When I Met You
1 Prólogo.
Notas iniciais
Quem é esse garoto, com as roupas rasgadas e pele machucada? Esse garoto sou eu, e isso acontecera há quatro anos.
Eu sou um órfão desde então. Minha mãe havia sido assassinada em minha frente e meu pai morreu antes de eu nascer. Na verdade, não lembro de tudo que acontecera aquele dia. Lembro-me vagamente de ser surpreendido por assaltantes armados. Em uma memória distante, lembro-me da dor da facada contra meu abdômen. A única coisa que lembrava com perfeição era meu salvador. A única pessoa que se preocupou comigo enquanto me contorcia de dor na calçada. Ele. A pessoa que me estendera a mão quando mais precisei. Me levara a um hospital e cuidara de mim até me recuperar. Eu me perguntava o que levaria uma pessoa a se preocupar com a outra a tal ponto sem ao menos a conhecer. Nós não conversávamos, na verdade nem falávamos direito. A única coisa que me dei ao direito de falar a ele era meu nome, algo básico o bastante para que ele possa me procurar caso precise algum dia. Afinal, aparentemente nos comunicávamos muito bem, mesmo sem palavras. E eu tinha plena consciência de que essa pessoa se preocupava comigo. Quando eu estava com dor, ele sussurrava um "vai passar" em meu ouvido e afagava meus fios loiros, carinhosamente. Quando eu estava com medo, ele entrelaçava nossos dedos e me abraçava. Isso realmente me acalmava. Eu me recuperava com a esperança de que um dia conseguisse viver sem aquela memória que tanto me machucava, mas sabia que ele não viria.
Mas nem tudo é um mar de rosas.
Após receber alta e me dirigir à minha nova casa- a casa de meus tios- nunca mais vi a pessoa que tanto me ajudara. Minha única lembrança -a qual guardara com todo o carinho do mundo- era uma carta de adeus, escrita apressadamente , pelo estado da letra.
"Para Lipe.
Quando ler isso provavelmente não mais estarei ao seu lado. Irei me mudar e não terei contato contigo. Não sei quando ou se voltarei, mas quero que saiba que esse tempo foi o melhor da minha vida.
Com carinho, JP".
Desde então, todo dia me dava ao trabalho de lembrar dos detalhes dele. Seu cabelo preto fazia contraste com sua pele pálida. Seu sorriso era um tanto desdenhoso, mas não deixava de ser gentil. Uma franja rebelde caía por cima de seus olhos castanhos. Lembrava-me de como seus olhos brilhavam quando eu dava um indício de conforto à cada toque. Ele era, de todos os ângulos, lindo.
Mas eu ainda não sabia seu nome.
E aqui estou eu, quatro anos depois, lembrando e relembrando de uma pessoa que provavelmente não lembra da minha existência.
Minha vida não sofreu muitas alterações. Meus tios me tratam como um filho que não tiveram. Eu vou para o ensino médio esse ano e minhas aulas começam daqui a poucos dias. Eu sou alguns anos adiantado no colégio graças às minhas notas exemplares e currículo perfeito. Me esforço para fazer jus ao nome de minha família para que, de onde estiverem, meus pais sintam orgulho de mim.
Eu não odeio o destino.
Na verdade, já desisti de esquecer do que aconteceu aquele dia. Decidi utilizar a tormenta para me trazer o bem.
Cada memória, cada pequena coisa me fortalece.
Mas algo era meu ponto fraco, e esse ponto fraco é a única pessoa da qual eu me recuso a esquecer.
Gratidão.
Por que tudo era ele.
Ele era o motivo de minha vida continuar.
Ele era o motivo de eu continuar sobrevivendo.
Mesmo sem poder tê-lo ao meu lado. Mesmo sem poder tocá-lo.
Mesmo sem poder agradecê-lo.
Eu aqui, sentado em minha cama em uma noite chuvosa, sozinho com meus pensamentos, concluí que a maior burrada que fiz em toda a minha vida foi não ter tido coragem de agradecê-lo devidamente.
Por que ele era único, e eu era grato à ele e só ele.
Mas , remoendo meus pensamentos, não pude evitar deixar uma pergunta me subir a cabeça:
"Afinal, por que uma pessoa que se importa tanto comigo sumiria do nada?"
Mal achava eu que minha tão estimada lembrança seria substituída de minha mente.
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