Whisky em seus lábios
1 Único
Notas iniciais
O bar Frosted Moon está localizado no centro da cidade, criado para um público que buscava tranquilidade e bebidas longe da bagunça externa. A luz baixa, a madeira escura do piso, seguida do som do jazz que escorria pelo ambiente como algo estimulante quanto confortável. As pessoas falavam baixo nas mesas, riam sem alarde, como se aquele lugar exigisse implicitamente respeito pelas histórias que se acumulavam entre os copos.
Diante do balcão, poucos clientes escolhiam beber só. Mas, uma mulher se destacava, o olhar exótico, de tom perolado, distante o suficiente para esquecer quando pedira o whisky. O copo permanecia quase intocado, o líquido âmbar refletindo a luz morna acima dela. Seus pensamentos iam de tudo para o nada, a sensação estranha do silêncio que ficará depois de quinze anos ao lado de Naruto — no espaço que aprendera a ocupar sozinha havia pouco mais de uma semana.
Sua expressão não se alterou muito ao lembrar do ex, um sorriso vago apenas. O corpo pedia um pouco mais de movimento para evitar a dormência. O vestido cinza que vestia, moldava seu corpo sem pretensão, simples, discreto. O cardigan da mesma cor caía pelos braços, protegendo-a do frio que vinha da chuva do lado de fora. Uma chuva rasa, persistente, que não castigava a cidade, apenas a mantinha úmida, suspensa em uma calmaria melancólica.
Ela respirou fundo e girou levemente o copo entre os dedos.
— Ainda é cedo para voltar — sussurrou, provando a bebida sem pressa.
O gosto amargo desceu, arrastando as sensações infelizes de volta para o fundo e deixando a singela letargia do álcool. Quando colocou de volta o copo no balcão, a porta abriu ao fundo. Alguém chegou interrompendo a leveza do ambiente com o som de passos pesados, denunciando sua pressa — ou desatenção. O homem sentou ao seu lado sem reparar em quem quer que estivesse ali antes. O cheiro de chuva veio com ele, misturado a algo mais metálico, tenso.
Hinata o observou pelo canto do olho sem interesse.
No outro instante um buquê foi colocado sobre o balcão com um cuidado que contrastava com a postura rígida do homem. Flores claras, ainda frescas, presas por um laço simples. Ao lado delas, uma pequena caixa de veludo vermelha — a intenção por trás daqueles dois objetos era bastante reconhecíveis.
A visão daqueles presentes a fez lembrar do tempo em que Naruto lhe trouxe apenas a caixa com a aliança e um sorriso confiante. Uma proposta tão importante feita em uma noite qualquer, um filme qualquer passando na televisão e uma noite sem graça em um apartamento alugado. Mas aos seus olhos, naquele ano, parecia perfeito, até autêntico, único — um momento que representava Naruto sem precisar de detalhes.
E mesmo naquela situação precária, aceitou sem pensar. A sinceridade dos sentimentos valiam mais, assim acreditava, até não existir mais… “Outro coração partido”, pensou ela, sorrindo curto.
— Whisky duplo — ele disse ao barman, a voz rouca, cansada.
O barman foi rápido em atender, entregando a bebida e partindo para outro cliente. O homem bebeu como quem precisava apagar algo urgente, o líquido âmbar descendo sem pudor pela garganta, o pomo de Adão subindo e descendo com crueza. Hinata não desviou o olhar dessa vez, reconhecendo nele aquele tipo de silêncio que só quem amou demais conhece — o mesmo que carregava dentro de si.
Ela mexeu o corpo, ajustando a posição outra vez. Os cabelos escuros deslizavam sobre o ombro até cair como uma cascata, o olhar levemente distraído.
— Dias longos costumam terminar assim — comentou, com suavidade.
Ele demorou alguns segundos para reagir. Então virou o rosto, finalmente percebendo que não estava sozinho. Os olhos negros a analisaram com apatia, pouco interessado, mas também uma parte dele estava agitada demais para ignorar.
— É… — respondeu, simples. — Parece que sim.
Hinata acenou levemente com a cabeça, o silêncio voltando a se instalar. Naquele breve instante, seus olhares se cruzavam entre uma melodia e outra. A tensão dele diminuiu à medida que esvaziava o segundo copo, desta vez com um pouco mais de atenção ao redor e a pessoa ao lado. Os raros goles que ela dava, o movimento leve nos lábios pintados e as íris peroladas que pareciam olhar para lugar nenhum. Parecia tolo ou talvez estranho, mas seus pensamentos tempestuosos logo se atraíram pela curiosidade do por que o copo dela continuava cheio.
— Você vai beber isso tudo sozinha? — perguntou ele, depois de um tempo.
— Talvez — sussurrou ela, o olhar caindo preguiçoso. — Ou talvez eu só goste da ideia de estar em um bar.
Ele soltou um riso baixo, descrente. — A ideia costuma ser melhor mesmo — respondeu, dando um gole pesado. — Uchiha Sasuke.
— Hyuuga Hinata — respondeu, apoiando o rosto nos dedos.
Sasuke observou como ela se mexia, parecia destoar do lugar em que estavam ao mesmo tempo em que fazia dela uma miragem atraente.
— Srta. Hyuuga — disse, testando o nome como se fosse uma bebida rara. — Sozinha? — perguntou, fingindo procurar alguém em volta dela.
— Talvez. — Hinata soltou um riso de canto, colocando uma mecha atrás da orelha. — Por que? Preocupado, Sr. Uchiha?
A risada rasa dela lhe trouxe uma clareza doce, ressoando em sua mente como um canto e afastando a sensação incômoda do término. No entanto, ele desviou o olhar no segundo seguinte, o choque da própria reação.
— Não — respondeu ríspido. — Mas seu marido não deveria deixá-la sozinha em um bar com tantos homens promíscuos por perto.
Um espasmo rápido na sobrancelha com a menção, Hinata virou o rosto e pegou o copo, bebendo um pouco mais do álcool. O movimento tranquilo escondia sua real turbulência com a dita conclusão de que havia um marido e que ele deveria estar preocupado com sua segurança.
“No passado, ele não me permitiria vir em lugares assim”, ela pensou, amarga.
— O senhor se enganou — disse por fim, a expressão levemente apática.
— Me enganei? — O olhar de Sasuke desceu até a mão esquerda dela e depois a direita, percebendo que não existia aliança nas mãos pálidas. — Me desculpe — tossiu, sem graça.
— Tudo bem, não é o primeiro. — Hinata esticou a mão sobre o balcão, sem pressa, mas levemente irritada.
Sasuke não era leigo, percebendo rapidamente que havia tocado em um assunto que não deveria, ainda assim, a mínima chance de ter alguém para entender sua situação o fez querer continuar. Assim, a bebida logo foi deixada de lado e seu olhar voltou para o rosto inexpressivo da Hyuuga.
— Faz muito tempo? — perguntou ele.
Hinata o encarou, antes de suspirar e sorrir pequeno. — Curioso?
Ele revirou os olhos levemente, devolvendo o sorriso. — Entre as pessoas desse bar, você parece ser a única que vale a pena conversar esta noite.
— Deveria me sentir lisonjeada? — Ela esboçou uma risada baixa, escondendo os lábios por trás dos dedos.
O som quase o desestabilizou de novo, mas ele se conteve, rodando o whisky no copo. — Talvez — respondeu vago, com um brilho leve de provocação. — E então?
— Não muito — disse falsamente neutra, mas seu olhar era profundo. — O suficiente para estar aqui. — Apontou, erguendo o copo.
Sasuke acenou, entendendo as letras miúdas. — Muitos anos juntos? Ou um romance de verão?
Hinata arqueou a sobrancelha, não segurando o riso desacreditado. — Sr. Uchiha é muito curioso — provocou, ficando ereta no banco alto. — Mas não se cale quando eu devolver as perguntas depois, ok? — Com uma piscadela, amarrou as mechas azuladas em um coque frouxo. — Estávamos juntos há quinze anos, um romance de infância que seguiu até adolescência e terminou com dois adultos se estranhando na própria casa.
Entre eles, instalou-se um silêncio breve mais espesso. As vozes ao fundo ressoavam mais alto, ainda que levemente abafadas pela troca de olhares ininterruptos entre eles. Sasuke se mexeu desconfortavelmente no banco, os orbes negros se desviando com um toque de incredulidade. “Quinze anos juntos?! Quinze anos… Era quase uma vida inteira…”
Sua reação, porém, não passou despercebida.
— Que motivo você acha que foi o motivo do fim? — ela perguntou suave.
— É muito tempo para deduzir motivos… comuns — respondeu, pegando o copo e bebendo, sem entender o motivo da raiva repentina que se instalava em seu íntimo.
Hinata não respondeu de imediato.
O canto dos lábios se curvou em um sorriso breve, quase distraído, sem humor suficiente para ser riso — mas também longe de tristeza. Levou o copo aos lábios, provando um gole pequeno do whisky antes de apoiá-lo novamente sobre o balcão. O olhar permaneceu nele; paciente.
Como se dissesse que estava ouvindo.
Sasuke franziu o cenho, o silêncio dela pesando mais do que qualquer pergunta. Fitou o próprio copo por alguns segundos, girando o líquido âmbar devagar, observando-o bater nas laterais de vidro.
— Acho que… quando as coisas acabam, quase nunca é por um único motivo — murmurou, a voz baixa, menos segura do que pretendia. — Às vezes, você só percebe que está tentando sustentar algo sozinho.
Bebeu um gole mais longo, sentindo o álcool descer quente demais. Não ajudava, mas também não piorava.
— Descobri isso hoje.
As palavras escaparam antes que ele pudesse repensá-las. Quando se deu conta, ergueu o olhar para Hinata, como se apenas naquele instante percebesse o que havia acabado de admitir.
Ela inclinou levemente a cabeça, depois ri baixinho. — Ah… — exclamou, cutucando com a ponta do dedo o ombro dele. — Você me respondeu antes que eu pudesse perguntar diretamente — brincou.
Sasuke soltou um riso curto, descrente, mais próximo de um sopro. — Desculpe, tirei sua oportunidade de bisbilhotar.
— Não é um problema, agora posso perguntar se este buquê era pra ela? — Apontou, a voz deixando um tom doce escapar no meio de sua provocação.
O olhar dele se voltou para os presentes esquecidos, uma sensação amarga subiu por sua garganta. Lentamente, tocou as pétalas de uma flor rosa, mas a mesma caiu após dois toques, fazendo-o sorrir com tristeza.
— Era.
— Ela não aceitou? — Hinata fez um sinal leve para o barman. — Poderia servir outro.
O barman foi rápido em trocar os copos, deixando entre eles um pequeno prato de amêndoas tostadas. Hinata pegou uma e mastigou com tranquilidade, esperando pela resposta do moreno.
— Não tive tempo para entregar — disse, com um tom neutro. — As circunstâncias não eram favoráveis.
— Você quer? — Ela ergueu uma amêndoa.
— Tentando me consolar, Srta. Hyuuga? — Sasuke não entendia para onde iriam com aquele assunto, não conseguia deixar de sentir certa graça na situação ou das provocações feitas com tanta sutileza.
Hinata deixou escapar um riso. — Consolar é uma palavra muito boba — disse, mordendo a amêndoa oferecida. — Mas… — Ela fez uma pausa, olhando da caixinha de veludo para as flores e por fim o moreno ao seu lado. — Você está menos na defensiva agora — sussurrou, preferindo esconder que não queria vê-lo sombrio e calado.
Sasuke piscou e depois pegou outra amêndoa, desviando o olhar enquanto suas bochechas ficaram levemente vermelhas. — Você é agradável para uma estranha — murmurou.
Foi a vez dela baixar o olhar por um instante, pegando o copo e dando um gole mais cheio. O elogio delicado fez seu coração acelerar timidamente. “Acho que o álcool já está começando a fazer efeito”, pensou ela.
— Acho que só não era pra ser — disse ele, por fim, mastigando outra amêndoa. — Ela não procurava mais por mim, mesmo quando era eu que corria atrás dela. Presentes esquecidos em um quartinho da casa, mensagens diárias e não respondidas, ligações ignoradas e quando estávamos na cama… eram só as costas dela que eu via. — Seu olhar divagou até o copo, o gelo girou e ele bebeu. — Foram seis anos juntos, mas isso começou há dois anos.
Ela não olhou para Sasuke, deixando o silêncio fazer o resto.
Sasuke percebeu a escolha dela no mesmo instante, apesar da sensação amarga de mencionar o fim recente, o espaço que ela lhe dava o desarmou mais do que qualquer pergunta direta teria feito. Devagar, deixou seu olhar alcançar o dela de novo, os dedos inquietos no balcão antes que seu dedo mindinho deslizasse e puxasse o de Hinata.
— Acho que continuei insistindo porque era mais fácil do que admitir que já tinha acabado — confessou, a voz mais baixa, esperando que Hinata afastasse seu toque.
Curiosamente, ela manteve o toque, um sorriso pequeno se desenhando em seu rosto angelical ao brincar com Sasuke.
— E então? — sussurrou ela.
— A proposta surgiu como uma medida desesperada — admitiu Sasuke com vergonha. — Só que outra pessoa já existia para ela.
— Hm — Hinata resmungou baixo, pensativa. — Então você gastou dinheiro com uma aliança e flores por conta do desespero?
Sasuke deu uma risada curta, encarando outra vez as flores meio murchas e o anel escondido na caixa. — Você pensa que é um desperdício de dinheiro?
— Penso que foi um desperdício de momento. — Beliscou a lateral do dedo dele. — Casamento não é um tapa buraco, Sr. Uchiha. — Seu tom parecia repreendê-lo com um toque agridoce de compreensão.
O Uchiha não conseguiu evitar a gargalhada com a fisgada de dor. — Não me castigue, Srta. Hyuuga, foi um plano mal pensado, admito — disse, se rendendo ao olhar perolado.
Hinata acompanhou Sasuke na gargalhada, seu corpo estremecendo naturalmente pelo tom da risada. Ambos não perceberam, mas suas expressões não carregavam mais a melancolia do início, apenas o toque discreto e mútuo de que, ao menos naquela noite, não estavam sozinhos.
Sasuke então ergueu o copo em direção a ela. — Um brinde a nós, Hinata? — indagou, com uma piscadela e um sorriso provocador.
— Por que não né? — Ela devolveu a piscada. — Um brinde a nós, Sasuke.
O som dos copos ao se tocarem percorreu o ambiente, singelo, suave. Ninguém percebeu, ninguém perguntou. Todos acomodados em suas próprias bolhas de alegrias e tristezas. E dali em diante, a conversa entre eles avançou sem pressas — trocas de provocações, comentários banais, pequenos toques de advertência que aos poucos arrancavam risos mais leves. Quando deram por si, o bar estava mais vazio. O jazz estava mais baixo e a chuva lá fora persistia mais rasa.
— Está tarde — ele comentou, olhando o relógio. — Quer uma carona? — perguntou sem pensar muito.
Hinata arqueou uma sobrancelha, divertida. — Isso é uma tentativa de sequestro, Sr. Uchiha?
Ele revirou os olhos. — Se fosse, eu teria planejado melhor. — Com um sinal chamou o barman.
— Tudo certo, senhor? — pergunta o barman.
— Tudo. — Sasuke tirou o cartão, pronto para pagar.
Ao mesmo tempo em que ele respondia, Hinata já abria a bolsa para pegar a carteira, parando apenas para encará-lo um pouco surpresa, até meio tímida.
— N-Não precisa — gaguejou, tocando na mão dele, impedindo-o.
Sasuke devolveu o olhar, sorrindo de canto antes de dar um leve tapinha por cima da mão dela. — Não é um problema, relaxe.
— Mas, Sasuke…
Ela quis insistir, mas foi calada pela intensidade em que era encarada. No fim, Hinata acabou aceitando, as bochechas coradas e um meio sorriso bobo surgindo enquanto ele pagava a conta com a sensação doce de felicidade. Quando eles se levantaram do banco, Hinata ajeitou o cardigan sobre os ombros, os cabelos se soltando do coque e caindo calmamente sobre o tecido. Alheia, jogou as mechas para trás, ao lado Sasuke observava imerso na beleza terna da morena.
— Seu cabelo é muito bonito — sussurrou ele.
Hinata parou antes de dar o primeiro passo, o corpo estremecendo sutilmente com o elogio. — É… Obrigada.
Sasuke ao perceber que pensou alto, pigarreou, levemente sem jeito. — A cor dele combina com você.
Ela riu baixo, sentindo o calor subir às bochechas. — Cuidado… — disse, passando os dedos pelos fios soltos, como se só então se desse conta deles. — Se continuar assim, eu vou começar a acreditar. — Com uma piscadela, apontou com o queixo para a saída. — A carona ainda está de pé, Sr. Uchiha?
Sasuke soltou um riso breve, balançando a cabeça. — Já passei vergonha demais por hoje — brincou, acompanhando a leveza da Hyuuga. — Cancelar agora seria covardia. — Abrindo passagem para ela, disse — Depois de você, Srta. Hyuuga.
Os dois se olharam com expressões divertidas antes de saírem lado a lado do bar. O guarda-chuva dela os protegeu da garoa, no curto caminho até o estacionamento, Sasuke foi cuidadoso em manter sua mão atrás dela sem encostar, mas pronto para protegê-la de escorregar. Na outra, levava de volta os presentes comprados, não disposto a jogar fora ainda.
Hinata, por outro lado, se sentia curiosamente feliz pela companhia do moreno. Cada troca entre eles parecia colorir um pouco mais sua mente, afastando as nuvens pesadas de seu coração. E naquele curto caminho, a diversão breve de sentir as gotas finas e caminharem próximos levou boa parte da sonolência que o álcool deixava em si.
Ao entrarem no carro, Sasuke deixou a sombrinha deitada no chão atrás e jogou os presentes no canto do banco. A conversa no momento era dispensável enquanto saiam em direção à estrada, até Hinata lhe passar a localização para o condomínio que morava, que por coincidência era próximo de seu trabalho.
— Como será que nunca te vi? — perguntou ele, incrédulo.
— Um capricho do destino — respondeu Hinata, dando uma olhada rapidamente nele antes de esconder seu riso malicioso.
— Claro, claro — debochou revirando os olhos.
Ela cobriu a boca, rindo, enquanto Sasuke fingia se conter — falhando segundos depois. O trajeto seguiu tranquilo, acompanhado pelo som da chuva no pára-brisa e conversas soltas, nada profundo. Depois de meia-hora, o carro parou diante dos portões do condomínio de Hinata, as luzes dos postes refletindo na chuva.
Por um breve segundo, Hinata encarou a entrada com uma sensação diferente e tão delicadamente tirou o cinto, dando um sorriso singelo ao moreno.
— Obrigada — disse ela. — Pela conversa… e pela companhia.
Sasuke entregou o guarda-chuva com uma suave relutância. — Eu que agradeço, Hinata — respondeu, sincero.
Ela acenou, abrindo a porta. A brisa fria passou por eles. Um cheiro fraco, meio amadeirado, misturou-se ao cheiro do veículo recém aberto rodeando ambos antes que a porta fosse fechada e Hinata seguisse em direção ao porteiro para identificação. Dentro do carro, o moreno observou ela andando devagar, não o corpo delicado coberto pelo cardigan cinza, mas como a Hyuuga parecia muito menor naquela distância e como parecia errado deixá-la ir sem a possibilidade de um outro encontro — um verdadeiro encontro.
— Não estou sendo injusto com ela — sussurrou, pegando o buquê e tirando todas as flores rosadas, deixando-a em cima do banco. — Mas essas… não são para Hinata.
O buquê perdeu um pouco o formato organizado, mas agora tinha a mesma perspectiva que Sasuke — um recomeço. Não teve tempo de admirar seu trabalho, pois quando ergueu o olhar para saber se ela ainda estava lá, percebeu que o portão estava prestes a ser aberto.
— Droga — resmungou, abrindo a porta. — Espera! — gritou.
Hinata se virou para trás, o vento levantando discretamente a barra do vestido. — Eu esqueci algo? — Ela se perguntou.
Ignorando as gotas frias, ele caminhou até ela com as flores em mãos, o coração agitado retumbando em seu peito assim que parou diante dela.
— Acho que… — pigarreou, estendendo o presente visivelmente constrangido. — Elas ficariam melhor com você.
Hinata arregalou levemente os olhos, como se sua respiração tivesse sido puxada e nenhum ar sobrasse até forçar uma inspiração para conseguir falar.
— Eu… — gaguejou, um misto de surpresa e vontade de chorar. — Você quer me dar o buquê dela?
Sasuke acenou sem graça, mas determinado. — Era dela — sussurrou, tocando as flores brancas e vermelhas. — Mas só quando estava completo. — O par negro se fixou nas perolas úmidas. — Aqui só tem flores para uma amiga.
A resposta parecia clichê, uma desculpa mal pensada. Ainda assim, Hinata só conseguiu rir levemente, uma lágrima tímida deslizando pelo canto do olho antes de aceitar as flores bagunçadas. Aproximando-as do rosto, sentindo o perfume suave com uma expressão meiga.
Sasuke observou aquela cena como se algo dentro dele tivesse mudado — não consertado, mas mais leve por ter encontrado alguém inesperado.
— Se… — Ele tirou um cartão do bolso, estendendo para ela. — Se quiser conversar outra vez, você pode me ligar — disse, as bochechas ardendo com a timidez. — Só conversar.
Hinata observou o Uchiha quase rindo, mas assentiu, pegando o cartão com um brilho doce em seus olhos.
— Uma próxima vez — prometeu.
Ele sorriu de canto, mesmo constrangido pelas próprias reações. — Ok… Boa noite, Hinata — se despediu com um último olhar, a expectativa quase nitida no par negro antes de ir embora.
Com um lento aceno de mão, a morena observou o carro ir embora para então entrar e caminhar em direção ao próprio bloco, que não ficava longe. Uma caminhada em que aproveitou o clima tênue, o cheiro de flores e chuva e então ler os números de contato do Uchiha, reconhecendo no canto o símbolo da empresa de joias Mangekyou.
— Ah! — exclamou, um pensamento rápido passando por sua mente antes de rir baixinho. — No fim, ele é como todo homem comum — murmurou.
O restante do caminho foi silencioso e ao chegar no apartamento, Hinata colocou as flores sobre a mesa e depois pegou um vaso para colocá-las com água, parando para observá-las por mais um longo momento. Naquele segundo, pensamentos retornaram com uma sensação de causalidade. Pensou em quantas vezes desejou receber aquele gesto. Pensou em todas as vezes que observou pessoas próximas receberem, mas nunca ela.
Naruto nunca tirou um instante para só surpreendê-la, sempre que passava em frente à floriculturas ou feiras, era sempre: “Podemos plantar várias, você não precisa de uma flor que vai murchar.” Ele só não entendia a intenção de dar, era justamente dizer a parceira que tinha pensando nela.
No fim, ela nunca as pediu.
Mas sempre as desejou.
E, naquela noite, um estranho chamado Sasuke lhe entregara um buquê limpo de mágoas — algo que nem o tempo, nem o fim, haviam conseguido apagar.
— Vou cuidar bem delas, por você, Sasuke — sussurrou, sorrindo.
Fim…
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