What is dead may never die

1 but rises again harder and stronger


i.

Theon sentiu o frio congelante que vinha do Rei da Noite bem a sua frente. Sentiu o frio sendo acompanhado pela sensação de seu corpo ser perfurado e então ele sabia.

Sabia que a morte estava próxima.

Ele sabia desde que tinha se oferecido para lutar pelo Norte. Sabia desde que tinha se oferecido a proteger Bran.

A verdade é que Theon estava disposto a dar sua vida pelos Stark desde que ajudou Sansa a escapar das garras de Ramsay Bolton naquele dia em que pularam dos muros de Winterfell.

E, por saber de tudo isso, ele não estava preocupado. Seu coração estava em paz, finalmente se sentindo mais leve do que nunca antes, a sombra dos erros do passado aos poucos sendo deixada para trás.

E o corpo nem ao menos doía mais.

Era como se ele estivesse anestesiado.

E a inconsciência o chamou para o escuro que, Theon sabia, seria eterno.

Exceto que ele estava errado.

Apesar da inconsciência o segurar com suas garras e o impossibilitar de abrir os olhos ou sentir seu corpo novamente, Theon ouvia.

Ouvia algo estranho que nunca tinha ouvido antes.

Algo diferente, algo novo e ao mesmo tempo antigo.

Uma voz falando em um dialeto estranho. Seu tom de voz era baixo e irreconhecível para ele.

E tudo o que ele fez foi escutar, tentando despertar cada vez mais sua audição e procurando reconhecer... entender... o que estava acontecendo.

Ou prestes a acontecer.

ii.

As palavras desconexas continuavam sendo ditas, palavras em um idioma não só desconhecido, mas também muito antigo.

A dona da voz rodeava uma pequena chama, a única que restara e quase se apagava em meio ao frio cortante do Norte.

Um pouco mais afastado de onde a dona da voz — uma mulher — prosseguia em sua fala irreconhecível, estava aquele cavaleiro que, apesar de desejá-la morta, apenas se limitava a observá-la, sem atrever a atrapalhá-la.

Ele sabia do que ela era capaz de fazer. Já tinha visto com seus próprios olhos antes o poder que aquela feiticeira carregava e tinha consciência de que ela estava sendo útil para a batalha.

E, ainda que os mortos aparentemente tenham voltado a ser de fato mortos, caídos no chão, sem qualquer sinal de que se levantariam de novo, a mulher continuou com sua fala, sem se desconcentrar nem por um momento, com os olhos brilhando fixos nas chamas à sua frente.

A feiticeira abriu as mãos, revelando alguns fios de cabelos que segurava. Ela os jogou nas chamas, vendo-as crepitar um pouco, diminuindo seu tamanho e intensidade, mas ainda sem se apagar.

Não era a primeira vez que fazia aquele ritual, no entanto, era a primeira vez que fazia daquela forma, envolvendo mais de uma pessoa. Os vários fios de cabelo de diferentes pessoas desaparecendo por completo ao serem queimados.

O Senhor da Luz faria seu trabalho.

Ela sabia que Ele ouviria seu chamado e, aqueles que fossem merecedores, seriam recompensados.

A sua parte estava feita.

Sua voz foi perdendo a intensidade e deixando o silêncio tomar conta. Seu corpo agora mais cansado e pesado do que nunca antes.

Tudo tinha um preço para o Senhor da Luz.

iii.

Quando ele abriu os olhos novamente, ainda estava em meio à neve congelante no Bosque Sagrado.

Vozes vinham ao seu redor, mas tudo o que Theon conseguiu ver foi a Árvore-Coração acima, com suas folhas avermelhadas, tal qual o cabelo daquela que agora se apoiava no chão frio e úmido e o olhava com preocupação.

Os olhos azuis se encontrando com os dele.

Olhos marejados encarando olhos opacos e quase sem vida.

Quase.

Ele quis falar, mas se engasgou, cuspindo sangue e puxando o ar como se tivesse prendido a respiração por um bom tempo.

— Ele está vivo, eu preciso de ajuda! — Sansa, que ainda estava por cima dele, gritou para alguém que estava fora do alcance de visão de Theon, voltando a sua atenção a ele logo em seguida.

As lágrimas dela agora caindo pelo rosto do Greyjoy.

Ele queria dizer para ela não chorar.

Queria dizer tanta coisa, mas não tinha energia para isso, então tudo o que saiu de sua boca foi:

— Bran? — Pois era ele quem importava no momento. Foi por ele que Theon se sacrificou… ou pensou ter se sacrificado.

— Ele está bem, não fale nada — Sansa respondeu, preocupada. Ela ainda chorava e Theon se condenava por isso, não devia fazê-la chorar — Pelos Deuses, eu achei que estava morto…

Ela sussurrava para ele, com a cabeça baixa quase na altura de seu peito.

E Theon quis dizer que ele também achava que tinha morrido.

iv.

Ele sentiu quando a ajuda chegou e, quando estava sendo levado para dentro de Winterfell — para o seu antigo quarto, Sansa foi bem enfática com isso — Theon conseguiu finalmente ver Bran Stark, ainda sentado embaixo da Árvore-Coração.

Bran o encarava e, diferente de sua costumeira expressão neutra, o garoto parecia um pouco confuso.

A visão de Theon se escurecia e ele sabia que perderia a consciência em breve, embora dessa vez tivesse a certeza de que estava muito bem vivo.

E enquanto sua vista se ofuscava e seus sentidos se tornavam lentos, ele ainda pode escutar Bran murmurar, talvez mais para si mesmo do que para o Greyjoy, o observando.

— Eu tinha certeza de que você estava morto… O Senhor da Luz, ah, agora entendo…

v.

— Você gosta dele. — Arya falou certa noite quando encontrou Sansa sentada ao lado da cama de Theon Greyjoy.

Todos estavam comemorando a vitória sobre o Rei da Noite e, embora a Lady Stark tenha ficado e conversado um pouco com os cavaleiros, logo ela se afastou, dizendo que iria dormir.

Mas então, lá estava ela.

Era a segunda noite desde que a batalha tinha terminado. E a segunda noite que passava pelos aposentos de Theon antes de se deitar, apenas para ver como ele estava.

Apenas para desejar que ele despertasse, embora o Meistre tenha alegado que o homem estava se curando bem de seu ferimento. Ferimento este que, apesar de parecer, não tinha sido tão sério assim.

— Eu confio nele. — Sansa finalmente respondeu à irmã, cautelosa.

— Você teme o amor — E ela tinha se esquecido como Arya sabia lê-la tão bem, mesmo depois de todo o tempo afastadas uma da outra.

Sansa suspirou, sentindo a cabeça doer.

— Eu não tenho tempo para isso mais. — Porque tudo o que importava para ela era o bem do Norte e de sua família.

E Theon.

Sim, ela também se importava com ele.

Mas amar…

Não, ela não tinha tempo para pensar nisso, não agora, não mais.

— A guerra acabou, não precisa se preocupar mais.

Uma guerra acabou. — Sansa a corrigiu e, pelo canto dos olhos, viu Arya relutantemente concordar com a cabeça.

Ainda tinha uma questão a ser resolvida, as duas sabiam bem.

Daenerys Targaryen ainda estava ali.

Cersei Lannister ainda estava no trono de ferro.

E Sansa não estava disposta a abrir mão do Norte.

Por isso não havia tempo para pensar em mais nada. Seu povo era mais importante do que qualquer outra coisa..

— Você também merece ser feliz, Sansa. Não se esqueça disso.

E simples assim, ela ouviu a porta do quarto ser fechada e a irmã ir embora, mesmo que nenhum som tenha surgido dos passos de Arya enquanto se afastava.

vi.

Sansa não sabia se realmente merecia ou se ainda seria completamente feliz um dia.

Mas ali, olhando para Theon Greyjoy respirando calmamente enquanto dormia e se recuperava, já a fazia se sentir minimamente feliz.

E, por enquanto, aquilo bastava para ela.

vii.

A reunião para derrubar Cersei Lannister tinha deixado Sansa com a cabeça latejando.

E por mais que tenha combinado com seus irmãos de se reunirem mais tarde — ela e Arya precisavam conversar com Jon —, Sansa se viu se afastando de todos ao dizer que estava indisposta, enquanto seus pés a conduziram não para seus aposentos, mas para outro lugar que já tinha se acostumado a ir quando queria esquecer de tudo.

Ela estava quase abrindo a porta do quarto de Theon Greyjoy quando aquela voz familiar a interrompeu.

— Como ele está?

Contendo um suspiro, Sansa tirou a mão da maçaneta da porta e se virou.

— Melhor, mas ainda se recuperando. — respondeu sucintamente, olhando para Daenerys Targaryen sem conseguir esconder sua desconfiança em vê-la ali.

Theon tinha acordado naquela tarde, o Meistre a informou pouco antes da reunião com os nobres, mas ela não comentou nada com mais ninguém, ansiosa para vê-lo e finalmente conversar com ele.

— Bom — Daenerys disse, séria e em um tom superior, como sempre fazia quando estava com a Lady Stark — Quando acordar, ele se juntará aos outros para a batalha em Kings Landing.

Ah.

Sansa estava prevendo que ela iria falar aquilo. É claro, ainda mais depois da reunião que tiveram.

— Theon não está em condições para isso. — Ela sabia que travaria uma batalha com a Mãe dos Dragões por isso, mas Sansa não podia ficar calada.

Depois de tudo o que Theon sofreu, ela não podia permitir que ele se arriscasse de novo de forma imprudente.

— Achei que já tinha esclarecido que nós não temos tempo para isso, eu preciso de todos os homens para-

— E Vossa Majestade já tem todos os meus homens, mas Theon ainda não está pronto para mais uma batalha, ele não vai.

A forma como Sansa a interrompeu deixou Daenerys furiosa e ela se viu abrindo a boca pronta para responder à altura, mas então fechou de repente ao perceber a expressão no rosto da mulher a sua frente.

Ela não estava apenas repetindo o discurso que dera mais cedo a respeito de esperar os homens se recuperarem para a guerra.

De alguma forma, os olhos de Sansa deixavam claro como aquilo era diferente, visto que, pela primeira vez, ela encarava Daenerys não de uma forma superior. Era até como se... implorasse, ainda não tivesse expresso isso em palavras.

A lembrança de quando Theon Greyjoy chegou em Winterfell e como ele e Sansa se abraçaram de modo íntimo surgiu em sua mente.

Aquilo realmente era mais do que um simples pedido.

Sansa era bem parecida com ela, Daenerys já tinha chegado a essa conclusão antes mesmo de conhecê-la, somente com o que Jon e Tyrion tinham lhe falado a respeito da ruiva.

Ambas eram mulheres que sofreram muita coisa, ambas foram quebradas por dentro e por fora e, de alguma forma, souberam se reerguer depois de tudo.

E apesar de terem se tornado mulheres fortes e inabaláveis, certas pessoas eram capazes de penetrar aquela muralha de determinação (e gelo) que tinham aprendido a erguer com o passar do tempo.

Para Daenerys, a maioria dessas pessoas já se encontrava morta. Com exceção de Missandei, Verme Cinzento e Jon, embora este último tivesse se tornado alguém complicado para o coração e mente da Rainha.

Mas ela sabia que, para Sansa, as pessoas importantes sempre seriam sua família. E aparentemente Theon Greyjoy se encaixava nisso também, talvez não como um laço familiar, mas algo a mais, provavelmente mais intenso e íntimo do que Daenerys jamais seria capaz de imaginar ou até mesmo entender.

Ela lembrou de Jorah Mormont, com o coração ainda doendo cada vez que ele lhe vinha à mente.

Se fosse ele… Daenerys não o deixaria voltar ao campo de batalha se não estivesse completamente recuperado, não importava quem ordenasse.

Ela suspirou, fechando os olhos e tornando a abri-los, encarando a ruiva a sua frente que ainda aguardava sua resposta, parecendo apreensiva.

Era a primeira vez que a via daquele jeito, com a aura de superioridade e desconfiança de Sansa reduzida a essa inquietação enquanto a olhava.

— Tudo bem. — Disse finalmente, se sentindo um pouco desconfortável. — Só… diga para ele descansar. Vou arrumar os preparativos para partir.

Sansa não disse nada, nem mesmo quando Daenerys se afastava, mas não precisava. Daenerys viu a expressão aliviada no rosto quase inexpressivo da Lady de Winterfell e, quando estava mais distante, se virou apenas para vê-la entrar para o quarto aonde o Greyjoy ainda estava ocupando.

Era certo que ela e Sansa não combinavam e provavelmente nunca chegariam a uma decisão que agradasse as duas a respeito do Norte, mas naquele momento Daenerys não se importou.

Naquele momento ela apenas desejou que Theon Greyjoy pudesse se recuperar para estar ao lado de Sansa.

Daenerys sabia a dor de perder pessoas queridas.

Não.

Ela sabia a dor de perder pessoas que verdadeiramente amava e se sentir sozinha depois disso.

E, por mais que tivesse consciência de que Sansa Stark também tivera sua experiência de perda, ela ainda não estava sozinha. Ela ainda poderia ser salva da solidão em que Daenerys cada vez mais se afundava.

Ela ainda tinha uma esperança de ser feliz, então, por isso, Daenerys se compadeceu da fria e distante Lady de Winterfell.

viii.

Quando entrou nos aposentos de Theon novamente, Sansa sorriu não somente de alívio por ter conseguido dobrar a Mãe dos Dragões naquela situação, como também por constatar que o homem deitado a cama ainda estava completamente desperto.

E com uma aparência muito melhor do que antes.

— Como você está? — Sansa se aproximou dele, puxando uma cadeira e se sentando, depois de ajudá-lo a se sentar na própria cama.

— Bem, eu acho.

— Sente alguma dor? Posso chamar o Meistre, se quiser…

— Não, está tudo bem — Theon se apressou a responder quando a ruiva fez menção de se levantar. — É só… estranho. Ainda penso que eu deveria ter morrido antes.

— Você queria ter morrido? — Sansa perguntou, séria.

— Não é isso, é só… — Ele murmurou, sem saber muito bem como se expressar.

Theon tinha sentido sua vida se esvaindo. Sabia que a morte estava próxima.

E então de repente tudo tinha voltado.

E ele ainda não entendia como isso tinha acontecido.

— Theon — Sansa o chamou, fazendo-o erguer os olhos para ela — Você não precisa provar nada para ninguém, não pense que tem que se sacrificar por nenhum de nós. Eu não quero isso.

Ela não tinha dito com todas as palavras, mas a mensagem estava ali.

Eu não quero que você morra.

Theon sorriu de leve. Um sorriso triste, mas ainda assim um sorriso.

— Sempre ficarei feliz em me sacrificar por você, Lady Sansa.

— Se fizer isso, eu nunca o perdoarei. — Ela falava sério, mas logo seu rosto duro se quebrou em um pequeno sorriso também enquanto o olhava, naquele momento apenas aliviada por vê-lo vivo e bem.

Um silêncio agradável tomou conta dos dois por um breve momento então, e Theon viu os dedos de Sansa deslizarem por entre a madeira da cabeceira de sua cama, onde continha o símbolo da Casa Greyjoy talhado de forma delicada.

— O que está morto não pode morrer… — Ela murmurou, pensativa.

— Mas volta a se erguer, mais duro e mais forte — Ele completou, fazendo-a virar seus olhos azuis em sua direção.

Sansa sorriu.

— Eu não entendia muito bem essa frase antigamente — ela confessou, afastando sua mão do símbolo — mas acho que depois de tudo o que vivenciamos, posso ter uma ideia do que ela significa agora.

Theon permaneceu em silêncio, observando-a, esperando a Lady de Winterfell continuar.

— Você enfrentou muita coisa, Theon. Errou e acertou, assim como eu…

— Você nunca seria capaz de cometer os erros que cometi — Ele a interrompeu e Sansa ergueu a mão, segurando a dele, sem se importar com o fato de que faltavam alguns dedos na mão do Greyjoy.

E ele, pela primeira vez, não ficou envergonhado ao mostrar sua mão sem luvas.

— Talvez não. — Sansa concordou, continuando — Mas você aprendeu com seus erros, sobreviveu à situações que poderia ter se entregado e morrido… E você voltou para casa. Mais forte e melhor do que antes.

As palavras de Bran antes de Theon atacar o Rei da Noite vieram à sua mente com isso.

“Você é um bom homem”.

E ele se viu segurando as lágrimas enquanto Sansa continuava a falar.

— O que está morto não pode morrer, mas volta a se erguer mais duro e mais forte. — Ela recitou a frase dos Greyjoy novamente, sorrindo e apertando de leve a mão dele.

Os dois ficaram em silêncio por algum tempo, apenas compartilhando aquele momento entre eles enquanto se olhavam com as mãos e os sentimentos unidos.

ix.

— Eu só queria que ele estivesse aqui — Theon comentou certa vez, sem olhar para Sansa.

Ele já estava bem melhor e ambos estavam caminhando juntos pelos corredores silenciosos de Winterfell. Era noite e o lugar tinha um aspecto ainda mais vazio agora que Jon e os outros tinham saído para a batalha em King’s Landing.

Sansa não olhou para Theon e nem precisou perguntar a quem ele se referia enquanto continuavam a andar.

— Ele o amava, sabe disso.

Theon conteve as lágrimas em seus olhos e deu um longo suspiro.

— E ainda assim morreu me odiando por tudo o que fiz.

A risada leve de Sansa o fez erguer os olhos para ela.

— Robb jamais seria capaz de odiá-lo, ele era bom demais para isso.

Theon sorriu também.

— Talvez tenha razão.

Sansa o olhou de relance, sem poder deixar de notar a tristeza nos olhos do homem ao seu lado. E ela sabia que mesmo que os Stark já não culpassem Theon mais pela traição à Robb, aquele era um arrependimento que ele certamente carregaria para o resto de sua vida.

Era algo deprimente de perceber. Era algo que Sansa tinha o desejo de poder ter a capacidade de tirar dele, mas sabia que era impossível.

Afinal, ela também carregava suas próprias cicatrizes e fantasmas, seus próprios pesadelos que nunca deixariam de assombrá-la durante o dia e durante a noite.

E aquilo era apenas mais uma coisa que tinham em comum. O fato de ambos estarem tão quebrados que por mais que tenham se fortalecido, por mais que tenham se tornado pessoas melhores, eles nunca seriam completos.

Mas então… Eles estavam ali juntos, não estavam?

Mesmo depois de tudo, eles estavam vivos e não estavam sozinhos.

x.

Quando recebeu a carta de King’s Landing, informando que Jon havia matado a Mãe dos Dragões e agora estava sendo mantido prisioneiro, Sansa não pensou duas vezes em reunir sua pequena comitiva e partir para lá.

— Sua irmã também estará lá — Ela disse à Theon quando contou sobre a carta.

Ele tinha se oferecido para acompanhá-la, é claro, e antes mesmo de saber sobre Yara Greyjoy.

E quando falou a novidade, Sansa observou a reação dele. Por mais que tenha sido discreto, estava claro ali. Ele estava com saudade de sua irmã e talvez até mesmo preocupado com ela.

Sansa sentiu o coração se apertar um pouco, mas decidiu ignorar isso.

Theon era um Stark para ela, mas ele sempre seria um Greyjoy, ele também tinha a sua família. Ela seria tola se pensasse que ele desejaria passar o resto de seus dias ali ao seu lado em Winterfell.

xi.

— Como ela é? — Sansa perguntou quando estavam a caminho da cidade real.

Faltava pouco para chegarem e ela se sentia cada vez mais nervosa com a ideia de retornar para o lugar onde tantas coisas horríveis tinham acontecido com sua família.

— Sua irmã — esclareceu para Theon ao ver o olhar confuso em seu rosto.

— Ela é uma boa pessoa — Theon respondeu, sorrindo. Sansa tinha perguntado mais para se distrair e o Greyjoy percebeu isso, de modo que continuou a falar — Yara é forte e determinada, mas também sabe ser teimosa e irritante quando quer.

Sansa riu.

— Quando você fala, imagino que deve ser parecida com Arya — A antiga Arya, Sansa deveria ter falado. A Arya que era determinada, corajosa, mas também irritante e que vivia a importunando.

A Arya de agora era muito mais séria e distante do que Sansa desejaria que ela fosse. Embora não menos confiável, é claro. Mas era algo natural, Sansa também não era mais a mesma de antigamente.

— Oh sim, ela lembra muito a Arya, embora seja mais alta.

Eles riram, no entanto logo a expressão de Sansa tornou a se fechar.

— Obrigada — E Theon a olhou confuso novamente enquanto ela falava — Por ter vindo comigo, por ter ficado ao meu lado todo esse tempo.

Ela sabia que ele não voltaria para Winterfell depois de se reunirem ali. E por mais que ainda estivesse incomodada com isso, Sansa já estava trabalhando em sua mente para aceitar aquele fato.

Theon não disse nada por um tempo, mas segurou sua mão por entre as dele, apertando de leve.

xii.

A reunião para decidir o que aconteceria em Westeros teve um fim inesperado com Bran sendo coroado.

E embora Sansa e Arya tenham discutido com ele para perdoar Jon pela morte de sua rainha, ela sabia que Bran tinha tomado a melhor decisão a fim de agradar a todos.

Jon estava vivo e bem e por hora isso era o importante.

Além do mais, o Norte estava finalmente livre e, por isso, Sansa era mais do que grata.

Ela cumprimentou brevemente seu tio e primo depois da reunião, conforme todos saiam, sem deixar de olhar de soslaio para Theon que era abraçado pela irmã.

Depois que os Greyjoy se afastaram, sorrindo, Yara olhou para ela e se aproximou.

— Lady Stark.

— Lady Greyjoy.

— Espero por uma boa aliança com o Norte — Yara disse, erguendo a mão para ela.

Sansa sorriu, olhando para Theon que ainda estava do lado da irmã e depois voltando sua atenção para ela.

— Igualmente. Que os erros dos nossos antecessores não se repitam conosco. — Sansa falou, aceitando o aperto de mão da mulher.

— Fico agradecida por recepcionar bem Theon em Winterfell, é bom saber que ele é bem vindo por lá depois de tudo.

— Todos os Greyjoy são bem vindos em Winterfell. — Sansa disse, olhando para Theon, completando — Nós somos gratos pela ajuda de sua casa que tivemos na batalha contra os mortos.

— Uma batalha terrível pelo que ouvi dizer — Yara comentou, se sentindo um pouco desconfortável.

Ela sabia da ligação que seu irmão tinha com os Stark, mas não imaginava que era forte assim.

Vendo agora Sansa Stark, aquela que parecia distante e irredutível durante a reunião de momentos antes, sorrindo e olhando para Theon com tamanha gratidão, era algo surpreendente até mesmo para Yara Greyjoy.

— Sim, mas todos lutaram bravamente. Se não fosse por Theon e seus homens, Arya jamais teria conseguido chegar a tempo para vencer a guerra.

Yara colocou o braço em torno do irmão, sorrindo.

— Ele é mais forte do aparenta, não é?

Sansa e Theon sorriram também.

— Não importa o que digam, ele é um bom homem. — Ela respondeu, olhando para ele.

Theon apenas balançou a cabeça, sem saber ao certo o que dizer naquele momento, deixando Yara falar, concordando com Sansa.

xiii.

Mas apesar de não saber o que dizer, ele sabia o que queria.

Aliás, nunca esteve tão certo do que queria como naquele momento, com sua irmã do lado e a nova Rainha do Norte a sua frente.

E ele sabia que Yara entenderia. E Sansa também.

xiv.

Sansa tinha acabado de se despedir não só de Jon, como também — e inesperadamente — de Arya, vendo a irmã se distanciar, alegando que conversaria com alguns marinheiros antes de finalmente partir.

Bran tinha voltado para o castelo — ou o que restara dele — e Sansa tinha decidido ficar ali por mais um tempo.

Ela suspirou, agora finalmente sozinha.

Sozinha.

Ela conseguiu a independência do Norte, mas estava sozinha.

Nada era perfeito e Sansa já estava se acostumando a isso. Ao menos o mais importante ela conquistou: depois de anos, seu povo finalmente tinha sua liberdade de volta. E Sansa se esforçaria ao máximo para que assim fosse até o fim de seus dias.

Estar sozinha era apenas uma consequência.

Algo que Sansa teria que lidar.

Ou assim ela pensava.

xv.

— Lady Sansa. — Aquela voz familiar e que fazia seu coração ficar estranhamente nervoso, fez a ruiva despertar de seus devaneios.

— Theon, o que está fazendo aqui? — Sansa perguntou, confusa, virando-se para ele e depois para os navios aportados ali.

Nenhum dos que restara tinha o símbolo dos Greyjoy. Ela estava certa, Yara já tinha zarpado para as Ilhas de Ferro.

Ele não tinha ido com ela?

Theon se aproximou mais de Sansa.

— Uma vez eu falei com Jon que não sabia o que deveria ser — Ele comentou então, sem respondê-la, fazendo Sansa se virar novamente, encarando-o — Um Stark ou um Greyjoy? Até mesmo depois de escapar com você, eu não sabia de que lado ficar…

— Porque você também ama sua irmã e se preocupa com ela. — Não foi uma pergunta, Sansa entendia, afinal. — Mas Theon, você não precisa escolher…

O riso dele a interrompeu e Sansa o olhou, confusa.

— Jon me disse isso também. — Esclareceu então — Eu não preciso ser um ou outro. Agora eu sei, eu sou um Greyjoy, mas também sou um Stark. Sempre serei um Stark.

Ela sorriu, erguendo sua mão e pegando a dele.

Seus olhos azuis brilhavam tal qual o mar ao fundo dos dois.

E Theon pensou que jamais veria uma cena tão bela como essa em sua vida.

— Eu sempre soube disso e… Não importa aonde você vá, eu disse sério antes com sua irmã, sempre terá um lugar em Winterfell para a Casa Greyjoy.

— Isso é bom, porque… É para lá que pretendo ir agora.

— Isso- é sério isso? — Sansa perguntou, surpresa.

Ela tinha certeza que o homem escolheria ficar com sua irmã e comandar as Ilhas de Ferro ao lado dela.

Theon não respondeu de imediato, ao invés disso ele se ajoelhou diante de Sansa, deixando-a ainda mais surpresa.

— Vossa Majestade me aceita como um de seus cavaleiros?

Sansa sorriu, sentindo o coração mais agitado.

Ela tocou no ombro do homem, que se levantou, esperando por sua resposta.

— Não — respondeu então, fazendo agora Theon a olhar surpreso e confuso. O sorriso continuou nos lábios de Sansa quando ela finalmente completou: — Não o aceito como cavaleiro, porque o quero como minha Mão, Lorde Greyjoy.

xvi.

Não era uma decisão feita por impulso, Sansa sabia disso.

Quando Jon estava no comando, Sir. Davos tinha sido sua Mão e, por mais que a Lady Stark soubesse que o homem era confiável… ele não era Theon. Assim como ela não era Jon.

O passado das pessoas não desaparecia, mas se tinha alguém em quem Sansa confiaria a sua vida e, talvez, seu coração, seria Theon Greyjoy. Ele tinha crescido e ela também. E juntos governariam com a certeza de que nunca deixariam o passado e os mesmos erros se repetirem. Juntos, tomariam precauções para que o futuro fosse melhor para todos.

Sim, ele era a melhor pessoa para isso, Sansa tinha certeza.

E quando Theon deixou algumas lágrimas caírem de seu rosto ao aceitar seu pedido, ela só fez o que sempre fazia quando estava ao lado dele.

O envolveu em seus braços e assim ficaram, com o pôr do sol caindo sobre eles e sobre todo o porto de King’s Landing e o mar ao fundo.

Nada mais importava naquele momento.

E a conversa que tivera com Arya meses atrás voltou na mente de Sansa enquanto estava nos braços do Greyjoy.

“Você também merece ser feliz”.

Talvez, só talvez, ela estivesse começando a acreditar nisso agora.

Talvez, só talvez, ela estivesse começando a se sentir realmente feliz.

E Sansa sabia que Theon Greyjoy era um dos maiores motivos dela se sentir assim.

Não havia mais guerra, não havia mais luta, não havia mais sofrimento.

xvii.

E agora ela governaria o Norte.

E ele estaria sempre ao seu lado.

xviii.

Havia aquele ditado de que o Norte se lembrava de tudo o que acontecia em suas terras.

Os nortenhos nunca se esqueciam do sofrimento que eram submetidos.

Mas também nunca se esqueciam dos laços criados e da felicidade compartilhada.

Mesmo quando tudo parecia perdido eles se lembravam. E faziam todos a sua volta se lembrarem também.

Talvez aquele outro ditado pudesse ser integrado a este agora.

Aquele ditado das antigas Ilhas de Ferro.

Porque o que está morto não pode morrer, mas volta a se erguer mais duro e mais forte.

Assim como o Norte.

Assim sua Rainha (a primeira de seu nome) e sua Mão, que vivenciaram o inferno naquelas terras, mas se reergueram mais fortes do que nunca, fazendo daquele um lugar pacífico para todos viverem por muitos e muitos anos.

Notas finais
Eu não quis colocar uma relação de romance de uma vez nessa história, pq meu objetivo era prosseguir a narrativa da série com o Theon vivo. Acho que os dois tinham muito potencial pra ficarem juntos sim, mas o relacionamento - amoroso - seria construído a longo prazo. Ambos são personagens muito "quebrados", que já sofreram demais e eles têm uma ligação extremamente forte um com o outro, mas fazer algo romântico logo de cara ia ficar forçado (ainda mais pela Sansa), enfim... espero que tenham gostado ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!