Notas iniciais
Olá, amiguinhos. Venho deixar mais um capítulo para vocês. Espero que estejam gostando da história! ♥

Hogwarts

2 de Setembro

1971

Aurora abriu os olhos e estava de volta nos terrenos espessos de Hogwarts. Ela levantou-se, e logo notou a presença de James e Sirius com ela, cada um de um lado. Os três não estavam mais no misterioso paraíso secreto, mas também não se encontravam perto da árvore estranha com buraco no meio. Na verdade, o trio se encontra nos jardins, perto de onde sua aventura noturna havia começado ao pular da janela. Eles tinham uma vista privilegiada do lago, que se encontrava a apenas poucos metros de distância de onde eles estavam -ela notou- sentados.

—O que… O que aconteceu?

—Você apagou por um tempo depois que saímos do Paraíso do James. — Informou Potter olhando-a. -Então carregamos você pra cá.

Ela piscou, ainda um pouco letárgica.

—Não sabemos exatamente o porque você desmaiou depois que conseguimos escapar do Mundo Sombrio do Sirius. —Sirius gentilmente informou, frisando o título. -E estávamos começando a ficar preocupados que você tinha passado dessa pra melhor, então… — Ele colocou uma das mãos em seu ombro. — Que bom que você não morreu porque estamos muito fodidos e eu quero ver qual vai ser a sua cara.

Aurora o encarou por longos cinco segundos. E, totalmente perdida, sussurrou:

—...O que?

James e Sirius trocaram olhares de morna inquietação.

—Talvez se dissermos que ela ficou com danos cerebrais severos eles peguem leve com a gente. -Formulou Sirius observando a rosada analiticamente de cima a baixo.

—E nem vai ser uma mentira já que o vocabulário dela se reduziu a duas palavras!- Debochou James.

Aurora retorceu os lábios, formando um bico ameaçador e puxou os dois meninos pelas orelhas, gerando reclamações de dor de ambos.

—Eu não tenho dano cerebral. -Esclareceu Aurora, e libertou os garotos de sua punição. -Agora me expliquem, com toda a paciência que uma garota que acabou de acordar de um coma merece-

—Chamar de coma é exagero…- Interrompeu James.

—Definitivamente muito dramático. — Concordou Black.

—Exatamente o quê está acontecendo. — Aurora não se deixou interromper pelos dois e continuou sua fala como se nada tivesse acontecido.

Aurora estava voltando a realidade, os sentidos que haviam abandonado-a retornando para sua usual eficiência. Ela colocou os cabelos para trás da orelha e inspirou fundo, soltando o ar com calma, tentando clarear a mente e se acalmar. Então, os afiados olhos dourados voltaram sua atenção para os dois grifinórios.

—Temos boas e más notícias. — Disse Sirius sem perder tempo.

—A boa notícia é que não viajamos no tempo e Hogwarts continua a mesma. -James sorriu, encorajador. Aurora temia que algo muito perturbador prosseguiria aquela tentativa falha de humor. -A má notícia é que na verdade a noite toda já passou...

Oh não…

Os professores provavelmente já acordaram e estão rondando o castelo…

Puta merda

e de jeito nenhum vamos conseguir chegar aos nossos dormitórios sem sermos pegos…

Fudeu

James notou a perda quase imediata de cor que Aurora sofreu ao ouvir aquelas palavras. A rosada começava a se arrepender de todas as decisões que havia tomado ao longo do dia. Ou melhor da última semana. A memória de um garotinho de pele de oliva e olhos verdes com um sorriso ardiloso lhe veio à cabeça.

—Se você quer provar pra ela que consegue, não pode ficar aqui chorando como a porra de uma idiota e esperando por uma oportunidade cair nos seus braços só porque você quer muito! Vai lá, faz acontecer.”

—E como eu faço isso?

Ele sorriu ainda mais.

—Isso é problema seu.

Ela jamais devia ter confiado nele! Que ideia estúpida, completamente estúpida pensar que ela conseguiria fazer isso, enganar a mulher que mudara sua vida. Mas aquela não era hora de entrar em pânico!

Era o que a cabeça de Aurora e seu instinto de sobrevivência repetia naquele momento, mas seu corpo não parecia estar respondendo a esse direto comando. James percebeu que a menina tinha começado a piscar quase ininterruptamente e tentou consolá-la.

—Olha, eu sei que começar com uma detenção não parece muito bom… — Ele começou passando a mão pelos cabelos. -Mas podia ser pior, além disso, os prós são maiores que os contras, descobrimos várias coisas hoje que com certeza vão ser úteis para termos Hogwarts na palma da mão! -Sorriu.

—Sem falar que eu tenho certeza que vamos ser os primeiros a ganhar uma detenção na primeira noite de Hogwarts. — Acrescentou Sirius rindo um pouco. Ele não sabia se genuinamente achava graça da situação, se estava admirado com seus próprios feitos, ou se era nervoso mesmo.

Aurora balançou a cabeça e passou as mãos pelo rosto.

—Vocês não entendem… Não é tão simples, todas as detenções são mandadas pra os nossos pais ou responsáveis. Minha avó vai ficar sabendo disso amanhã de manhã… -A garota murmurou, abaixando o olhar. Ela parecia verdadeiramente desolada. -Eu estou morta, morta.

James ergueu as sobrancelhas.

—Por conta de uma detenção?

Sirius, que entendia completamente como uma simples detenção poderia pesar muito mais do que jamais fora cogitado que pesasse, se compadeceu. Ele também estava ciente que sua hora chegaria.

—Minha avó vai me tirar de Hogwarts até o fim da semana. -Garantiu Aurora com um suspiro.

Tirá-la da escola? Agora até mesmo Sirius estava começando a achar a situação estranha.

—Eu tenho a impressão que você não está nos contando toda a história. — Ele comentou cruzando os braços. Por mais que seus pais,e todos os pais vindos da elite tradicionalista puro sangue fossem rígidos e certamente não ficariam felizes com uma situação como aquela, tirá-la da escola não era só um exagero, mas também contra produtivo. Por mais que fosse uma mancha na histórico de Aurora, e uma história que certamente seria repetida e recontada por alguns meses, ficar em Hogwarts garantia a ela a oportunidade, milhões de oportunidades de se destacar em inúmeras outras coisas, tornando aquele incidente um borrão insignificante. Sem falar no problema mais óbvio, quem ensinaria magia a Aurora se ela fosse obrigada a ficar em casa?

Aurora encarou os meninos mais uma vez. As íris flavescentes brilhando sóbrias. Eles não entenderiam.

—Eu não posso entrar em detalhes. Mas garanto pra vocês que é exatamente isso que vai acontecer se formos pegos, eu só tenho uma chance de me dar bem em Hogwarts e se Minerva ou algum dos outros professores mandar uma carta dizendo o que aconteceu minha chance vai para o lixo e eu garanto que Lyta Selwyn vai aparecer aqui pessoalmente para me levar pelo cabelo -Ela suspirou.

James e Sirius se entreolharam. Sirius estava ficando cansado de respostas inconclusivas. Ele deu um passo para frente.

—Aurora, o que está acontecendo? Seja clara. Não faz sentido sua avó tirar você da escola por isso. Punição sim, óbvio, mas isso não faz sentido. -Black pressionou. James passou a mão pelos cabelos, e gentilmente trouxe Sirius para mais perto de si novamente, tentando desfazer a pressão simbólica que o menino Black impusera na garota.

—Acho que o que ele quer dizer… — Começou Potter. — É que não vamos ser capazes de te ajudar se não soubermos exatamente qual o problema.

Aurora mordeu o lábio e ponderou se deveria revelar a verdade, a razão concreta e simples pela qual sua avó não lhe concederia perdão por uma coisa tão mínima. Parecia fácil. Mas não era. Confiar, revelar a verdade. Não era tão simples, não para ela. E por isso, talvez complicando ainda mais uma situação já não muito favorável, ela recusou-se a revelar tudo. Cruzou os braços e tentou parecer o mais pragmática possível.

—Nada que eu disser vai fazer sentido pra vocês, se minha avó ficar sabendo, eu vou embora, é simples assim.

Sirius parecia pronto para argumentar, mas Aurora continuou a falar.

—Mas de jeito nenhum eu vou deixar isso acontecer. — Os olhos amarelos encararam os meninos com seriedade. — Eu não cheguei até aqui pra só chegar até aqui. — Com isso, a garota se levantou e começou a debater consigo mesma em voz alta. — Não podemos usar a capa, porque estamos em dormitórios diferentes... vocês de jeito nenhum podem vir para o dormitório da sonserina comigo…

—E se você fosse para o dormitório da Grifinória com a gente? -Sugeriu James.

—Não ia dar certo de qualquer maneira… Vocês teriam que se revelar para falar a senha e eu sinceramente não estou confiante que a mulher no quadro não vai fazer um escândalo, e depois, os professores vão notar a minha falta se eu não aparecer no primeiro dia. E não tem como eu aparecer sem uniforme, não posso usar o uniforme de vocês porque não teria as cores da sonserina, ah, droga, eu devia ter aprendido um feitiço pra isso, que coisa mais estúpida…

Interrompendo o frenesi de Aurora, James se manifestou:

—Acha que seria capaz de entrar no dormitório da sonserina sem problemas se houvesse uma distração?

Aurora pareceu recuperar a calma ao pensar.

—Bom, sim. Eu só teria que dizer a senha e felizmente, sem um quadro falante para me monitorar, não creio que ninguém fosse notar a minha entrada.

James sorriu. Até o momento, Aurora podia perceber que James tinha dois tipos de sorriso

—Eu tenho uma ideia. Mas vocês não vão gostar nadinha dela.

Ao revelar seu plano, James ganhou olhares esbugalhados tanto de Sirius quanto de Aurora. A garota parecia de certa maneira perplexa, como se James estivesse usando conceitos que ela não compreendia. Sirius, ao contrário, por mais que estivesse claramente surpreso, parecia de certa forma admirado com a loucura do companheiro de casa.

—Eu sou brilhante ao ponto do total choque, eu sei. Pode levar um tempo até vocês se recuperarem da minha genialidade. -Brincou Potter. Sirius lhe concedeu um gargalhada e os dois riram juntos, voltando sua atenção para Aurora quase imediatamente. A garota ainda mantinha sua expressão de confusão.

—O plano é bom… Mas… Porque você faria isso? Porque qualquer um de vocês faria isso, vocês mal me conhecem. -Perguntou ela confusa. O plano era bom, mas também arriscado e considerando que não beneficiava James de maneira nenhuma, Aurora não conseguia entender sua motivação. E, em toda a inteligência e perspicácia que havia permitido que ela chegasse até aqui, Aurora não conseguia entender o porquê James se prestaria a tal sacrifício.

James, por outro lado, não entendia a grande surpresa.

—Bom, isso claramente significa muito pra você, mas não vai fazer tanta diferença pra mim. — Explicou ele dando de ombros. — Meus pais não vão ficar chateados, na verdade, eu acho que eles estão até esperando por isso… — Riu.

Aurora continuava observando-o sem entender.

—Aurora, apenas aceite a minha ajuda. Somos amigos, não somos?

A garota suspirou. Não gostava de receber favores porque sabia a conta sempre vinha depois, que alguém iria cobrar e que nenhuma gentileza vinha de graça. Mas sem ter outra opção em vista, ela aceitou a proposta.

Mas aquela frase ricocheteou em seus ouvidos: “Somos amigos, não somos?”

Eles eram amigos? Era assim que acontecia? Uma coincidência depois da outra que fez com que eles se conhecessem. Nada mais. Ela praticamente caíra no colo deles em um acidente no trem. Eles conversaram e se deram bem, uma outra total coincidência do destino e do momento, uma palavra errada, um tom mal interpretado, e ele poderia tê-la odiado. E ainda assim, agora Aurora sentia como se aquele encontro tivesse mudado sua vida para sempre.

Ele estava disposto a se prejudicar por ela.

Por eles.

O plano de James consistia de dois passos muito simples: James iria chamar a atenção dos professores e possíveis alunos para si, enquanto isso, Aurora escaparia com a capa para o dormitório da Sonserina. Sirius usaria da confusão para tentar entrar na Grifinória sem ser percebido, afinal, já tinha aprontado demais para uma noite. Ou pelo menos essa fora a sugestão do menino Potter. Aurora se manifestou imediatamente, não querendo dever nada a um estranho.

Mas ele não era mais um estranho.

“Somos amigos, não somos?”

Sirius ficou quieto por alguns momentos, sem se manifestar. Como se pudesse ler sua mente, James sorriu e bateu sua mão de leve no ombro do outro.

—Sirius, seus pais vão te matar se você entrar nessa.

Sirius o encarou, muito sério, e um brilho estranho passou por seus olhos cinzentos.

—Meus pais vão me matar de qualquer jeito. Não é certo deixar você fazer isso sozinho.

James pareceu um pouco surpreso com aquelas palavras, mas Sirius as disse com sinceridade. Ele estava ferrado, seu destino fora selado quando o chapéu gritou “grifinória”. Não havia como fugir da tempestade que vinha em sua direção. E já que isso era inevitável, não havia desculpa plausível para deixar que James arcasse sozinho com as consequências de uma noite que os três decidiram travar juntos.

O menino Black não culpava Aurora, no entanto, por sua aparente incapacidade de assumir sua parte da culpa. Era preciso apenas uma olhada em sua direção para notar que a garota estava aflita, e parecia sentir-se culpada. Apenas uma olhada em seus olhos amarelos para notar o quão pareciam pálidos, e tinham perdido o brilho incandescente que os habitava. Por mais que suas palavras enigmáticas não fizessem sentido, por mais que ele soubesse que ela não estava contando toda a história, ele, de certa forma, entendia, e a perdoava.

Estava ficando tarde, então o trio decidiu colocar o plano em ação.

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—Sr. Potter, creio que o senhor esteja ciente que é contra as regras da escola passar a noite fora da cama. -A voz de Minerva McGonagall era rígida e não deixava espaço para contestações ou gracinhas, não que isso fosse impedir James Potter de fazer ambas as coisas.

O menino sorriu travesso.

—Essa é justamente a questão, Prof. McGonagall. -Começou ele. — Você vê? Não estamos realmente fora da cama.

E, tecnicamente, aquela afirmação era verdadeira. Era o primeiro dia de aulas em Hogwarts no ano de 1971 e James Potter e Sirius Black estavam de pé em sua frente, vestidos em pijamas imundos e com suas camas flutuando debaixo de si, inaugurando suas primeiras detenções e também primeiras detenções do ano.

Eles não estavam fora da cama. De fato. Minerva os encontrara voando por entre as escadas, aparentemente se divertindo a beça, enquanto os professores e os alunos tomavam café. Ela não tinha a menor ideia de onde eles tinham passado a noite toda, mas alguns fatos deixavam claro que não fora em seus dormitórios, onde eles deveriam ter passado. Primeiro, Minerva tinha certeza que se perguntasse aos outros residentes do dormitório da grifinória, ou até mais especificamente, aos outros dois meninos que dividiam o quarto com eles, os inocentes seriam forçados a dizer que Potter e Black sequer chegaram a deitar, não havia como eles terem se sujado tanto dentro do próprio dormitório, muito menos sem fazer barulho suficiente para acordar o resto da torre. E aquelas manchas em seus pijamas? Terra e suor. Não, os dois encrenqueiro haviam passado a noite do lado de fora, e por alguma razão, mesmo sendo capazes de tentar voltar discretamente para seu quarto, decidiram enfeitiçar as camas quando os outros meninos já haviam saído e ir brincar pelas escadas.

Eles estavam acobertando alguém, e aquilo era claro como um dia de sol para Minerva.

—Senhor Potter, o senhor sabe ao que se referem às regras. — Disse ela com mais paciência do que sentia no momento. — Passar a noite fora da cama, ou seja, fora de seus dormitórios perambulando sem supervisão pelo castelo, é proibido.

Potter e Black então trocam olhares, fingindo muito mal uma expressão de choque e inocência.

—AH! — Exclamou James Potter, logo substituindo seu falso choque por um ainda mais falso recém descoberto deslumbramento. — Então é isso que essa regra quer dizer! — E então riu, teve a audácia de rir na cara dela. — Perdão, Professora! Nós totalmente nos confundimos.

—Ah, o maravilhoso ambiente escolar! Onde vivemos aprendendo. — Comentou Sirius colocando a mão sob o peito dramaticamente. — Como é encantador aprender, você não acha, James?

—Com certeza, meu caro Sirius, com certeza!

—Não se preocupe, professora, levaremos essa lição para o resto de nossas vidas.

—Será para sempre uma memória importantíssima.

—Tenho certeza que sim, senhores. Afinal, ambos estarão em detenção comigo esse final de semana. — Acrescentou Minerva com um sorriso vingativo nada sutil. — Para que eu tenha certeza que a lição realmente não será esquecida.

James Potter novamente se utilizou de suas terríveis habilidades de atuação para fingir choque.

—Professora McGonagall… A senhora pretende nos punir por não saber?

—Não parece muito escolar da sua parte. — Acrescentou Sirius com uma expressão traída.

—Não, não parece.

—É mesmo? — Questionou Minerva, um sorriso diabólico se formando em seus lábios. — Então, senhores. Acho que há apenas duas opções. Ou os senhores aceitam a detenção com tranquilidade, ou eu posso descobrir a real razão de terem feito essa pequena brincadeira. — Ela decidiu ser mais específica. — Quem estão protegendo.

Os meninos se entreolharam mais uma vez, se percebendo encurralados. E então James Potter sorriu alegremente.

—Parece um trato excelente.

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O dia clareou com dificuldades na segunda-feira em que as atividades se iniciaram em Hogwarts. Em seu quarto, Aurora pensava que apesar de ter passado a noite acordada, não havia testemunhado os primeiros raios de sol que, gloriosos, agraciaram a superfície do castelo. Infelizmente, sucumbida num mundo paralelo, ela não foi capaz de vê-los, e quando -graças ao sacrifício de James e Sirius- finalmente alcançou seus aposentos pela manhã, estes ainda se banhavam em quase completa escuridão. Durante os meses de outono, o sol da manhã ainda era insuficiente para iluminar as câmaras subterrâneas que compunham a casa da Sonserina, através das águas escurecidas do lago, e embora uma fraca luminosidade verde penetrasse o quarto, as velas faziam a maior parte do trabalho de iluminação.

Depois da pequena reunião familiar de Sirius na noite anterior, sua pequena aventura na Sessão Proibida e sua ainda maior aventura num lugar desconhecido, quando voltou para o seu quarto, Aurora sabia que não havia tempo para descansar. Mas antes que pudesse abrir sua porta, com a capa de invisibilidade de James escondida por debaixo de seu pijama, a garota Black lhe esperava na frente de seu quarto.

Aurora ficou surpresa, a quanto tempo Narcissa estava esperando?A garota loura já usava seu uniforme então Aurora não soube dizer se ela passara a noite em claro e ou simplesmente esperara pela manhã para interceptá-la antes que a rosada fosse ao café da manhã. A segunda opção, no entanto,era a mais provável. Narcissa olhou-a de cima abaixo e Aurora sentiu seu sangue gelar, não havia desculpa elaborada o suficiente para convencer a outra garota de nada diferente da verdade. Uma olhada seria o suficiente para que Narcissa constatasse que Aurora passara a noite fora. Decidiu esconder a capa no minuto que chegou ao dormitório da sonserina pois se alguém descobrisse sua existência, James perderia uma de suas ferramentas mais valiosas — a ignorância dos outros sobre o que ele realmente podia fazer. Mas agora se perguntava se essa realmente tinha sido uma boa ideia.

Não podia dizer que gastara horas perambulando e explorando a sala comunal sonserina, que para ela era uma novidade -apesar de esta ser uma coisa bem de seu feitio- pois sua camisola amassada, imunda e provavelmente para sempre destruída era prova suficiente que não. Aurora realmente estava arruinada! Seus cálculos haviam sido equivocados e alguém infelizmente percebera sua entrada.

E era uma sonserina, como ela mesma. Aurora tinha consciência de que se pudesse usar essa informação em benefício próprio de alguma maneira, ou apenas para rebaixá-la, caso fosse essa sua vontade por alguma razão, Narcissa o faria.

Se as situações fossem trocadas, ela provavelmente o faria também.

Para sua infinita sorte a garota Black decidiu ignorar a fácil fofoca andante que Aurora Selwyn fazia de si mesma naquele momento, e focou em seus olhos. Os olhos azuis pálidos de Narcissa não pareciam conter em nenhum grau a fúria que queimava nas íris rubras de sua irmã. Eram gélidos, sem brilho algum, quase mortos. Aurora tinha mais medo dos olhos de Narcissa.

Ela fez um pedido.

“Eu ficaria agradecida se você não comentasse isso com ninguém. Sobre nossa reuniãozinha não oficial ontem a noite”

O pedido era obsoleto, no entanto. Claro que Aurora não contaria a ninguém. Em primeiro lugar ela não tinha a quem contar, e segundamente, não tinha o que ganhar com a revelação de algo assim.

Ah, e seria indecente de sua parte, claro.

Mas pelo olhar que Narcissa lançou em sua direção, a rosada sabia que havia uma ameaça subentendida em seu tom.

“Não vou.” Respondeu Aurora quase imediatamente. Narcissa não pareceu particularmente convencida, mas parecia não estar disposta a argumentar e apenas se despediu

Mas tudo aquilo — e como tudo aquilo ela na verdade se referia a detalhes insignificantes na postura da garota mais velha que se não fosse tão desconfiada muito provavelmente Aurora sequer teria notado — deixou a cabeça de Aurora cheia de pensamentos. Por que Narcissa não fora persuadida por suas palavras? Ela não tinha nenhuma razão para desconfiar de Aurora, uma menina que conhecera meras horas atrás. Ou talvez tivesse. Talvez o nome Selwyn invocasse desconfiança, talvez aquele fosse seu legado, talvez viesse de uma família de trapaceiros.

Ou talvez Narcissa tivesse sido ensinada a desconfiar de todos, uma voz mais razoável chiou em sua cabeça, assim como sua própria avó a ensinara no último verão. Durante o treinamento árduo para tornar-se uma herdeira correta, Lyta fizera com que Aurora aprendesse as longas e fascinantes histórias dos clãs puro sangue, como os Malfoy, por exemplo, com seu ego, extravagância e seus bolsos cheios de ouro. Um Malfoy sempre paga suas dívidas, mas muitas vezes em seus próprios termos. Jamais deve confiar cegamente neles, mesmo quando lhe devem um favor. Se necessário, são capazes de pagar o que lhe devem e ainda sim deixarem-na afogar, dissera Lyta, aquelas cabecinhas platinadas, aqueles olhos azuis como o céu límpido numa manhã de verão, podem trazer a sua mente a imagem de anjos, mas garanto a você, eles não são. E não estão interessados em ser.

O mesmo foi dito em relação a todos os outro, no entanto. Não confie, mantenha os olhos abertos!

Aurora dedicou-se a aprender as características de cada família com determinação, queria estar preparada.

E mais uma vez, a sua própria história fora deixada de lado.

Tentando afastar as teorias conspiratórias de sua cabeça, a menina se arrumou devidamente para o primeiro dia de aulas. Com um banho rápido, apenas o suficiente para apagar as evidências que de passara a noite pela terra. Aurora juntou madeixas de ambas as laterais de sua cabeça e prendeu ao fundo com um pequeno laço prateado, vestiu seu uniforme, devidamente impecável, com a gravata verde da Sonserina se destacando entre as vestes escuras. Ela se olhou no espelho, uniforme, cabelos, sapatos lustrosos… A imagem de boa aluna. Ela estava pronta, não havia razão para nervosismo.

A imagem da boa aluna tremeu no espelho, sendo substituída pela imagem da bastarda que fora um dia, que sorriu cruelmente para a limpa, rica e mimada princesa fora do espelho. As madeixas rosadas quase sem cor e tão curtas que se não fosse pelo vestido, ela facilmente poderia se passar por um menino. Imunda, obscura, antipática, faminta, impiedosa….

Vou trazer você de volta para cá, princesa. De volta para a imundice de onde você nunca deveria ter saído.

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Café da manhã em Hogwarts era luxuoso, e levando em consideração que a escola tinha uma reputação a zelar — e inúmeros filhos e filhas de nobres que não hesitariam em mandar uma coruja aos pais reclamando da falta de diversidade alimentícia na escola — Aurora não ficou surpresa. Mais uma vez, a rosada decidiu achar um lugar ao lado de Rabastan Lestrange e manteve uma distância segura das irmãs Black. Com certeza Andrômeda e Bellatrix já sabiam de toda a situação que acontecera na noite anterior e Aurora não sabia se elas a consideravam uma inimiga — por estar confraternizando com Sirius que agora parecia ter sido declarado inimigo do estado em sua própria família — ou uma aliada. Ou algo mais neutro.

Assim que sentou-se, no entanto, seus olhos voaram rapidamente para a mesa da grifinória.

A mesa da sonserina se encontrava no canto direito do grande salão. A mesa dos grifinórios era a terceira numa contagem da direita para a esquerda, sendo separada do espaço verde e prateado apenas pela presença dos lufanos. O que era um fato muito infeliz para eles. Muitas vezes entre disputas e malcriações entre as casas rivais que se davam nas horas das refeições, os pobres lufanos se encontravam, literalmente, no meio de tudo.

James e Sirius pareciam bem, apesar do cansaço aparente em seus olhos, que Aurora sabia que também estava estampado nos seus. Eles comiam vorazmente.

Talvez tenha sido o tempo que a rosada passou encarando-os de sua mesa, ou talvez o peso de seu olhar fosse tão colossal que os grifinórios sentiam-no cutucar seus ombros, de uma maneira ou de outra, ambos eventualmente perceberam sua chegada e fizeram contato visual com ela.

James sorriu e acenou com animação enquanto Sirius balançou a cabeça para esclarecer que havia percebido sua chegada. Aurora continuou encarando-os, impassível e determinada. James parecia ficar mais confuso a cada segundo, mas Sirius felizmente conseguiu desvendar o que a falta de piscar de olhos da companheira sonserina significava.

“Ela quer notícias.” Aurora leu os lábios de Black enquanto o mesmo falava com James. A boca de Potter formou um “o” perfeito e ele finalmente pareceu entender, James voltou seu olhar na direção dela e começou a tentar explicar, com um movimentar de lábios que ele claramente julgava apto, como havia sucedido o plano deles. Embora fosse boa, a capacidade de leitura de lábios de Aurora tinha limites que não incluíam a inabilidade do colega grifinório, e ela imaginou que sua desorientação tornou-se tamanha que passou a se manifestar na forma física em sua expressão facial. Sirius também percebeu e tocou no ombro de James, provavelmente para explicar-lhe que seus esforços estavam sendo em vão e que, na verdade, Aurora não estava entendendo nada que ele dizia. Mas Aurora não podia ter certeza de sua dedução, pois no momento que Sirius abriu a boca, um garoto inconveniente que sentava-se à frente deles moveu-se, tapando com as costas a visão até o momento clara que ela possuía dos dois. Aurora esticou o pescoço para ambos os lados, tentando recuperar sua visão, para seu horror, ela viu que James estava prestes a se levantar e gritar o que não estava conseguindo comunicar com murmúrios. Aurora balançou furiosamente os braços, tentando impedi-lo de fazer um escândalo.

James sentou-se novamente, rindo, estava claro que ele ameaçara fazer um escândalo em primeiro lugar apenas para provocá-la. Aurora fechou a cara e ele gesticulou com a mão, indicando que contaria sobre os acontecimentos depois. E então os dois voltaram a comer. Aurora suspirou e decidiu fazer o mesmo, adicionando alguns pãezinhos ao seu prato. Ela pensava sobre como precisava de uma maneira de se comunicar entre as mesas sem chamar atenção e seus olhos estavam em busca de suco quando se encontraram com as safiras de Rabastan Lestrange.

Diferentemente das íris de Narcissa, os olhos de Rabastan tinham um tom forte e escuro de azul marinho o que era, de certa forma, um contraste com as mechas amarelas que formulavam sua cabeça.

—Bom dia. — Ele sorriu. E Aurora lembrou- se repente que, com tantas preocupações perturbando-a, havia se esquecido completamente de cumprimentá-lo, apesar de ter sentado de seu lado. Na verdade,não havia dito sequer uma palavra para nenhum dos ocupantes da mesa verde e prateada.

—Bom dia… -Respondeu a garota sem graça.

—Como foi a sua primeira noite no castelo?- Perguntou ele, educadamente.

—Emocionante. — Respondeu Aurora rindo um pouco.

—Aposto que não tão emocionante quanto a minha. -Replicou Rabastan piscando. Aurora sorriu pensando que ele deveria estar se referindo a caçada não oficial que ele e o menino Crouch haviam realizado pelo castelo, em busca de uma segredo a muito tempo perdido.

—Você andou aprontando algo, por acaso?-Sugeriu a rosada, o sorriso se alargando. -Aposto que aquele seu amigo não é uma boa influência.

Rabastan suspirou, Barty realmente não era.

—O desafio, você sabe… Quer dizer, eu sei que é uma besteira, e que os garotos mais velhos só estão zoando com a gente, mas ele tinha certeza que a gente ia conseguir.

Aurora não sabia de nenhum desafio mas juntando tudo que tinha acontecido nas últimas horas, ela tinha uma teoria: os veteranos tinham lançado um desafio na noite anterior para Rabastan e Barty -os únicos fora ela que tinham sido sorteados para a sonserina- para encontrar a Câmara Secreta. Obviamente eles tinham falhado, pois a Câmara estava perdida a muitos anos, mas Aurora se perguntava por qual razão os sonserinos mais velhos haviam posto tal desafio.

—Entendo. — Respondeu ela. -Mas pelo menos vocês tentaram, certo?

Rabastan deu de ombros.

—E você, não achou a Câmara por aí?

—Infelizmente não, mas quem sabe não dou sorte no futuro.

O menino franziu as sobrancelhas.

—Mas o desafio só valia pela primeira noite?

Aurora sorriu sem graça, e tentou disfarçar com um "ah, é mesmo" mas Rabastan não pareceu muito convencido. Depois disso, eles voltaram a comer e engajaram numa conversa banal sobre qual matéria se interessavam mais e coisas do gênero. Rabastan era gentil e simpático e Aurora sentia que tinha conseguido ao menos um aliado em sua própria casa.

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O café da manhã logo foi finalizado e no primeiro horário do dia sonserina e grifinória dividiriam a aula de poções. Assim que terminou de comer Aurora se dirigiu a sala onde a aula tomaria forma. O professor de poções, Horácio Slughorn, era também o diretor da sonserina, o que fazia com que as aulas fossem nas masmorras. Ela foi a primeira a chegar e logo achou um lugar para se sentar em uma das carteiras. James e Sirius certamente não possuíam a mesma afeição por pontualidade que Aurora, mas também não demoraram a aparecer e sentaram-se em dupla, dividindo uma mesa. Aurora foi até eles, imediatamente querendo saber sobre a repercussão do plano de mais cedo.

—Ah, acabou tudo bem. — James a assegurou. Ele tinha os braços cruzados na mesa e a cabeça apoiada nos braços, um sinal claro de seu cansaço.

—Sim, nós acabamos com um encontro esse final de semana. — Informou Sirius.

—Um encontro? — Aurora questionou, confusa. O sorriso de Sirius se alargou e James respondeu em seu lugar.

—Sim, com professora McGonagall, na detenção.

—Ela não apreciou nossa livre interpretação das regras...

Aurora ficou triste em descobrir o que havia acontecido.

—Eu sinto muito que vocês estejam na detenção. -Disse ela com sinceridade. — Eu vou compensar vocês.

—Relaxa. -Disse James.

—Não há o que fazer. -Sirius deu de ombros. James retornou seu olhar na direção de Aurora.

—E vai ficar tudo bem você? Você não foi pega, foi?

Aurora chegou a conclusão que não faria bem a nenhum deles que ela revelasse seu encontro inoportuno por Narcissa então apenas balançou a cabeça e sorriu.

—Vai ficar tudo bem, ninguém me viu. — Disse a garota. -E obrigado.

A aula não demorou a começar e Aurora foi obrigada a interromper sua conversa com os meninos, voltando para sua carteira inicial. Quase de última hora, vindo imediatamente após o professor, veio correndo um grifinório atrasado. Ele sentou-se ao lado de Aurora, vendo que foi o primeiro lugar disponível que avistou, e soltou um grande suspiro de alívio.

O menino era baixinho, com os cabelos castanhos claros encaracolados. Ele tinha um band-aid rosa e verde cobrindo o nariz e por alguma razão usava a gravata vermelha em borboleta, fazendo-o se diferenciar de todo o resto da classe. Suas vestes também faziam-no se destacar, sendo gastas e mais cinzas do que negras, ele parece sumir dentro delas, ela percebe, por ser tão miúdo e magricela. Aurora o achou curioso.

—Aurora Selwyn. — Ela se apresentou estendendo a mão. O menino imediatamente a encarou com os olhos levemente arregalados, como se não pudesse acreditar que ela estivesse falando com ele apesar de estarem sentados lado a lado.

—Remus… Remus Lupin. — Ele sussurrou, em resposta, Aurora sorriu e Remus Lupin ficou mais vermelho que sua gravata.

Professor Slughorn começou a aula num ritmo tranquilo, se apresentando e falando o que eles estudariam ao longo dos meses que viriam. Então a aula começou de verdade, e na primeira pergunta, Remus levantou a mão, tão ávido que Aurora chegou a se assustar com o movimento brusco e seu braço paralisou-se no meio do caminho para levantar-se. Slughorn então lhe concede permissão para falar e impressionantemente Lupin passa cinco minutos tagarelando sobre os prós e contras de se usar folha de mandragora e quando ele finalmente se senta James e Sirius levantam-se e começam a bater palmas porque Remus Lupin com sua gravata borboleta e seus 1 metro e 30 acabara de usar o termo "raro como a porra" na frente de seu professor de poções na primeira oportunidade. Slughorn parece meio constipado e a vez de Aurora encarar o colega de mesa com os olhos arregalados. Ela voltou seu olhar para James e Sirius que estavam sentados novamente mas agora gargalham não muito discretamente e sua risada parecia estar contaminando o resto da sala. Apesar de não terem feito contato visual, Aurora conseguia imaginar o que se passava pela cabeça dos dois, Lupin seria um ótima adição ao pequeno grupo. Remus olhou para Aurora confuso e perguntou se havia feito algo errado. A menina colocou a mão em seu ombro e garantiu que ele havia agido com perfeição.