Na manhã seguinte, vi Donna sair pela porta do final do corredor, a que eu tentara entrar na noite passada, e tirar uma chave do bolso para então trancar a porta. Assim que me viu, guardou a chave e desceu a escada apressadamente.

–Você está bem? – perguntou Peter aparecendo no corredor, seguido pelos outros.

–Sim. – falei. – Acho melhor descermos logo.

Virei o sucrilhos na tigela à minha frente.

–Aqui. – virei para o lado e vi Kevin com a mão esticada segurando a garrafa de iogurte. Fiquei me perguntando como ele sabia que eu ia querer iogurte. Peguei a garrafa e virei o líquido sobre o sucrilhos. Ele sorriu.

Estávamos todos na cozinha tomando café da manhã. Todos conversavam alegremente, mas eu só conseguia pensar na porta do final do corredor. O que tinha lá dentro? Qual o motivo de mantê-la fechada? E o que Donna fazia lá essa manhã?

Levei uma colher à boca e só então me lembrei do diário. Havia algo muito estranho nisso tudo, eu só ainda não sabia o que.

Terminei o café antes de todos e decidi subir para o quarto. No caminho, passei pelo quarto onde eu havia achado o diário. Olhei para os lados para ver se alguém estava vindo e entrei. O diário não estava mais em cima da escrivaninha, então comecei a andar pelo quarto à procura de algo interessante.

As paredes eram claras e não havia muitos móveis no ambiente. Várias prateleiras repletas de livros estavam espalhadas pelas paredes. A cama estava perfeitamente arrumada e os travesseiros alinhados.

Vi dois olhos brilharem na fraca luz. Um gato. Agachei-me no chão e chamei por ele, que veio até mim sem hesitar. Ele ronronava enquanto se esfregava em minhas pernas.

–Você sempre foi curiosa, não é mesmo? – vi Kevin encostado no batente da porta. Há quanto tempo ele estava ali?

–Você nem me conhece. – questionei.

–Conheço mais do que você imagina.

Olhei para ele, incrédula. O que ele queria dizer com isso? Mas antes que eu pudesse perguntar, um grito ecoou pelo quarto. Lucy.

Levantei rapidamente e corri pelo corredor. Kevin veio logo atrás de mim. Quando cheguei à sala vi que a porta de entrada estava aberta e Lucy estava agachada no chão. Fui até ela e só quando cheguei a seu lado é que vi: Luke estava atirado no chão coberto por bichos. Cobri a boca. Minhocas e formigas saiam de seus ouvidos e boca. Senti vontade de vomitar.

–Mas que diabos é isso? – perguntou Jake aparecendo ao meu lado.

Josh ajudou Lucy a se levantar e abraçou-a.

–Eu... Eu não sei. – falou Peter. – Lucy disse que ia sair para tomar um ar e quando ouvi seu grito vim ver o que era.

–Ele está morto. – falei baixinho.

Kevin estava paralisado ao meu lado. Sem dizer nada, voltou para o andar de cima.

–Temos que chamar a polícia! – exclamei.

–Como? – perguntou Josh. – Nenhum celular está com sinal.

–Deve haver algum telefone nesta maldita casa!

–E dizer o que para polícia? Que nosso amigo foi morto por insetos?!

–Nós nem sequer sabemos como ele morreu! – gritei.

Jake balançou a cabeça:

–Vou falar com o Kevin.

Depois de uns vinte minutos, Jake desceu as escadas.

–A polícia disse que está a caminho. – falou.

Josh havia levado Lucy para o quarto, para ela se acalmar um pouco. Então estávamos somente eu, Peter e Jake no andar de baixo.

–Não duvido que eles demorem. – disse Peter. – Esse lugar fica no meio do nada! Sabe-se lá a distância daqui até a delegacia mais próxima.

Abracei minhas pernas. Não queria chorar na frente deles.

Jake sentou ao meu lado e passou os braços pelos meus ombros. Aquilo era o mais próximo de afeto que eu o vira demonstrar.

–Tentei ligar para os pais dele. Ninguém atende.

–Acho que essa viagem saiu um pouco fora do nosso controle – disse Peter.

Então ficamos assim, sentados na sala até escurecer.

A polícia não apareceu.

Ninguém jantou naquele dia, o que era de se esperar. Estávamos sentados no quarto sem saber ao certo o que fazer.

–Estou com medo. – disse Lucy, deixando cair uma lágrima que Josh limpou. – Quero voltar para casa.

Ninguém havia dito isso além de Lucy, mas eu sabia que todos queríamos a mesma coisa.

–Acho que Lucy tem razão. – Peter ficou de pé. – devemos voltar para casa.

Levantei e comecei a arrumar as malas. Logo todos faziam o mesmo.

–Não eram essas férias que eu imaginava. – falou Peter quando chegamos ao andar de baixo. Dava para notar o medo em sua voz.

Carregamos as malas até o carro, passando pelo corpo de Luke atirado no chão. Ninguém teve coragem de mexer no corpo.

Kevin não havia aparecido desde que achamos o corpo. Jake disse que quando achou ele para perguntar se havia algum telefone, ele estava em seu quarto escrevendo em um caderninho.

Entramos no carro em silêncio e Josh girou a chave.

–Merda! – exclamou.

–O que aconteceu? – perguntou Lucy, preocupada.

–O carro não liga. – falou e desceu do carro. Depois de alguns minutos voltou. – Não sei o que aconteceu. Teremos que esperar até amanhã para eu tentar arrumar.

Lucy abriu a boca, assustada. Ela sempre fora muito frágil e delicada, eu sabia que ela não queria ficar ali nem mais um segundo. Nenhum de nós queria. Mas foi isso que aconteceu.

Levantei no meio da noite e caminhei até a sala, me atirando no sofá.

–Sinto muito por seu amigo. – disse Kevin se aproximando.

Assenti. Apesar de Kevin ter se tornado amigo de Luke também, nós o conhecíamos há muito mais tempo.

–Você quer tomar alguma coisa? – perguntou, sentando-se no mesmo sofá em que eu estava.

Balancei a cabeça.

–O que estava fazendo no meu quarto hoje mais cedo? – perguntou. Ele não parecia irritado, só curioso.

–Não sabia que era seu quarto. – falei. – Vi um vulto lá dentro e entrei para ver o que era. – menti. Apesar de aquele ter sido o motivo pelo qual eu entrei no quarto pela primeira vez, não foi o motivo pelo qual eu entrei hoje.

Ele se levantou:

–Acho melhor eu subir. Se precisar de qualquer coisa – falou. – é só chamar. Você já sabe onde eu durmo de qualquer jeito. – sorriu e subiu para o quarto.

Gelei. Aquele sorriso me era tão familiar. Antes eu não tinha certeza, mas agora eu sabia.

Eu o conhecia.

Notas finais
Comentem o que acharam!!