Nina acordou pela manhã e encontrou o dormitório vazio. Certamente já estava bastante atrasada para o primeiro dia de aula. Pulou da cama e vestiu o conjunto do uniforme de qualquer jeito e prendeu o cabelo de modo bagunçado, deixando alguns fios fora do elástico. Desceu correndo para o salão, já preparando o discurso de desculpas por atrasar o amigo, mas ele não estava lá esperando por ela como sempre fazia. Sentiu o peito esvaziar e, sozinha mesmo, se apressou para o Salão Principal rezando para que ainda tivesse comida à mesa.

Conseguiu chegar a tempo de ouvir as últimas palavras da vice-diretora Belinda Lamb que começara a distribuir os horários de aula para o novo ano letivo com movimentos da varinha. Passou direto por Maurice porque não havia espaço algum ao lado dele. Ele nem sequer levantou os olhos para a amiga, parecia muito entretido com uma sextanista da Corvinal que tinha uma pele muito pálida contrastando com os cabelos negros. Nina achou um espaço para sentar perto dos primeiranistas que ainda pareciam extasiados com cada centímetro do castelo. Ela se serviu de leite morno, torradas douradinhas e geleia de frutas vermelhas e tentou saborear tudo enquanto lia seu novo horário de aulas, ignorando ao máximo Maurice do outro lado da mesa.

Ele percebeu que a amiga tinha se sentado longe dele e ficou olhando-a comer com de canto de olho enquanto Ramona tagarelava em seu ouvido sobre um assunto que ele nem sequer dava atenção. Engoliu a tigela de mingau doce e saiu para a primeira aula com a menina em seu encalço e só percebeu que estava de cara fechada quando viu seu reflexo em uma das janelas.

Nina chegou a tempo na primeira aula do dia e parou na porta por alguns segundos para pensar se sentaria ou não ao lado de Maurice. Acabou decidindo-se por sentar, mas ficou em silêncio e extremamente desconfortável na cadeira, como se o amigo lhe fosse um estranho. Maurice também se remexeu no lugar e abriu a boca para sussurrar algo para Nina, mas o professor cortou sua fala entrando na sala como um raio e fazendo o barulho de um trovão.

Transfiguração era a matéria dada por Silas Woodley desde o primeiro ano de Nina na escola. Na verdade, ele já era professor em Hogwarts há vinte e cinco anos. Era um senhor de quase sessenta anos com espírito de adolescente. Woodley pintava os cabelos grisalhos de um preto quase azulado e nunca, jamais os penteava, fazendo o velho ter feição de maluco – o que era, de fato. As sobrancelhas eram hilárias, pareciam dois triângulos agudos na testa, e os olhinhos se afundavam no meio das rugas. Era alto e largo, mas suas costas já começavam a se curvar pela idade. Woodley também era extravagante em suas roupas e desta vez chegara à sala todo vestido em um tom de mostarda, o que fazia sua pele dourada parecer doente. Maurice suspirou e passou a aula toda esperando a amiga virar-se para ele e agir normalmente, mas isso não aconteceu, porque ela esperava o mesmo do amigo.

* * *

Nina se desencontrou de Maurice durante todo o dia, o que fez a garota pensar que ele talvez estivesse fugindo dela, o que seria extremamente infantil da parte dele. Por que estavam tão estranhos um com o outro, afinal? Por que razão deixaram o ego falar mais alto? Ela se sentiu estranha e vazia por dentro o tempo todo, mas não conseguia reunir forças para enfrenta-lo. Logo o vazio deu lugar à uma agitação estranha que começava no estômago e subia até o fundo da garganta, criando um bolo lá.

No horário de tempo livre acabou trombando com Selvig em um dos corredores e ele parou a garota apenas para entrega-la um pedaço de papel rasgado e continuar seu caminho sem uma palavra sequer. Nina olhou ao redor para ter certeza de que estava sozinha antes de ler o papelzinho. Em uma caligrafia grossa e rabiscada lia-se:

Minha sala à meia-noite.

Aquela frase a fez ficar mais inquieta que um balaço e só conseguiu aquietar-se depois de um banho morno e demorado após a última aula de Transfiguração. A noite não estava tão fria como a anterior, então vestiu um vestido azul claro com mangas que ganhara da mãe no Natal passado e deixou o cabelo solto caindo nos ombros. Sentia-se bonita naquela roupa, mas esperava que ninguém olhasse torto para ela achando que estivesse arrumada demais. Não queria que ninguém a notasse. Ninguém, somente ele.

Correu para o Salão Principal para pegar o melhor do jantar, felizmente as mesas ainda estavam cheias de pessoas e comida. O aroma salgado e quente rodava em espirais e vozes e risos enchiam o lugar de animação.

Nina sentou-se ao lado das irmãs Nane, garotas corvinas de pele cor de jambo. Isla era a mais velha e estava no sétimo ano, tinha o cabelo longo e negro sempre preso numa trança, e Leslie era dois anos mais nova, mas parecia ter a mesma idade da irmã.

– Olha só quem chegou. – Isla sorriu com os lábios grossos. – O que aconteceu, baixinha? Maurice tá saindo com outra e você não quer atrapalhar?

Nina revirou os olhos sorrindo e a outra irmã levantou o pescoço longo para olhar no final da mesa Maurice conversando com a colega estranha.

– Eu não sei o que deu nele. – respondeu começando a se servir da comida. – Acho que se irritou com algo que eu disse...

– Nossa, nunca pensei que os fosse ver brigados um dia. – Leslie tinha o rosto malvado e podia ser muito bem confundida com sonserina, mas era naturalmente amigável e engraçada. – Sério Nina, se vocês dois se separarem eu desisto de acreditar na ideia de um casamento feliz para mim.

Nina riu com a boca cheia de peru ao molho e cutucou a menina com o cotovelo.

– Eu concordo. – Isla balançou o garfo entre os dedos. – Não dá para acreditar que Maurice tenha ficado com raiva de você.

– E por que não? Amigos brigam de vez em quando.

As irmãs se olharam e balançaram a cabeça juntas.

– Não dá para acreditar.

– O que foi? – Nina levantou os olhos, mas continuava cortando outra fatia de peru.

– Nina, você não percebe?

Ela respondeu com um olhar confuso para as irmãs.

– Caramba! Você não sabe que ele é louco por você?

– Não é possível que vocês sejam tão bobinhos assim! Todo mundo pensava que vocês dois já...

– QUÊ? – Nina deixou a voz sair aguda e sentiu algumas ervilhas descendo pelo lado errado da garganta. Engasgou e tateou em busca de algum líquido.

Leslie fez cara feia para algumas pessoas curiosas que se viraram para elas e deu tapinhas nas costas da colega.

– Nina, ele nunca se declarou?

– Declarou? Gente, ele é meu melhor amigo!

– E daí? – Isla levantou as sobrancelhas escuras. – Tá na cara que ele gosta de você... sabe, mais do que como uma amiga. Tenho certeza que ele é apaixonado. Provavelmente desde o terceiro ano. Caramba, como nunca percebeu?

O terceiro ano.

Não era possível. Não! Ele não a enxergava dessa maneira, ele não era apaixonado por ela! Nina não podia imaginar que todos aqueles olhares dóceis e sorrisos tímidos seguidos de rubores nas bochechas eram culpa dela e feitos somente para ela. Ela sempre pensou que ele fosse assim com todos! E o terceiro ano... Bem, foi exatamente na época em que começaram a ser amigos mais íntimos. Falavam de seus sonhos mais impossíveis, confiavam um no outro mais que tudo. Foi o mesmo ano em que não tinham mais vergonha de se tocar porque já eram melhores amigos, então se abraçavam e riam juntos o tempo todo.

– O que realmente você disse para ele ficar assim? – Leslie ficou mordendo um bolinho enquanto mandava um olhar na direção de Maurice.

– Bem, eu só... É uma longa história, na verdade. – ela suspirou.

– Certo. Nós temos todo o tempo do mundo.

– Eu não sei se devo confi... – ela cortou a fala e mordeu o lábio. – Desculpe.

– Tudo bem. – a mais velha afagou o braço dela. – Sei que não somos melhores amigas, mas não somos estranhas também. Eu sei como é se sentir sozinha, Nina. Pode parecer que sou confiante e independente o tempo todo, mas eu sempre me senti triste em Hogwarts... até minha irmã vir para cá também.

– É. – a mais nova relaxou os ombros. – Nós não temos muitas pessoas que conversem conosco.

Nina abaixou os olhos para o seu prato e desculpou-se mais uma vez prometendo às irmãs que contaria o resumo assim que o salão se esvaziasse.