When the Strawberry meets the Sky

11 The day She was called back (Yes, the Bunny Chappy one)


O ar nos alojamentos da Décima Terceira Divisão estava quieto demais naquela tarde, carregado com uma umidade que parecia abafar até os pensamentos mais insistentes. Não era um silêncio incomum para quem conhecia o quartel — a Divisão de Ukitake sempre prezou por momentos de calma e contemplação —, mas havia algo naquela quietude que parecia contido.

Era como se o próprio ambiente estivesse prendendo a respiração.

Kuchiki Rukia, no centro do pátio de treinamento, exalou lentamente, controlando o ritmo de seus pulmões para que o ar saísse sem tremores. Embora vestisse um quimono simples de descanso, ela sentia o peso do uniforme negro de Shinigami — guardado à um canto, até segundas ordens — e a textura familiar da reiatsu fluindo por seus canais espirituais, concentrando-se em um único ponto na ponta de seu dedo indicador.

— Hadō nº 4… Byakurai — o comando foi murmurado, quase um segredo compartilhado com o mundo.

O feixe de energia azulada atravessou o espaço com uma precisão cirúrgica, atingindo o centro do alvo improvisado sem um miligrama de desperdício. Foi um disparo limpo, direto e impiedoso, exatamente como as lições de etiqueta e combate do Clã Kuchiki exigiam. Ela manteve a mão erguida por um segundo a mais, os olhos violetas avaliando a marca de queimadura no alvo com uma frieza clínica. Era aceitável, mas "aceitável" era uma palavra que raramente trazia conforto.

Abaixando o braço apenas para reiniciar o ciclo, ela não se deu ao luxo de descansar os tendões:

— Hadō nº 4… Byakurai! — e o segundo disparo saiu visivelmente mais rápido, uma linha de luz que parecia ignorar a resistência do ar.

Não era necessariamente mais forte que o anterior, mas carregava uma decisão renovada, uma vontade de ferro que tentava silenciar as dúvidas que insistiam em sussurrar no fundo de sua mente. Melhor, ela pensou, embora o aperto em seu peito não tivesse diminuído nem um pouco.

— Você já não treinou o suficiente por hoje? — a voz de Kotetsu Kiyone cortou o silêncio, vinda da varanda lateral.

Rukia não se virou; ela não precisava ver o rosto da oficial para saber que Kiyone estava com os braços cruzados e uma expressão que oscilava entre a preocupação e a irritação burocrática. A resposta de Rukia foi um "Não". Curto e seco. Uma barreira verbal que não admitia réplicas.

— Claro, claro — murmurou Kiyone, soltando um suspiro pesado que ecoou pelo pátio de madeira. — Porque repetir o mesmo Kidō pela centésima vez definitivamente não é um sinal de obsessão...

— Ei, deixa a Kuchiki em paz, Kiyone! — rebateu Sentarō Kotsubaki imediatamente, surgindo de trás de uma pilastra com sua energia caótica de costume. — Treinar é exatamente o que um Shinigami deve fazer!

— E parar antes de desmaiar também, sabia, seu brutamontes? — Kiyone devolveu o grito, aproximando-se do parapeito. — Se ela cair esticada no meio do pátio, quem vai ter que carregar ela para a enfermaria e explicar para o Capitão por que deixamos uma subordinada apagar?

— Isso é detalhe! — Sentarō estufou o peito, gesticulando.

— Não é detalhe nenhum—

— Já chega.

Rukia não elevou a voz e ainda assim funcionou. O silêncio caiu de forma quase imediata, ainda que carregado de pequenas indignações não resolvidas. Kiyone desviou o olhar. Sentarō cruzou os braços com um resmungo baixo.

Ignorando a pequena plateia, Rukia voltou-se para o alvo uma vez mais:

— Hadō nº 4… Byakurai! — o disparo foi tecnicamente perfeito, mas ela franziu levemente o cenho.

Não fora um erro crasso, mas houve uma diferença; uma oscilação mínima na frequência da energia, imperceptível para qualquer outro Shinigami ali presente, mas suficiente para incomodá-la como um grão de areia dentro do calçado.

Por um instante, o pátio da 13ª Divisão deixou de existir e a lembrança de um som deslocado, de um movimento rápido demais no horizonte e da sensação constante de que o mundo estava prestes a se partir ao meio inundou seus sentidos. E, inevitavelmente, no meio de todo aquele caos mental, surgiu a imagem dele. Kurosaki Ichigo. Impulsivo, irritante, um desastre ambulante que nunca aprendera a ler o ambiente e que era incapaz de seguir qualquer plano que não tivesse sido inventado por ele nos últimos cinco segundos.

E, ainda assim, funcionava.

Rukia manteve o olhar fixo no alvo, mas sua mente já não estava mais ali...

— Chama isso de “estratégia”? — disse Rukia, braços cruzados, observando Ichigo avançar contra um Hollow enorme.

— Claro que é! — Ichigo respondeu, ofegante, desviando por pouco de um golpe. — Se eu não parar ele agora, ele vai sair por aí comendo as almas das pessoas!

— Isto se chama “imprudência”!

— É a mesma coisa!

— Vocêee...!!

Ele sequer olhou para trás. Só jogou um:

— Tá, me explica depois!

E Rukia fechou os olhos por um breve instante. Inacreditável. E ainda assim…

Ela abriu os olhos novamente.

— Hadō nº 4… Byakurai!

O disparo atravessou o alvo com precisão. Limpo. Sem oscilação. Então outro fragmento de memória veio, sem aviso...

— Você podia, pelo menos, tentar ouvir antes de sair andando! É educado — ela disse, andando atrás dele com passos medidos enquanto ele avançava sem qualquer sinal de que pretendia diminuir o ritmo.

— Eu ouvi!

— Não, você não ouviu!

— Ouvi sim!

— Ichigo—

— Você só fala complicado demais!

Rukia parou. Respirou. E explicou, didaticamente:

— Eu não “falo complicado”. Você que se recusa a pensar por mais de três segundos!

— Três segundos é muito quando há um monstrengo faminto à solta por aí!

Rukia fez uma pausa breve, mas suficiente, abaixando a mão de forma lenta, e o pátio voltou, junto com o seu silêncio.

— Você tá sorrindo, Kuchiki! — a observação de Kiyone veio baixa, quase desconfiada.

Rukia sentiu o rosto aquecer... Por que raios a primeira coisa que lhe veio à mente ao ouvir “Você tá sorrindo” foi a cara idiota e irritante de Ichigo quando ela lhe apresentou o lançador de Soul Candy — customizado com a cabeça do Coelho Chappy?

— E-eu... Sorrindo?! É impressão sua!

— Tá sorrindo sim!

— Não estou...!

Sentarō inclinou levemente o corpo, tentando enxergar melhor o rosto dela.

— Eu nunca vi a Kuchiki sorrindo enquanto treina Kidō...

— Você também nunca vê nada! — Kiyone rebateu, sem desviar o olhar.

— Vocês... — Rukia suspirou, fechando os olhos por um instante. — Não precisam ficar aqui o tempo todo, tá? Devo estar sendo um saco nos últimos dias...

— Báa, a gente tá aqui pra te dar apoio moral! — Sentarō retrucou, indignado.

— E para sermos ignorados, o que é claramente parte do processo! — completou Kiyone.

Rukia abriu os olhos novamente.

— Hadō nº 4… Byakurai.

O feixe saiu ainda mais rápido, mais preciso, e sem hesitação. Então ela abaixou a mão, devagar.

Funcionava.

Ela nunca diria isso em voz alta, principalmente para ele, mas a verdade era simples: Ichigo não seguia regras, não respeitava estruturas, e não esperava autorização. Ele só avançava. Sempre.

Ela desviou levemente o olhar e percebeu que o alvo já não importava tanto quanto antes.

— Em cheio — disse uma voz masculina grave, mas suave, vinda da entrada do pátio.

Rukia não se sobressaltou, mas se virou. Ukitake Jūshirō estava ali, como se sempre tivesse estado. O haori branco repousava leve sobre os ombros, e a expressão tranquila não denunciava pressa alguma — embora sua presença, por si só, já tivesse reorganizado o ambiente ao redor. Kiyone e Sentarō reagiram imediatamente.

Capitão Ukitake! — os dois disseram quase em uníssono, endireitando a postura com uma sincronia surpreendente.

— Vocês dois, estão de guarda… Ou assistindo ao treino? — perguntou ele, com um leve sorriso que tornava difícil saber se aquilo era uma observação ou uma repreensão.

— É apoio moral, Capitão! — respondeu Sentarō, sem hesitar.

— E supervisão! A Kuchiki está vulnerável no momento — completou Kiyone, com mais compostura.

— Entendi — disse Ukitake, como se realmente entendesse.

Seus olhos então pousaram em Rukia. Não com peso, apenas com atenção.

— Kuchiki.

Ela se endireitou levemente, sem exagero.

— Capitão.

Houve um breve silêncio não desconfortável, mas significativo.

— Você tem esperado bastante, não? — disse ele.

Não era realmente uma pergunta. Rukia sustentou o olhar por um instante.

— Sim...

Ukitake assentiu, como se aquela resposta confirmasse algo que ele já sabia.

— Então não vou prolongar isso mais do que o necessário: você está liberada para retomar as suas funções como Shinigami.

O ar pareceu mudar de repente. Nada visível. Nada dramático. Mas presente. Kiyone foi a primeira a reagir:

— Finalmente!!!

— Eu sabia!! — completou Sentarō, cruzando os braços com satisfação.

Rukia não disse nada de imediato, incapaz de qualquer reação mais vigorosa, mas seus ombros relaxaram — apenas o suficiente para alguém atento perceber.

— Eu... Agradeço muito, Capitão!

A resposta veio firme e controlada, mas um pouco turva. Ukitake a observou por um instante a mais, como se estivesse avaliando não as palavras dela, mas o que vinha antes delas.

— Bem, como bem vemos, você não perdeu o ritmo — comentou, desviando o olhar brevemente para o alvo marcado pelas sucessivas descargas de Kidō.

— Não era a minha intenção perder, Capitão.

— Imagino que não.

Um leve silêncio se instalou. E então...

— Se não tiver outros compromissos imediatos por hoje… — continuou ele, com naturalidade — Gostaria que me acompanhasse.

Rukia ergueu o olhar.

— Capitão?

— Um treino — explicou, simples. — Já faz algum tempo desde a última vez.

Nada na fala indicava urgência ou peso, mas, ainda assim, Rukia não respondeu de imediato. Havia algo ali. Não no pedido em si. Na forma como ele a observava, como se esperasse mais do que apenas uma confirmação.

— Entendido! — disse ela, por fim.

Ukitake sorriu de leve.

— Ótimo.

— A gente pode ir também? — perguntou Sentarō, já dando um passo à frente.

Não — respondeu Kiyone imediatamente.

— Ei!

— Este será apenas entre nós dois. Me desculpem — disse Ukitake, gentil, mas sem espaço para negociação.

Sentarō abriu a boca para protestar, mas fechou logo em seguida.

— Certo, Capitão!

— Vocês dois, podem retornar às suas funções — acrescentou o capitão.

Sim, Capitão! — responderam os dois, agora perfeitamente alinhados.

Rukia lançou um último olhar ao alvo. As marcas de queimadura ainda estavam lá. Precisas, controladas e suficientes. Ela desviou o olhar e disse, por fim:

— Estou pronta.

Ukitake assentiu e, sem pressa, voltou-se em direção à saída. Rukia o seguiu sem hesitar.