Notas iniciais
mais um para vocês

A cada passo apareciam tantas ideias. A poucas quadras de casa ele já corria em um ritmo insano. Ele entrou em casa animado, passou pela sala correndo deixando o seu casaco jogado no chão e todas as pessoas na sala o olhando intrigados. Bill entrou no quarto e fez questão de trancar a porta e pegar seu violão. Pegou um caderninho e uma caneta. Um vento frio entrava no quarto e folheava o caderno até uma velha folha com vários textos.

“Palavras movem sentimentos, uma imagem move mais sentimentos ainda e por isso vale mais que mil palavras, mas um beijo vale mais que mil imagens pois é um gesto, mas um gesto simples de carinho que faz com que uma pessoa se sinta feliz, mas quando o beijo é vazio e sem sentimentos, só beijar por beijar ele não vale nem uma palavra”

“a musica é uma forma de se expressar única, pois quando as palavras morrem na garganta, ela faz ressuscitar a voz e reviver o coração”

“as vezes você não pode ver, mas pode sentir e isso basta”

“as pessoas mais difíceis de serem amadas são aquelas que mais precisam de amor”

“amor é um remédio, não precisa de prescrição de um medico, sem doses, enquanto mais melhor, mas ele não se vende em farmácias e todos precisam constantemente dele”

Bill se lembrou do dia em que Sam escreveu aquilo em seu caderno, quase chorou ao lembrar das garotinhas falando aquela frase. Era uma manha qualquer, ele tinha um caderno a mais para compor, estavam no meio da aula de Filosofia, ela puxou o caderno e disse bem baixinho “agora eu sou uma filosofa, vou filosofar” e escreveu algumas frases em seu caderno.

Inevitavelmente ele sorriu com a lembrança. Ele se segurava para não chorar. Ele leu cada frase, até que chegou uma no final da folha. Uma lagrima já escorria em sua face.

“não chore, o mundo está lá fora, levante-se pegue um instrumento, depois saia de casa a inspiração virá ao seu coração e você sabe aonde encontra-la”

Bill limpou suas lagrimas, era como se Sam previsse o que ia acontecer dois anos depois dela ir embora. Bill pegou seu violão, colocou seu celular no bolso e levou consigo só o caderno, uma caneta e um pouco de dinheiro. Ele sabia de onde ela falava, seguiu pelas ruas até que chegou em uma velha casa abandonada perto de um bosque, onde eles costumavam a ficar depois da aula.

Ele ainda lembrava dos bons momentos que eles passavam ai quando o Tom e o Jimmy não estavam. Os dois sozinhos, geralmente lendo livros ou discutindo sobre musica. Aquilo tocou seu coração, ele entrou, tudo como estava a dois anos atrás. Ele foi entrando mais e mais dentro.

Era um pequeno sobrado, na parte de cima tinha um pequeno quarto com varanda onde ele e ela gostavam de ficar. Na parte de baixo tinha uma pequena sala, onde eles decoraram com as coisas que eles achavam engraçadas. Geralmente eram coisas que traziam alguma boa memoria. Tinha o skate quebrado de Jimmy de quando ele quebrou na cabeça de uma atriz chata e metida, as ferramentas que eles usaram para explodir o encanamento da escola, um pouco de carboneto de cálcio em algumas garrafas, como Tom mesmo dizia “era para afastar os inimigos caso encontrassem a casa”.

Ele foi até o andar de cima, se sentou em uma almofada gigante daquele tipo que adolescentes escandalosas adoram colocar no quarto. Essas que tinham ali eram vermelhas e pretas.

Bill sentiu uma corrente de ar gelada passar pela porta quebrada o quarto. Ele abriu o caderno de novo, deixou seus sentimentos tomarem posse de seu corpo e escreveu livremente, uma carta de amor que ele enviaria a Sam se ele pudesse.

Ficou horas lá compondo, ao meio dia Tom enviou uma mensagem a ele. “pode abrir a porta do seu quarto? Vamos sair para almoçar” Bill respondeu apenas com um “estou sem fome e estou com sono, vou dormir um pouco”, outra mensagem foi enviada como uma reposta “ok, deixei a chaves do carro na cozinha, lá também estão as chaves da casa, tenta encontrar o quarto da whatsername e ve se ela tá bem”.

Bill sorriu de lado. Pegou o violão e passou mais uma hora lá compondo, depois voltou para casa. Entrou pelos fundos e subiu até a sacada que dava acesso ao seu quarto. Abriu a porta e entrou. Destrancou a porta do quarto, viu os corredores vazios, eles provavelmente demorariam a voltar, principalmente sem ele segurando vela.

Ficou meio curioso para saber aonde whatsername se escondia, pensou bem, ela sempre virava no corredor para o lado das garotas então seria por lá. Ele começou pela sala de instrumentos, ele entrou e fechou a porta. Ele começou a procurar qualquer lugar aonde ela poderia estar escondida.

Ao final da busca ele não acho nada, sentiu a mesma corrente de ar gelada. Aquela mesma sensação invadiu o seu coração, ele procurou para ver de onde vinha o vento, não tinha nem a janela e nem a porta estavam abertas. Ele se levantou e foi contra a corrente levando ele a um armário. Ele já tinha olhado naquele armário, mas não vinha de dentro, mas sim de trás. Ele empurrou um pouco o armário revelando uma passagem. Ele entrou lá seguindo caminho até uma escada, subiu a escada e no final dela levando vagarosamente a porta de madeira no final dela provavelmente o sótão era o quarto dela. “As vezes você não pode ver, mas pode sentir e isso basta”

Com todo o cuidado para não fazer barulho ele entrou no quarto. Ele viu tudo aquilo, um grande espaço a maior parte dele vazio, apenas um velho toca discos, um piano, uma cama de casal e um grande guarda roupa. Ele não viu ela até entrar por inteiro no quarto, percebendo a janela aberta e a garota caída de joelhos a beira da cama dormindo em um sono extremamente profundo.

Ele fechou as janelas, colocou a garota na cama e cobriu ela com o maior cuidado. Viu aquele rostinho cansado dormir, mas não era aquele sono gostoso que você deitava e ia para o meio das nuvens, era um sono sob efeito de drogas em meio a um pesadelo.

“amor é um remédio, não precisa de prescrição de um medico, sem doses, enquanto mais melhor, mas ele não se vende em farmácias e todos precisam constantemente dele” Sim, ela precisava de um pouco de atenção e ninguém via isso, ela tinha um só amigo, e uma só pessoa não preenche um coração sozinha. Ela recorria as drogas, aos remédios pois aquilo dava a ela uma sensação de que ela não estava sozinha.

Ele era o único a ver isso. Bill achou melhor ele sair antes que ela acordasse e virasse uma confusão. Desceu as escadas fechando a porta de madeira no chão, depois a passagem do guarda roupa e então voltou para o seu quarto e continuou a compor. Realmente era como se ela tivesse previsto tudo o que aconteceria dois anos para frente.

**

No dia seguinte Bill se levantou um tanto cedo, se arrumou pegou seu violão e foi até o parque, esperando encontrar as mesmas garotas de ontem. Ele achou as três com suas cestas de flores colocando uma grande toalha de piquenique no chão e arrumando alguns bolinhos em cima dela.

– Meninas – Bill gritou

– Bill! –as três ficaram surpresas ao ver ele

Ele foi andando até perto das garotas.

– achou ela? – Lay perguntou

– falou com ela? – Cakau perguntou

– e o que ela disse? – Caroline perguntou

– não, eu ainda não achei ela, mas agora eu sei em que lugar da casa fica o quarto dela, também comecei a compor uma musica, queria a opinião de vocês – Bill disse

– ele quer a nossa opinião – elas disseram quase desmaiando

– vem agora você é o nosso convidado para o chá – Lay disse puxando Bill para cima da toalha de piquenique

Cakau tirava o bule e as xicaras de chá da cesta enquanto Caroline rapidamente arrumava os bolinhos. Em poucos segundos as três estavam sentadas na toalha de piquenique.

– não acredito – Cakau disse animada — uma musica?

– sim – Bill disse com um sorriso animado

– ahh, ainda lembro aquela menina do parque, ela ensinou tudo para a gente, ela sempre disse que musica era o melhor presente porque mostra que uma pessoa pensou em você e se esforçou para escrever uma letra e depois tocar um instrumento, criar um ritmo... um riff para a musica — Caroline disse

– seria legal conhecer essa garota – Bill disse

– bem, ela disse um dia que não ia poder mais voltar, disse que iria embora para que Berlim fosse uma cidade mais segura. Ela sempre disse que se as coisas forem feitas do jeito certo ninguém vai precisar morrer por motivos idiotas e o mundo estará um passo mais próximo da paz – Cakau disse

– sim ela também dizia que não era necessário um exercito para parar e prender bandidos, se for da maneira certa ela disse que poderiam prender eles sem atirar e suar a força bruta. Ela mesma ensinou a gente a convencer bandidos, ladrões e estupradores pararem com o que estavam fazendo – Lay disse

– ela deveria ser bem inteligente – Bill disse – assim como vocês são

– ela era legal, ela falava que não existia talento, vocação e nem nada disso, se você quer você se esforça e chega lá, isso me ajudou em muita coisa, eu consegui uma bolsa em uma escola boa e notas altas. Entrei para um clube de musica sem saber tocar nada e hoje eu me esforço muito para tocar violino – Caroline disse

– comigo foi o mesmo, só que eu aprendi a tocar piano – Cakau disse

– bem, eu só sei tocar violão e a flauta – Lay disse

– que legal, então você toca violão? – Bill disse animado

– um pouco, mas ainda tenho um pouco de vergonha de tocar em publico – Lay admitiu

– eu também, o Tom quer que eu toque nos shows, mas acho que só cantar está ótimo – Bill disse – compor algumas musicas também é bom, mas só cantar está ótimo

– mas você compõe musicas bonitas, garanto que essa musica que você compôs para ela será incrível – Caroline disse

– bem escutem – Bill disse pegando o violão e tocando para as garotas

A musica era incrível, mas ele só tinha feito ela até a metade e ele parou assim que a musica acabou porque ele não terminou de compor.

– bem, foi até ai que eu escrevi ontem – Bill disse

As garotas estavam em transe a musica era linda.

– é incrível, ela vai amar – Lay disse

– perfeita – Cakau disse

– deu vontade de chorar agora – Caroline disse

Bill apenas sorriu, mas esse sorriso logo se desfez quando lembrou que a musica era para Sam.

– que foi Bill? – Caroline perguntou

– eu fiz essa musica para a Sam... – Ele disse –mas vou cantar para a whatsername

– o que o seu coração diz? – Lay perguntou

– que a Sam é a whatsername – Bill disse

– e o que seu cérebro diz? – Cakau perguntou

– que é para eu cantar para a Sam – Bill disse

– acho que você ainda está ouvindo de mais seu cérebro e pouco o seu coração, Bill com as duas respostas que você deu para a gente você sabe exatamente para quem cantar, só falta confiar um pouco mais em seu coração – Caroline disse

– “a musica é uma forma de se expressar única, pois quando as palavras morrem na garganta, ela faz ressuscitar a voz e reviver o coração” – Lay disse

– foi uma das frases que ela recitou para a gente – Cakau disse

– agora acho que não temos duvidas Bill, vai lá e conquiste-a e não me decepcione – Todas elas disseram juntas