When the Strawberry meets the Sky

28 The things you cannot see


Tatsuki sempre odiara que lhe mandassem ficar parada.

Era uma daquelas coisas que simplesmente não faziam sentido prático para ela.

Ficar parada era útil quando você estava esperando um oponente atacar primeiro. Era útil quando tentava ouvir os passos de alguém em um beco escuro. Às vezes, era até útil quando você tentava não ser percebida no meio de uma confusão.

Mas ficar parada só porque alguém mandou?

Isso era completamente diferente.

— De novo.

Ela encarou Yoruichi. As gotas de suor escorriam pela sua testa, descendo pela linha do maxilar firme e pingando no chão de madeira limpa da sala de treinamento subterrânea.

Yoruichi sorriu com deboche.

Tatsuki estreitou os olhos escuros.

— Você está brincando.

— Não.

— Estou fazendo isso há quarenta minutos.

— Trinta e dois.

A mulher de pele negra inclinou a cabeça, com um brilho felino nos olhos dourados.

— Você contou?

— É claro que contei.

Tatsuki soltou um suspiro pesado pelo nariz, os ombros subindo e descendo.

Então levantou as mãos novamente na guarda alta. Os pés estavam firmemente plantados no chão de madeira da sala subterrânea. Joelhos ligeiramente flexionados. Peso do corpo perfeitamente distribuído entre o calcanhar e a planta do pé esquerdo. Ombros relaxados.

Pelo menos era isso que Yoruichi havia mandado que ela fizesse.

O problema é que Tatsuki já sabia ficar em posição. Ela lutava havia anos. Não de forma profissional, nem em nenhum dojô sofisticado cheio de troféus e faixas coloridas. Simplesmente aprendera o que funcionava e o que não funcionava na rua e nos campeonatos locais, na maior parte das vezes apanhando, sentindo a dor no dia seguinte e se lembrando de nunca cometer o mesmo erro duas vezes.

Então, quando Yoruichi mandou que ela mudasse o ângulo do pé esquerdo em três graus pela sexta vez consecutiva, Tatsuki começava a suspeitar seriamente que aquilo tinha alguma coisa de pessoal.

— Você está fazendo de novo.

— Fazendo o quê?

— Lutando comigo.

— Achei que esse fosse o objetivo de estarmos aqui.

— Não — Yoruichi levantou um dedo indicador. — O objetivo é você aprender.

— Posso fazer os dois ao mesmo tempo.

Yoruichi riu, um som claro e expansivo que ecoou pelas paredes de pedra.

— Aí está.

Tatsuki franziu a testa, sem desfazer a guarda.

— O que?

— O motivo de eu gostar de treinar você.

Aquilo a pegou completamente de surpresa. E bastou uma fração de segundo de hesitação.

Yoruichi se moveu.

Tatsuki mal a viu se deslocar. Não houve som de passos, nem o estalo característico de deslocamento de ar. Sentiu apenas o toque suave de dois dedos no seu ombro esquerdo um segundo antes de perceber que Yoruichi já não estava mais à sua frente.

Estava atrás dela.

Tatsuki girou o quadril com violência, lançando um soco direto em rotação.

Tarde demais.

Outro toque, desta vez na altura de suas costelas direitas.

Ela atacou imediatamente com uma rasteira baixa, varrendo o ar.

Nada.

Yoruichi já estava a quatro passos de distância, parada como se nunca tivesse saído do lugar, abanando o próprio rosto com a mão como se sentisse calor.

— De novo.

Tatsuki cerrou os dentes, o gosto salgado do suor tocando seus lábios, e atacou.

Dessa vez, não tentou acompanhar visualmente os movimentos impossíveis de Yoruichi. Em vez disso, focou a atenção na base dos pés da mulher, tentando prever o disparo muscular.

Nada. O reflexo dos seus olhos falhou.

Yoruichi simplesmente desapareceu do seu campo de visão.

Tatsuki virou-se rapidamente para a esquerda.

Nada.

Um sopro sutil de ar atrás de sua orelha.

Tatsuki abaixou-se instintivamente, dobrando os joelhos ao limite. Uma mão aberta passou a milímetros por cima de seus cabelos curtos. Sem pensar, Tatsuki projetou o cotovelo direito para trás com toda a força de seu tronco.

“Pact!”

Yoruichi segurou o impacto do cotovelo na palma da mão aberta. A força do golpe fez o ar ao redor das duas se deslocar em um pequeno sopro.

Por meio segundo, as duas permaneceram imóveis. A garota de ginásio e a ex-Capitã da Unidade de Operações Especiais.

Então Yoruichi sorriu, o olhar brilhando de verdadeira aprovação.

— Melhor.

Tatsuki puxou o braço de volta com brusquidão, desfazendo o contato e ajustando a respiração descontrolada.

— Você está se movendo rápido demais.

— Essa é geralmente a ideia quando se tenta não ser atingida.

— Não — Tatsuki cravou o olhar no dela. — Estou falando sério.

— Eu sei.

O sorriso brincalhão de Yoruichi desapareceu ligeiramente dos cantos dos lábios. As sobrancelhas relaxaram, e a postura descontraída deu lugar a uma firmeza quase régia.

Foi então que Tatsuki percebeu que a brincadeira havia acabado.

— Você está tentando lutar contra aquilo que consegue ver — disse Yoruichi. — Se continuar dependendo apenas dos seus olhos contra o que existe lá fora, isso vai acabar fazendo você se machucar. Ou morrer.

Tatsuki olhou ao redor da sala ampla e silenciosa.

— Eu não consigo ver você quando você se move daquele jeito. Ninguém conseguiria.

— Exatamente.

Havia algo irritantemente simples e inquestionável naquela resposta.

Tatsuki cruzou os braços sobre o peito, sentindo a camiseta úmida de suor grudar na pele.

— Então o que eu deveria fazer?

— Pare de olhar.

Tatsuki encarou-a fixamente.

— Isso parece idiota.

— Parece.

— Ótimo.

— Mas não é.

Yoruichi aproximou-se devagar, seus passos totalmente silenciosos sobre as tábuas de madeira.

— Você passou a vida inteira confiando nos seus olhos e nos seus reflexos físicos. Você é uma lutadora nata, Tatsuki. Lê a postura do oponente, o equilíbrio, a tensão muscular nas coxas e nos ombros. Consegue perceber para onde o peso de alguém está pendendo antes mesmo que a pessoa consciente tome a decisão de se mover.

Tatsuki assentiu lentamente. Era assim que ela derrubava garotos duas cabeças mais altos que ela nas ruas de Karakura.

— Isso é o normal de uma luta.

— Para você e para os humanos, talvez.

Yoruichi encostou dois dedos leves no centro da testa de Tatsuki, bem entre as sobrancelhas.

— Mas no mundo espiritual, a forma física é só a última etapa do movimento. Você precisa aprender a perceber aquilo que não pode ver.

Tatsuki ficou em silêncio por um segundo longo. A pressão morna dos dedos de Yoruichi na sua testa parecia deixar o lugar formigando.

— Reiatsu? — perguntou, finalmente.

Os olhos dourados de Yoruichi se estreitaram levemente.

— Boa.

— Então isso é um treinamento espiritual?

— Não exatamente.

Tatsuki franziu o cenho.

— Essa foi uma resposta muito suspeita.

— Eu conheço você há menos de um mês e você já desconfia de mim a esse ponto?

— Você é uma mulher adulta que até ontem se transformava em um gato preto com voz de homem.

— Justo — admitiu Yoruichi, soltando uma risadinha baixa.

Tatsuki suspirou, soltando os braços ao lado do corpo.

Yoruichi cruzou as pernas e sentou-se diretamente no chão de madeira.

— Feche os olhos.

Tatsuki hesitou por meio segundo, mas obedeceu. As pálpebras baixaram, deixando tudo na penumbra avermelhada da sala.

— Agora respire.

Ela puxou o ar pelo nariz, sentindo os pulmões se expandirem, e soltou devagar pela boca.

— Relaxe os ombros.

Tatsuki soltou a tensão acumulada no pescoço e trapezóide. Os braços penderam pesados.

— Escute.

Tatsuki concentrou-se na audição.

A sala subterrânea estava em um silêncio denso. Se prestasse atenção, conseguia ouvir o leve e quase imperceptível rangido da madeira sob o peso de Yoruichi. O vento da tarde uivando do lado de fora da construção de Urahara. Em algum lugar mais distante, abaixo do solo, o som metálico de alguma ferramenta de Tessai caindo no chão.

Nada além disso.

— O que eu devo escutar? — perguntou Tatsuki, sem abrir os olhos.

— Nada.

Tatsuki abriu um dos olhos, encarando a figura relaxada de Yoruichi à sua frente.

— Você acabou de mandar eu escutar!

— E você está escutando.

Yoruichi sorriu.

— Mas está buscando sons físicos.

— Isso é o óbvio.

— Continue de olhos fechados.

Tatsuki soltou um grunhido de frustração, mas fechou o olho novamente.

Minutos se passaram em absoluto silêncio.

O suor começou a secar em sua pele, trazendo um arrepio frio. O ritmo cardíaco desacelerou. A mente agitada de Tatsuki, acostumada a reagir a estímulos imediatos, foi gradativamente forçada a se acalmar pela falta de visão.

Nada acontecia.

Então...

Alguma coisa mudou no ambiente.

Era algo tão sutil, tão absurdamente etéreo, que Tatsuki quase julgou ser fruto da sua imaginação.

O ar ao redor do seu corpo parecia ter ficado... mais denso. Não estava mais frio. Tampouco mais quente. Era como se a pressão atmosférica dentro da sala tivesse sofrido um pequeno solavanco, uma ondulação invisível na água de uma piscina parada.

Seus ombros se contraíram imediatamente.

— Aí — murmurou Tatsuki.

Yoruichi não respondeu nada.

Tatsuki abriu os olhos rapidamente. Yoruichi estava sentada no mesmo lugar, a apenas dois metros de distância, observando-a fixamente com uma intensidade diferente no olhar.

— O quê? — perguntou, desconfortável com a encarada.

— Você percebeu.

— Percebi o quê?

— Aquilo.

Tatsuki franziu a testa, a irritação voltando à tona.

— "Aquilo" não é uma resposta!

Yoruichi levantou-se num movimento fluido.

— De novo.

Tatsuki gemeu, jogando a cabeça para trás.

— Você está gostando disso, não está?

— Muito — admitiu a ex-Capitã, piscando um dos olhos.

O exercício continuou pela hora seguinte.

Era a coisa mais frustrante que Tatsuki já havia experimentado na vida. Não havia um alvo físico para esmurrar. Não havia um adversário visível trocando golpes. Não havia um objetivo claro que pudesse ser medido por pontos ou nocaute.

Às vezes, Yoruichi se movia ao redor dela em círculos sem dizer nada, e Tatsuki não sentia absolutamente nada. Às vezes, Yoruichi permanecia completamente imóvel, mas soltava farpas invisíveis de pressão no ar.

Às vezes, Tatsuki achava que tinha sentido algo e apontava na direção errada. E Yoruichi dizia que ela tinha falhado.

Às vezes, Tatsuki não via nem escutava nada, mas sentia um arrepio na espinha e arriscava um palpite — e Yoruichi dizia que ela estava certa.

E essa era a parte mais irritante de todas.

Não havia regras claras que sua mente lógica conseguisse catalogar e entender.

Ao fim da tarde, quando a luz alaranjada do pôr do sol começou a entrar pelas frestas altas da estrutura, Tatsuki estava completamente exausta — mais do que se tivesse corrido vinte quilômetros.

Sentou-se no chão de madeira, apoiando as costas suadas contra a parede de pedra fria, e virou metade de uma garrafa de água de uma vez só.

Yoruichi parou ao lado dela, de pé, olhando para o teto.

— Você está melhorando.

Tatsuki limpou o queixo com o dorso da mão machucada.

— Você fala isso para todo mundo que treina?

— Não.

— Mentira.

— Eu disse que você está melhorando...

Yoruichi olhou para baixo, o tom provocativo de volta.

— Não que você está boa.

Tatsuki lançou-lhe um olhar completamente vazio e sem paciência.

Yoruichi abriu um sorriso largo.

— Você é muito fácil de irritar, Tatsuki.

— Estou começando a entender perfeitamente tudo que o Ichigo já me falou de você.

Yoruichi arqueou uma sobrancelha, genuinamente divertida.

— Mesmo? E o que ele fala de mim?

Tatsuki pensou um pouco.

— ...Nada.

Por um momento longo, nenhuma das duas disse nada. O som do vento lá fora e a respiração compassada de Tatsuki preencheram o silêncio da sala subterrânea.

Tatsuki abaixou a cabeça, encarando os próprios nós dos dedos calejados e levemente vermelhos pelo treino de impacto.

— Por que eu?

A voz saiu bem mais baixa que o habitual.

Yoruichi inclinou a cabeça levemente para o lado.

— Como assim?

— Por que você está me treinando? De verdade.

Yoruichi não respondeu imediatamente. A ausência de uma piada rápida fez Tatsuki finalmente erguer a cabeça e encará-la.

— Estou falando sério. Você nem me conhece direito.

— Conheci o suficiente.

— Você só sabe que eu sei lutar karatê.

— Sim.

— E que conheço o Ichigo desde criança.

— Sim.

— E que vou continuar perguntando sem parar até você me dar uma resposta de verdade.

— Isso eu já percebi.

Tatsuki esperou, a postura ereta contra a parede.

Yoruichi sorriu, mas o brilho zombeteiro habitual deu lugar a uma expressão muito mais profunda e séria — o olhar de alguém que parecia carregar o peso de séculos de batalhas e liderança.

— Porque você não correu.

Tatsuki franziu a testa.

— O que?

— Na primeira vez que você viu alguma coisa que não conseguia explicar. Na primeira vez que a realidade deste mundo tentou esmagar a sua rotina comum.

As memórias vieram em cascata na mente de Tatsuki.

Os primeiros sinais inexplicáveis. O cosplay de samurai de Ichigo. Os monstros grotescos com máscaras brancas. As almas vagando pelas ruas. Coisas impossíveis e aterrorizantes que haviam invadido sua vida sem pedir licença.

E o fardo que o amigo que ela conhecia desde criança carregava; uma dor e um fardo silencioso dos quais ela nunca conseguiu alcançar, não importava o quão forte tivesse ficado nos campeonatos.

Tatsuki desviou o olhar para o chão de madeira.

— Eu estava com medo...

— Sei que estava.

— Ainda estou.

— Sei disso também.

Os dedos de Tatsuki apertaram a garrafa de plástico com tanta força que o material estalou.

— Eu simplesmente... não quero mais ficar alheia a tudo isso.

Yoruichi não disse nada. Apenas escutou, mantendo a atenção total em Tatsuki;

— Toda vez que alguma coisa monstruosa acontece nesta cidade, alguém manda eu me esconder. Mandam eu ficar de fora. Mandam eu correr. Dizem para eu deixar alguém realmente forte resolver o problema...

Tatsuki olhou para os nós dos próprios dedos, a frustração queimando em seu peito.

— E talvez eles estejam certos. Talvez eu seja só uma humana comum mesmo...

Ela ergueu os olhos escuros, brilhando com uma determinação crua e feroz.

— Mas estou cansada de estar ali... e não poder fazer absolutamente nada a não ser assistir as pessoas que eu gosto desaparecerem sem que eu nunca tenha a certeza de que irão retornar depois.

E pela primeira vez naquele dia inteiro, Yoruichi não sorriu, não fez uma piada e nem provocou.

— Você entende que ficar mais forte não significa que você sempre será capaz de proteger todo mundo? — avisou, a voz mais grave e calma.

— Eu sei.

— E que não significa que você não vai se machucar.

— Eu sei.

— E que você vai vencer.

Tatsuki sustentou o olhar da lendária Deusa do Trovão sem piscar um único segundo.

— Sim, eu sei.

Yoruichi voltou a sorrir — desta vez, um sorriso largo, orgulhoso e genuíno.

— Ótimo.

Ela se virou, desfazendo a tensão da cena.

— Então continuaremos amanhã de manhã.

Tatsuki soltou um gemido dramático, encostando a cabeça para trás na parede.

— Sério?

— Sério.

— Você é má, Yoruichi-san...

— Já me chamaram de coisas infinitamente piores — respondeu a mulher, já caminhando despreocupadamente em direção às escadas de saída da sala subterrânea.

Tatsuki observou a figura de Yoruichi se afastar pela penumbra. Então... ela percebeu.

Uma pressão fraca. Quase imperceptível. Não vinha de Yoruichi.

Tatsuki virou a cabeça para o canto oposto da sala, o olhar fixo no nada.

Yoruichi parou no primeiro degrau da escada. Nenhuma das duas falou uma única palavra.

Tatsuki fechou os olhos devagar.

Ali estava novamente.

Aquela sensação estranha e indefinível no peito.

Não era som. Não era movimento físico. Não era exatamente a pressão sufocante que ela sentira nos Hollow.

Era alguma coisa diferente. Algo que fluía do seu próprio ser, respondendo ao ambiente. Algo que ela ainda não sabia dar nome.

Ela abriu os olhos. Yoruichi estava olhado para ela do alto da escada, com um sorriso enigmático nos lábios.

Dessa vez, porém, a mulher não disse nada.

Tatsuki também não. Ela simplesmente colocou a garrafa de lado e se levantou do chão, limpando a poeira da calça.

— Até amanhã.

— Amanhã — respondeu Yoruichi.

E Tatsuki caminhou até a saída.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.