Notas iniciais
POV's Frank:

—— E se você morresse?

—— Nada mudaria.

—— Nada?

—— É, eles não mudariam – a respondi com toda minha convicção. – Eles não mudariam nem depois de mortos, Jamia.

Já fazia cerca de uma hora após o anoitecer, o céu havia sido naturalmente colorido por algum subgênero de azul-marinho, o luar redondo, o manto estrelar, e Jamia e eu estávamos conversando sobre o mesmo assunto que atingiu nossos pensamentos assim que cruzamos os vastos portões do colégio, logo que o sinal que prevê o término do último período repercutiu.

Nós éramos jovens, apenas dezesseis e dezessete anos, e andávamos despreocupadamente pelas ruas, o caminho sereno, a brisa de verão companheira. Entretanto, nós estávamos por demasiado atrasados para a hora do jantar. O banquete era servido costumeiramente as sete em ponto, era quase oito. E eles realmente se importavam com o horário, nós não. Só tínhamos o nosso momento a sós no qual poderíamos somar e dividir nossas tristezas, no caminho entre a escola e a esquina do poste de iluminação.

Geralmente dividíamos as minhas tristezas, porque Jamia Nestor era aquela típica garota estudiosa que sempre teve a sua vidinha metodicamente regrada, com dois irmãos cursando a faculdade, seus pais bem resolvidos. Eu não. Eu nunca tive a minha vidinha parcial ou inteiramente regrada, nunca tive irmãos, e os meus pais nunca estiveram nem próximos de serem resolvidos.

Jamia e eu éramos diferentes, tínhamos estilos de vida bem distintos, e era justamente por isso que nós conversávamos e trocávamos ideias sobre como eu poderia mudar as coisas na minha vida, mudar o que não gostava na minha casa, mudar os meus pais, e principalmente sobre como eu poderia mudar o relacionamento destrutivo que eles tinham.

Jamia sempre foi a minha apaziguadora de humores e conselheira. Ela é a minha melhor amizade desde o jardim de infância. Nós nos conhecemos na gangorra, ela era a garotinha que sempre queria ficar no alto do brinquedo e eu o projeto de anão que sempre teve medo de altura. Foi o destino quem nos juntou. O sagrado destino. Ela sempre soube reconhecer os meus conflitos domiciliares melhor do que qualquer outra pessoa no mundo, ela sempre soube do clima hostil que reprimia o lugar que eu deveria poder chamar de lar, ela sempre soube abrandar a dor que age nos meus ossos. É sério, eu venho morrendo por dentro. E sempre. E sempre. Estou quase morto.

Os meus pais sempre viveram em pé de guerra e eu sempre fui o soldadinho de chumbo no meio do fogo cruzado deles. Não, de chumbo não. Eu sempre fui o soldadinho de carne, porque se eu fosse o soldadinho de chumbo, não teria o meu coração tão partido.

Jamia cruzou os braços e torceu o nariz, ainda pensativa, me disse:

—— Eu acho que eles chorariam no seu enterro.

—— É? – ela meneou a cabeça. – Ninguém iria ao meu enterro, Jam. Nem mesmo eles. – a respondi com meu cenho retorcido, estacionando meus passos deliberadamente.

Não, eles não iriam ao meu enterro. Meus pais eram do tipo de pessoa que abririam mão dos direitos e responsabilidades sobre o único filho e herdeiro deles, apenas para não terem de nutrir qualquer tipo de afeição.

É, eu realmente não acreditava que algum deles fosse velar o filhinho bastardo em seu próprio velório, e tão pouco me importava com isso. Mas Jamia me pareceu querer acreditar na própria mentira que havia diligenciado para consolar a minha alma perdida.

—— Eu iria ao seu enterro. – ela disse e continuou andando.

Ela iria, é?

Eu quase ri daquilo que ela dissera.

No entanto, como ela me venceu com sua falácia, acabei em seu encalço por meio de uma breve corridinha.

—— Sério? – ironizei. – E você choraria também?

—— Mas é claro que eu choraria por você, Frankie! – ela colocou as mãos na cintura. – Como não iria chorar?

Eu a assisti enquanto ela estava com as suas costas voltadas para mim, os seus cabelos dançavam ao som mudo que a brisa soprava contra os nossos ouvidos.

—— Então você seria a única que lamentaria a minha falta, Jam – soltei as palavras com um suspiro doído.

Eu sofria, então Jamia se virou para poder olhar em meus olhos, nós quase choramos. O poste de luz se fez presente, aquele era o momento no qual nós costumávamos ensaiar um aceno e dizíamos boa noite e tchauzinho. E eu sempre odiei essa maldita necessidade de se despedir das pessoas que nós gostamos de ter ao nosso lado, nunca queria ser o primeiro. Quase sempre era Jamia quem tinha que tomar alguma iniciativa, ao perceber que eu não o faria nem sobre tortura física ou psicológica, como se ela entendesse perfeitamente que o motivo do meu receio ao deixá-la partir significasse o recomeço de minha batalha emocional e solitária com os meus pais. Ela sempre conseguiu sentir a minha dor, ela sempre conseguiu me ver além das costuras, e por isso mesmo, ela sempre se obrigou a me abraçar com excessivo carinho, o seu beijo estalando na minha bochecha corada, o seu conselho ecoando nos meus ouvidos alarmados.

—— Se eles estiverem na cozinha, apenas vá direto para sua cama. Eu vou esperá-lo bem aqui, com o seu café da manhã, hm?

Era verdade, todas as manhãs ela me esperava ansiosamente à sombra do nosso poste de iluminação favorito, com pães e bolo embrulhados em uma espécie de trouxinha xadrezada.

Jamia sabia que eu não encontraria um jantar sossegado quando entrasse em casa, ela dizia que eu ainda estava em fase de crescimento, e que por isso necessitava me alimentar bem para poder ganhar alguns centímetros. Eu quase nunca sabia o que fazer para retribuir o seu carinho.

Geralmente eu somente dizia:

—— Eu amo você.

—— Eu também amo você, Frankie – ela respondia e logo ia caminhando de costas para a rua.

Jamia e eu nos assistíamos com ares de riso e lágrimas, e quando eu já não conseguia distinguir as características de seu rosto esculpido, girava meu corpo para a esquerda e secava os meus olhos. Eu nunca gostei que Jamia me visse tão sensibilizado. Mas a verdade era que eu me sentia machucado por dentro, porque eu sabia que Jamia encontraria uma mesa bem arrumada e toda a sua família a esperando para o jantar, enquanto eu encontraria toda a porcelana estilhaçada no chão, os meus pais discutindo sobre o quão estavam insatisfeitos.

Não me parecia ser justo, e não era. Por isso mesmo que eu sempre tentava chegar o mais tardar possível em casa, e quando chegava, seguia o conselho da minha amiga: Eu girava a maçaneta da porta de entrada com muito cuidado, me esgueirando sorrateiramente. O problema era que por mais que eu fosse como um felino, quase sempre era surpreendido logo no corredor.

Não foi diferente desta vez.

—— É ESSA A EDUCAÇÃO DE SEU FILHO? – meu pai gritava. – ELE É UM VAGABUNDO QUE VIVE NA RUA! IGUAL A VOCÊ, SUA VADIA!

—— COMO É? POR ACASO SOU EU QUEM VIVE CAINDO DE TÃO BÊBADO NAS QUEBRADAS DE BELLEVILLE? – minha mãe se defendia.

Eu tentei usar a discussão como fuga. Mas, quando escutei um copo indo de encontro ao chão, paralisei.

—— REPITA ISSO, SUA PUTA! – meu pai estava perdendo o controle.

—— BÊBADO, É ISSO O QUE VOCÊ É!

E eu sabia exatamente o que iria acontecer, não precisaria ver até o final.

Ele disparou na direção dela, e quando a alcançou, entrelaçou os dedos ao redor de seu fino pescoço. Ele queria enforcá-la, os meus olhos se arregalaram, o meu oxigênio acabando, e tudo o que eu mais queria era ter aprendido a rezar, para que pudesse pedir a Deus que ele não a matasse. Mas eu não sabia rezar e ele tinha as suas mãos bem fechadas, ela estava descolorindo aos poucos, e eu juro que tentei me mover, queria ir até ele e acertá-lo com um taco de baseball. Mas, apesar do taco estar ao alcance das minhas mãos, os meus pés não cederam nenhum passo, era como se a minha vontade não significasse absolutamente nada, eu estava enterrado, o meu corpo tremendo como se eu fosse entrar em colapso, o meu sangue fervendo como se eu fosse explodir de dentro para fora. Eu sentia raiva, eu sentia medo, eu sentia repulsa, sobretudo, eu sentia muita vontade de acabar com a vida desgraçada do meu progenitor. Entretanto, eu sabia que não podia fazer nada além de assisti-los naquele momento íntimo e sádico.

O tempo eternizou a sensação de morte, porém não durou. Rapidamente as mãos que sufocavam foram descendo e descendo, primeiro aos seios, depois aos quadris, logo ele já a envolvia através de sua esguia cintura e a acomodava para o suposto ósculo.

E eu ali, ainda assistindo.

De repente o ódio me subiu a cabeça, e, para não acertá-los com o taco que eu já tinha em mãos, retornei a porta de entrada e fugi daquela encenação barata. Eu sempre detestei tudo isso, eles brigavam e voltavam, brigavam e voltavam, isso não era nada saudável. Eu só queria que eles se resolvessem, afinal, que espécie de amor era aquele?

Fiquei debaixo do poste de iluminação, esperando ansiosamente o dia acontecer, para me encontrar com Jamia e sua trouxinha de boas intenções, comer e beber dos seus carinhos, enterrar meu rosto em seu colo, de seios fartos, e simplesmente chorar até que aquela dor fosse embora para sempre.

Era apenas aquele tipo de amor que eu queria e precisava.

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