Whispering
6 Ressesion
Notas iniciais

A casa de Rey ficava num lugar escondido pela própria natureza. Um dia, quem sabe, eu conte o que a esconde. Apenas dois quartos, os únicos cômodos com alguma parede, o resto tinha apenas o telhado. Tecidos faziam o papel da parede, de todas as cores e tipos, velas vinham penduradas do teto e o chão era de madeira. Seu pai roubou todo esse material, apenas para criar esse santuário, o que acabou salvando a vida deles.
Sentar e comer sozinha era uma coisa normal, mas após o acontecido...a comida não tinha o mesmo gosto, estava amarga e triste. Rey não conseguia mais chorar, a cena se repetia várias vezes na sua mente. O seu desespero, Bellamy gritando ao seu lado enquanto ambos vinham Charlotte caindo a sua morte.
Eu preciso dormir, agora. Rey pensa tirando a sua roupa, seu corpo estava sujo de terra e todo cheio de hematomas. Perto de sua casa tinha um riacho, não muito fundo, mas bom o suficiente para se banhar. Parte de cima da corrente para pegar a agua, parte de baixo para se banhar, assim a sujeira do seu corpo ia riacho abaixo e iria pegar uma agua limpa para beber.
Esfregar seu corpo para tirar a cor marrom e voltar a ver sua pele clara, alguns cortes superficiais e uns vermelhões. Se banhar no meio da noite, as estrelas e as luzes tomando o céu, deveria ser relaxante.
Rey se aninha na grama enrolada num tecido e fica ali por um bom tempo, não conseguia se mover e o cansaço era muito grande. Aquela sensação de não poder fazer nada a cortava mais forte do que uma faca. Isso a aterrorizava novamente, pensava ter passado por essa fase. O passado a deixou com sequelas e voltar a essa época nunca foi algo planejado.
Charlotte caindo, sem gritos, seu corpo atingindo o chão, sem vida.
Charlotte caindo, sem gritos, seu corpo atingindo o chão, sem vida.
Josh caindo, sem gritos, seu corpo atingindo o chão, sem vida.
É por sua culpa, ele dizia, você deveria ter me protegido.
— NÃO! — Rey grita sozinha e abre os olhos, lágrimas voltaram a se escorrer.
Ela senta na grama e enrola a toalha no corpo. Supere essa, Rey. Pessoas morrem, você sabe muito bem disso. Apenas levante e continue com a sua vida. E é isso que faz, passos fortes e decisivos até a casa, ela coloca uma roupa limpa e ajeita seu cabelo. Agora eu estou de volta...falta algo. E realmente faltava, no quarto dos pais ao lado da estante, a arma da sua mãe. Um bastão de ferro, quando pequena ela a ensinou como se defender com sua arma favorita.
Tudo que usava era de sua mão, desde as roupas até a mochila, que tinha um suporte para o bastão. O arco era do seu pai, ele que havia adaptado a lamina lá e a ensinado como usar. Sua família era parte dela, do seu passado e do seu presente.
Observando o bastão foi quando ouviu o barulho, alto o suficiente para tirá-la do transe e faze-la correr para fora. Uma nuvem escura vermelha, algo pegando fogo cruzando o céu.
Outra nave? Não, essa é menor. Rey pensa. Deveria ir lá...podem precisar da minha ajuda. NÃO! Você sabe no que resultou, uma garotinha matou alguém e depois se suicidou! Apenas fique aqui um pouco. Ela dá as costas e deita na cama. O dia acabou por hoje.
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Os raios de luz sempre iluminam o quarto assim que o sol nasce, mas dessa vez ela já estava muito longe de lá. O solo estava úmido do sereno da noite e o seu bastão estava muito bem guardado no suporte da mochila. Passou duas horas tentando dormir quando percebeu que não conseguiria até ir ver o que tinha acontecido.
Agora estou cruzando a floresta a procura de outra nave.
A fumaça aumentava quanto mais chegava perto e o cheiro de queimado também. Uma nave bem menor do que a outra, caberia no máximo duas pessoas. Rey se aproxima e toca na nave, estava quente e tinha uma superfície toda amassada.
Porta? Apenas preciso de uma maldita porta! Rey pensa procurando algo para que pudesse entrar, quando vê uma fresta aberta, alguém já tinha aberto a nave. Será que alguém de fora ou de dentro abriu?
Rey levanta a porta e vê por dentro, uma pessoa com uma roupa de astronauta, daquelas que ela viu em fotografias antigas. Quem estava lá não se movia, mas ela podia ver seu peito se movimentando. Preciso tira-lo daí.
Rey o segura pelos braços e o puxa para fora da nave, deitando seu corpo na grama. Tirar o capacete foi um desafio, tentou puxa-lo várias vezes até perceber que deveria rodar um pouco para libera-lo. Quando fez isso pode ver quem estava lá, uma garota morena com seu rosto manchado de sangue vindo de um machucado na testa.
Ela abre sua mochila e tira sua pasta feita de alga marinha, iria parar o sangramento e não deixaria infeccionar. A boca da moça estava seca, seus lábios estavam marcados e abertos. Procurar na mochila pela garrafa d’agua foi uma loucura, apenas para perceber que não a tinha enchido.
Tem um riacho por aqui, cinco minutos de caminhada. Assim começa sua outra jornada, correndo atrás de agua para ajudar outra pessoa que não conhece. Como sou uma pessoa solidária.
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Rey estava voltando quando ouviu vozes, ainda não claras, mas quanto mais se aproximava da nave mais audíveis elas ficavam. Clarke, certeza que é ela. Havia também uma voz masculina. Provavelmente Finn. Outra voz...feminina. A astronauta.
— Não, não, isso é minha culpa. — Clarke diz enquanto a astronauta reclamava de um rádio desaparecido — Sabemos que Rey chegou aqui primeiro, Bellamy devia estar com ela.
Assim que ouve seu nome, Rey se esconde atrás de uma arvore. Porque ela me acusa? Bellamy comigo? O que ele tem a ver a um rádio desaparecido? Todos param de falar, deviam ter ouvido o movimento brusco dela. Droga, eles me ouviram. Passos se aproximando. Deveria ir? Eles não devem saber onde eu... A astronauta aparece com uma faca na sua garganta num piscar de olhos, podia ver sua ira.
— Onde está o rádio? — Ela pergunta com um tom desafiador.
— Eu não peguei nenhum rádio.
— Rey, sabemos que você estava aqui com Bellamy. — Finn separa a astronauta de Rey com um toque no ombro dela — Tinha dois rastros na nave.
— Ele pode ter vindo aqui, mas eu não estava aqui com ele. — Rey responde pronta para sacar seu bastão, podia ver que a nova residente ainda estava nervosa.
— Se não conseguirmos aquele rádio, trezentas pessoas vão morrer — Clarke finalmente aparece na discussão.
— Eu realmente sinto muito pelo seu povo, mas não posso fazer nada por ele.
A astronauta se aproxima com passadas fortes e rápidos, a faca pronta para acertar algo, Rey pega seu bastão e o deixa na sua garganta. A garota para.
— Onde está o meu rádio? — Ela pergunta com raiva.
— Eu não sei.
A garota grita de raiva e se aproxima com a faca apontando na gargante de Rey, Clarke e Finn gritavam ao fundo, ela atinge com tudo o bastão no torso da garota a fazendo cair. Todos param, inclusive Rey. Observava o bastão e a astronauta, o que fez com a arma da sua mãe.
Tudo ficará mais fácil agora.
Clarke e Finn se aproximam da astronauta, tentando faze-la se levantar, mas ela se livra deles e antes que Rey percebesse uma faca perfura sua perna. Ela grita de dor e cai no chão, nunca tinha sentido algo igual, todo o peso colocado na sua perna fazia tudo doer ainda mais. Não conseguia se concentrar e em se defender. Tudo que vê é Finn puxando a garota para longe e Clarke examinando o ferimento.
— HEEY! — Alguém grita atrás dela — Eu peguei o rádio, Rey nem estava vendo quando eu o peguei.
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Clarke fazia uma atadura improvisada enquanto eles discutiam sobre alguém que atirou num tal de Jaha e quase o matou. Pelo jeito era Bellamy, que ele tentou matar o líder deles. Rey queria juntar as peças, mas quanto mais pensava mais doía. Bellamy se aproxima dela e observa o ferimento que não parava de sangrar.
— Deve ter pego alguma artéria, preciso de algo para dar pontos. — Clarke suspira para Bellamy, Rey acaba ouvindo.
— Na minha mochila — Ela diz e ele corre para pega-la, jogando tudo para fora até achar a agulha e a linha.
— Isso vai doer — Clarke avisa, como se Rey já não soubesse, ela ia perfurar quando ela lembra de algo.
— Espera! — Rey fala e aponta para uma garrafa no chão — Joga isso lá e dá para mim.
Clarke faz exatamente isso, o que tinha lá era uma bebida alcoólica, uma entre tantas da coleção do seu pai. O liquido faz arder muito, mas quando ela dá um gole rápido e comprido faz tudo diminuir. Enquanto a agulha perfurava o centro da dor, Rey dava outros goles para se distrair. Ela fechava os olhos e tentava não franzir o rosto.
Quanta bosta eu fiz tentando ajudar pessoas. Solidário demais, Rey. DEMAIS!
— Acabou — Clarke anuncia e Bellamy a ajuda a se levantar, assim que ela coloca peso na perna a dor volta e a mesma fica mole, se não fosse por ele Rey teria caído novamente.
Raven, a astronatura, a observava de longe com algo nos olhos. Remorso? Culpa? Espero que sim. Finn tinha organizado um grupo de busca no riacho pelo rádio, uns dez adolescentes estavam lá. Bellamy meio que a ajuda a andar e a carrega todo o caminho, sem falar nada. Quando chegam, ele a deixa sentada perto de uma arvore e fica lá observando os outros trabalharem. Isso é o que eu odeio em líderes.
— Eu sinto muito — Ele suspira em algum momento.
— Tudo bem, você não pensou que uma astronauta iria me esfaquear.
— Verdade, mas isso é a minha culpa.
— As coisas não são tudo a sua culpa, Bellamy — Rey diz olhando para todos no riacho — Tudo que acontece é resultado de um grande efeito borboleta.
Bellamy senta ao meu lado e observava o chão, sem olhar no seu rosto.
— Você ouviu algo que Raven falou?
— Bom, eu estava sangrando e morrendo de dor enquanto vocês conversavam — Rey não queria entrar naquele assunto, a conversa iria ficar mais emotiva.
— Rey, eu sei que você ouviu. — Bellamy insiste e ela bufa.
— Bellamy, eu ouvi sim, mas não me importo se você matou alguém, okay?
— Ele não morreu e ele está vindo para cá. Ele tem o poder de fazer a merda que quiser comigo.
— Ele terá que enfrentar todo o seu povo, que morreriam por você. Bellamy, esses adolescentes te respeitam. Ele terá que passar por mim, e eu não vou lutar com faquinhas.
Ele ri e finalmente se volta para ela, Rey estava com sua pele muito pálida por causa da dor, olhos cansados e seu cabelo bagunçado, os três coques estavam pendurados por um fio. Ela sorri um pouco e solta uma gargalhada.
— Heey! Achei! — Alguém grita no riacho. Bellamy se levanta e tudo que Rey pode fazer era observar.
Raven pega o rádio e tudo que diz era notícias ruins, Clarke acusa Bellamy e Raven traz uma solução.
É tão bom ver e não estar no meio. Deixe eles se matarem, assim não sobra para mim. Ela ri com esse pensamento e observa todos começarem a construir algo chamado rojão, se ouviu direito esse é o nome.
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Era noite e Rey estava no mesmo lugar, tinha adormecido em algum momento e acordado em outro. Contou as nuvens até virarem estrelas e agora consegue ver tudo numa coloração laranja das tochas. Bellamy surge entre a multidão de pessoas trabalhando e a ajuda a se levantar.
— Consegue andar? — Ele pergunta quando apoio meu braço nos ombros dele.
— Eu posso tentar.
Eles vão até o centro de todos onde tinham algum tipo de pilastra, Raven estava colocando combustível nelas. Deve ser o tal do rojão. Eles ficam em pé perto das pilastras enquanto o resto do grupo se preparava para Raven os acender.
— O que isso vai fazer? — Rey pergunta se apoiando ainda mais nele.
— Você vai ver.
— Sabe, eu sou muito curiosa.
— Apenas espere um pouco, não vai se arrepender.
Tudo que sobrou foi esperar, mais uma vez. Mas valeu a pena, assim que Raven os acendeu as pilastras saíram voando pelo céu num tom rosa. Era como quando as naves caindo, mas agora elas estavam indo para o espaço. A cauda rosa brilhava e iluminava o rosto dos dois. Rey não conseguia parar de sorrir, era lindo, uma das coisas mais lindas que já viu. Bellamy a observava sorrindo, como ela estava feliz e rindo.
Nesse momento ela se lembra do dia anterior, se lembra de Charlotte caindo. Como algo tão lindo poderia acontecer logo em seguida de algo tão horrível? Mas, logo em seguida ela percebe, isso era para Rey seguir em frente, um sinal que a terra gira e nossa vida continua.
— Obrigada — Rey diz a Bellamy sorrindo, com uma lágrima se formando e a segurando com todas as suas forças.
— Pelo o que?
— Por ter me trago de volta.
Bellamy parecia não ter entendido, mas sorri e concorda com a cabeça.
— Foi um prazer.
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