Notas iniciais
Os fatos justificados na nota do capítulo anterior servem para esse também! Espero que alguém comente.... XD Até mais!

Bella saiu do teatro distraída e mais leve. Nada como música para aplacar o caos que sempre tomava conta de si em situações difíceis. Perder seu primeiro paciente foi difícil, mas agora com seus sentimentos aplacados, ela pôde perceber a razão nas palavras de Carlisle para ela antes. Ela não poderia salvar todos, mas eram as que ela conseguia que faziam a verdadeira diferença.

Anne Louise observava a amiga andar em silêncio ao seu lado. Pensava em como começar a conversar sobre Draco e, consequentemente, falar sobre Edward também.

—É normal eles não sentirem medo quando ficam sabendo?

A morena estava imersa em seus próprios pensamentos e só percebeu que a amiga falava com ela, não captou as palavras.

—Ahn? –Indagou.

A ruiva repetiu a pergunta.

—Você fala dos mortais?

—É. –A voz dela constatava o óbvio.

—Quem sabe sobre nós morre, Anne. Óbvio que no momento em que ficam sabendo eles sentem medo.

—Dois não morreram. –A ruiva fez questão de ignorar o tom sombrio da amiga.

—Edward não se considera muito vivo.

—Até onde eu sei, eu estou viva, então pouco me importa o que o telepata pensa. Só quero saber se ele sentiu medo.

Bella suspirou.

—Ele não sentiu medo de mim. Ele descobriu quando outros dois vampiros nos atacaram para matá-lo. Desses, ele ficou apavorado. Ele estava apavorado por mim. –Ela riu sem humor. –Mas depois disso... Tratou-me da mesma forma. Sem medo. Nunca.

Anne Louise assentiu, esperando a amiga fazer a pergunta óbvia:

—Ele não sentiu medo?

—Ele nem piscou.

—Hm. — Murmurou pensativamente. – Acho que alguns humanos simplesmente são esquisitos.

Anne Loise riu e Bella acompanhou-a em seguida.

—Ah, Anne... – Ela disse assim que retomou a seriedade. – Não dá como saber como vai ser. Eles podem ser parecidos, mas ainda assim são pessoas diferentes. Assim como eu e você.

—Mas como vou fazer para dar certo?

—Eu não vou ter essa resposta, Anne. – A resposta dela foi amarga.

—Se você fosse fazer tudo de novo, — A amiga sugeriu. – como você faria?

Bella suspirou.

—Acho que eu seguiria mais meu coração do que minha razão. Eu pensei demais, criei medos e limites que talvez não teriam existido se eu simplesmente... Tivesse aproveitado o que estava ali... Bem na minha frente.

Anne Louise assentiu e agradeceu o conselho. E elas voltaram a ficar em silêncio. Estavam perto do hotel quando ela voltou a perguntar:

—Como Edward cheirava para você?

—Como qualquer humano. Tentador. E tinha os aromas particulares dele, mas acho isso muito íntimo para compartilhar com você. Eu teria de caçar com mais frequência, se não estivesse tão acostumada com a presença próxima e constante de humanos.

—Eu caço... por causa dos alunos, sabe? Mas Draco não é apelativo para mim. Pelo contrário, ele tem um cheiro esquisito.

—Ele tem uma doença sanguínea.

Anne Louise a olhou surpresa:

—Como você sabe? – E meio segundo depois acrescentou. – Dá para saber pelo cheiro?!

—Algumas coisas alteram o cheiro. Doenças e drogas. Hormônios, se em excesso.

—Então você soube imediatamente o que ele tem?

—Não. Muitas doenças tem cheiros semelhantes. Mas dá para saber que é sanguíneo. E causa anemia.

—Eu nunca tinha reparado nisso. -A ruiva admitiu.

—Você não segue nossa dieta a tempo suficiente para começar a notar essas diferenças mais sutis. – Bella comentou, para acalmar a amiga de qualquer possível preocupação que poderia ter surgido com o detalhe.

Elas então chegaram ao hotel e a conversa sobrenatural morreu. Elas passaram a noite como duas amigas normais fariam: vendo muitos filmes, de diversos gêneros. Anne Louise evitou os dramas para prevenir que Bella entrasse em um de seus humores insuportavelmente depressivos.

Na manhã seguinte, elas foram à biblioteca e se perderam lá dentro por horas a fio, entretidas com livros e mais livros. Bella e Anne Louise circulavam por entre as sessões, interessadas por diversos assuntos, apreciando os livros e a atmosfera calma de uma biblioteca. Não completamente silenciosa, já que elas ouviam as viradas de folhas e sussurros de outros frequentadores. Mesmo assim, era um ambiente agradável para ambas, como um oasis no deserto cheio de caos da modernidade que as cercavam.

Elas não leram muito, tentaram ser discretas e não chamar a atenção pela velocidade e quantidade de livros que leriam, então, depois de muito circular, escolheram dois volumes cada uma e escolheram o canto mais solitário e escondido do prédio para ler em paz.

Bella se sentia como num retiro de férias, num templo de meditação particular. Alheia a todas as preocupações que a cercavam no seu dia a dia. Cercada de livros, ela se sentia plena. Anne Louise notou o semblante da amiga relaxar e o leve erguer do canto dos lábios dela, enquanto seus olhos devoravam rapidamente as palavras. Isso, por si só, fez o passeio valer à pena para ela.

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A tarde se arrastava. Jasper estava deitado em sua cama de olhos fechados ouvindo os sons do lado de fora da casa, o vento batendo nas árvores e sons de animais pequenos que estavam na parte da floresta mais próxima da casa. Alice havia saído para comprar os itens que ela julgava necessário para a viagem dos dois que se aproximava.

A casa estava vazia, o que era incomum, mas Carlisle e Esme aproveitaram para caçar juntos, Emmett e Rosalie foram ao cinema em um de seus vários “encontros”, enquanto Bella e Edward estavam fora com o novo casal.

Jasper estava apreciando a solidão e a súbita ausência de sentimentos intensos e conflitantes de uma casa cheia. Longe dele ficar entediado com a calmaria. Faltava Alice com ele para tudo estar perfeito.

A porta da frente abriu e fechou rapidamente no andar de baixo. Jasper nem se deu ao trabalho de voltar sua atenção a quem chegara. Ele deixava sua mente vagar pelas imagens de lugares que ele já conhecera, buscando aproveitar a tranquilidade daquele momento, mas foi interrompido por vozes abaladas que tentavam se manter o mais baixo possível. Abriu os olhos ao mesmo tempo em que sentimentos de preocupação e angústia o atingiram. Também preocupado, ele ergueu o tronco, sentando-se, buscando entender a origem da situação. Rosalie e Emmett, as vozes que vinham do quarto ao lado, fizeram com que o loiro levantasse e praticamente materializar-se na porta do quarto ao lado do seu.

—Rose, acalme-se e diga o que foi. –Emmett murmurou.

Rosalie apenas respondeu com a voz embargada, negando com a cabeça:

—Não foi nada. Já vai passar.

—Rose. Por favor.

—Eu só... –Sua voz tremeu. –É bobo, eu sei, mas eu vi alguém parecido...

Emmett inundou-se de compreensão.

—Ah, querida! Ele não pode mais te machucar. Cuidamos disso, lembra-se? Nenhum deles mais.

Jasper abriu a porta silenciosa e rapidamente, encontrando o cunhado abraçando e beijando o topo da cabeça de Rosalie, que respirava pesadamente, de olhos fechados com força, tentando dominar os sentimentos de angústia, raiva e pânico que ameaçavam dominá-la. Com o movimento da porta, ambos ergueram a cabeça para ver o soldado na porta com uma expressão, tão preocupada e angustiada, que surpreendeu Emmett. Ele se afastou dela, dando espaço para o irmão que se aproximava, e Rosalie rapidamente compôs sua expressão em uma face neutra.

—Rosie. –Ele murmurou, entrando no quarto e ajoelhando em frente a ela.

Ele segurou sua mão transmitindo-lhe o quanto de conforto podia, mas ela afastou-o e, olhando sobre ele, disse:

—Está tudo bem, Jazz. Pode voltar ao que quer que estava fazendo.

—Não, Rosie. Eu sei que não está tudo bem. O que aconteceu?

—Nada demais.

—O que você não conta a seu próprio irmão?

—Vai embora, Jasper. -Disse ela, ficando irritada tanto com a insistência quanto com a própria vontade de se render ao conforto fraternal.

Emmett, percebendo o desconforto de Rosalie prante a insistência de Jasper, colocou a mão sobre o ombro dele, reforçando o pedido dela.

—Emmett, se não se importa, gostaria de conversar com minha irmã. A sós.

—Lamento, mano, mas Rose não quer.

O olhar severo que Jasper deu-lhe agravou sua postura, que se tornou mais firme em defesa da vontade da esposa. Prevendo o conflito que poderia começar ali, ela suspirou irritada e impaciente.

—Pode deixar, Emmett. -Sua voz demonstrava sua ansiedade.

Contrariado, ele saiu e a loira passou o olhar da porta para o irmão.

—O que quer de mim, Jasper?

A pergunta exasperou-o e ele se ergueu do chão exclamando, mas sem erguer a voz:

—O que eu quero de você?! Rosie! Você sabe o que eu quero! Você nunca deixou de me confidenciar nada! Você nunca mentiu pra mim antes! O que aconteceu com você? Desde quando resolveu considerar-me um estranho na sua vida?!

—Eu não fiz nada, Jasper. Você fez. -Rosalie também não precisou erguer a voz para demonstrar todo seu ressentimento. -Você foi embora. Por quase 200 anos, você esqueceu que eu existia. Você prometeu que voltaria, mas três dias antes do meu casamento você e seu exército mentiram pra mim dizendo que você morreu! -Ele ia contestar, mas ela não permitiu. -E quanto você aparece, aparece para mim com uma desculpa deplorável de vampira para dedicar seu afeto. Sério que eu era tão patética quanto Isabella para você colocá-la como minha substituta? Eu estava aqui, feliz por te ver, ansiosa para ter você pra mim de novo, mas você dedica toda sua energia pra ela e para Alice. Você que fez de mim uma estranha, não o contrário.

Jasper estava chocado. E por alguns segundos, viu-se incapaz de formular uma resposta. Finalmente via através dos olhos de Rosalie os últimos anos desde que se reencontraram. Ela lhe pedira um tempo para contar como chegara até ali, mas ele não imaginou que o tempo há muito havia chegado e ela estava esperando ele dar o primeiro passo. Mas se ela pediu o tempo, ela devia ser a primeira a se pronunciar, não? Será que estava tão concentrado em Isabella para ver que a sua gêmea precisava dele também? "Não, Rosie tornou-se uma mulher independente, não precisa de mim. Mas, mesmo antigamente, quando se tornara uma mulher crescida, Rosie compartilhava comigo seus mais simples pensamentos e me consultava para qualquer coisa." O peso do que deixara passar começara finalmente a se mostrar. Rosalie o encarava enquanto a realização tomava conta das feições do irmão.

—Caiu a ficha?! -Perguntou sarcasticamente. -A minha lista de decepções com você só aumentam Jasper. Parece até que está puxando nosso pai.

Jasper congelou com a comparação. Pensar no pai biológico mesmo depois de todo aquele tempo ainda enchia-o de raiva. Quando falou, sua voz saiu gélida:

—Como pode me comparar com ele?! -Então veio a dor. -Como?!

—Você me deixou sozinha com ele para ir para guerra. Você fugiu sem mim!

—Eu prometi que voltaria!

—MAS NÃO VOLTOU! -Gritou ela, perdendo o controle de suas emoções. -Eu fiquei esperando à mercê do pai e do Royce. -Ela praticamente rosnou o nome. -E você não voltou e eu virei essa coisa! -Apontou para ambos, fazendo alusão clara à nova existência deles. -Enquanto eles me faziam de... -Rosalie hesitou ofegante.

—Enquanto eles o quê? -Jasper interrompeu, a ira tomando conta. Rosalie desviou os olhos. -Rosalie Lilian Hale! O. QUÊ. ROYCE. E. O. PAI. FIZERAM?!

Rosalie começou a tremer violentamente se afastando e o loiro instantaneamente foi acudí-la, mas foi empurrado.

—Não! -Gemeu. -Você estava com Isabella enquanto eu... eu...

—Rosie, não estive com Bella até 1864(?). Eu ia voltar, juro que ia, mas eu fui transformado e como você esperava que eu voltasse pra casa sedento de sangue? O que eu fiz, Rosie? Eu só queria... -Ele soluçou.

—Royce queria um troféu, Jasper. Uma esposa bonita. Ele apareceu em casa questionando por que o seu sumiço faria nosso casamento ser adiado. Eu estava em luto, sofrendo por você. Mas ele não queria saber de verdade. Ele bebeu com o pai. E o pai... Depois, ele... ele... Ele deixou Royce vir ao meu quarto e...- Ela não conseguiu continuar, ela não queria continuar. O pai disse que é o que eu merecia por ter matado mamãe, que era o mínimo que eu podia fazer, já que não passava de um estorvo, que eu não prestava.

A dor de Jasper uniu-se com a de Rosalie, mas a culpa era só dele e o sufocava, mesmo ele não precisando de ar.

—Rosie! -Soluçou ele abraçando-a com força, mas ela o afastou.

—Onde você estava quando eu precisava de você, Jasper?

—Maria me transformou para compor o exército dela. Os exércitos do sul, já ouviu falar? – Ela assentiu. – As guerras por sangue... -Jasper disse olhando para a parede. -Eu fiquei nas guerras do sul e quase sucumbi ao ódio, a matança, o luto, a raiva... Eu não podia voltar para casa daquele jeito ou mesmo desse, entende, Rosie? -Ela assentiu, à contragosto, mas começou a entender o que houve com o irmão.

—Minha transformação não foi bonita também -Ele continuou. -e eu nunca vou me orgulhar do que eu fiz. Mas a sua, irmã, -Ele inspirou. -O que aconteceu com você me faz questionar se eu não deveria ter voltado, mesmo correndo o risco de te matar. -Ele soltou uma risada seca e amarga. -O que eu estou dizendo? -Balançou negativamente a cabeça derrotado.

Ele andava de um lado para o outro, os punhos cerrados nas costas. Rosalie o observava, surpresa por perceber que também pouco sabia sobre o irmão, mas ainda ressentida demais, orgulhosa demais para tomar qualquer atitude diferente de sua imobilidade.

—Eu estava tão sedento de sangue que nunca conseguiria voltar. Você tem razão. -Ele parou e olhou para ela. -Eu nunca deveria ter te deixado, em primeiro lugar. Eu falhei em te proteger desde o princípio e quando tive a chance de corrigir as coisas, eu apenas as ignorei. Quando eu te vi de novo, eu deveria ter insistido, mas fiquei esperando igual a um tolo por você chegar e dizer que era a hora. Na verdade, agora vejo que você me deu muitos sinais, mas eu não os vi. Deveríamos ter compartilhado nossa trajetória. -Ele caiu de joelhos aos pés da irmã. -Deus! Perdoe-me, Rosie! Perdoe-me e permita que eu repare meus erros!

Rosalie deu-lhe as costas e disse, duramente:

—O que se passou não pode mais ser mudado, Jasper. Sem contar que nem eu nem você somos os mesmos de quase dois séculos atrás. Você já tem alguém para cuidar.

—Eu sei que dediquei muito tempo à Bella, mas nunca pense que me esqueci um segundo de você! Eu apenas achei que tivesse se tornado independente, que estava feliz... Você se casou e eu achei que não quisesse eu grudado em você e em seu casamento. Eu não queria me impor... Eu esperei você vir até mim. Você que me pediu um tempo em primeiro... -Ele tagarelava desolado e sua voz foi morrendo.

Rosalie sentia a dor e a culpa emanando de Jasper e, apesar de ainda ressentir-se, ainda amava o irmão e odiou seu sofrimento. Com um suspiro disse:

—Não conseguiremos resolver isso tudo hoje ou amanhã. Você precisa digerir tudo isso e eu preciso compreender as razões que você me deu e descobrir como perdoá-lo. Vá embora com Alice e quando voltar conversaremos de novo.

Jasper renovou-se com a esperança e, erguendo-se disse:

—Vou ser digno de você novamente, Rosie. Se me perdoar, fará de mim muito feliz.

Então ele saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Rosalie olhou por pouco tempo para a porta fechada e suspirou. Não sabia se o que estava fazendo era o melhor para ela ou se era o certo, mas estava tão cansada de todos os conflitos e distanciamentos na casa. Tudo o que ela sempre quis era uma vida tranquila e feliz.

Apesar da família que os Cullen se tornaram para ela, apesar de Emmett estar absolutamente feliz, a sua família só achava que deveria resolver o problema de dois idiotas bem cabeça-dura. Ela não sabia quem detestava mais, Edward ou Isabella.

Ela e Emmett cruzaram com ele por um acaso ela nem sabe precisar o ano. Quando eram nômades, eles não mesuravam o tempo, pois não havia a necessidade para eles. A vida era simples, só ela e Emmett.

Mas agora ela não queria pensar no irmão birrento dela. Tinha mais a organizar dentro de si e a digerir sobre seu irmão biológico. Suspirou mais uma vez quando ouviu a porta abrir e fechar, sentindo-se confortada quando sentiu os braços fortes de seu marido a envolvendo.

—Como duas pessoas, antes tão próximas, tornam-se completos estranhos um para o outro? -Perguntou-lhe.

—Não pense no como. Pense em conhecê-la de novo. -Ele respondeu, mesmo sem saber direito do que se tratava.

Rosalie sorriu. Uma das coisas amava (e às vezes detestava) em Emmett, era a simplicidade que ele encarava o mundo. Às vezes era frustrante o quão raso ele poderia parecer, mas às vezes parecia trazer uma sabedoria mais profunda do que ela imaginava nessa característica. Dessa vez, ele provavelmente tinha razão, mas falar era mais fácil do que fazer, com toda a raiva que ela ainda sentia. Bem, a viagem de Jasper iria ser bem benéfica.

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No fim da tarde, Alice retornara com as compras e Jasper ajudou-a a carregar e guardar tudo, mesmo que ela não precisasse. Ela, tendo visto o que se passara, antes mesmo de sair de casa, deu apoio emocional silencioso ao marido, respeitando seu espaço. Jasper apreciou e ambos ficaram em seus aposentos, juntos, refletindo. Em algum momento, ele sentiu a mão da esposa trilhando pelo seu tórax, da mesma forma que a dele, incoscientemente, trilhava pelas suas costas. Quando perceberam, já estavam emaranhados entre si, compartilhando um calor que era só deles.

Anoiteceu, Edward voltou para casa. Poucas horas depois, Esme e Carlisle retornaram. A atmosfera emocional estava mais calma do que nos últimos dias, Jasper notou, mas ainda assim, ele não teria reclamado se tivesse tido mais horas de “paz e solidão”.

A surpresa veio na metade do próximo dia, quando Bella voltou para casa tão serena e contente, que Jasper teve de se segurar para não descer e interrogar a irmã para saber o que acontecera no dia anterior. Precisava respeitar o espaço dela e a deixar esse hábito de querer cercá-la de cuidados. Ele tinha uma família inteira para dividir dessa tarefa com ele, sendo que agora ela precisava muito menos, com Edward vivo. Apesar dos conflitos, ele notava que o sofrimento da irmã era bem menor desde que Edward ressurgira dos mortos. “Antes vivo e me odiando, do que morto.” Ela lhe dissera mais de uma vez.

No quarto do andar de cima, Edward também ouvira a chegada da morena, sua troca de palavras breve com os pais, e sua retirada para a cabana. Contra a sua vontade, voltou a pensar nela.

Vê-la tão frágil e exposta para ele quanto há dois dias atrás — quando Anne Louise e Draco entraram juntos pela prota da frente — fez com que ele se lembrasse de quando ele era humano e podia ver apenas a doçura e delicadeza em todos os gestos dela, quando ele acreditava que ela o amava. Era difícil para ele dois seres tão contrastantes: a Bella de que ele se lembrava e com quem convivia e o monstro que o enganou e era descrito pelo antigo livro que ele roubara dela.

Aquele livro em francês parecia uma confirmação de suas suspeitas mais obscuras e o atormentava ao mesmo tempo. Isabella nem sempre fora civilizada. Bella era um monstro como os que o atacara em Chicago há quase dois séculos. Um padre relata sobre uma succubus, um demônio em forma de mulher, que seduzia os homens e depois os matava pelo seu sangue.

Ele poderia pensar que se tratava de qualquer outra criatura que não aquela que morava na mesma terra que ele. Não haviam descrições físicas. Obviamente, o religioso relatou histórias que chegaram até ele de familiares das vítimas. Todavia, outros indícios apontavam que suas suspeitas estavam certas:

1: A primeira vez que ele viu aquele livro, a memória quase completamente apagada pelo tempo e pelo veneno, na biblioteca do palacete em Chicago, Bella proibiu-o veemente de sequer se aproximar daquele volume. Mesmo que na época ele não falasse nem o francês atual, imagine o arcaico. Por que ela esconderia dele se não fosse particularmente ligado a ela? Talvez a envergonhasse. Bella odiava ser vampira. Seria por culpa dos crimes que cometera?

2: Era uma das poucas possessões que carregava em todas as mudanças. Oculta de todos. Reforçando a importância de seu conteúdo para ela. Mesmo assim, ela se recusava a consultá-lo ou olhar para ele. Diferentemente de todas as velharias que ela preservara, aquela era a única sempre guardada à sete chaves e nunca à mostra. Tanto que ela nem sentiu falta dele ao montar sua cabana. Ela o guardava, mas o evitava.

3: Quando acordara pela última vez, Edward foi recebido por uma vampira estranha, onde Bella deveria estar. Essa criatura de olhos vermelhos lhe contara história semelhante a do livro. Disse-lhe que era para ele ter sido apenas mais um em um longo histórico e que ela fugira com o verdadeiro parceiro dela. A única discrepância naquela situação se revelara quando ele viu que Jasper não era parceiro de Bella de forma alguma, apesar de sua lealdade quase canina a ela.

Edward era tomado pelo desgosto por tudo aquilo. Como fora enganado, como aquele livro descrevia monstruosidades que ele não imaginava possível. Como ele esteve sempre errado. Como sua humanidade fora desperdiçada em um ilusão estúpida.

Ainda assim, quando ele olhava ao redor, quando olhava para suas memórias... Como aquela mulher, aquela médica, pooderia ser um monstro como os outros de olhos vermelhos? Quão dissimulada e manipuladora ela teria de ser para ter iludido todos os vampiros daquela residência? Inclusive Carlisle, cuja sabedoria, compaixão e perspicácia levaram Edward a se afeiçoar tão rapidamente. Como Bella poderia manipular criatura tão amável como Esme?

Ele não compreendia. Ele vivia confuso desde que a reencontrara, desde que era forçado a se lembrar. Confusão, incerteza, mágoa. Isso o enfurecia. Essa raiva suplantava tudo mais.

O telepata reprimiu um rosnado. Estava tão consternado que só percebera os pensamentos se aproximando de si quando a porta se abriu.

—Vamos caçar? -Rosalie convidou-o e logo desapareceu. Emmett em seus calcanhares.

—Aposto que topa perder para mim depois, não? – O irmão piscou para ele, flexionando os músculos.

Edward os seguiu. Precisava se distrair de toda a raiva de alguma forma. “Nada como descontar na comida, não é mesmo?” Pensou cheio de ironia.

— Perder como perdi todas as últimas, Emmett? – Ele respondeu, por fim, zombando de todas as vitórias contra o irmão, graças a telepatia.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.