E lá estava ele novamente, com a cabeça coberta de fios cor-de-rosa enterrada nos ombros do melhor amigo. Já conhecia essa sensação, a vontade de permanecer ali para sempre, sentindo o toque do tecido excêntrico que tanto ele mesmo quanto o vocalista gostavam de usar; e o conhecimento de que ao se separar daquela união tão suave, uma dor forte e ao mesmo tempo conhecida viria perturbar seu coração mais uma vez. Não queria sair dali tão cedo, não agora pelo menos. Sabia que era estranho, que a cena não era nem um pouco comum para qualquer outra pessoa que passasse por ali; mas para eles era. Pois sempre foi assim.

A pele de seu rosto encostada nas roupas procurava alguma forma de sentir aquele toque tão quente e gentil com menos intervenção das mesmas. E em vão, resolvia sentir mais uma vez o doce perfume que emanava da pele do amigo. A doce essência que só ele possuía, aquela que o fazia esquecer de qualquer problema que sabia que estando perto dele -e somente dele- tornava-se totalmente inútil e sem importância nenhuma. O único problema que o guitarrista observava no momento eram seus braços largados paralelamente ao corpo, lugar onde não deviam estar agora.

Deixou que os dois envolvessem o pescoço do melhor amigo num abraço terno, em que fingia não ver absolutamente nada de errado ou excuso naquele ato, sabendo que na verdade desejava que Jun se apoderasse de sua cintura e o puxasse para junto de si, na intenção de fazer com que ficassem cada vez mais próximos. E talvez por justamente não esperar tal ato do vocalista, ele o fez. E fez da maneira mais suave e carinhosa que ele jamais havia sentido. O corpo de Jun era tão... diferente. Tão exclusivo e gentil, emanando um calor contagiante, que Nono poderia dizer ser... viciante.

E quando sentiu a face do amigo cair em seus ombros como igualmente fazia nos seus, não pôde mais controlar as batidas fortes e repetitivas que seu coração esteve evitando por tanto tempo, tentando esconder a euforia perto do loiro. E inevitavelmente sabia que estavam próximos o suficiente para sentir o coração do melhor amigo pulsar ainda mais forte que o seu, formando um ritmo descompassado entre eles.

Não se lembrava de ter ouvido algum barulho de trovões ou algo parecido quando sentiu pequenos dedos apertarem suas costas carinhosamente, e um suspiro deixar os lábios ternos do outro, encontrando-se com seu pescoço. Já não se lembrava mais o que o levou a fechar os olhos e perder-se nos ombros do amigo assim, tão... frágil. E nem sequer pensava no motivo que fazia Jun agir como ele, entregando-se ao seu corpo dessa forma. Mas... havia escutado direito? O suspiro parecia ter seu nome embutido discretamente...

Sentiu um ponto frio e líquido encostar-se em sua nuca, e logo depois em seus braços e corpo todo, percebendo que começava a chover. Afastou o rosto daqueles ombros gentis e começava a retirar os braços da posição atual, pretendendo ir a algum lugar que os abrigasse da chuva que estava por vir. Mas sentiu uma das mãos do outro ser carinhosamente depositada em sua nuca, o pedindo para "ficar ali".

Nono não encarava os olhos de Jun, mas sabia que não estavam abertos nem brilhantes como sempre. Sua voz denunciava que não estava sorrindo, e não o deixaria ir embora tão cedo. E quando a chuva veio, demorou a perceber as lágrimas que escorriam por seu rosto misturarem-se com as gotas frias de água que não hesitavam em aumentar cada vez mais em quantidade.

O de cabelos cor-de-rosa não ousava perguntar o motivo das gotículas aquecidas deixarem os olhos do vocalista, indo encontrar-se com seus ombros revestidos com aquele tecido tão especial para os dois. Só pôde retribuir da forma mais sublime que conhecia, aprofundando a face ainda mais nos ombros do loiro, apertando seus olhos contra a roupa já molhada do amigo pela chuva, o enlaçando com ainda mais força através dos braços envoltos em seu pescoço.

E não soube precisar exatamente como e porque, mas no minuto seguinte, já encarava os olhos marejados e levemente avermelhados do amigo de encontro aos seus, que sabia que logo tornariam-se idênticos aos que ele agora observava. A respiração de Jun, descompassada pelo ritmo imposto pelas lágrimas, ia de encontro aos seus lábios, o fazendo imaginar coisas que talvez não deveriam ser imaginadas tratando-se de um amigo tão íntimo. Mas se desfez desses pensamentos ao ouvir seu nome escondido no sussurro do loiro abafado pelo barulho que a chuva fazia ao encontrar-se com o asfalto, deixando escapar sem querer um suspiro que foi de encontro à face do amigo.

E no segundo seguinte, de forma doce e suave, o guitarrista sentiu os lábios do vocalista encontrarem-se com os seus; aqueles doces lábios que esteve ansiando por sentir o gosto há tanto tempo... Não demorou muito e deixou o beijo aprofundar-se mais, sentindo a língua quente e terna explorar cada centímetro de sua boca, numa permissão sensível que o vocalista sabia reconhecer. Sentiu as mãos do amado serem gentilmente depositadas em seu rosto, num gesto muito mais que gentil; retribuiu da mesma forma, mesmo não tendo certeza do que estava fazendo devido à vergonha iminente que se demonstrava através de suas bochechas agora avermelhadas.

Quando Jun afastou-se sutilmente de Nono, as lágrimas pareceram cessar instantaneamente. E o outro viu um sorriso doce e terno ser desenhado nos lábios do amigo, sabendo finalmente que tudo o que sentia em segredo do vocalista era plenamente retribuído, mesmo sem nenhuma palavra ter deixado os lábios do loiro. Tudo o que o guitarrista conseguiu fazer naquele momento foi sorrir em resposta, mas não conseguiu fazer com que as lágrimas continuassem em seu lugar. Deitou mais uma vez a cabeça nos ombros suaves do amado, envolvendo-o num abraço que implorava por ser retribuído.

O vocalista abraçou o seu amado, sabendo que seu desejo era exatamente como o seu.

A chuva parava lentamente, deixando as ruas asfaltadas e as calçadas molhadas... como se este fosse o desejo que a terra ansiava por ser atendido.

Assim como o desejo de seu amado guitarrista.

Notas finais
Não ficou exatamente do jeito que eu queria; e se você perceber bem, não tem história nenhuma nisso. D: Mas pelo menos... é especial pra mim. (L)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!