Where do we go now?

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Caso você esteja acostumado com as minhas outras histórias de Death Note, saiba que essa é bem diferente. Ela não é cheia de reviravoltas e tragédias, na verdade é até tranquila. Eu a escrevi porque estava com falta de serviço. Não espere algo que vá mudar a sua vida e os seus conceitos sobre a humanidade (mas se você quiser alguma história de Death Note com essa premissa, é só visitar o meu perfil que lá tem isso de sobra). Mas "Where do we go now?" eu escrevi mais pra relaxar. Eu sempre tive uma quedinha pelo L, então por que não escrever uma história romântica sobre ele? Acho que não faz mal. As fanfics foram criadas justamente para libertar as bobagens que a gente fantasia e sabe que nunca vão acontecer. Não custa sonhar, né? Embora eu não seja mais adolescente, eu diria que essa história carrega um certo frescor da adolescência. Escrevi enquanto ouvia "Sweet Child O' Mine", que é uma música muito linda, embora eu ache o Axl Rose meio cuzão. Enfim, espero de coração que você goste da minha história o/ Caso goste, não se esqueça de deixar o seu gostei e se inscrever no canal, quer dizer, não se esqueça de comentar e.e

WHERE DO WE GO NOW?

— Mas já? Aonde vai tão cedo, bonequinha? – indagou ele – Por que não vamos de mãos dadas? Oh, diga-me, bela garota, aonde nós vamos agora?

~*~

L Lawliet era um garoto peculiar. Sua pele era pálida como cera e sua magreza excessiva não condizia com seu apetite voraz por doces. Seus cabelos eram tão negros e foscos quanto seus olhos grandes e dissimulados. Tinha as costas levemente curvadas e era o terror dos ortopedistas, pois ousava se sentar sempre na posição de um sapo – e assim ficava por horas. Apesar de seus maus hábitos, nunca se queixava de dores nas costas.

Não era vaidoso. Seu rosto triangular carregava sempre consigo um semblante apático e cansado. Logo abaixo de seus olhos, grossas olheiras – que ele não fazia a mínima questão de esconder. Seu guarda-roupa aparentemente só tinha duas peças de roupa: uma blusa tão branca quanto a pele dele e seus velhos jeans azuis. Para completar, estava quase sempre descalço. Nunca usava meias. Era quase um maltrapilho.

— E aí, weirdo? Por que você não senta direito? Alguém comeu seu cu ontem e agora você não consegue mais encostar a bunda na cadeira? – caçoou o bully da classe, jogando uma bolinha de papel nas costas de L.

L não parecia muito interessado nas provocações do outro rapaz, talvez porque fosse inteligente demais para se importar. Ele sempre tirava as melhores notas, era o primeiro da classe. A diretora até cogitava passá-lo logo para a série seguinte, pois o seu QI era muito superior ao de seus colegas.

Talvez os bullies tentassem colocar L pra baixo porque no fundo queriam ter tanta facilidade na escola quanto ele.

Quanto a mim, Lucille Brown, mera narradora – não tão protagonista quanto gostaria – estudava na mesma classe que L. Eu era a terceira melhor da classe, ficando apenas atrás dele e de mais um garoto. Competitiva como eu era, tentava ultrapassá-los de todos os modos. Contudo, o máximo que eu conseguia era empatar com o segundo colocado, pois L nunca falhava; era quase um banco de dados para guardar a matéria. De qualquer forma, eu não o encarava como um inimigo. Nós não nos falávamos muito, mas eu não tinha nada contra ele. Apenas queria ser tão brilhante quanto ele, não lhe desejava nenhum mal. Era um rapaz fechado, entretanto não me parecia alguém que merecesse o meu ódio. Talvez ele até merecesse um pouco mais de amor.

O tal outro garoto que também estava à minha frente era Light Yagami. Ele, sim, mantinha um ódio por L Lawliet. Os dois até que jogavam de igual pra igual, com Light ficando apenas alguns décimos atrás de L, muitas vezes empatado. Porém, aquilo nunca era o suficiente para o garoto Yagami. Seu sonho era superar seu nêmeses pelo menos uma vez, a fim de derrubá-lo de seu posto e ocupá-lo para receber toda a glória da escola. Light era muito ambicioso e determinado, maldoso também. Eu não duvidava que um dia ele viesse a superar L. Não por mérito, mas por trapaça.

Yagami, ao contrário de seu rival displicente, era muito vaidoso e alinhado. Sempre vinha para a escola de terno e sapatos sociais, tão formal quanto um advogado. Enquanto L mal penteava ou lavava seus cabelos, Light podia muito bem protagonizar um comercial de xampu com seus fios lisos, castanhos e irritantemente alinhados. Seu porte era atlético e sua postura estava sempre ereta, dando-lhe um semblante sério e autoritário. Não sofria na mão dos bullies, era até popular entre eles. Light era unânime; bem-vindo em todos os grupinhos. Ele tinha muitos amigos e nunca ficava sem namorada. Sua lábia era afiada como uma espada. Por isso, só havia duas pessoas na escola inteira que não gostavam dele: L e eu.

L, na verdade, era indiferente a ele. Não o idolatrava, nem ao menos lhe dava conversa, mas também não o maldizia; apenas ignorava a sua presença, mantendo-se apático diante de seu “brilho irresistível”. Aquilo deixava Light furioso, pois nada enfurecia mais um competidor de ego inflado do que ser ignorado pelo seu maior rival.

Eu, por minha vez, detestava Light por causa de sua arrogância. Ele acreditava que o mundo existia apenas para servi-lo e aquilo me soava muito rude. O rapaz nunca havia passado necessidade na vida. Tinha pais casados que o amavam e o respeitavam. Tinha também uma linda irmã mais nova, uma casa grande, boa comida, boa condição financeira, boas roupas, bons amigos, boas garotas e um bom intelecto. Ele era basicamente o garoto mais sortudo do mundo. No entanto, todos aqueles atributos conferiam a ele uma soberba desmedida. Light imaginava ser imbatível – e buscava passar por cima de todos para provar isso. Felizmente L estava lá para mostrar que, em matéria de ser imbatível, o weirdo superava o Sr. Certinho em múltiplos sentidos.

Certo dia, Light e L brigaram na saída da escola. De certo modo, foi por minha culpa. Tudo começou quando Light puxou conversa comigo na saída. Ele me perguntou se eu não queria ir ao cinema com ele ver um filme de herói qualquer. Eu prontamente recusei, pois sabia o que ele estava tramando. Light vivia chamando garotas para sair – e sempre tinha segundas intenções por trás disso. Como eu não estava a fim de ser mais um troféu na estante do garoto, menti que passaria o dia estudando.

— Estudando? Você não precisa. Sempre foi tão inteligente. Por que não se distrair um pouco? Você é a única garota da sala que nunca fala comigo. Talvez essa seja uma boa oportunidade para nos aproximarmos. Vamos, eu insisto.

— Não, obrigada – e saí andando.

— Ei! – ele pôs a mão no meu ombro.

— Não encosta em mim!

L passou perto e deu um tapa na mão de Light. Como se não bastasse, ainda disse:

— Você ouviu a garota! Ela não quer nada com você!

— Ei, L! – Light logo ficou em estado de alerta quando viu seu arqui-inimigo – Não se meta em meus negócios, weirdo! Vá cuidar dos seus doces!

— Seus negócios se tornam meus negócios quando você interfere no direito de alguém. – retrucou ele, com sua voz calma e pesada – A moça disse “não”. É uma resposta simples. Não finja que não entendeu.

— Qual não entendi, Lawliet? Nunca uma moça disse “não” para mim! Como ousa...

— Oh, finalmente uma moça com bom gosto! – L Lawliet sorriu como um bebê – Ela é a garota mais inteligente da classe e não quer nada com você. Deve haver alguma relação entre esses dois fatos...

Light, então, deu um soco certeiro no rosto de L, jogando-o no chão.

Meu Deus...

Eu imaginava que L nunca fosse revidar. Eu sinceramente pensava que ele fosse o tipo de garoto sedentário que ficava o dia todo no videogame e não sabia nenhum golpe. Light, por outro lado, tinha mais músculos e nunca deixava por menos numa luta. Porém, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa para apartar a briga e possivelmente livrar L de uma bela surra, o próprio se defendeu majestosamente.

— Belo golpe o seu, Light! Julgo que você sempre quis fazer isso comigo. E fez bem. – ele limpou o sangue da boca e desferiu um chute inesperado no rosto de seu oponente – Mas eu faço melhor.

L...

Você é versado em artes marciais?

Quando me dei conta, havia uma roda enorme de alunos nos assistindo. Um grupo de professores entrou no meio para separar a briga. Julius, o professor de Química, segurou L, e Wentzel, o professor de Sociologia, segurou Light.

— Vão embora, seus curiosos sem serviço! – exclamou Julius, espantando a multidão.

— Isso é uma lástima para os meus três alunos mais brilhantes – disse Wentzel, voltando-se para nós – Queiram nos acompanhar até a diretoria.

— Mas eu não fiz nada! – defendi-me.

— Srta. Brown, por favor, não teste a minha paciência – pediu ele, arrastando-me junto com L e Light.

Quando chegamos à diretoria “escoltados” por Julius e Wentzel, o diretor Albert Carroll mal pôde acreditar em seus olhos: L, Light e Lucille, alunos com o histórico escolar ilibado, metidos em uma briga de rua.

— Acho terrível a ideia de ter que manchar históricos tão brilhantes com uma suspensão para cada um de vocês. – começou o diretor – Espero que isso não se repita. Que seus intelectos não sirvam apenas para tirar boas notas, mas também para tomar decisões mais sábias. Afinal, nunca é sábio partir para a agressão física. Hum... Hum... Posso ao menos saber o que desencadeou essa briga?

— Senhor diretor... – tentei me explicar.

— É muito simples, Sr. Carroll... Permita-me elucidar todas as suas questões. – Light me interrompeu.

— Deixa. A garota. Falar. – disse L, entredentes.

— Basicamente, Light queria sair comigo – retomei – Eu não quis, mas ele insistiu. L apareceu e disse a Light que ele deveria me deixar em paz. Então, eles começaram uma troca de farpas que culminou numa briga física.

— Eu só gostaria de acrescentar que Light me bateu primeiro, eu apenas me defendi – disse L, provocativo.

— Ora, seu... – Light parecia estar perdendo as estribeiras de novo.

— Calem-se, eu já ouvi o suficiente! – bradou Albert – Suspensão de três dias para o Light, por ter começado. Suspensão de dois para o L, por ter revidado. E por ter sido o estopim da briga, um dia de suspensão para você, Lucille.

— Mas, mas, mas... – protestamos em uníssono.

— Sem mas!

~*~

Saímos da escola igualmente furiosos. Light foi na direção contrária à nossa, embora a casa dele ficasse na mesma direção que a minha e a de L. Talvez o rapaz Yagami estivesse se sentindo humilhado demais para voltar junto conosco. Já L e eu fomos juntos para nossas casas. Acabamos conversando. Aquela seria, até então, a minha conversa mais longa com o misterioso weirdo L Lawliet, que nunca falava com ninguém.

— Muito injusta a punição que eu recebi. – praguejei com L quando saímos da escola – Eu não fiz nada! E eu lá tenho culpa se o Light não respeita as mulheres?

— É verdade. O diretor não parecia muito a fim de conversa, apenas distribuiu suspensões e nos deixou a ver navios. – ele deu de ombros – Tudo bem, profissionais negligentes não são novidade. Mas eu não me importo. Faltar dois dias? Grande coisa. Eu recupero depois. Sou um autodidata, nem ao menos sei o que estou fazendo na escola. Só aprendo coisas que eu já sei.

— Mas o diretor deu um papel para os nossos pais assinarem! Você não tem medo de levar uma bronca do seu pai? – perguntei.

— Haha, pai... – ele esboçou um riso fraco – Eu não tenho pai...

— Seu pai foi comprar cigarros? – eu ri, tentando descontrair um pouco.

— Antes fosse. Eu não tenho pai, também não tenho mãe. Porque eles estão mortos. – disse, de cabeça baixa – Eu fui criado na Wammy’s House, um orfanato para crianças excepcionalmente inteligentes. O dono da Wammy’s, Watari, por algum motivo gostou de mim e me adotou. Ele é o meu responsável legal agora. E eu não acho que ele ficaria bravo por ter que assinar uma advertência pra mim. Ele é bem condescendente. No máximo ele diria: “Não faça mais isso, L”. E pronto.

— Hum... Desculpa te fazer lembrar das agruras do seu passado... Eu nem imaginava... – limpei a garganta, constrangida. – Mudando de assunto, obrigada por me defender do Light hoje. Não precisava. Eu podia ter me virado sozinha.

— Eu sei que sim. Você é uma garota forte. Mas eu odeio injustiças. Não pude evitar. Desculpa.

— Não precisa pedir desculpa. Você foi muito gentil e a sua intenção foi de uma nobreza que ninguém mais teria. Eu só não queria que você tivesse se arriscado por mim. Light é perigoso. Ele é um bom moço até as coisas não saírem como ele quer. Aquele garoto podia ter te machucado pra valer.

— Duvido muito. – apostou ele – Sou faixa preta em diversas modalidades de luta. Light Yagami é apenas um galinho de briga. Seus socos são fortes, mas ele não possui a mínima técnica.

— Admiro a sua autoconfiança. – sorri.

— Eu sei. Quando você me vê todo despenteado e encurvado, vestindo sempre a mesma roupa, aparentemente entediado, mal imagina que minha autoestima é alta. Eu gosto de mim mesmo, nunca tive sentimentos de depressão. Eu só não me visto bem porque acho isso totalmente irrelevante. Prefiro nutrir o meu cérebro a adornar o meu corpo com penduricalhos inúteis.

— Concordo com você. Eu também não sou lá muito vaidosa. Estou sempre com uma camiseta de banda, uma blusa com capuz, meus jeans e meus tênis.

— Sim, eu notei. De todas as garotas da classe, você é a única que eu nunca vi usando brincos.

— Você repara nisso?

— Sou obcecado por detalhes. Eu sempre reparo em tudo. Às vezes eu me perco observando durante horas um aspecto insignificante de uma pintura, em vez de me atentar ao quadro inteiro. É por isso que eu vou muito bem nas provas. Não deixo passar nenhuma migalha da matéria, nenhuma notinha de rodapé. Tenho mente de investigador. Aliás, penso em ser um, um dia.

— Você seria um excelente investigador.

— Obrigado.

Nós nos despedimos educadamente e nos dividimos. Depois, seguimos cada um para as nossas respectivas casas.

~*~

Como eu fui suspensa, minha mãe me deixou sem celular e sem internet. Sem nada para fazer dentro de casa, resolvi sair um pouco para espairecer. Levei comigo um livro qualquer e me sentei num banco de praça para me distrair da raiva que estava sentindo por ter sido injustamente suspensa.

Light Yagami... Isso é tudo culpa sua...

Mas não adiantava chorar o leite derramado. Decidi, então, abrir o meu exemplar surrado da tragédia Édipo Rei e lê-lo pela quinquagésima vez.

— Você tem bom gosto. – ouvi uma voz conhecida me elogiar.

— L? – ergui os olhos – O que está fazendo aqui?

— O quê? Gênios também saem de casa... – ele riu – Essa é a praça mais bonita da cidade e até um weirdo como eu gosta de entrar em contato com a natureza de vez em quando. Passo o dia todo programando em java e estudando alemão. Sim, eu sou um nerd de merda. Mas às vezes é prazeroso ouvir sons de fora das caixinhas do meu computador. O canto dos pássaros é bonito, não? São mestres da música sem sequer terem estudado teoria musical. Prodígios! – ele olhou para o nada por alguns instantes e respirou profundamente – Posso me sentar ao seu lado? Ou você tem vergonha de ter um garoto-sapo sentado perto de você?

— Claro que não. Eu também gosto do canto dos pássaros. A propósito, não te acho tão estranho assim.

— Sério? – ele sorriu, sentando-se ao meu lado – Eu tenho muitas idiossincrasias que assustam as pessoas.

— Como segurar objetos apenas com a pontinha dos dedos polegar e indicador? Mal sei como consegue pegar num lápis e escrever algo legível pegando-o apenas pela ponta da borrachinha.

— Muito treino. Você também conseguiria se tentasse.

— Mas não é mais fácil segurar do jeito certo?

— Não existe jeito certo. Alguns seguram com todos os dedos, outros apenas com três. Uns seguram mais perto da ponta, outros mais perto da borrachinha. Um lápis não vem com manual de instruções, então eu o seguro do jeito que eu quiser.

— Eu sei que não vem com manual de instruções, mas a gente costuma imitar o jeito que as outras pessoas seguram. Com quem você aprendeu a segurar o lápis desse jeito?

— Com quem? – ele riu – Eu aprendi sozinho. Sei ler, escrever e fazer contas desde os dois anos de idade.

— Uau, isso é possível? – perguntei, desconfiada.

— Sim. Mas se serve de consolo, eu mijei na cama até os treze anos de idade.

— Haha, nem tudo pode ser perfeito! – fechei meu livro e pensei por alguns instantes – Por que resolveu se enturmar comigo depois do incidente da briga? Você nunca falou comigo. Aliás, você nunca falou com ninguém.

— Você vai me achar um idiota egocêntrico se eu te contar o motivo. – ele suspirou – A verdade é que até ontem eu me achava bom demais para os outros. Na minha visão, o resto da sala era um bando de adolescentes sem cérebro, enquanto eu era o único inteligente. Conveniente, não? Talvez eu tivesse apenas um ressentimento por ninguém nunca me convidar para as suas festas. Porém, quando eu tive a oportunidade de falar com você pela primeira vez, descobri que você não é nenhuma sem cérebro. Eu que fui sem cérebro por me achar superior a você. Argh, estou me sentindo um Light Yagami agora!

— Eu não sou nenhum L Lawliet da vida, mas sem cérebro já é demais! – gargalhei.

— Você... Você não está brava comigo?

— Não. Estou com pena de você por ter perdido seu tempo com ressentimentos inúteis. Tente pisar fora da zona de conforto algum dia. Você pode muito bem ser querido na escola se quiser. É um rapaz justo e gentil, com assuntos legais e uma história de vida interessante. Se não tivesse esse bloqueio bobo, com certeza seria mais requisitado pelas pessoas do que aquele babaca Yagami.

— Eu? Mais popular que o Light? Faça-me rir. Ter boa conversa não é o suficiente, ser inteligente não é o suficiente. A única coisa que realmente conta é a beleza. Se Light fosse feio, não exerceria todo esse magnetismo sobre as pessoas. Não que eu o inveje, mas convenhamos que eu não sou tão bonito quanto ele.

— Verdade. Você é mais. – falei sem pensar.

— O que você disse? – a voz dele embargou.

— Foi o que você ouviu... – hesitei, sentindo meu rosto esquentar – Pra mim, você é o rapaz mais bonito da classe. Com todo o respeito, é claro.

— Hum... – L esfregou seu polegar pálido em seus lábios incolores – Retiro o que disse. Você não tem bom gosto. Ou então precisa marcar uma consulta urgente com o seu oftalmologista.

— Ora, não seja modesto... Aposto que deve haver garotas interessadas em você.

— Considerando que eu nunca beijei uma garota, acho que não.

— Não? Nem mesmo um selinho?

— Bom, na Wammy’s House eu fui muito amigo de uma garotinha. O nome dela era C Carter. Nós tínhamos sete anos e brincávamos de empilhar blocos com letras do alfabeto. Um dia ela dispôs os blocos de modo que eles dissessem “I LOVE YOU”. Depois, chamou-me pra ver. Eu dei um beijinho na bochecha dela e pensei que estivéssemos namorando. Até que eu percebi que ela mostrava a mesma mensagem pra todo o mundo.

— Talvez ela amasse todo o mundo, haha. – brinquei.

— Dificilmente. Ela amava receber atenção, por isso queria ser amada por todos sem precisar amar ninguém. Era uma versão mais carente de Light Yagami.

— Não compare uma garotinha de sete anos ao cara mais falso da escola. – pedi – Você leva as coisas muito a ferro e fogo, não acha?

— É. Talvez eu esteja apenas ressentido por ter sido apenas mais um no coração de C Carter. Eu tenho uma obsessão por ser relevante de alguma forma. Talvez o Light Yagami da história seja eu.

— Todos queremos ser relevantes em algum momento. Se não para o mundo, para alguém. Se você quer, eu também quero. A única diferença entre o Light e o resto das pessoas é que ele passa por cima de todos para conseguir isso.

— E você julga que eu não seria capaz de usar métodos nada politicamente corretos para alcançar meus objetivos? Eu não sou nenhum santo, Lucille. Também não estou sempre certo sobre tudo, embora gostaria. – ele tossiu desconfortavelmente – Algo me diz que você me idealizou.

— Talvez porque eu não te conheça o suficiente.

— E nunca conhecerá, pois você só vê o que eu permito que você veja.

— E o que você me permite ver?

— Quase o suficiente. Ainda há duas coisas que você precisa saber.

— Quais?

— Uma: eu percebi já faz um tempo que você não para de me olhar durante as aulas.

— Eu... Bom... – desviei o olhar por alguns instantes – E qual é a outra coisa?

Ele olhou para o meu livro, depois para mim. Segurou minha mão e sussurrou:

— Eu também te olho de vez em quando.

— Por quê?

— Pelo menos motivo que você me olha.

~*~

Depois de uns dias, minha mãe me devolveu o celular. L, Light e eu estávamos de volta à escola. Eu ainda não tinha visto L desde o dia em que ele confessara seu interesse por mim. Não houve nada naquele dia. Nós dois estávamos muito nervosos e demos a conversa por terminada naquela mesma hora. Coisa de nerds. Em vez de nos beijarmos, apenas olhamos constrangidos um para o outro e nos despedimos. Talvez ele tivesse ficado chateado por eu não ter dito nada depois. O silêncio foi devorador.

Lucille, como você é burra... Deveria ter tomado a iniciativa...

Infelizmente L não deu uma palavrinha comigo a aula inteira. Voltei à estaca zero. Era como se eu não existisse de novo pra ele.

Isso não vai ficar assim...

Tentei chamar o nome dele no intervalo. Fiz gestos, cutuquei-o, joguei aviõezinhos de papel nas costas dele. Porém, ele estava me ignorando a tal ponto que eu estava quase pegando um megafone para estourar os tímpanos dele.

— Por que está chamando tanto o senhor-sapinho, Lucille? – Light me provocou – Por acaso está apaixonada por ele? Não acredito que me trocou por essa coisa feia. Ao que parece, ele não está muito interessado em você. Por que não muda de ideia e sai comigo? O convite ainda está de pé.

— Não enche, Light. – limpei a garganta e chamei novamente o garoto-sapo, dessa vez do jeito mais inovador possível: – Ei, L! Könnten Sie mit mir bitte auf Deutsch sprechen? Ich würde es gerne üben!*

— Uau! – deu certo; L logo veio ao meu encontro – Você também fala alemão?

— Não, mas como você disse aquele dia que gostava de estudar alemão, eu comecei a estudar também só para ter assunto com você... – ruborizei – Como você estava me ignorando hoje, falar uma frase em alemão foi a única saída que eu encontrei para te impressionar a ponto de você não conseguir me ignorar.

— Que história é essa? – interpelou Light – Vocês andam de namorico?

— A surra que eu te dei naquele dia aparentemente não foi o suficiente, né? – ameaçou L – Deixa eu conversar com a Lucille em paz.

— Vai se foder, L!

L retribuiu com um xingamento em alemão que eu não entendi. Light também não entendeu. O intervalo terminou com L vencendo a discussão, como sempre.

Após a aula, eu perguntei a L o que ele tinha dito ao Light naquela hora. Ele deu de ombros e me disse:

— Eu disse que ele curtia introduzir pepinos no orifício anal dele.

— L, seu boca suja! – dei um tapinha nas costas dele – Mas me diz aí... Por que me ignorou no intervalo? Por que tive que falar em alemão pra você me notar?

— Eu queria testar se você realmente apreciava a minha companhia a ponto de fazer de tudo para tê-la. E você passou no teste – sorriu sarcasticamente.

— Então foi tudo um jogo, né? A questão é: será que você faria de tudo para ter a minha companhia?

— Não sei, mas você é a única amiga que eu tenho. No momento, é a única de que eu preciso. Se isso significa algo pra você, a resposta é sim.

— Ora... – passei a mão em meus cabelos – É claro que significa...

— Quer ir ao teatro comigo? – perguntou L – Eu sei que o Light te chamou pra ir ao cinema e tal, mas eu não gosto muito dos filmes que passam no cinema. Os filmes que eu gosto só saem em DVD, pois seria suicídio para a produtora gastar dinheiro pra colocar em cartaz um filme que ninguém pagaria pra ver. Gosto daqueles filmes de quatro horas que têm apenas um personagem, muitos diálogos internos e nenhuma ação. Acho que isso reflete bem a minha personalidade um tanto autista.

— Então... Teatro?

— Teatro.

— O que vamos ver?

— Uma encenação de Hamlet. Para você, amante de tragédias, é um prato cheio. Ninguém resiste a uma boa tragédia de Shakespeare.

— Eu aceito!

~*~

Eu mesma havia dito a ele que nunca me vestia bem e que não dava a mínima para a estética. Porém, sabendo que ia encontrá-lo, eu fiz questão de colocar o meu melhor vestido e passar o meu melhor perfume. Eu sabia que ele não se importava com beleza, mas ele também se dizia detalhista. Isso significa que ele com certeza notaria a minha arrumação e ficaria admirado ao ver que eu tinha me aprontado especialmente para ele.

Quando eu o encontrei na porta do teatro, ele estava vestindo a mesma blusa branca e os mesmos jeans azuis. Confesso que fiquei surpresa. Eu esperava que ele fosse se arrumar muito também, mas não foi o que aconteceu.

— Hum... – ele me analisou de cima a baixo – Vestido vermelho, batom tão vermelho quanto, delineador preto, meias arrastão, coturno... Um anel com uma pedra vermelha, unhas também pintadas de vermelho... O que eu posso afirmar sobre essa produção é que você gosta muito de vermelho. E que você não estava sendo exatamente sincera quando me disse que não era vaidosa. Isso tudo é pra mim?

— Pra nós! Gostou? – perguntei.

— Acho que sim. Eu só não me acostumo com você fantasiada de pavão – ele riu – Mas não se preocupe, você está linda. Eu apenas não sei reagir diante disso. Vamos entrar?

— Claro. Eu sou a Sra. Pavão e você é o Sr. Anfíbio, que tal?

— Não poderia ser melhor. – ele me estendeu a mão – Queira me acompanhar, minha doce donzela?

— Não estamos mais em 1800, mas te acompanharei com prazer, milorde. – segurei a mão dele – Nossa, sua mão está gelada...

— É o frio.

— Ela é muito bonita, sabia?

— Minha mão? Por quê?

— São as mãos mais lindas que eu já vi... Tão pálidas e delicadas, sem calos, nem manchas. Dedos longos, finos e bem delineados... Que traços...

— Você tem alguma espécie de fetiche por mãos?

— Não, digo... – gaguejei – Só pelas suas...

— Eu também gosto das suas mãos. É óbvio que eu também já reparei nelas – ele beijou meu anel. – Vamos entrar?

— Quando você quiser.

Entramos, pois, de mãos dadas.

~*~

— Uau, isso foi melhor do que ir ao cinema! – exclamei na saída do espetáculo – Depois dessa, irei com mais frequência ao teatro.

— A única coisa que eu não gostei foi do sujeito atrás de mim pedindo pra eu sentar direito. – lembrou L – No mais, foi uma excelente peça. Acho que é a primeira vez que eu vou ao teatro acompanhado. Agradeço por ter me suportado por esse par de horas, haha. As outras garotas da classe, no seu lugar, teriam dormido no primeiro minuto.

— Você quer dizer...

— Sim, as garotas do Light que só veem filmes mainstream e nunca leram um livro na vida.

— L, você está fazendo isso de novo...

— O quê?

— Está dando uma de superior. Não precisa me colocar contra outras garotas para me elogiar. Não precisa dizer que elas são fúteis para dizer que sou inteligente. Deixe-as fora disso.

— Desculpa. Acho que sou melhor para criticar do que para elogiar. Preciso rever isso. Manter esse nariz empinado perante a vida não tem me feito bem. Obrigado por me ensinar o caminho da humildade. Eu posso até tirar notas melhores que as suas, mas acho que você é mais sábia do que eu quando se trata de relações humanas. Ainda tenho muito a aprender com você. Preciso descer de meu pedestal, do contrário acabarei como Light, achando que o mundo cai aos meus pés, quando na verdade sou eu que estou caindo dentro do meu próprio ego.

— É assim que se fala. E você só não tem muito bom senso pra lidar com as pessoas porque não cria laços com elas. Mas a partir de agora isso vai mudar.

— Por quê?

— Porque estamos criando laços um com o outro, não estamos?

— É... Acho que sim... – ele olhou para o chão – É a primeira pessoa com quem eu crio laços depois de Watari. Você é uma boa garota. É bonita, inteligente, compreensiva... Entende o que eu quero dizer?

— Entendo. Claro que entendo. Porque eu penso o mesmo de você.

— Então...

— Então...

— Ainda tem mais uma coisa que você precisa saber sobre mim.

— O quê?

— Acho que eu poderia me apaixonar por você.

Ele pôs suas mãos em meu rosto. Eu senti a minha alma inteira queimar.

— L...

— Eu não sei como fazer isso, mas eu realmente quero tentar...

L Lawliet aproximou lentamente seu rosto do meu, aparentemente hesitante. Seus lábios estavam trêmulos e seus olhos foscos reluziam pela primeira vez. Eu pus uma das minhas mãos em seu peito e a outra em seu cabelo. Nossos rostos estavam colados. Olhei nos olhos dele. Ele fez carinho em minhas bochechas, sorrindo como uma criança. Eu já podia sentir a respiração dele na minha. Era quase um sonho.

— Não precisa ter medo... – fechei meus olhos lentamente.

— Eu nunca tive medo.

Nossos lábios se tocaram pela primeira vez. Foi como beijar um anjo. Seus lábios eram macios e delicados. Eu entrei em complexo êxtase. Ele parecia um pouco confuso, sem saber o que fazer. Eu o beijei de volta, tentando ensiná-lo. Orientei L pouco a pouco. Felizmente ele pegou o jeito fácil, acariciando meus cabelos e me apertando contra o seu corpo, para que eu não fugisse nunca. Quando vimos, estávamos enlaçados num beijo profundo, talvez um pouco desajeitado por causa da falta de experiência dele, mas perfeitamente imperfeito. Não que eu tivesse beijado muitos caras no passado, mas aquele foi de longe o melhor beijo da minha vida.

Quando terminamos, eu estava em lágrimas de felicidade.

— Eu não gosto muito de fazer uma garota chorar... – ele sorriu timidamente, corando pela primeira vez – Terei errado?

— Não! – eu o abracei forte – Foi maravilhoso! Você foi maravilhoso!

Ele me abraçou de volta com ainda mais força. Sua roupa tinha cheiro de morangos. Eu respirei fundo, absorvendo cada minuto daquele momento único.

— Maravilhosa é você – sussurrou L em meu ouvido.

Aquele foi um dos dias mais felizes da minha vida.

~*~

— E aí? Foi bom ontem com o seu namoradinho? – zombou Light.

— Não sei do que você está falando.

— Ah, fala sério, Lucille. Acha mesmo que você e o L são os únicos pseudo-cult da escola? Não sejam tão arrogantes. “Há mais cousas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”. Essa frase te lembra alguma coisa?

— Hamlet... Você...

— Sim, eu também estava lá. Light Yagami é um rapaz vazio que só vê blockbusters? Não me subestime. Eu sou um dos caras mais inteligentes da classe, é claro que tenho muita cultura. Só frequento o cinema mais vezes do que frequento o teatro porque as garotas com quem eu saio gostam mais de filmes com heróis bonitões do que de peças soníferas. Mas se eu soubesse que você fazia mais a linha cult como eu, teria te chamado para o teatro e não para o cinema. Seria até mais agradável pra mim. Mas parece que L Lawliet foi mais rápido, hunf. Agora entendo por que ele foi agressivo comigo naquele dia. Ele tinha interesse em você, logo ficou enciumado. Tudo bem, eu supero. Você nem é tão bonita assim. Se até Misa Amane, que é a garota mais bonita da classe, mata e morre por mim, não preciso brigar por uma garota meia-boca como você.

— Garota meia-boca? – levantei uma sobrancelha.

— Convenhamos... Você deve estar se achando porque foi a única garota da escola a dar um fora em Light Yagami e também a única a conquistar L Lawliet, o gênio BV. Mas você não é tudo isso. Não pense que é especial pra mim. Se nós tivéssemos ficado, você teria sido só mais uma na minha lista de conquistas.

— Foi justamente por isso que eu não quis sair com você. Não gosto de ser tratada como um objeto.

— Ah, lá vem a feminista... – ele deu um tapa no próprio rosto, como que desgostoso – E quem disse que L também não te trata como um objeto? Talvez ele tenha ficado com você apenas para saber como é a sensação. Não quer dizer que ele realmente goste de você.

— Ei, Light – o espírito de Yagami gelou quando uma mão conhecida tocou seu ombro – Não fala sobre o que você não sabe. E antes que você pense que estava sendo furtivo o bastante, eu te vi no teatro ontem desde o começo. Eu apenas não contei à Lucille porque não queria que ela ficasse nervosa. Queria que ela agisse naturalmente. Talvez o nosso beijo mal tivesse acontecido se ela soubesse que você estava olhando.

— Não é possível! Você está blefando!

— Não estou. Você se sentou na terceira cadeira da direita para a esquerda na penúltima fileira. Levou Misa Amane consigo. Ah, e você também se levantou para ir ao banheiro duas vezes.

— Como você...

— Eu sou um gênio, Light. É por isso que eu estou sempre dois passos à frente de você. Mas afinal, por que estava nos vigiando?

— Eu fui ao teatro por acaso. Misa Amane queria muito ver Hamlet. Eu até fiquei surpreso por ela conhecer a obra. Sabe como é, né? A gente sempre acha que garotas extremamente bonitas são extremamente burras.

Estou me segurando para não socar a cara dele...

— Continuando... Quando cheguei ao teatro com Misa, logo vi o casalzinho nota mil sentado na primeira fileira. Fiquei observando de longe, tomando cuidado para não ser visto. Queria ver se a peça terminaria em beijos. Na verdade, eu estava doido para ver L dando uma bola fora. Eu achava que ele te beijaria como um moleque de dez anos, Lucille. Estava louco para fotografar a vergonha do ano e difamar o grande gênio da escola. Então deixei Misa ir pra casa sozinha e fiquei escondido numa esquina, vigiando vocês dois na saída. Mas nossa! Meus parabéns! Achei que esse beijo não fosse sair nunca. E foi cinematográfico! Pelo menos o L mandou bem. Agora pode passar de sapo antissocial para sapo beijoqueiro. Se bem que com uma princesa feia dessas, o sapo nunca vai virar príncipe.

— Já acabou o seu showzinho, Light? Você parece uma criança de seis anos que ficou sem sobremesa no jantar. – bufei – A propósito, você fotografou o meu momento com o L? Quero ter uma recordação do melhor beijo da minha vida.

— Foi... foi o melhor? – perguntou L. – Você acha mesmo que...

— Não fotografei nada. – interrompeu Light – Pra que fotografar algo que deu certo?

— Então você admite que eu beijo bem – L sorriu maliciosamente.

— Vai se foder, L! Não dou dois dias pra você voltar a programar em java e deixar a moça a ver navios! Você é esquisito demais para manter um namoro. Ela não vai te aguentar nem por um mês!

— Na verdade, eu também gosto de programar em java – retruquei – L não vai precisar parar de programar para sair comigo. Podemos programar juntos. Isso traz muitas vantagens. Quando uma pessoa programa sozinha, ela pode acabar se distraindo e digitando um ponto e vírgula em vez de dois pontos numa linha de código. Todo programador sabe como isso é frustrante. É um detalhe ínfimo que pode arruinar toda a programação. Porém, com duas pessoas se ajudando, a probabilidade de erro é muito menor, pois uma das duas pode digitar enquanto a outra trabalha como corretora.

— Haha, uma mulher programando, essa foi boa!

— Hum, até porque os homens programam com o pinto, né?

— Não ligue pra ele, Lucille. – aconselhou L – Light está blefando. Ele não sabe uma vírgula de programação. Um dia eu o desafiei a programar um jogo e o resultado foi hilário: tinha mais bugs que o Windows Vista. Tenho certeza de que você programa muito melhor do que ele, minha pequena.

Minha... pequena?

Light desatou a rir.

— Já chegaram ao ponto de dar apelidos carinhosos um para o outro? Vocês por acaso estão namorando?

Eu olhei para L. Ele olhou de volta para mim e perguntou:

— Estamos?

— Estamos.

Eu quase pude ver uma tela azul nos olhos de Light.

Vitória!

~*~

— Eu mal acredito que estou namorando. É surreal – opinou L.

Nós estávamos caminhando na praia, observando os carros passarem sobre uma linda ponte suspensa que enfeitava o mar. Parecíamos desinteressados no passado e esperançosos quanto ao futuro. Ele estava com as suas vestes de sempre. Eu estava vestindo a minha típica camiseta do Marilyn Manson, shorts jeans e nada nos pés, assim como ele. Pela primeira vez estávamos ambos descalços, deixando nossas pegadas na areia.

— Você é a única que vai à praia vestindo uma camiseta de banda – caçoou ele.

— E você é o único que usa as mesmas roupas todos os dias.

— Mentira, o Homer Simpson usa sempre a mesma roupa também. Jeans azuis e camisa branca, assim como eu – lembrou.

— É... Só você e o Homer Simpson – concordei.

Nós paramos no meio do caminho e contemplamos o céu se pintar de laranja à medida que entardecia e as luzes da cidade se acendiam. Os faróis dos carros pareciam estrelas no céu e o reflexo da ponte suspensa tingia o mar em trêmulos tons de vermelho. As ondas batiam nas falésias ao longe enquanto sentíamos a areia e a água salgada sob nossos pés. L se virou de costas para mim e deu dois passos para frente, olhando vagamente para a linha do horizonte. O vento batia gentilmente em seus cabelos lisos, fazendo-os balançar como folhas no outono. Eu apreciei aquele silêncio, respirando fundo. Ele pareceu fazer o mesmo.

Após alguns minutos de longa reflexão, ele virou o pescoço para trás e me fitou com seus grandes olhos bondosos. Um sorriso discreto enfeitou seus lábios. Eu obviamente sorri de volta. Olhamo-nos daquele jeito por longos minutos, até as primeiras estrelas aparecerem no céu. Então, quebrei o silêncio:

— Acho que tenho que ir...

— Mas já? Aonde vai tão cedo, bonequinha? – indagou ele – Por que não vamos de mãos dadas? Oh, diga-me, bela garota, aonde nós vamos agora?

— Para todos os caminhos. Por todos os cantos e veredas. Em cada beco, em cada esquina. Para sempre.

— Para sempre.

♡

Notas finais
*Tradução da frase em alemão: "Poderia por favor falar comigo em alemão? Eu gostaria de praticar". É uma história muito bobinha, eu sei xD Mas deixe o seu comentário, sim?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!