What you care to die for?
1 Capítulo Único
— É bom que não tenham esquecido nada — Janna fechou o porta-malas com força.
— Tirando a Skye e a Chloe, acho que pegamos tudo, né Sash? — Audrey perguntou ao amigo menor que digitava algo em seu celular concentrado, mas atento ao ambiente o suficiente para formar um joinha em uma resposta silenciosa.
— Não elas, idiota. Suas coisas. Pegou o carregador do seu celular? Eu não vou voltar para buscar.
— Tô zoando com você, Janninha — a ruiva apertou a bochecha do outro — Peguei sim, mãe.
— Ele — corrigiu, já que seu gênero tinha fluído desde a última vez que se viram. Não que necessariamente o pronome definisse um gênero.
— Janninho — ela correu com um sorriso travesso para dentro do carro para que ele não pudesse alcançá-la a tempo.
O motorista revirou os olhos e entrou por último no SUV. Ao entrar, notou um celular que não era o seu no suporte do painel. Na tela, mostrava o trajeto que levariam até o destino.
— Coloquei meu celular, não vou usar ele mesmo — Sash disse, no passageiro.
— E vai escutar música como? — perguntou com uma preocupação genuína, sabia o quanto o garoto gostava de escutar suas músicas.
Ele apontou para o aparelho mp3 que segurava, o headset conectado já posicionado na cabeça.
— Ah… valeu. — O maior se permitiu sorrir, e o amigo respondeu com outro joinha antes de ficar imerso em sua música.
Janna ligou o carro e começou a traçar o trajeto para buscar as duas amigas restantes para a viagem. Skye morava em um bairro nobre e Chloe quase na saída da cidade, ou seja, dava para passar nas duas sem precisar de nenhum retorno.
Depois disso era só estrada por três horas ou menos.
Assim que chegaram na primeira casa, viram a cabeleira azul saindo da porta principal com pressa com uma mochila e uma mala de mão.
Era uma casa bonita, de estilo neoclássico, o mármore de um branco que até chegava a ofuscar a visão de quem observava em dias ensolarados. Um jardim florido decorava a parte de fora, e arbustos altos demarcavam o terreno da propriedade. Na garagem de fora, podia-se ver um SUV Maserati estacionado.
— Por que demoraram tanto? — indagou com impaciência, enquanto J desligava o carro e abria o porta-malas do painel para ela colocar sua bagagem. Quando entrou no banco de trás, recebeu sua resposta.
— Chegamos no horário. Por que da pressa? — Audrey rebateu.
— Meus pais estão discutindo de novo. Queria sair de lá logo — elu pegou os fones com fio do bolso da calça e colocou nos ouvidos sem olhar para os amigos. Não estava a fim de ver nenhum sinal de pena no olhar deles. — Mas enfim, como vocês estão?
— Bem. Já adianto que qualquer demora inesperada foi culpa da Dam. — O motorista informou e rapidamente notou o olhar surpreso da ruiva no banco de trás pelo retrovisor.
— Eu nada! — começou, e recebeu um soco não tão de brincadeira assim pela colega de banco — Ai! Doeu.
— É porque não tenho os dedos tortos igual você — zombou, o olhar fixo na tela do celular enquanto buscava uma playlist para tocar.
— Aí! — ela buscou apoio moral nos dois amigos na frente, sem sucesso. Cada um parecia concentrado em suas tarefas. — Primeiro que não são tortos, são calos por causa da guitarra. Segundo que não foi isso que a Farah me disse ontem à noite.
Skye olhou para a amiga pela primeira vez naquele dia, o olhar fulminante como nunca. Sem nem pensar, começou a estapeá-la no ombro e no braço com força. A ruiva gritava pedindo socorro em resposta.
— Ei, vocês duas. Cresçam — J ordenou do banco da frente, dando uma olhada de relance no retrovisor, notando as duas irritadas parando de brigar.
Skye notou a paleta de cor das roupas do motorista antes de dizer. J costumava vestir determinadas cores de acordo com o gênero que tinha fluído.
— Você só está tranquilo assim porque vai ver a namorada quando chegar lá.
Janna lançou um olhar que fez Skye se arrepiar. Sabia que aquilo queria dizer que haveria retorno mais tarde.
As duas cessaram com a briga. O grupo já se aproximava da saída da cidade, e com isso, da casa da última companhia de viagem.
Um som de mensagem soou do celular de Sash.
Chloe:
“Já estou na frente de casa.”
— Será que a mãe dela discutiu com alguém também? — Skye pensou em voz alta.
—Não duvido — Sasha respondeu e pegou o celular brevemente para respondê-la que já estavam chegando.
Assim que pararam o carro pela última vez antes de encarar a estrada, enquanto J checava uma última vez se o carro estava em boas condições, Chloe colocou sua mala pequena no porta-malas, reorganizando as malas rapidamente para que a sua pudesse servir, e ocupou o último assento do automóvel.
—Oi gente — ela cumprimentou, e o grupo retribuiu o cumprimento em uníssono.
Sasha esperou que ela se acomodasse para mostrar seu videogame portátil com Minecraft aberto, virando o corpo para o lado para ver a resposta. A recém-chegada assente com um sorriso e vira o celular que segurava para iniciar o jogo.
Skye ao lado dela procurava pelo seu pendrive no bolso. Quando achou, se aproximou do painel para inseri-lo no rádio. Antes que chegasse lá, Sahni ê impediu com um tapa na mão.
—Agora não.
—Aaaah, por favor — resmungou. — Esse silêncio tá me entristecendo. Não consegui vincular meu celular com o carro.
—O problema não é meu — retrucou.
Oh fez um bico, chateade. Não iria desistir tão fácil.
— Por favorzinho — pediu, sem receber uma resposta. — Por favooor — ela o cutucou na bochecha, e continuou cutucando até que ele cedesse.
—Tá bom, cacete — J disse, contrariado.
Ela abriu um sorriso de orgulho.
—Te amo. Obrigade — e colocou o pendrive no rádio. Não demorou muito para a primeira música começar. Skye retirou os fones e os guardou de volta, recostando no banco e finalmente colocando o cinto como as outras.
—Só me acordem quando chegar — Audrey anunciou e Skye assentiu, com um sorriso travesso. Ela a ignorou com a resposta silenciosa que sabia que significava que seu pedido não seria atendido, e voltou a olhar pela janela até que cochilasse.
Logo a paisagem de edifícios e casas se tornou de árvores e fazendas. Sahni era um bom motorista, mantinha uma velocidade rápida e constante. Os pinheiros, placas e outros carros passavam como um flash.
Audrey não demorou a dormir, e Chloe e Sasha vez ou outra trocavam risadas durante o jogo. Skye continuava animade com as músicas, cantarolando baixinho, o olhar focado na estrada a frente.
Um som de notificação soou do celular do motorista. Com cuidado, ele retirou o dispositivo do bolso do moletom e estendeu ao passageiro da frente.
Oh emitiu um suspiro de surpresa.
—Sash sabe sua senha? — ela perguntou ao motorista, enquanto Lynch digitava a senha numérica de quatro dígitos. Assim que o celular desbloqueou, Skye emitiu um suspiro de surpresa. — Por que eu não sei?
—Porque não confio em você — ele disse simplesmente.
Skye o olhou emburrade pelo retrovisor e retirou o cinto para espiar o celular dele nas mãos de Lynch.
—É a Yas. Disse que viu no noticiário que tá tendo uma tempestade no caminho e que é pra tomar cuidado. Ah, ela e Andi estão fazendo um brownie, ela mandou foto. — Ele virou o celular para que Sahni visse rapidamente. — Agora a Bea mandou uma mensagem também. É outra foto, da Yas e a Andi distraídas olhando pro forno ligado. A legenda é: “depois de muita briga, tá saindo”, emoji comemorando. — Ele virou a tela novamente para o motorista ver, e ele abriu um sorriso discreto.
—Manda um ok pra Yas. — Lynch o fez e guardou o celular no porta-objetos do painel, próximo do câmbio automático. — Vamos fazer uma parada daqui a uma hora e meia. Se a chuva estiver muito forte esperamos por lá antes de continuar.
Sasha fez um positivo com a mão e voltou a se concentrar em seu jogo. Skye voltou a se recostar no banco e colocou o cinto novamente.
A uma hora e meia passou rápido e sem transtornos. Enquanto J ficava atento em busca de uma parada, notou que uma nuvem escura se formava a frente. A tempestade de que tinham falado estava próxima.
— Vai cair o mundo — Skye comentou e J a olhou do retrovisor.
— Está acordade ainda?
— É... não consigo dormir no carro.
J assentiu. Em algumas centenas de metros à frente encontraram um posto pequeno. Seria o suficiente para que pudessem seguir o resto da viagem com tranquilidade.
No momento que o carro estacionou, as quatro despertas se arrumaram para sair. Skye, vendo a oportunidade perfeita para zoar com a amiga ruiva, lhe deu um tapa na testa para que acordasse.
— Ai, merda — Audrey acordou nem um pouco contente e tentou devolver o tapa na amiga que já saía do carro — Você me paga.
— Não tem sinal aqui — Sash afirmou, os dedos ágeis mexendo em algo no celular.
— A ideia da viagem é essa, um pouco de desligamento do mundo. Aproveita — J deu tapinhas no ombro do menor e foi na frente.
Enquanto o motorista pagava o combustível e abastecia, Sasha e Chloe pagavam pelos lanchinhos e Skye voltava do banheiro quando viu Audrey recostada em um carro estacionado no estacionamento lateral do posto com um palitinho de pirulito na boca, seu olhar distante.
— Sabe, se quiser fumar ali na conveniência tá cheio de opções — elu brincou.
Audrey só a olhou, parecendo analisar se valia a pena desabafar com ela.
— Minha mãe fumava. Não quero ser como ela.
Skye tentou não parecer surprese. Não era fácil Audrey contar algo do passado. O que tinha dado nela?
— Merda — Audrey murmurou, o olhar distante parecendo focado de repente. Skye seguiu para onde olhava e notou alguém saindo da mata do outro lado da rodovia.
Em segundos, o olhar das duas focou em uma mulher que se aproximava correndo. Sua aparência era a que mais assustava: seu cabelo castanho e suas vestimentas estavam encharcados de sangue e lhe faltava um dos sapatos. Seu comportamento era ainda mais estranho: seu olhar de terror e de como segundo em segundo olhava para trás.
— Vocês precisam me ajudar! — ela disse, segurando nas mãos da de cabelo azul. — Por favor, precisam me ajudar, precisam... — Sua voz sumiu, e seus olhos rolaram para trás. O corpo da desconhecida pendeu para o lado inconsciente e as duas amigas a ajudaram a não cair e se machucar.
— Ela tá convulsionando, protege a cabeça dela! — Skye mandou, retirando o casaco que usava para servir de apoio a cabeça da mulher. Audrey fez o mesmo e esperaram até que a crise passasse.
Quando a convulsão se encerrou, as duas soltaram a respiração que nem tinham notado que estavam segurando.
— Cadê eles, ein? — Skye perguntou — Devíamos ligar para a emergência sei lá... — O olhar delu brilhou de repente com a nova ideia. — Eu vou ver se aqui tem algum telefone fixo. Espera aí.
Enquanto sua figura se distanciava, Audrey murmurou consigo:
— Como se eu fosse em algum lugar...
Skye entrou na conveniência do posto no mesmo momento que Sasha e Chloe estavam para sair, entretidas em algum assunto.
— Gente precisamos de ajuda, tem uma mulher lá fora e ela tá mal. Muito mal. Ela chegou convulsionando e...
— Espera aí, o quê? — Sash perguntou.
— Ela tá lá fora com a Audrey... — seu olhar varreu pelo caixa e notou um senhor assistindo a TV acima de si, passando uma reportagem sobre a tempestade. — Ei, senhor! Vocês têm telefone fixo aqui?
O senhor a olhou de forma demorada, como se buscasse segundas intenções no pedido dê garote. Ele apenas apontou para um telefone fixo na parede, a aparência bem antiga e a cor de um bege que um dia foi branco. Enquanto Skye corria para ligar, Sash e Chloe saíam para fora procurando pela amiga e a tal pessoa precisando de ajuda.
Encontraram algo além disso.
Janna conversava – discutia, talvez – com Audrey, esta com respingos de sangue dos pés à cabeça. Seu olhar estava congelado, em choque, para um corpo sem cabeça no chão. Sangue jorrava pelo pescoço do corpo e se espalhava manchando o sapato dos dois.
— O que aconteceu? — Sash se aproximou da cena. Chloe ficou atrás, sem conseguir desviar o olhar do cadáver, em completo choque. Ver um realmente era muito, muito pior que ver em filmes.
— Eu... Eu vi a Skye entrando na loja e estava vindo ver o que aconteceu quando... explodiu. A cabeça só... explodiu — J contou. Até ele que dificilmente mudava de expressões parecia chocado, ou pior: com medo.
— Como assim explodiu? É biologicamente impossível... — Sash começou a explicar.
— Mas explodiu! — Audrey interrompeu, falando pela primeira vez desde o ocorrido. — Merda, olha para mim! Não estamos mentindo... — sua voz estava embargada.
Lynch não conseguiu dizer nada. Enquanto ela tentava pôr os pensamentos em ordem, Chloe se aproximou com a mochila da ruiva. Ela a convenceu a se trocar e foram juntas para o banheiro.
Skye passou por elas e analisou a amiga encharcada de sangue.
— Merda, o que aconteceu?
Chloe fez um sinal de “agora não” e apontou para os outros dois amigos. Enquanto elu corria para eles, as duas se dirigiram ao banheiro. Chloe agradeceu que não era daqueles postos que precisavam de chave e eram imundos. Claro, não era o banheiro mais limpo que já viu, mas quebraria um galho.
Dam se olhou no espelho assim que chegou, analisando sua aparência por um minuto ou talvez mais. Quando a outra percebeu que ela estava em choque de novo, propôs:
— Lava seu cabelo primeiro, e depois você troca de roupa na cabine e eu te passo papel toalha úmido para você tirar o excesso de... Bem...
A maior assentiu. Chloe lhe estendeu seus produtos de cabelo depois de abrir a mochila e, enquanto o lavava na pia, notou pedaços de carne, ou melhor, do cérebro da pessoa grudados nos fios. Resistiu a vontade de vomitar e terminou de lavá-lo até sentir o cheiro de sangue diminuir e a cor da água voltar a ficar transparente.
Quando terminou, foi para a cabine, tirou o excesso do sangue com os papéis toalhas que Foster lhe oferecia da porta fechada na parte de baixo da porta até se dar por satisfeita. Colocou uma roupa limpa e voltou para a pia.
Chloe a olhou confusa, ela já parecia bem limpa.
— Não vou conseguir sossegar com o cheiro do sangue ainda em mim — disse, e começou a passar o sabonete líquido do banheiro nos braços e pernas onde era visível pela roupa. Enquanto ela fazia isso, Chloe se ofereceu para limpar a sola do tênis que Dam usava.
Enquanto isso, Skye tinha voltado a loja de conveniência e tentava falar com o senhor. O senhor a entendia, mas não respondia.
— Você pode por favor chamar uma ambulância? Polícia que nem seja, qualquer coisa.
O senhor não reagia.
— Caralho, tem um corpo sem cabeça no seu estacionamento! E você não vai fazer nada?
Ambos escutaram a porta abrindo e era J, parecendo com pressa.
— Precisamos ir — ele pegou a amiga pelo braço e a puxou para sair.
— Espera, mas ele precisa fazer alguma coisa...
— Nós fizemos nossa parte, deixe que ele faça a dele agora.
***
Partiram poucos minutos depois, com Audrey limpa e Skye convencide de que tinham feito tudo que puderam. Sash e Chloe não tinham dito uma palavra desde então.
Por mais que J odiasse as playlist dê amigue, torcia consigo que elu colocasse para tocar no carro. Uma música ajudaria a afastar aquela visão, a fingir que nada tinha acontecido.
As primeiras gotas de chuva vieram logo depois. O som das gotas batendo na lataria do carro sendo sua trilha sonora por longos vinte minutos na tempestade. A chuva se intensificou tanto de repente que o limpador do para-brisa mal dava conta de limpar a tempo. O motorista diminuiu a velocidade, e a passageira da frente virou para trás para analisar a ruiva com o olhar perdido na janela.
— Ei, Audrey, foi mal se eu...
O carro freou bruscamente e derrapou alguns metros a frente. Os quatro pares de olhos se dirigiram para a frente, onde um carro com as luzes ligadas impedia a passagem da rodovia por ambas as direções. Parecia que o motorista do lado oposto tinha desviado de algo na beira de estrada e por algum motivo ainda não tinha saído do meio dela.
— Eu posso ver o que... — Skye começou, mas J a interrompeu com um sinal de mão.
— Eu vejo. Sash, fica preparado qualquer coisa.
Sasha assentiu, tirando o cinto e mudando a posição em como se sentava. Caso acontecesse algo, pularia para o banco do motorista.
— Vocês tinham um plano de emergência e não nos contaram? — Skye continuou, sem acreditar.
Lynch ê ignorou, e enquanto isso, J saía do carro fechando a porta atrás de si e se aproximando do carro rapidamente. Estava chovendo bastante, e o quanto pudesse ser rápido para evitar molhar as roupas melhor.
Não era possível ver com facilidade o que tinha dentro do carro. Podia se ver uma silhueta no motorista, mas não dava para saber se a pessoa estava só inconsciente ou... pior.
Janna bateu na janela do passageiro primeiro. Quando não obteve resposta, deu a volta e abriu a porta do motorista. Ainda que o cheiro de chuva se mostrasse bem presente, também era possível sentir um cheiro forte de algo podre ali.
— Ei, tudo bem? Ei! — J cutucou a pessoa, e depois a sacudiu.
Quando a sacudiu, o rosto que pendia para o lado oposto se virou em sua direção, e foi quando J teve certeza de que tinha algo muito errado.
O rosto estava metade queimado, dilacerado, ou até comido de dentro para fora. Era difícil saber com o crânio da pessoa em parte exposto, além da carne viva em pedaços e até parte de seu cabelo afetado.
E não era só no rosto, seja lá o que fosse percorria até a ponta dos dedos da pessoa, que ainda estavam em volta da marcha do carro. Ela podia ter morrido, mas ainda sim tentou se salvar.
Se era algo dentro do carro que tinha feito isso com ela, J não queria descobrir. Fechou a porta e correu de volta para o carro, seguida de três pares de olhos curiosos.
— O que houve? — Sasha perguntou.
— A pessoa está bem? — Chloe seguiu com as perguntas.
J nada disse e apenas engatou a marcha e apertou com o freio de mão para dispararem para frente, desviando do carro e pegando uma parte da grama além da beira de estrada, fazendo o carro tremer por uns segundos.
— Merda, achei que você fosse o todo certinho no trânsito — Skye brincou.
Sahni queria poder ter a força para dar uma bronca na amiga por estar brincando em um momento sério, mas nem isso conseguia fazer. Em vez disso, acelerou até que julgasse ser uma distância segura.
Suas quatro companhias não disseram nada nesse meio tempo. Audrey, apesar do susto, tinha voltado a olhar para a janela, seu estado meio catatônico. Skye e Sasha trocavam olhares, um mais confuso que o outro. Chloe olhava para o outro lado da paisagem e segurava no tecido da gola de sua roupa. Costumava fazer isso quando ficava nervosa.
O que pareceu alguns minutos passados e a chuva diminuiu gradativamente. O silêncio a esse ponto era um companheiro invisível e desconfortável. Sasha tentava cochilar no banco da frente e Skye tinha recolocado seus headsets e escutava alto o suficiente para as amigas ao seu lado também conseguirem escutar de forma abafada, o que não pareceram se importar. Foster tinha voltado a jogar e a de cabelos azuis olhava na mesma janela que a ruiva ao lado, dividindo o olhar entre a paisagem e a amiga que não dizia nada desde o episódio do posto. Elu entendia que era uma situação traumatizante, mas era difícil ver Damgaard quieta por tanto tempo. Era até... estranho demais para suportar.
— Já pararam para pensar como não cruzamos com nenhum carro em movimento desde que saímos da cidade? — Audrey perguntou de repente. O olhar sem mudar de foco.
Chloe e Sasha concordaram com um murmúrio. J mantinha os olhos na estrada tentando se lembrar de algum carro com que tenham cruzado.
— Você chegou a olhar os sites das rodovias? — ele perguntou ao passageiro, que assentiu.
— Não tinha nada fora do normal. E se fosse algo muito urgente, teríamos todos recebido um alerta por SMS, não?
— Sim, mas... Desde quando estamos sem sinal? — Chloe relembrou. — Quando saímos não tinha nada, pode ter acontecido bem na hora que estávamos na estrada. Pode ter sido aquele carro...
— Vocês realmente esqueceram da mulher que explodiu a cabeça na minha frente? — Audrey rebateu, o olhar irritado dividido entre os amigos.
— E se ela fosse procurada da CIA ou coisa parecida? — Skye propôs, o headset pendendo no pescoço. A música ainda tocava, mas mais baixa. — Explicaria a cabeça explodida de repente.
— Não, não... — Audrey respirou fundo e engoliu em seco. — Ela... A cabeça dela inchou, como se tivesse sido picada por uma abelha ou algo assim, mas não parava de inchar. Não até a cabeça...
Ela não precisou concluir para eles entenderem.
— Certo... E se fosse uma reação alérgica? — Skye continuou.
— Mesmo que fosse, continua sendo biologicamente... — Sasha começou seu raciocínio e J buzinou de súbito.
— Porra, vocês podem parar de falar sobre cabeças explodindo por um segundo? Pouco me importa como a cabeça dela explodiu ou se vimos outros carros ou não na estrada. Só vamos continuar e chegar na praia. Depois nós discutimos sobre tudo isso.
O silêncio retornou e permaneceu por mais longos minutos na viagem. A chuva tinha sumido, e em seu lugar, uma forte neblina dificultava a visão do que estava ao redor do carro. J ligou a luz de neblina e diminuiu a velocidade mais uma vez. Conforme a velocidade diminuía, notou que não conseguia acelerar mais.
— Tem algo errado — disse, e em segundos o carro parou sozinho. Sahni primeiro procurou pelo painel, enquanto Sasha olhava pelo espelho retrovisor do lado de fora.
— Parece que o pneu tá furado... — Sasha pensou em voz alta, e logo todos com exceção da ruiva saíram do carro para conferir.
J analisou o pneu antes de ter certeza de que precisaria do step. Sasha ajeitava o macaco embaixo do carro enquanto J afrouxava os pregos e Skye retirava as malas do porta-malas para retirar o step. Chloe tinha ficado encarregada de colocar a sinalização alguns poucos metros de distância do carro.
Quanto finalizaram e J ajudou Skye a recolocar as malas na parte de trás do veículo, Sasha chamou por Chloe. Uma, duas, três vezes. Sem resposta.
— E se ela se perdeu? — Audrey comentou do carro, abrindo a porta do banco de trás.
— Não, não... O carro está com as luzes acessar, não seria tão... — Sasha começou a responde-la, mas Skye se prontificou primeiro.
— Eu vou procurar ela — elu dividiu o olhar entre as amigas. — Fiquei prontos no carro caso aconteça algo. — E correu para o meio da névoa.
Oh chamou por Chloe também. Começou a correr olhando para todas as direções que conseguia seguindo a estrada, visto que era difícil ver o que se estendia além dela. O mais seguro, a princípio, seria manter-se nela.
De repente, tropeçou em algo e caiu por pouco não atingindo os dentes no asfalto, apoiando seu peso com as mãos no último segundo. O susto passado e elu olhou para trás, procurando o que quer que tinha sido que a fez tropeçar.
Esperava um galho ou até a própria sinalização que Chloe tinha colocado, mas encontrou algo além disso.
Era uma perna, ou melhor, duas pernas. Familiares demais para ser verdade. A pele negra, as meias de corações e os tênis brancos. Skye seguiu com o olhar e o que mais temia se concretizou no que acreditava ser os piores segundos da sua vida até então: o corpo de Foster estava deformado em duas partes, uma nas costas e outra na cabeça. Quase que como se algo muito pesado tivesse passado por cima dela. Seu óculos estava quebrado perto do que um dia foi a cabeça, e que agora eram só miolos, fios de cabelo e dentes espalhados. Uma de suas órbitas parecia ainda inteira. Suas costas por outro lado... Todo seu tronco tinha se tornado um bolo de carne e ossos só.
Pensando bem, lembrava bastante a roda de um caminhão. Mas como...? Eles teriam escutado um caminhão se aproximando.
A respiração dê garote falhava e seu coração batia mais rápido do que nunca. Oh gritou por ajuda e se levantou para retornar ao carro quando algo a puxou para longe.
— Escutaram isso? — Sasha perguntou de repente saindo do carro em um pulo. Escutou a voz de Skye pedir por ajuda mais uma vez antes de ouvir gritos. Gritos excruciantes de uma intensidade que jamais tinha escutado.
Lynch estava para correr atrás delu quando J o impediu.
— É melhor não.
— Você perdeu a razão? Elu precisa de ajuda!
— Sash... já vimos... eu vi muita coisa que nem conseguia imaginar hoje. Seja lá o que for, ou é uma brincadeira de muito mal gosto ou é algo muito ruim.
— Por isso mesmo precisamos ir! — Lynch se desvencilhou do amigo e correu na direção do grito. Sahni revirou os olhos e correu atrás.
Não demoraram para encontrar o corpo sem vida da amiga. Ambos arregalaram os olhos, sem dizer nada. Procuraram por sinal de Oh sem sucesso.
Até escutarem um estouro, e começar a chover sangue.
— Que porra... — Sash escutou J sussurrar.
Pedaços de carne começaram a cair também, incluindo uma mão humana. Ou melhor.
A mão direita de Skye. A tatuagem de clave de sol aparente na articulação do polegar, além das unhas curtas e pintadas de branco.
Lynch não sabia se gritava, se pedia por ajuda ou se só se mantinha em silêncio, tentando afirmar a si mesmo de que aquilo tudo não estava acontecendo.
Era para ser uma viagem tranquila entre amigos.
J não disse nada também. O menor não conseguiu ver a reação que o outro demonstrou a tempo pois ele se virou e começou a fazer o caminho de volta ao carro. Sash o seguiu e foram em silêncio de volta ao veículo onde Audrey esperava pacientemente.
O que era tão estranho quanto.
— O que aconteceu? — perguntou, notando os respingos de sangue na pele, cabelos e roupas dos amigos.
Os amigos a ignoraram e continuaram a viagem. Audrey percebeu o desconforto nos dois e preferiu voltar a analisar a paisagem da janela de trás.
O trio perdeu a noção do tempo até então, mas sabiam que estavam na estrada a mais tempo do que imaginavam. Não demorou para encontrarem um hotel a beira de estrada, a placa luminosa ainda se fazendo presente mesmo com a névoa.
J decidiu parar por ali. Quem sabe, dessa vez pudessem chamar a polícia. Ele olhou para o amigo no passageiro, que entendeu o recado de imediato. Sasha checou o celular que segurava.
— Ainda sem sinal. Mas talvez tenham um telefone fixo que funcione, né? — o desespero em seu olhar era visível.
— Eu vou lá tentar. — Ele desligou o carro e abriu a porta, mas ainda tinha algo a dizer. — Não saiam do carro, por favor. E qualquer coisa... — seu olhar voltou ao amigo menor, que assentiu prontamente.
Enquanto J fechava a porta do carro e ia em direção a recepção do hotel, Sash já pulava para o banco do motorista e repousava as mãos sobre o volante e os pés sobre os pedais.
O que quer que tivesse acontecido com as outras duas não aconteceriam com eles. Eles teriam a chance de escapar. Tinham que ter.
Depois que a figura de Sahni desapareceu no edifício, Damgaard começou a murmurar. Era um murmúrio normal no começo, como uma reza. Entretanto, Lynch sabia que a amiga não era religiosa. Estaria ela tão desesperada e com medo da morte para suplicar as religiões?
— Ei, tá tudo... — Lynch começou e escutou a porta abrir e fechar em segundos. Audrey estava para fora do carro e se dirigia ao meio da neblina. Ao meio da estrada.
Ele de imediato pensou em sair e resgatar a amiga antes que fosse tarde demais. Mas também implicaria em desobedecer a ordem de Sahni, que assim como ele, não queria perder mais ninguém.
Em um impulso, Sasha saiu do carro deixando até a porta aberta, para que ganhasse milésimos de segundo a mais para levar a ruiva de volta. Ele chamou por ela duas vezes sem obter respostas, então foi ousado e continuou seguindo na direção de sua intuição.
Com sorte, encontrou Audrey encarando algo na névoa.
— Achei você. Precisamos voltar para o carro... — Sash estava para colocar a mão em seu ombro quando ela se virou para ele com um semblante feliz.
Ela mostrava um sorriso de orelha a orelha e apontava na mesma direção que olhava anteriormente.
— São eles. Eles! — A maior o segurou forte pelos braços, como se demandasse que ele ficasse ali.
— Eles quem?
— Veja, veja! — Ela voltou a apontar.
Sasha a princípio imaginou que a amiga tinha ficado louca. E para a circunstância em que estavam, até era justo. Todavia, com o ajuste da sua visão à névoa, pode perceber silhuetas não muito longe deles. Umas dez, no mínimo, os cercando.
Não era uma silhueta humanoide nem alienígena, era algo... diferente, único.
Horrível.
***
Quando J saiu da recepção com um brilho nos olhos, a esperança voltando ao seu corpo, e percebeu o carro vazio, pensou primeiramente em buscar seus amigos que lhe restavam. Mas... como iria acha-los? A névoa deixava praticamente impossível.
Num ato racional e também egoísta, ele se fechou no carro. Checou se não havia ninguém escondido no banco de trás e esperou. A ajuda estava chegando.
Enquanto segurava no volante com tanta força e ansiedade que os nós de seus dedos já estavam brancos, ouviu um baque que a despertou do devaneio. Era Audrey do lado de fora. Ela estava para bater com o punho de novo na janela quando J abriu a porta.
— Você está... bem. – Viva. – O que aconteceu? Cadê o Sash?
— Ele está com as outras — disse, simplesmente.
— Como assim?
— As outras... Chloe... Skye... A mulher que encontramos no posto — seu olhar parecia perdido, morto.
— Elas morreram — contar em voz alta doía mais que J imaginava. — Elas não vão voltar, mas para você pouco importa, não é? Porque você nunca levou nada a sério.
Audrey a encarou com a expressão neutra. J então se virou para voltar ao carro. Ele não imaginava que a amiga a seguraria pelo braço e que a força seria maior do que esperava.
— Me solta, Audrey.
— Eu posso te levar até elas — o jeito que ela dizia parecia ser automático.
— Eu não quero...
A mão que a segurava a libertou de repente. Crente de que havia vencido ao argumento, Sahni deu os primeiros passos de volta ao carro... até algo a derrubar.
Não teve muito tempo de processar seu rosto contra o chão, pois logo Audrey a virou à força para encará-lo, ficando em cima do amigo e pressionando seu pescoço com ambas as mãos.
Sahni tentou se desvencilhar, aplicar todos os golpes de autodefesa de que se lembrava, sem sucesso. A amiga tinha mais força que ele, e conseguia sentir sua pressão diminuir e sua visão ficar mais turva a cada segundo que passava e lutava contra.
Até um tiro atingir Damgaard em cheio, na lateral da cabeça. Seu corpo sem vida caiu acima do amigo, e ele logo a empurrou e começou a recuperar a respiração.
A polícia tinha chegado.
***
Em seu carro, Janna via os policiais ao longe conversando e um pessoal de jaleco buscar o cadáver da amiga. A névoa tinha se dissipado quase por completo, e raios solares tímidos ameaçavam aparecer entre as nuvens cinzentas.
— Obrigado por seu depoimento, J. Será crucial para a investigação. — O comandante da operação garantiu. — Sinto muito pela sua perda.
O comandante e o restante dos policiais se organizaram para retornar as suas viaturas enquanto a mente de J estava a mil.
E a coisa que mais a preocupava era: em nenhum momento ele viu os policiais, os médicos, ou qualquer pessoa com quem cruzaram desde que embarcaram na viagem piscar. Um ato singelo, e que mesmo assim perturbava sua cabeça.
Sem o piscar dos olhos, estes ressecariam. Então, o que garantia de que as pessoas com quem cruzaram eram sequer humanas?
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