas: o enorme quadro do eterno mestre da guilda: o jovem Yasuhiko. O garoto estava sentado num balcão de pernas cruzadas e tomando um suco. A imagem atrás dele era representada pelas mesmas características físicas numa pose ridiculamente heroica.
– Kazumi-san. Aqui! – gritou um homem barbudo. Sua pele e cabelos escuros (e a cara de mau) não combinavam com a alegria do homem sentado. Uma moça com o cabelo lilás preso em duas marias-chiquinhas cochichou algo em seu ouvido e houve um silêncio repentino. De todo o salão.
O garotinho de aparência alegre que bebia seu suco se levantou e foi flutuando até eles. Ren teve a impressão de ter visto parte do seu corpo ficar para trás e seguir como fumaça até ele. Os cabelos loiros, os olhos claros e o sorriso sapeca no rosto não indicavam em nada que aquele era o líder da guilda. Exceto é claro, pela coroa em sua cabeça.
– Kazumi-kun por favor sente-se!
O vovô fez uma referência exagerada ao garoto e seguiu para perto do homem que o havia chamado. Ren já ia segui-lo, mas sentiu algo frio e sólido tocar seu ombro.
– Isso é maneiras de se cumprimentar o mestre desse lugar pequeno jovem?
– M-mestre? – Ren disse e se pôs numa referência exagerada e pedindo perdões. Kazumi cochichava algo no ouvido daquele homem que assentia calado.
– Muito bem. Muito bem. Deixe as desculpas de lado e me siga.
– Yasuhiko-sama... — uma garotinha de cabelos ruivos disse se levantando. Era menor que o próprio Ren. O mestre lançou um olhar frio e gélido para a menina. Ela não parecia ter medo. — ... Ele têm as marcas.
Yasuhiko ergueu uma sobrancelha de forma curiosa.
– Obrigado, Phoe-chan. – ele disse no mesmo tom sério e deslizou no ar até a a frente do quadro e desapareceu em fumaça. Onde seu corpo desapareceu, uma porta apareceu. E Ren seguiu até lá... em silêncio e medo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.