When I Look At You
16 Festa da Colheita
Notas iniciais
— Bella, pelo amor de Deus! – A voz de minha amiga soa em meus ouvidos. — Você precisa sair um pouco deste lugar!
Eu olho para Rose e sinto meu âmago se retrair. Ela está ainda mais linda do que o habitual. O sol do verão e do outono deste ano fez um bronzeado incrível em sua pele. Ela, como que para exibir isso, usa um vestido frete única num corte evasê até um pouco acima dos joelhos. A cor é num tom de azul brilhante que lhe cai muito bem. Seu cabelo, sedoso e brilhoso, está escovado e semipreso, caindo pelas costas e deixando o seu rosto e decote em evidência. Ela estava arrumada para ir ao Your Song com nossos amigos e o seu namorado.
E o meu ex-namorado, Edward.
Faz 2 semanas que eu não o vejo. Digo, de perto, é claro. Eu o tenho visto nos domingos de relance na igreja e só. Não nos falamos desde que ele virou as costas e foi embora. E que eu não fiz nada para detê-lo. Duas estúpidas semanas.
— Rose, eu...
— Não quer? – Rose fala e revira os olhos, indo em direção ao meu armário. – Mas vai assim mesmo. – Ela volta a se virar para mim, que estou deitada na cama onde tentava ler um livro. – Eu não vou ver você definhar dentro dessa casa e ficar de braços cruzados não. Você vai sim!
— Rose, é sério. – Eu digo me sentando – Eu não posso vê-lo... não consigo encará-lo.
— Então não fizesse o que fez. – Ela fala e suas palavras me atingem como um tapa.
Quando Rose veio me ver, depois do término com Edward, junto com Alice, ela meio que surtou. Disse que eu estava fazendo algo que ela saiba que a Bella que ela conhecia jamais faria: colocando toda a sua dor e frustração em cima de Edward. Ela estava certa, mas não tinha como eu corrigir isso. Edward muito provavelmente não me escutaria, sequer me olharia novamente.
Desde então não tenho saído do Rainbow, a não ser para ir à Igreja aos domingos. Minha vida tem se resumido a cuidar dos detalhes da colheita e os treinos para o rodeio. A colheita será amanhã, sábado, o rodeio será no próximo sábado, e o prazo para o pagamento do empréstimo aos Black termina em 30 dias.
— Rose, por favor, preciso descansar para amanhã. – Eu digo me jogando na cama novamente. – Divirta-se, mas não se esqueça de vir amanhã, hein? Alice disse que vai ter uma primeira vez memorável em nossa colheita e ganhar o prêmio.
— Só por cima de mim, Bells! – Ela diz e sorri. Depois me encara – Você realmente não vem?
— Não, amiga, hoje não. – Eu digo e ela assente, sabendo que eu não vou mudar de ideia.
Ela vai e eu me entrego novamente ao silencio de minha casa. Olho pela janela e vejo que já é noite feita, então me levanto para fechar a casa e procurar algo para comer. Como somente eu vivo no casarão agora, eu não tenho mais cozinhado tanto, o que tem reduzido um pouco as opções para o jantar. Inclusive perdi um pouco de peso, o que não está me ajudando muito nos treinos, andei até me sentindo cansada demais.
Acabo montando um sanduiche reforçado e me obrigo a comê-lo por inteiro. Eu tenho que recuperar um pouco de peso para a competição. Eu tenho que vencer de qualquer maneira, não posso desperdiçar a segunda chance que a vida me deu de ganhar este prêmio e resgatar o Rainbow. Após comer tudo e apagar todas as luzes, eu vou para o meu quarto e apago em minha cama assim que me deito nela.
No dia seguinte, eu acordo antes de amanhecer. Estamos no meio do outono o que significa que acordei muito cedo. Resolvo adiantar as preparações para o dia pois logo as mulheres estarão por aqui e quero deixar tudo alinhado. A colheita dos Swan é uma das mais queridas da região, pois depois todos podem se divertir no lago e aproveitar de um belo churrasco.
Para a colheita, 1 touro e 3 porcos foram abatidos por mim, Embry e Sam durante a semana. As carnes marinaram por 2 dias num tempero especial, receita de minha família e que todo mundo por aqui tenta copiar. Para a competição, preparamos uma linda cesta com nossas melhores compotas e queijos, além de carnes e outros produtos. Um verdadeiro banquete.
A colheita em si é uma tradição local e cada família faz de seu jeito. Os Swans, como sempre fomos famílias pequenas, costumávamos chamar os vizinhos e amigos, depois desenvolvemos uma pequena competição para animar ainda mais a festa. A participação é por família e inclusive as crianças gostam de participar. A família que consegue mais quilos de frutas colhidas em perfeito estado ganha o prémio. As famílias pequenas podem se unir na competição e depois dividem o prêmio entre elas. Como por exemplo, a Angela, que se juntará ao Sam, Embry e Emily.
Eu visto a minha roupa tradicional para a festa: Vestido rosa claro florido, avental jeans e botas confortáveis. Pego o lenço azul marinho com o nome Swan bordado, o lenço de minha família, e o amarro no pescoço. Cada família carrega consigo algo que as identifica, um símbolo em comum, como um lenço, peças de roupa com a mesma cor, camisas personalizadas, enfim. Faço duas tranças estilo boxeadora, deixando alguns fios soltos e pego o meu chapéu, o chapéu que Edward me deu de presente e que eu nunca mais deixei de usar.
— Bom dia, Princesa! – Eu digo alisando o dorso da vaca que solta um mugido dengoso – Hoje é o grande dia... Ah como eu queria que papai estivesse aqui! – Eu digo olhando o céu que começa a clarear – Bom, vamos começar o dia, né?
Após ordenhar a Princesa e pegar os ovos, corro para dentro quando vejo que o céu já está bem claro. Adianto o café e vou colocando o bacon na frigideira. Quando começo a espremer algumas laranjas, ouço um carro se aproximar.
— Bella? – Ouço a voz de Rose na frente da casa.
— No quintal! — Eu grito em resposta e ela e sua família me encontram ali.
— Bom Dia amiga! – Ela fala e vem para o meu lado – Quer ajuda com isso? – Eu assinto e trocamos um abraço.
Rose está vestida com o manto dos Hale. Ela, Jazz e seus pais usam sempre uma camisa de botões com um ‘Hale’ bordado no colarinho. A camisa é amarela e o bordado, vermelho. Todos também usam um macacão jeans e avental cinza por cima. Os Hale sempre participam e inclusive já ganharam diversas vezes, pois Rose e a mãe são muito boas na colheita.
— Bella, filha, como você está? – Lilian Hale me pergunta e se aproxima para me dar um abraço. Ela sempre foi como uma mãe para mim já que aminha sempre viveu tão longe. – Trouxemos café, torradas e sucos. – Ela fala e vai colocando tudo sobre a mesa.
— Obrigada, eu estou bem, tia! – Eu digo sorrindo. – Fique à vontade.
O almoço é totalmente oferecido pelos Swan, porém ao longo dos anos criou-se a tradição de fazermos um grande café partilhado antes de começar a Colheita. Logo outras famílias vão chegando, se acomodando e começando a se servir. Os Uley, os Jensens, os Phillips, e muitos outros vão enchendo o quintal. A certa altura, observo Rose olhando a entrada do sítio. Sei que ela está esperando pelos Cullens.
Rose e Emm engataram um relacionamento sério. Tanto que minha amiga me disse na semana passada que ambos estão pensando em futuro juntos. Eu confesso que fiquei surpresa ao ver Rose se entregar a ideia tão fácil, mas ela me garantiu que tem certeza absoluta que eles foram feitos um para o outro. Com isso, eu apenas desejei a ela toda a felicidade do mundo.
O carro dos Cullen surge no horizonte e minha amiga sorri. Eu automaticamente sorrio e depois me repreendo. Eu perdi o direito de sorrir assim por ele. Eu me levanto para ir fatiar um novo queijo já que o da mesa estava acabando. Ouço os Cullen cumprimentar a todos e virem na minha direção. Eu particularmente estou curiosa para saber que símbolo eles escolheram para usar já que é a primeira vez deles na experiência, exceto Carlisle que já fez quando mais jovem.
— Bella! – Emmett vem e me ergue num super abraço de urso, uma mania que ele adquiriu e que eu finjo que não gosto, mas adoro.
— Bom dia amiga! – Alice vem em seguida e trocamos um abraço mais leve, assim como com sua mãe, Esme.
— Bella, querida, como está? – Seu jeito maternal me constrange e eu murmuro um ‘tô bem’ que quase ninguém ouve.
— Obrigada por virem Cullens! – Eu digo com um sorriso – É uma honra tê-los na nossa tradição. – Eles sorriem para mim. Neste momento, eu olho para Edward pela primeira vez desde a nossa última conversa.
Ele está absurdamente lindo, eu concluo. Seu cabelo está revolto pelo vento, sua barba está levemente crescida, lhe conferindo um ar mais maduro e sério, mas seus olhos esmeralda contrastam, possuindo um ar jovial. Sua roupa lhe cai muito bem e eu percebo o quanto as roupas mais rurais parece cair com perfeição nele. Ele veste uma calça jeans e botas, uma camisa xadrez num tom azul e um colete cor de areia. Aliás, percebo que todos vestem o mesmo colete. No peito, do lado esquerdo há um bordado: Cullen. Eu sorrio ao ver o símbolo que eles criaram.
— Oi Bella, como você está? – Edward fala e sua voz sai num tom levemente apreensivo e cansado. Eu o encaro melhor agora que está mais próximo e percebo algumas diferenças além da barba. Seu olhos estão mais fundos, há olheiras ao redor deles e sua postura me parece um pouco prostrada. Eu fico intrigada com aquilo.
— Estou bem. – Eu digo com a voz quase falhando e ele assente com um meio sorriso. – Venham, sentem-se e se sirvam. Logo começaremos.
Mais algumas famílias chegam depois dos Cullens e se juntam a nós. Há uma pequena cantoria, todos ficam bem animados. Um pouco antes das 9h todos nos encaminhamos para o pomar. Para poder falar melhor e todos me ouvirem, eu monto em Chloe. Do alto, eu observo as famílias se organizando com seus cestos. Uma pontada atinge o meu peito ao me lembrar de como meu pai adorava ajeitar o meu lenço. Eu toco o objeto com carinho e engulo o choro.
— Atenção famílias! Sejam bem-vindos à Colheita Anual do Sítio Rainbow – Eu digo e todos silenciam para poder me ouvirem melhor. – Em nome da Família Swan quero lhes agradecer pela participação e carinho. De forma muito especial, este ano, a nossa festa é em homenagem à Charlie Swan, meu pai.
Vejo todos tirarem seus chapéus em sinal de respeito à menção do nome de meu pai. Eu sorrio.
— Pois bem, Desejo a cada família uma fartura de frutos e uma boa sorte! – Eu digo e olho para Sam para tocar o sino iniciando a colheita.
Cada família se dirige então para o vasto pomar a nossa frente e começam a colher os frutos disponíveis. Logo as famílias vão se espalhando e o pomar vai sendo tomado de pessoas de todas as idades. Muitas famílias já tem as suas frutas de preferência para colherem, seja por ser mais pesada, seja por serem mais fáceis de colher. Vejo meus amigos com suas famílias se espalharem pelas amoreiras. A pequena Claire, filha do Sam, colhe alguns morangos com suas mãos pequeninas. Já Annie, filha de Angela, apenas se balança toda no sling nas costas da mãe.
— Bells, você não vem? – Alice pergunta a certa altura
— Claro que vou, só estou de olho para ver se alguém precisa de alguma orientação.
— Vem logo, todo mundo sabe o que fazer. Vem me ajudar aqui. – Ela fala e eu vou rindo de sua cara.
Vou colhendo próximo aos Cullen e aos Hale. Começamos a cantarolar algumas músicas e vamos rindo bastante. Volta e meia sinto o olhar de Edward em mim e nosso olhar se cruza em algumas dessas vezes. Meu corpo obviamente parece se alertar com essa interação e vou ficando meio sem jeito. Eu realmente estava muito feliz em vê-lo ali depois de tudo.
— Bella, pode me ajudar com estes aqui? – Edward me chama e eu me aproximo dos arbusto de morangos onde ele está.
— Oi Edward – Eu digo e sinto minhas mãos suando. Ele se abaixa um pouco e eu acabo me abaixando também. – Qual a sua dúvida?
— Nenhuma Bella – Ele diz meio ansioso. Eu o olho e mergulho em seu olhar. – Eu só queria saber como você realmente está.
— Eu... – Eu começo a falar, mas me calo porque sei que ele vai saber a verdade em meus olhos. – Nada bem, mas estou sobrevivendo. Seguindo.
— Imaginei. – Ele fala com ternura e toca a minha mão de forma doce e inocente, mas que me causa um certo calor. – Olha Bella, eu preciso que você saiba que estou aqui para você.
— Eu realmente agradeço, Edward. É muito nobre de sua parte depois de tudo...
— Nada de nobreza. Eu fiz uma promessa a você. Eu disse que estaria sempre com você e vou estar sempre que precisar de mim. – Ele fala e então tira sua mão da minha. – Nunca esqueça.
— Certo, obrigada! – Eu digo e ele assente se endireitando e indo para o outro lado.
Céus, como eu pude afastá-lo de mim se preciso tanto dele?!
A colheita se segue e é um sucesso. As famílias vão estocando as frutas colhidas e fazendo a triagem para que possamos fazer as pesagens mais tarde. Algumas crianças até experimentam algumas, sentadas junto aos mais velhos que descansam um pouco. Após o meio dia, o reverendo Walsh, Sam e Embry começamos a organizar as pesagens, enquanto que algumas mulheres vão organizando o churrasco comigo. O reverendo se disponibilizou para executar esta parte, que era meu pai quem fazia. Na verdade, a festa da Colheita me faz lembrar dele a cada instante e isso me deixa emocionada durante todo o dia. Porém de um jeito novo para mim.
— Não tem como não pensar no seu pai né? – Rose diz se aproximando. Com ela vem Emm, Alice e Edward. – Ele amava esse dia!
— Sim. – Eu digo emocionada.
— E você está lidando bem com isso? – Alice pergunta.
— Por incrível que pareça, estou. – Eu digo sorrindo. Meu olhar encontra o de Edward, que sorri minimamente e desvia. – A saudade é ainda dolorosa, mas não machuca, sabe. É só saudade mesmo.
— Oh minha amiga, eu fico feliz que isso esteja sendo melhor para você. – Rose fala e todos assentem concordando.
— Bella, acho que podemos começar a servir – Angela diz se aproximando. – Já temos muitas carnes boas na grelha.
— Ah sim, então vamos lá! – Eu digo seguindo para lá com todos.
O almoço segue bem tranquilo. As famílias se reúnem e vão se servindo das carnes e dos acompanhamentos. Eu aproveito que todos estão entretidos ali e vou caminhando pelo pomar, agora quase completamente vazio agora. É possível ver frutas aqui e ali nas arvores e arbustos, mas a grande parte foi colhida pelas famílias. Eu me sento na raiz de uma laranjeira e me recosto em seu tronco. Me permito sentir um pouco a brisa que passa por ali e fecho meus olhos.
— Hoje eu entendi porque você ama tanto esta terra. – A voz surge do nada, mas não me assusta. É como se no fundo meu corpo estivesse esperando que ele viesse até mim. Eu sorrio antes mesmo de abrir os olhos e encontrá-lo sentado ao meu lado. – É realmente incrível lidar com a natureza dessa maneira.
— Você gostou da colheita? – Eu pergunto para ele que assente sorrindo.
— Sim – Edward fala olhando o horizonte e eu faço o mesmo. – Além da beleza de colher os frutos, ver o trabalho em equipe de cada família ou grupo, o empenho, o cuidado. – Ele me olha – Apesar da minha família ser bem unida, este momento nos estreitou ainda mais em diversas coisas.
— Eu fico muito feliz por isso. Na verdade, essa sempre foi a essência da festa. União e partilha. – Eu digo e me sinto totalmente conectada a ele pelo nosso olhar.
— Bella, eu... – Edward começa, mas hesita. Meu coração erra uma batida e me aproximo um pouco mais de seu rosto.
— Diga Edward. – Eu peço ansiosa. Ele me dá um meio sorriso, triste e cansado.
— Esquece, melhor voltarmos. – Ele fala se afastando e levantando – Eu vi que você não comeu nada ainda e pelo que me lembre, você tem um rodeio para ganhar semana que vem. Precisa estar forte e saudável. – Ele fala me estendendo a mão.
Meu coração se aquece com seu carinho e sua preocupação, mas também se aflige com sua distância. Eu o magoei mais do que tinha imaginado. E me pergunto se ainda posso consertar isso. Eu aceito sua mão e caminhamos juntos de volta a festa. Ao menos me alegra saber de sua amizade.
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