Alba olhou ao seu redor. Tinha certeza de que deveria ver agora muitas prateleiras e livros sendo consumidos pelas chamas, assim como aquela pequena sala havia sido. Esperava sentir o cheiro de carvão, e se preparava para correr e tirar sua irmãzinha daquele inferno ardente, e se culpar por ter aberto aquele livro idiota, que causou o incêndio.

Mas, ao invés disso, ela se surpreendeu muito. O céu azul brilhava acima de suas cabeças, quase sem nenhuma nuvem. Debaixo dos seus pés havia grama verdinha, salpicada de margaridinhas, ao seu redor haviam muitas árvores fortes e frondosas. Não havia fuligem, carvão, fumaça, nem nenhum indício de incêndio.

— O que está acontecendo? — Megan sussurrou.

— Ou a gente morreu no incêndio... — Alba considerou — Ou a gente entrou dentro do livro.

— E você disse que não tinha chance disso acontecer de verdade... — Megan riu, cruzando os braços. — Bem que seus amigos avisaram! Disseram "você pode se perder", e eu me perdi, "pode ser sugada para dentro de um livro", e aqui estamos nós...

— Megan, não seja ridícula! — Alba bufou.

Megan a encarou, esperando que a irmã dissesse que a primeira opção era a mais plausível. Ela teria que concordar, mas não queria acreditar nisso.

— Nós duas só estamos presas nessa enrascada porque você não me obedeceu, e abriu aquele livro idiota. — Alba resmungou — Não culpe meus amigos por isso.

Megan soltou os braços e riu, aliviada. Então a irmã acreditava nela. Acreditava que estavam vivas e bem, só dentro de um livro idiota e mágico...

— O livro! — Megan se apavorou — Alba, o vento carregou o livro!

— Isso não é bom... — Alba suspirou, pensando um pouco — Vamos ser sensatas e pedir informações. Deve ter alguém por aqui.

Megan olhou para todos os lados, e depois colocou as mãos na cintura.

— Você por acaso pretende pedir ajuda aos passarinhos? Não tem ninguém aqui! — ela bufou.

— Não me retruque! — Alba passou a mão em seus cabelos, tirando algumas mechas do rosto — Se quiser sobreviver, agora vai ter que me obedecer de verdade!

Alba caminhou até a irmã, se aproximando.

— O plano é esse, — ela disse, em tom de confidência — Vamos ficar de costas uma para a outra. Você vai dar 30 passos na sua direção, e eu vou dar 30 passos na minha. Aí você gira nos calcanhares e volta o caminho que fez. Nos encontramos aqui.

— E se eu encontrar alguém? — Megan perguntou.

— Pede pra te acompanhar. Combinado? — Alba insistiu.

— Tá. — Megan suspirou.

Megan não achou aquele plano muito inteligente, mas decidiu seguir sua irmã."

***

— Eu também não achei um plano muito inteligente. — rainha Lúcia disse, olhando séria para seu melhor amigo.

— Por que diz isso? — o fauno retribuiu o olhar.

— Ora, nos livros de terror, sempre as pessoas se separam, algo terrível acontece. — ela respondeu, convicta.

— É uma boa observação. — o fauno riu. — Vou continuar...

***

Depois de ter caminhado por aquilo que pareceu uma eternidade, a menina viu algo se mexer por entre as árvores. Ela correu um pouquinho, até poder ver a criatura melhor. Ela o achou uma graça! Pequeno, meio gorducho, blusa verde, calça e colete vermelhos, barba comprida. Ela esfregou os olhos, achando que estava imaginando coisas.

— Erh... Com licença... — ela falou — O senhor sabe me dizer onde fica a Embaixada Americana?

O anão olhou para ela e resmungou qualquer coisa, andando mais rápido.

— Me desculpe, não quis ofender... Pode me dizer então onde fica a cidade mais próxima? — ela insistiu, o seguindo. — Preciso muito avisar a minha mãe onde eu estou...

— Xô! Não falamos com filha de Eva! — o anão rosnou, correndo.

— Ora... Pestinha... — Megan respondeu no mesmo tom — Volta já aqui! Eu não vou te deixar se safar tão rápido!

Ela correu seguindo ele entre as árvores e arbustos, bufando e ofegando. Céus, que sujeitinho ligeiro! O anão fez uma curva ali em uma árvore, e outra logo depois em um arbusto, e Megan se viu sozinha. Olhou para todas as direções, mas não conseguia achar ele.

— Droga, onde se meteu???

Ela caminhou mais alguns passos até que chegou a uma clareira. Esfregou os olhos suspirando, não podia acreditar no que seus olhos viam. Ela nunca tinha visto antes, onde ela e sua irmã moram fica no sul dos Estados Unidos, perto do mar, não tinha neve, era apenas quente. Então ela nunca visto um trenó assim, de pertinho.

Ela se aproximou dele, e passou os dedos no assento de couro escuro, um tanto desgastado. A madeira do trenó também precisava de uma boa lixada, o mogno escuro estava cheio de arranhões em vários lugares, como se tivesse vivido muitas vidas, aventuras. Era uma coisa muito linda de se ver.

De repente, ela ouviu um passinho suave na grama, e um vulto pequeno ao lado do trenó. Ela armou posição de tocaia. "Dessa vez, esse baixinho idiota não me escapa!"

Ela respirou fundo, contou até três, e com um movimento rápido, encostou na coisa com a mão, tentando agarrar. Era peludo e macio, se assustou e deu uma mordida que a fez gritar, recolhendo a mão rápido. Como um raio ele passou por ela e correu por entre as árvores, e ela, decidida, correu atrás.

Notas finais
Eu costumava publicar para não me sentir sozinha. É estranho me sentir assim novamente.