Where Do We Turn?

1 Where Do We Turn?


Notas iniciais
N.A #1: Presente do amigo secreto World Conference 2011, para a adorável Diandra, vulgo Dia-chan. Preciso confessar que foi terrível por vários motivos desde não estar acostumada ao casal a problemas pessoais que me fizeram atrasar um dia e até mesmo passando pelo clássico meu Deus do céu, o que eu faço com a parte do lemon agora? , mas o desafio valeu a pena em todos os sentidos. Perdoe-me pela demora e espero que, mesmo assim, goste. Foi de coração, juro. ;_;
N.A. #2: Essa é a versão 2.0 da fanfic. A primeira estava saindo grande e enrolada demais, mais digna de uma longfic do que uma oneshot, e precisei enxugar o plot pra caramba. Peço perdão, mas num tempo tão curto para finalizar, isso foi o mais simples e conciso que consegui vomitar então. ;_;

A luz esmeraldina da tela preenchia os recantos mais escuros daquele pequeno quarto de um verde baço, como uma cortina de neblina. Esculpindo uma profusão de luzes e cores que mais se assemelhavam a nuvens impossíveis que se dissolviam no olhar, o rapaz sentado à frente do computador continuava seu trabalho.

Possivelmente, porém, o silêncio da noite enfeitiçada por uma tempestade de neve era tanto inimigo quanto aliado; a casa que agora dividiam era mergulhada em um silêncio cortante cuja harmonia podia ser facilmente desfeita. Bastava uma palavra, um som mais alto que um respirar, e sua presença já não era mais segredo algum. Ele não se importava. Pelo contrário, era muito agradecido ao fato.

Foi assim que o ouviu e que sempre o ouvia.

Já estava acostumado com aquele eco de vidro e, mesmo assim, a dor que assaltava seu espírito como um capricho sempre parecia tão aguda quanto a primeira vez.

Suspirando, seus dedos longos não seguiram a lógica de seu próprio corpo, como possuindo uma vida própria e alheia ao seu cérebro, e ficaram divididos entre continuarem o trabalho e fecharem-se no trinco da porta que ele não mais trancava, mas que sempre o separava cuidadosamente de corredores coloridos de uma pálida cor de pêssego maduro – a qual ele não escolheu e, lentamente, aprendeu a se acostumar com.

Após o que pareceram serem longos, longos até demais, instantes de ponderação, Estônia abriu a porta e sentiu um ar gélido lambendo seu rosto. As janelas do corredor vestiam um manto de branco quase líquido, enquanto o vento forte assobiava canções esquecidas pelo mundo. Era como uma advertência sem palavras, e a luz fantasmagórica que se estendia, trêmula, no fim do corredor era igualmente um aviso.

O loiro ajeitou os óculos que escondiam olhos verdes já bastante acostumados àquela escuridão. Seguindo o rastro de luz que mais parecia um tapete de ouro, ele parou em frente às escadas.

Descer significava fazer sua presença ser notada pela pessoa lá embaixo.

Não descer significava fechar os olhos para uma dor que eventualmente seria sua, que eventualmente ameaçava expandir-se como sombras.

Como uma agulha penetra num tecido, a neve também adentrava na pele; aderindo a todas as células, todos os pensamentos. Pouco a pouco, o Inverno parece se tornar seu próprio mundo. Quando se percebe, ele adentrou tão fundo, pouco a pouco, que não há mais volta. A neve agora cai dentro da sua cabeça. Ela encharca sua própria essência e, quando isso acontece, você só pode esperar por um Verão que nunca chegará.

Eram dias assim.

Num local preenchido de silencioso temor e salpicado por todo o canto de cristais de gelo que refletiam uma frágil luz do sol que aparecia tão pouco. Eram dias que somente passavam; os três faziam deles apenas um grilhão a mais em pernas tão exaustas que já não podiam sequer fugir. Mentes tomadas pelo mesmo Inverno que castigou por tanto tempo o território daquela prisão chamada “Rússia”.

No fundo da mente, como um borrão indistinto, ele estava sempre lá. Não havia sorriso e nem mesmo rosto, mas havia sua presença em cada floco de neve, em cada silêncio que não deveria existir. Uma existência que não parecia corpórea, um terror que desafiava qualquer descrição. Uma adaga tão aguda, tão gelada, que perfurava bem mais do que tecidos. Sua presença tomava a forma do medo e sua voz continuava lá mesmo depois de já ter ido embora de fato.

Os três tiveram medo e esse medo envolvia-os como tempestades de gelo.

Lituânia teve tempo antes de se tornar um prisioneiro e, mesmo quando era um, também lhe foi dada a liberdade de ir e vir; ele teve Polônia. Continuava tendo Polônia mesmo hoje em dia, quando seguiu em frente no território do loiro.

Estônia teve um bule de chá, uma cozinha estranhamente quente não condizente com o resto daquela casa, inteligência para conseguir escapar de várias punições, e vários tremores em seu corpo que ameaçavam parti-lo em dois quando ouvia os sons da outra sala. Teve uma casa aconchegante quando seguiu em frente, um excelente computador, e achou que tinha a companhia de Letônia.

Letônia só teve Rússia. No passado e no presente e, pensava, no futuro. Qualquer outra esperança se perdia na visão do sorriso quebrado de seu captor.

E a neve, aquele espetáculo tão branco e límpido que parecia tão inumano quanto a forma de seus medos, não se limita apenas a adentrar roupas e a machucar peles contra a vontade, como uma chuva de pequenas agulhas. Ela seca. Ela congela. Ela mata.

Aquele tapete de luz era sentir o coração debater-se entre o bom senso e uma fascinação mórbida que desafiava as palavras.

E, então, ele desceu. Com um passo atrás do outro, o loiro destruiu com uma decisão muda aquela muralha que medos e lembranças construíram tão perfeitamente.

A cada passo mais próximo de seu destino, o som abafado tornava-se claro como uma manhã de sonhos, como a própria cozinha para a qual estava rumando. Um tilintar de vidro, um suspiro cansado; sons de vida numa madrugada que não deveria possuir nada mais do que um gemido contínuo e eletrônico, mergulhado em uma sala de consoladora escuridão.

Uma sombra desenhada às pressas no chão o fez parar no último degrau.

Observando-a, ele não pensava em nada.

Lembranças e sons e aromas que desafiavam sua própria sanidade amontoavam-se, como que ansiosas para se fazerem presentes.

Se entrasse naquela cozinha escura trazendo seus próprios fantasmas, tudo o que faria era piorar ainda mais a situação. Um rosto traído pelo medo gelado pode anunciar muito mais do que uma morna palavra besuntada de mel.

Respirando profundamente, Estônia ajeitou os óculos uma vez mais. Cada som de vidro correspondia a uma batida de seu coração.

E, quando enfim teve a presença de espírito de entrar, a sombra já não estava mais desenhada no chão. De pé, o garoto observava a neve cair como lágrimas do céu, da única janela daquele pedaço da casa.

– Achei que tivesse pedido para ir dormir cedo, Letônia – ele disse. Não houve saudação de nenhuma das partes.

De seu lugar, o menino estremeceu levemente e, graças a isso, demorou alguns segundos a mais para virar-se. O pijama comprido, mesmo tendo uma cor sóbria, o fazia parecer ainda mais novo do que realmente era – se isso fosse possível –, e os olhos violetas, geralmente sempre tão abertos e assustados naquela prisão chamada “Rússia”, embora agora plácidos e até mesmo coloridos de uma exótica tonalidade quase azul naquela escuridão cheia de baforadas geladas, estavam também baços como a janela pela qual admirava a noite sem estrelas.

Baços e também brilhantes de lágrimas que nunca chegaram a se derramar, mas que estavam a um passo de ultrapassarem aquela última barreira de orgulho próprio. O coração do mais velho parou por um só instante, para logo voltar a bater num ritmo muito mais angustiado.

O desejo de ir até lá e confortá-lo nunca passou daquilo, entretanto.

– E eu dormi. Mas... Acordei há pouco tempo... – explicou o menor. A voz dele estava trêmula; uma prova a mais do que ele teria feito se o outro não houvesse chegado mais rápido. – Desculpe, Estônia... Acho que perdi o sono.

E, depois de apenas um segundo de silêncio, os olhos abriram-se mais:

– A-ah... E-eu o atrapalhei, Estônia? Você estava trabalhando, não é? Estava, não?! D-desculpe... Eu...

– Tudo bem. Eu já tinha acabado – mentiu. – Tudo bem, Letônia.

Letônia tinha um jeito muito peculiar de lidar com os constantes sofrimentos que a vida e aquela prisão chamada “Rússia” colocavam em seu caminho.

Ele era fraco, chorão e covarde.

Ele havia tentado fugir e falhado em todas as vezes.

Ele era o alvo preferido de Rússia graças a isso. E nunca reclamou do fato.

Ele suportava com um estoicismo difícil de associar a alguém tão desajeitado e cheio de lágrimas patéticas as torturas que nem sequer eram percebidas como tal pelo sádico que as aplicava.

Quando Rússia cansava de apertar todos os botões de seu brinquedo idiota, Letônia se arrastava até a cozinha, com a expressão de um soldado vencido. O cheiro de café – e isso o próprio jovenzinho loiro já o confessara certa noite – sempre foi uma associação que fizera. Lembrar-se de café era como lembrar-se de Estônia.

Mesmo assim, o que o pequeno país tinha em suas mãos agora não era uma xícara de café. Tampouco a garrafa sobre a mesa era uma térmica.

– Mas... Eu também acho que tinha pedido para não fazer mais isso – Estônia continuou. Puxou a cadeira onde o garoto estava e a colocou no seu lugar outra vez.

Encarando o copo quase vazio, o mais jovem encolheu os ombros.

– ... D-desculpe.

– Por que não solta esse copo?

O silêncio de Letônia foi tão físico que quase parecia ter personalidade própria.

– Eu só vou tomar mais um...

Estônia lembrava-se com uma distância calculada e sóbria, certa feita, da comoção naquela prisão de gelo na qual viviam quando descobriram que as vodcas de Rússia estavam sumindo numa velocidade alarmante.

Lituânia tinha uma ideia de quem poderia ter sido, mas não disse nada. Letônia também não disse nada – em verdade, ele estava mole e desinteressado como uma boneca de pano. Estônia, por outro lado, tinha a mais absoluta certeza da identidade do culpado; e também escolheu o silêncio.

Em retrocesso, foi um erro seu ter escolhido fingir que nada sabia.

Cada vez que olhava para um copo de bebida em mãos tão pequenas que poderiam ainda estarem brincando com carrinhos vermelhos de brinquedo, uma pontada aguda de um arrependimento amargo como veneno preenchia sua boca.

– Você não vai dormir se beber mais do que já fez – ele suspirou, numa calma construída a muito custo com sangue frio. – Vai somente desmaiar. Isso não é bom. Seu corpo vai estar ainda mais cansado amanhã.

– ... Pelo contrário. Desmaiar é... É bom.

Para onde vai um país quando ele desaparece?

Para onde vai um país quando ele morre?

Para onde vai o desespero e as memórias? A dor e os bons momentos?

Para onde vai o simples desejo que não deveriam cultivar?

Letônia perguntara isso uma vez.

“Pra... Onde vai um país quando ele morre?”

Naquela época, ainda presos com Rússia, ele ainda pensava que aquilo foi uma dúvida saída não de uma semente enraizada em solo fértil, mas de uma curiosidade distraída e cheia de tropeços antes do descanso; um terreno familiar para o loiro.

“Acho que a pergunta é: um país pode morrer de fato? Quero dizer, um país não pode ‘morrer’ no sentido humano da palavra. Nós somente mudamos. Temos a História de nossa terra em nossos corpos e memórias, mas não podemos ‘morrer’.”

Ele quis, naquele tempo, perguntar a razão daquela questão. Não era algo em que o garoto pensaria normalmente, e isso qualquer um mesmo era capaz de perceber.

Mas havia algo naquele silêncio opressivo, naquela escuridão branca, que o mortificava. Algo naquela pergunta, na estranheza dela, em Letônia; algo ali minou sua coragem para tanto.

Antes de sequer poder lutar contra, recebeu ainda outra pergunta em retorno:

“Então... Pra onde vai um país quando ele desaparece? Você sabe, Estônia?”

Grécia, Roma, Germânia...

Quantos países, outrora tão aparentemente imortais, desapareceram em meio às areias da História e nunca mais foram vistos de novo?

Havia um fundo de verdade naquela pergunta, o mais velho admitia: para onde vai um país que não pode morrer? Que, pouco a pouco, numa tortura diária, desaparece da História, das memórias, de tudo o que um dia lhe pertenceu?

“Não. Eu... Não sei.”

Quando o silêncio opressivo voltou, Estônia ainda se lembrava de que sentiu falta, por um breve instante, de Lituânia – o traidor que estava sempre indo embora. Ele saberia lidar com a situação de forma bem melhor.

“... E, Estônia?”

“O que foi, Letônia?”

“O que acontece com...”

Um tropeço. Um silêncio envergonhado.

“... Não. Não é nada” – sussurrou, por fim. O mais velho podia jurar e se lembrava até o presente momento que o tom do outro subira algumas oitavas naquela negação. – “Desculpa, estou incomodando de novo, né? Boa noite, Estônia.”

Mais uma vez sentindo os ouvidos sendo perfurados com um gemido que nem era seu, que ameaçava explodir do fundo do estômago, o loiro revirou-se em sua cama.

Os sons dos pequenos gemidos conformados – uma conformidade muda, tão passiva e profundamente conciliada com a ideia de que viver é sofrer – daquele país que continuava a se parecer com um garoto para todo o sempre e que continuaria a ser maltratado por uma prisão chamada “Rússia” ainda ecoavam como se sua mente fosse uma sala imensa e vazia.

Naquele tempo, o loiro não sabia o que Estônia queria dizer. E, honestamente, sequer pensara muito sobre; dormira antes disso.

Mas, hoje, ali, com tanto tempo quanto podia imaginar para se lembrar de tudo o que já aconteceu, algo lhe dizia que sabia muito bem o que o menino quis perguntar:

“Estônia, o que acontece com os países que não conseguem seguir em frente?”

Estônia lembrava-se de Rússia.

E então, de Letônia.

E, por fim, de si próprio.

E o silêncio angustiado de uma pergunta cuja resposta estava além de qualquer capacidade de formulação o atingia com uma força estonteante.

– Você sonhou com ele, Letônia?...

Não havia mais Rússia.

Não havia mais sonhos de união.

Um a um, os lacaios do imenso país gelado foram abandonando-o, envoltos em uma palavra tão única e fundamental chamada “liberdade”. Um a um, os sonhos daquela marionete quebrada que tanto gostava de quebrar igualmente foram ruindo bem diante de seus olhos.

As cicatrizes, as memórias, entretanto, nunca abandonaram aquela soleira da porta. Sempre estavam voltando para lá, saudosas.

– ... Um pouco... – o jovem hesitou.

Eles tiveram tempo para se conhecerem mais uma vez quando o pesadelo acabou. Quando Lituânia preferiu ir com Polônia.

A casa que dividiam era modesta em comparação com o palácio de sombras de neve de Rússia, porém, era perfeito para Estônia. Havia uma familiaridade em entrar e ser recebido pelo sorriso desastrado de Letônia; e também havia, por baixo de tudo aquilo, como um elefante na sala de estar, uma sensação de que tudo aquilo era uma grande farsa. O ouro líquido das manhãs se dissolvia e deixava, à noite, transparecer a verdadeira sujeira. Não havia acabado. O pesadelo nunca acabaria.

– É como se ele fosse voltar a qualquer momento... Como se... – respirou fundo. O mais alto percebeu que as mãos fechadas no copo o faziam com força. – Como se, tão logo eu acorde, vou estar de novo naquela cama pequena... Naquele lugar horrível. Não consigo respirar quando penso nisso.

Preso como que por fios bem ali onde estava, enquanto as palavras dançavam com ecos de eternidade amaldiçoada em sua cabeça, Estônia só pode ir até o menor e abraçá-lo em seus pensamentos.

Ele sabia que aquele era o jeito que o pequeno encontrou para lidar com uma pressão que desafiava qualquer explicação plausível. O medo nunca tem lógica.

Bem como o próprio Estônia havia encontrado seus próprios meios para fugir de lembranças tingidas de pérolas rubras no chão.

– Rússia não vai mais voltar, Letônia. Dessa vez, para sempre – ele respondeu, por fim, quando se forçou a vencer aquela parede de silêncio.

– Será mesmo?...

“Ele está quebrado demais para isso”, quis dizer. Mas, será que seria o certo? Será que demonstrar a miséria daquele objeto de ódio era realmente o que faria o mais jovem ficar melhor? Pois não parecia que Letônia ia se sentir satisfeito, no fim, em saber que o karma cuidara de Rússia muito melhor do que qualquer ataque do General Inverno.

– Eu prometo – assentiu.

O som das pequenas unhas arranhando nervosamente o copo precioso pareceu-se, súbita e vagamente, com alguma espécie de tortura.

Sob pena de tautologia, e correndo o risco de se tornar um estranho até para si próprio, Estônia tinha seu futuro muito bem planejado desde quando a inevitável revolta acontecesse. Ou, ao menos, uma certeza – se vencesse, é claro... Primeiro precisava vencer a prisão chamada “Rússia”... – que atravessava seus ossos como o frio do qual ele eventualmente escaparia: “Eu nunca mais quero encontrar Rússia depois que tudo acabar. Enquanto eu viver. Nunca”.

Algumas pessoas – mesmo quando são países fadados a viverem para sempre, em teoria – conseguem mudar. Seguir em frente significa mudança.

Hoje, quando olhava para trás e comparava aquelas duas figuras pequenas de ombros trêmulos, a insegurança de Letônia era a prova mais concreta e cabal de que o garoto havia sido vencido, mesmo parecendo que sempre ganhava de alguma forma; ele pensava como Rússia, no fim.

Ele não estava totalmente pronto para seguir em frente.

– ... Eu não posso acabar esse copo, não?...

– Eu prefiro que não beba mais – concordou o mais velho.

– Você ainda tem que trabalhar, Estônia?

– Não – e ele tinha a impressão de que, mesmo se tentasse, não ia mais conseguir se concentrar. A mente acabaria voltando à Letônia sempre.

Aproximando-se do mais alto com vagar, o jovenzinho abandonou o copo sobre a mesa. Suspirou pesadamente – um suspiro entrecortado e temeroso – e ergueu os olhos violetas. Havia simultaneamente receio e ainda mais receio lá dentro. Foi uma visão tão triste quanto assustadoramente meiga.

– Então... Fica comigo hoje? Não quero voltar sozinho para aquele quarto – perguntou. Não tropeçara nas palavras em nenhum momento; o mais velho quase se sentiu orgulhoso do feito.

Antes que o mais velho pudesse contestar, Letônia emendou:

– Só até eu dormir de novo... Por favor?

Como uma nota que foge da partitura, o coração do mais velho flutuou por uma cozinha iluminada por uma alabastrina lâmpada e sacudida por sopros de vento glacial. Ele procurava alguma coisa no olhar do jovem país; alguma coisa que não achou, pelo tempo em que estiveram encarando-se naquela abençoada semiescuridão.

Cada passo que parecia dar em direção ao pequeno, mesmo que em verdade não estivesse se movendo um só centímetro de seu lugar, parecia tão imenso que tudo o que lhe restava era sentir um desespero crescente. Não importava o quanto caminhasse e abrisse caminho, a sensação de que sempre estaria muitos passos distante de Letônia era uma constante quase matemática.

Tudo que os rodeava naquele mundo – fosse Rússia, fosse a neve, fosse o silêncio de uma cozinha recendendo a álcool recém-consumido – parecia grande demais e pesado demais naqueles momentos. E, deixando um gosto amargo em sua boca, a pergunta que nunca se calava – “como vamos nos encontrar em um lugar assim?” – aparecia mais uma vez, sem saudação, sem polidez alguma, e parecia se atravessar entre ambos. Uma velha conhecida; uma odiosa conhecida.

A mão do mais velho, com uma delicadeza que não seria associada a alguém tão aparentemente estoico, tocou no ombro do jovenzinho.

– ... Você consegue caminhar sozinho?

O mais novo sorriu de leve.

– Foi só um copo, Estônia. Eu consigo sim.

Um alívio indizível tomou-o ao ouvir aquilo, enquanto as mãos pequenas do mais jovem fechavam-se em sua camisa. Significava, então, que havia chegado cedo. Ao menos, cedo o bastante para evitar grandes estragos. O maior deles já estava feito e consumado, mas o mais velho só podia agora sentar nos destroços e contentar-se com esqueletos e fantasmas de passado.

E, enquanto subiam as escadas outra vez, num silêncio sepulcral, a certeza de que Letônia era muito mais corajoso do que aparentava por debaixo daquela carapaça tão tola e desastrada atingiu-o como um raio. Afinal, o pequeno havia abandonado um sonho com Rússia e seu quarto e mergulhado em uma casa de escuridão abissal até a cozinha e, em nenhum momento, veio abrir a porta do escritório – o qual Estônia deixava sempre aberto, temendo exatas situações do tipo.

Ao mesmo tempo em que um orgulho silencioso abateu-o, também o fez uma tristeza solitária. O jovem era tão autossuficiente quanto era quebradiço.

O silêncio que permeou toda a volta ao quarto que dividiam agora foi solitário e estranho e rescendia a álcool.

– Você realmente não tem mais trabalho por hoje, Estônia? – o mais jovem ainda perguntou.

– Já disse que não – repetiu.

– ... Eu não vou deixar você ir embora depois.

Havia uma decisão quase infantil naquele rosto, e um sorriso foi a única coisa que ele conseguiu arrancar do mais alto.

– Não vou me arrepender. Prometo – tocou em sua cabeça, em um gesto mais fraternal do que qualquer coisa.

O outro grunhiu; uma atitude pouco condizente com sua personalidade, precisava Estônia admitir.

Jogou-se, então, sobre a cama. As mãos quase invisíveis, pequenas demais para um pijama tão grande (era mesmo do jovenzinho ou Letônia roubara um dos dele outra vez?!, perguntou-se Estônia ali), descansaram sobre o colo e os pés juntaram-se, comportados. A posição era perfeita para um morto dentro de um caixão de flores primaveris. Os olhos violáceos continuavam baços e totalmente fora do personagem do menino de uniforme vermelho sempre a tremer.

A súbita ciência que deveria ser assim que Letônia se comportava quando ainda vivia sob o julgo de Rússia – amolecia o corpo e a mente, e já não mais resistia depois de um tempo. Apenas esperava a tempestade passar e rezava para que passasse logo, passasse sem maiores estragos; geralmente, um desejo vão – encheu de um pavor mudo o coração do mais velho. Ele aproximou-se da cama, com mais pressa do que gostaria, e sentou-se ao lado do garoto.

– ... É como um grande e mentiroso sonho.

Os olhos violáceos fixos na janela embaçada eram distantes, leitosos como um tapete de neve; eram distantes demais para combinarem com Letônia.

– Eu não acredito totalmente que aquele tempo passou. Ainda parece um sonho.

Como a escuridão que devorava com vagar os gritos do menino naquela prisão chamada “Rússia”, para não devolver nada mais do que uma carcaça ferida.

Lágrimas brilhantes ameaçaram quebrar mais uma vez pelo rosto de porcelana. Naquele escuro quase sagrado, elas eram as intrusas mais óbvias e detestáveis nas quais o estudioso Báltico já pusera os olhos.

– Fico ouvindo uma voz repetir sempre ‘ele está bem atrás de você, Letônia. Não faça nada que você não ia querer que ele não visse’, e... Ela parece tão certa...

Para Estônia, cada palavra do menino era como uma chuva de agulhas. E também uma chuva de realidade: sim, a União havia acabado. Ela nunca mais ia voltar. Ele sabia disso, justamente porque Letônia parecia ainda não compreender muito bem um fim tão abrupto. O mais velho precisava saber pelos dois.

– Mas ele passou, Letônia – sussurrou, cauteloso, no silêncio morno do quarto.

Seus dedos encostaram de leve nas bochechas do menino, num carinho fugidio, como se desejasse limpar lágrimas que não estavam ali.

Estônia nunca foi bom com as palavras, e sabia disso muito bem. Lituânia sempre foi o orador por eles; quando o mais jovem dos Bálticos se adoentava ou estava fraco demais para suportar mais um dia de torturas, era sempre o mais velho deles, o moreno, quem o confortava pelo que pareciam várias horas. O loiro sempre esteve ao fundo, como um adorno do ambiente.

Talvez fosse por isso – pelo outro não saber usar as palavras certas e por não terem mais Lituânia para ser a muleta daquela relação distorcida entre os três – que Letônia nunca conseguisse entender que estava acabado.

Mas o súbito farfalhar de tecido da cama o despertou para uma mão posta gentilmente sobre a sua. Letônia sabia. Ele sabia que seu companheiro não era bom com as palavras; e, por sabê-lo, se comunicava com o mais velho do único jeito que o mesmo compreendia. Daquele jeito estranho e tão direto, mas que funcionava sempre.

– Como será que eu posso fazê-lo entender isso?... – perguntou-se.

A mão do mais velho fechou-se na do jovenzinho também, distraída.

Havia um rubor tão palpável no rosto do menor, naquele momento, que mesmo o monocromático índigo que retocava cada pedaço do quarto não conseguiu escondê-lo.

– ... Na verdade, acho que eu sei como.

Os olhos claros, possivelmente já acostumados agora à escuridão, observavam com um vagar apreciativo aquelas duas mãos unidas.

– Como?

Um rastro de fogo deslizou num súbito pelos dedos do mais velho. Estremecendo, ele só pode observar atônito.

Estônia abandonou os lábios da mão do loiro, mas continuou segurando-as nas suas.

Uma ação tão corajosa e atrevida para um garoto tão tímido; nenhuma palavra a mais precisou ser dita. Estava claro como o dia.

O ar pareceu se comprimir. O quarto pareceu diminuir.

Dos dois ali presentes em um ambiente tão disposto a mostrar uma independência que nenhum sentia de fato, nenhum deles eram estranhos aos prazeres da carne – em especial, a do outro. Apesar de parecer tão pequeno e frágil, ambos ali sabiam que Letônia não era a criança que aparentava ser.

O que começou em algum dia distante como o canto do Verão como um toque de segurança em um lugar tão tenebroso transformou-se em ternura, e então em desejo, e então em amor. Foi tão natural quanto aprender a caminhar ou falar, quanto aprender uma língua-mãe, ou mesmo como era natural respirar. Se houvesse qualquer pessoa capaz de duvidar de uma ligação tão íntima quanto o próprio mundo, era provável que tal dúvida se dissipasse bem ali, quando a mão do menor envolveu os dedos do mais velho com um vagar que desafiava seu temor de momentos atrás.

– Letônia... – ele suspirou.

– Por favor?...

Em um mundo tão grande e frio, feito tão fragilmente de uma felicidade tímida e temerosa, refém de um passado que sempre ameaçava consumir, dois países enlaçavam suas mãos em uma escuridão cúmplice.

Em um mundo feito de tantas mentiras quanto de lágrimas, tão feio que parecia irreal, o toque de duas mãos cálidas era provavelmente a única certeza de que aquilo era realidade que poderiam verdadeiramente ter. Uma prova frágil; e, mesmo assim, a única e realmente importante.

– Eu... Vou ter essa mesma sua certeza um dia – confessou, num sussurro. – Sei que vou. Por favor.

As palavras dançaram em sua mente como bolhas em água fervente.

– É. Eu também sei.

Como se todo o amor que a um país fosse permitido usar pouco a pouco por sua vida estivesse sendo despejado ali mesmo, num único momento e de uma vez, o calor que pressionou o mais velho quando os lábios se tocaram, primeiro receosos, pareceu querer derrete-los como se também fossem flocos de neve, até virarem líquido.

Havia tanto deles dois que outros jamais saberiam, pensou, enquanto os lábios se separavam. Tantas e tão significativas coisas que até pareciam estranhos um ao outro em momentos assim.

Letônia o encarava agora, sem nenhum traço da timidez que permeava suas ações endurecidas nas primeiras vezes. Era bem ali, naquele singelo e mero ato de olhar nos orbes esverdeados tão infelizmente escondidos por óculos que não lhes faziam justiça, que o pequeno adquiria a certeza de que não acordaria em uma mansão que esperava apenas que gritasse mais do que no dia anterior. E Estônia também sabia disso, pois jamais se movia, esperando, pacientemente, que estes mesmos óculos lhe fossem retirados e depositados na mesa de cabeceira.

– ... Você está com gosto de vodca.

Em algum outro momento – quem sabe, cinco segundos atrás, quem sabe talvez mesmo agora –, isto teria sido o fim. O fato de o garoto detestar girassóis, e cachecóis e, mesmo também detestando vodcas (ainda bem, porque elas não combinavam com ele. Álcool algum combinava, essa era a verdade), as comprar... Tudo isso era tão óbvio que a verdade em palavras parecia desnecessária.

– ... Isso é ruim?

Bastante.

Ou, ao menos, era o que deveria responder.

– Não.

Um prazer quente envolveu-o como num maremoto quando se permitiu tocar os lábios do outro uma vez mais.

E, apesar de sentir as mãos do mais jovem deslizarem por baixo de sua camisa, mesmo sem os óculos, ele encarava um par de olhos violetas que se tornavam quase azuis no escuro da casa silenciosa e se perguntava, contrariando até mesmo seu próprio senso de ridículo, quando foi que aqueles orbes pareceram tão límpidos e tão imensos, como duas janelas. Estar desejando Letônia nunca lhe pareceu tão errado quanto ali.

Suas próprias mãos, contrariando a mente, também entraram em contato direto com a pele quente e assustadoramente macia do outro. Para alguém que estava sempre protagonizando violência, ao seu toque, aquela pele não tinha quase nenhuma elevação indicando cicatrizes. Mesmo, entretanto, todas as provas físicas do cárcere já terem ido embora há tempos, os grilhões continuariam sempre ali, embora não pudessem enxergá-los. E Estônia sabia que consigo próprio também não era diferente.

Talvez pressentindo o rumo inglório dos pensamentos do mais velho – talvez porque mesmo ali, em um momento tão somente deles, até mesmo ali aquela prisão chamada “Rússia” estava sempre presente na mente de ambos –, Letônia puxou o mesmo para si, a respiração entrecortada deixando rastros arrepiados no pescoço do outro.

O ato de desabotoar com uma calma que desafiava sua própria sanidade a camisa do pijama do mais jovem veio acompanhado daquele sedimento que invariavelmente mancha todos os amores, sejam eles quais forem. “Eu quero tocá-lo”. Naquele quarto tão subitamente pequeno, o mundo derreteu-se em um calor que ameaçava consumi-los até a essência. Até mesmo aqueles dedos tão pequeninos que puxavam sua própria roupa com tanta insistência tornaram-se eróticos demais.

Quando o tecido deslizou pelo corpo esguio e pequeno, logo em seguida sendo substituído por mãos pálidas que traçavam um mesmo caminho, por uma língua que deixava rastros de fogo por onde passava, todos os gostos mais doces que podia imaginar se misturaram na boca de Estônia como pedras. Cada elevação anormal daquela pele jovem, cada lembrança de um tempo inesquecivelmente traumático, era um peso a mais em seus ombros. Ambos sempre souberam que havia sim uma atmosfera de opressão entre eles, mesmo num único momento onde todo o resto do mundo se desmanchava como as lágrimas que Letônia tanto derramava.

Das primeiras vezes, onde agudas ondas de dor se liberavam de toques hesitantes e, quando os pensamentos alcançavam aquele ponto do qual é impossível escapar, as lágrimas escorriam como se quisessem se derramar para sempre, tudo o que restou hoje em dia era aquela sensação de ter em si mesmo, ao mesmo tempo, emoções abençoadas e amaldiçoadas percorrendo-o como dedos esguios.

A brancura leitosa do corpo jovem era impossível de não ser notada, mesmo quando a única fonte de luz era um rastro de ouro líquido no corredor. O arfar tímido era impossível de não ser notado, mesmo quando o assobio maledicente de uma tempestade fora de época se fazia entrar por cada fresta possível.

O corpo de Letônia parecia sempre estranhamente frio, mesmo quando o coração pequenino batia tão forte que o mais velho podia vê-lo se elevar através da pele pálida, mas a sensação surreal daquela união parecia varrer para longe toda a exaustão do trauma.

E, como se estivesse pensando exatamente aquilo também, o Báltico mais jovem terminou de desabotoar a camisa do outro, deixando-a cair em algum ponto do chão, e deslizando primeiramente os dedos, em seguida seu próprio rosto pela extensão imaculada de pele.

– ... Você sempre é tão quente, Estônia, mesmo quando está frio – sussurrou, a voz entrecortada por alguma coisa que parecia presa à garganta dele. – Não entendo como consegue fazer isso.

A verdade é que ele também não entendia.

E, contrariando um espírito que preferia coisas concretas a crenças infundadas, por um instante, quis acreditar que seu corpo só era quente porque o de Letônia, mesmo quando ele queria, nunca o conseguia ser.

E, através da pequena névoa, como se ele também estivesse chorando, que a falta de seus óculos provocava em sua visão, Estônia encostou seus lábios nos trêmulos do mais jovem embaixo de si mais uma vez. O mundo congelou-se, felizmente, como um grande cristal de gelo, o mesmo gelo que deslizava pela janela do quarto.

Havia uma surpresa agradável que nunca conseguia conter em ouvir, durante aqueles beijos tão vagarosos, o gemido abafado do outro ecoar em sua própria garganta.

E, tão impiedosamente quanto Rússia e um frio assassino o foram para o pequeno Letônia, o amor sempre parecia brotar como um pequeno botão de rosa bem ali, enquanto dedos agora experientes percorriam territórios não mais desconhecidos, mas que sempre pareciam tão estranhamente novos.

E as partes mais profundas de países que estavam sujeitos a alianças e desavenças a qualquer instante – contra ou com o consentimento de suas vontades –, até suas células, abriram-se um para o outro como a mesma rosa de espinhos que brotou sem esperar qualquer gota de resposta ou luz da manhã, os dois sobreviventes de torturas indizíveis encontraram-se, as mãos sempre entrelaçadas, num lugar que sequer parecia existir em qualquer parte daquele mundo.

E olhos fechados e lábios sussurrantes e peles estremecidas encontraram-se, refestelando-se em visões inacreditáveis para todos os outros. Como personagens de um quadro pintado pelas mãos de algum artista sobre-humano, aquele mundo perfeito que só existia em pedaços muito dispersos de suas próprias mentes abriu-se diante deles.

Só poderia ser um sonho tão mais belo que qualquer realidade concebida e, mesmo assim, o gosto era doce. Era doce demais. Era tão doce que doía.

E, mesmo depois, quando a única coisa que ainda se podia ouvir eram corações exaustos em uníssono em um quarto subitamente pequeno demais, aquela doçura que ameaçava consumir continuava lá, sendo o próprio ar que respiravam, sendo o sangue que percorria suas veias.

– Será que um dia eu vou ser livre, eu me pergunto?...

A questão, tão abrupta, tomou Estônia de surpresa. Letônia escondeu o rosto no ombro desnudo do outro, não em timidez, mas em contemplação.

– Tenho medo de ficar para sempre preso naquele lugar, mesmo quando eu nem sequer me lembro mais dos detalhes daquelas salas...

O mais velho quase quis colocar mais uma vez seus óculos; mas achou que, não enxergando o rosto pequenino quando respondesse, sua coragem seria maior. Haviam distâncias ainda não exploradas entre eles. E, talvez, numa súbita e tão triste percepção, sempre haveriam.

“Você já é livre, Letônia. Só ainda não percebeu.”

– ... Tenho certeza que vai.

Notas finais
Meu Deus, isso tá tão cheesy, tão escroto, tão... UNF. Quero me matar, mas não acho cordas ao meu alcance no momento pra isso.
MAS AO MENOS EU ESCREVI. E TENTEI DEIXAR A LINGUAGEM BONITA TAMBÉM, PORQUE A FIC EM SI DEIXOU A DESEJAR. *SOBSOB* SINTO MUITO PELA ABOMINAÇÃO, DIA, MAS FOI SÓ NO QUE CONSEGUI PENSAR NO MOMENTO. PODE ME BATER, EU ACEITO ISSO AO INVÉS DE UM REVIEW -Q ;__;
O fanon parece considerar os Bálticos um bando de angustiados dominados pelo Rússia e eu, honestamente, depois de ler as histórias dos países que escrevi, achei essa caracterização muito digna. E você havia pedido angst de qualquer forma, então... :'D
Aliás. "Where Do We Turn?" é uma linda música do Reasoner que eu usei pra me inspirar e, portanto, achei muito digno também usar como o título. Podem ouvi-la neste link: http://www.newgrounds.com/audio/listen/151815
OUÇAM. TIPO, ELA É LINDA. TODAS AS MÚSICAS DO REASONER O SÃO ;_;
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!