When the night falls, the demons arise
2 Capítulo 2
Já era noite. A lua estava no alto, iluminando as copas das árvores. Mesmo com sua visão apurada, durante o dia todo Claudine não viu um animal sequer na floresta, e pensou que se subisse na árvore mais alta que pudesse encontrar talvez a ajudaria a achar algum alimento.
Foi em vão. Parecia não haver vida naquele lugar, como se tivesse sido sugada para uma floresta onde apenas o silêncio existia.
O único ser vivo que encontrou foi aquela mulher ferida, mas não havia mais nem sequer sinal dela. Pouco depois de ir embora, tentou retornar para o mesmo lugar onde havia a encontrado e, mesmo tendo certeza do caminho, o sangue seco no chão servindo de prova, não havia sinal dela em lugar algum.
Será que ela estava bem?
Devia ter insistido e a carregado de volta à força para o vilarejo.
Humanos não eram receptivos com o diferente. Mas sendo uma humana, ela ficaria bem entre eles.
Suspirou, desolada.
— Que fome... — reclamou para a noite, encostando-se ao tronco da árvore.
Havia ficado por pouco tempo naquele vilarejo. Desde que havia chegado, ouvia cochichos dos moradores. Não bastava ser desconhecida – uma ameaça ao cotidiano pacífico dos moradores – ainda era diferente. Seus cabelos loiros se destacavam na multidão de cabelos escuros e sabia como era chamada. Era a filha do próprio demônio, diziam.
A ideia de ir para aquelas terras não havia sido muito boa. Mesmo que usasse capas e capuzes para se esconder, era inevitável ouvir as palavras de ódio. Deveria ir ao norte da próxima vez. Quem sabe não tinha mais sorte?
Já fazia anos que andava erroneamente pelo mundo afora. Havia até perdido a conta. Sua natureza tornava impossível se estabelecer em um só lugar. Por mais que quisesse viver pacificamente, as pessoas desconfiavam de alguém que não envelhecia.
Seria muito mais fácil se apenas os tratasse como presas. Eram o que humanos deveriam ser para um vampiro como Claudine.
Desde que viu sua amada Elizabeth ser estraçalhada por outro vampiro... Ela jurou, banhada pelo sangue do demônio cujo coração arrancara com as próprias mãos, e o de Elizabeth em seus braços, de que não voltaria a tomar sangue de qualquer ser humano.
Era difícil. Seu estômago doía. Às vezes, usava água para enganar a dor, mesmo que não precisasse de fato de se hidratar. Agora, nem isso tinha. E o ferimento em seu braço, causado por uma das tochas dos moradores da vila que a perseguiram, incomodava. Se conseguisse ao menos um pouco de sangue, poderia se curar e não seria um empecilho. Mas não havia nem sequer um animal por perto para satisfazer, mesmo que momentaneamente, sua fome.
Fechou os olhos. Talvez pudesse dormir um pouco. Quando a fome era insuportável, às vezes o fazia para esquecer.
Em sua mente, lembrou-se dos olhos de ametista daquela mulher. Eram indecifráveis, porém agora que se recordava... eram parecidos com os de Elizabeth. Não havia medo refletido em suas íris no momento em que quis cravar suas presas nela. Sequer desprezo. Não achou que veria mulher tão louca quanto aquela humana novamente em sua vida. Afinal o certo era querer correr ou lutar pela sua vida.
Estava quase adormecendo quando seus sentidos entraram em alerta ao sentir uma presença. Deveria ser impossível. Qualquer humano normal não conseguiria alcançá-la na altura em que estava, tão rápido e sem que percebesse antes!
Arregalou os olhos e o susto fez com que quase caísse da árvore ao ver a mulher de antes parada à sua frente. Seus pés não tocavam o galho, ela simplesmente flutuava no ar, e seu corpo era coberto por uma aura que parecia queimar. O mais estranho, no entanto, eram as caudas e o par de orelhas que saíam do meio dos cabelos castanhos.
Então... ela não era humana. Talvez por isso o sangue lhe parecesse tão tentador e apetitoso.
Recuperou-se e desfez a expressão atônita, olhando seriamente para o rosto da mulher que sorria misteriosamente.
— Quem diabos é você? — questionou na defensiva, mesmo que ela não parecesse querer brigar.
— Você disse que está com fome. É minha vez de te ajudar.
— Mas o quê...!
Mal conseguiu retrucar. A mulher-raposa agarrou seu pulso e simplesmente a puxou. Surpresa pelo gesto repentino, gritou quando seu corpo abandonou a estrutura segura da árvore, fechando os olhos ao prever a queda. No entanto, antes que trombassem com algum galho abaixo, as chamas envolveram a ambas, e quando Claudine abriu os olhos, foi como se estivesse em um lugar totalmente diferente.
A floresta parecia reluzir. Pequenos pontos de luz (vagalumes?) flutuavam em torno de ambas. Embasbacada, a vampira demorou um pouco a voltar a si, piscando diversas vezes antes de se levantar, franzindo o cenho ao ver a expressão de diversão que tomava conta do rosto da raposa.
— Do que está rindo, mulher raposa?
— Não estou rindo. — Ela definitivamente estava rindo. — Deixe-me te apresentar minha casa.
Sem dar espaço para réplica, soltou o pulso da vampira, e começou a caminhar. A floresta parecia muito mais viva do que a que ficou andando em círculos durante o dia todo. A raposa lhe explicou que aquela floresta funcionava como outra dimensão, que ficava coberta por um véu místico para proteger as criaturas que ali viviam.
Avançando pela floresta, a caminhada foi inesperadamente rápida e então chegaram à árvore mais alta que ali havia: Claudine sequer conseguia enxergar o topo, mesmo com a iluminação que parecia vir da mesma e dominava toda a clareira que era rodeada por tendas e árvores menores. Sequer parecia que era noite. A vampira viu vultos se escondendo dentro dos troncos e das cabanas improvisadas, mas o questionamento que veio em sua mente nada tinha a ver com o aparente medo dos presentes.
— Então? É aqui que você mora?
— Sim. Todos chegaram aqui em um momento de necessidade. — explicou brevemente, emendando sem deixar espaço para maiores questionamentos: — Gostaria que conhecesse alguém. Venha comigo.
Claudine olhou com desconfiança para o sorriso por cima do ombro que a raposa lhe lançou, no entanto, estranhamente, não sentia hostilidade no ambiente. Ela sabia quando não era bem-vinda. Humanos tornavam isso bastante óbvio e com o tempo passou a identificar apenas com os olhares que lhe lançavam. Limitou-se a segui-la até a árvore ao centro, hesitando quando a viu adentrar um portal que reluzia no tronco e desaparecer. Prendeu a respiração, mas tomou coragem e a seguiu, apertando os olhos quando o atravessou. Podia ter vivido por eras, mas era a primeira vez que entrava em contato com outro tipo de ser sobrenatural que não seus iguais. Também já havia esbarrado com mulheres-lobos, porém toda a energia que rondava o local era completamente diferente do que estava acostumada.
Quando abriu os olhos, percebeu que o interior do tronco era muito maior do que parecia de fora, fruto de magia, e era extremamente aconchegante e confortável. A mulher raposa seguiu por um tapete que se estendia até o final do cômodo e a vampira apressou-se a segui-la.
— É você, Maya?
Uma voz questionou quando ela se abaixou em frente a um pequeno lance de degraus que davam para uma parte mais alta do cômodo. Um véu transparente escondia a mulher por detrás dele, sendo possível reconhecer o contorno de chifres da sombra acomodada em meio a confortáveis almofadas. Então o nome da mulher raposa era Maya, pensou Claudine que, incerta, apenas permaneceu de pé onde estava. Ficava desconfortável sabendo que estava sendo observada sem conseguir identificar o rosto da silhueta por trás do véu.
— Sim, Fumi-san. Eu trouxe a pessoa de quem comentei.
Um murmúrio pensativo se fez ouvir antes que as cortinas se abrissem, revelando a mulher de longos cabelos loiros que se servia de um pouco mais de saquê. Seus olhos eram frios como pedras de gelo quando se dignaram a fitar Claudine, que sentiu um arrepio de alerta percorrer seu corpo, por mais que a postura daquela mulher – Fumi – fosse relaxada, o corpo parcialmente deitado, com o rosto sustentado por sua mão livre. Era como se as unhas longas pudessem decepá-la sem qualquer esforço.
— E quem é você? Se apresente, mulher.
Maya a fitou de esguelha, dando-lhe um olhar assegurador, o que fez com que despertasse de seu estado de alerta. Não se sentia ameaçada – não ainda – mas se aquela Fumi era a líder daquela comunidade, um passo errado e isso poderia mudar. E não é como se fizesse algum mal revelar seu nome. Já sabia o de ambas no recinto.
— Me chamo Claudine.
— Você não é daqui, é?
— Não. Vim de terras longínquas a oeste.
— Entendo...
Um momento de silêncio se seguiu enquanto Fumi tomava seu saquê. Maya continuava com a cabeça abaixada, o que fez Claudine se questionar se deveria fazer uma mensura, porém se recusava a demonstrar submissão a alguém que não conhecia, por mais que emitisse uma aura poderosa. Aguardou pacientemente que ela terminasse de beber sua dose, observando quando Fumi se levantou, descendo os três degraus que separavam o nível que ela estava, caminhando na direção da vampira. Ela a fitou de modo analítico, até que sua expressão se suavizou com um sorriso discreto.
— Normalmente, não recebemos convidados, porém como ajudou um dos nossos, sinta-se bem vinda. Em breve, o banquete será servido. Maya?
— Sim, Fumi-san?
— Mostre a ela o local. Mas não demore.
— Claro. Deixe comigo.
Ela sorriu, ficando de pé e fazendo uma mesura antes de se voltar para a saída. Claudine imitou de modo mais contido, indo atrás da mulher raposa, esperando que se afastassem para sussurrar:
— Quem é a mulher assustadora?
— Fumi-san? — Um riso escapou delicado de seus lábios. — Eu pensava o mesmo quando a conheci. Ela é nossa chefe. Todos aqui foram protegidos por ela em algum momento. Ela acolhe aqueles que não tem lugar. Alguns se perdem e vão mais longe do que deveriam, mas sempre há espaço aqui para retornar.
— Foi o que aconteceu com você?
Claudine questionou sem pensar muito, lembrando-se de quando a encontrou machucada na floresta. Tinha certeza que havia sido obra de um humano. Talvez um caçador tivesse a atingido, porém Maya apenas sorriu de modo misterioso, não deixando transparecer qualquer emoção.
— Algo assim. Venha, vou te mostrar o lugar. Precisamos nos apressar ou vamos nos atrasar para a refeição.
Concordou silenciosamente, deixando que a raposa lhe explicasse o acampamento. Diferentes tipos de youkais eram acolhidos ali e moravam nas árvores ou nas tendas que havia visto. Todo o ecossistema era equilibrado, a própria floresta os acolhia e ajudava a sustentar o véu mágico. Cada ser vivo ajudava com as tarefas e se alimentavam do que encontravam na mata: frutas, peixes e outros animais, sem excessos. Claudine achou incrível aquele modo de vida. Só conhecia os excessos dos humanos e outras criaturas. Mesmo vampiros eram ambiciosos: ela mesma havia habitado por algum tempo um castelo, gostando do conforto e luxo proporcionado por tal construção. Só depois de perder sua amada que abandonou tudo, pois já não havia mais sentido em continuar ali.
Mas, pela primeira vez desde a tragédia, ela se divertiu. Não comeu muito, apesar da mesa farta, afinal não era aquele tipo de comida que satisfaria seu apetite. Apenas enganava o estômago e não durava muito tempo, então era quase que um desperdício. Divertia-se observando a interação entre os seres, até mesmo alguns pequenos animais haviam surgido para roubar comida, e imaginou que aquilo deveria ser uma família. Já havia se esquecido de como era. Mas ela não fazia realmente parte daquilo, fazia?
Quando todos estavam distraídos, ela se esgueirou para fora da roda feita em torno de uma fogueira, seguindo em direção à mata. Maya havia comentado que havia um lago próximo e não teve qualquer dificuldade em encontrá-lo, como se a própria floresta a guiasse através de suas luzes – e nem duvidava de que isso era real, visto a natureza etérea do local. Queria ficar um pouco sozinha. Já acostumada à solidão tudo aquilo lhe parecia estranho, quase desconfortável, no entanto não esperava que Maya estivesse a observando e visto quando saíra, seguindo-a com passos silenciosos.
— Não gostou da comida? Claudine-san.
A voz teria a surpreendido se a presença não tivesse se feito notar antes que Maya chegasse por trás, parando ao seu lado de frente para o lago, sobre o qual pequenas luzes flutuavam. Claudine balançou a cabeça em uma negativa divertida, rindo discretamente de sua piada particular.
— Não é isso.
— Achei que estivesse com fome.
Maya comentou, a curiosidade tomando conta de seu olhar de modo discreto. No entanto, fixos na figura da vampira, a pressionou a falar após um longo minuto de silêncio.
— Eu estou. Mas esse tipo de comida não satisfaz meu apetite. – Ergueu os olhos, a expressão séria encontrando-se com a de Maya. — Não precisa se fazer de sonsa. Você percebeu, não é?
—... Sangue, não é?
Maya fixou os olhos nos de Claudine, seu tom de voz sério contrastando com o suave e educado que havia usado até então. A vampira foi a primeira a quebrar o contato visual, desviando os olhos para a superfície do lago, sentindo vergonha do que era.
Mesmo em meio a tais existências extraordinárias, ela ainda era um monstro. Duvidava que qualquer um ali se alimentasse igual a ela. Era intrínseco a seu ser o status de assassina.
Sequer conseguiu assentir, sentindo-se suja, o seu silêncio sendo resposta mais do que suficiente. Com a falta de distrações, o ferimento voltava a incomodá-la. Não tinha energia para se curar e automaticamente pressionou a região junto ao corpo. Parecia um animal acuado, mas estava cansada. Geralmente conseguia se manter com sangue de alguns animais, porém já fazia muito tempo desde a última vez que havia caçado.
Maya percebia a dor impressa no olhar da outra e se aproximou com cautela, tomando a mão que escondia o machucado por baixo dos farrapos de roupa, retirando-a com delicadeza. Claudine chegou a rosnar baixo, mas não a afastou, apesar do corpo ficar tenso e a expressão se fechar. A lembrança do cheiro do sangue de Maya ainda era muito fresca e tentadora, mesmo que já não houvesse qualquer vestígio de sangramento na raposa e o carinho com o qual ela apertava de leve sua mão a tornava uma presa fácil a seus olhos. Hesitante, voltou novamente os olhos para Maya, sentindo-se envolvida por sua presença mais uma vez.
— Deixe-me te ajudar, Claudine-san. Como você me ajudou antes. Você pode ter o meu sangue, se for suficiente. — sua voz era dócil, assim como o sorriso quando seus olhos se encontraram.
Claudine riu como se ouvisse um absurdo, encontrando forças para repeli-la, recuando das margens do lago e dando as costas para Maya.
— Eu não posso. Eu prometi que não iria tomar o sangue de nenhum humano.
Antes que ela se afastasse, Maya a segurou pelo braço, aproximando-se de modo que a encurralou com o próprio corpo. Sua expressão era séria, quase sombria.
— Eu não sou humana, Claudine-san. E já percebi que você é gentil. Por que não pode aceitar uma gentileza em retorno?
Claudine engoliu a seco, sentindo o corpo fraquejar, e nada tinha a ver com sua fome ou o machucado que tinha.
— Vocês realmente se parecem...
Sussurrou, sua voz soando mais baixa e rouca do que gostaria. Mesmo no modo de agir, Maya a lembrava de Elizabeth, que ofereceu seu sangue a ela em mais do que uma ocasião. Era como se não conseguisse se refrear, as lembranças transbordando por sua mente, enquanto os dedos delicadamente afastavam as mechas castanhas do caminho do pescoço alheio, colocando-as delicadamente atrás de seu ombro. Os dedos gelados esbarraram na pele de Maya quando tiraram do caminho o tecido da vestimenta, enviando um arrepio pelo corpo da youkai com o contraste de temperatura. Mas ela não recuou, fechando os olhos ao sentir a respiração quente próxima a seu pescoço, arquejando quando as presas se fincaram na sua carne, enviando a sensação de queimação por cada centímetro de seu corpo enquanto seu sangue era sugado.
Claudine estava certa. O sangue de Maya era tão doce quanto parecia. Dele, poderia tomar até a última gota. Era simplesmente... Viciante.
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