What Kind of Man?

2 O Diabinho e o Sátiro


Notas iniciais
Boa leitura

Em primeiro lugar, eu preciso dizer que meus sonhos sempre foram bizarros. E eu também acho que todas as pessoas possuem sonhos bizarros. O problema, no entanto, é que o sonho que eu tive naquela noite foi bizarro de um jeito peculiar. Não tinha bombas, nem manoplas, e muito menos, garotas com sangue ruim.

Era apenas Will e eu.

Em meu quarto.

Sozinhos.

Nos beijando.

Certo. Como isso aconteceu? Não sei. Ele simplesmente estava em meu quarto, sentado em minha cama, onde eu também estava sentado. Levou uma das mãos para o meu rosto, e acariciou levemente minha bochecha.

Não tem problema – Ele disse. Então eu me encurvei, e nós começamos a nos beijar.

Havia, porém, três problemas.

O primeiro, obviamente, era que eu nunca tinha beijado ninguém. Nunca. Mesmo. Além do mais, como eu pude beijá-lo sem ao menos saber aonde aquela boca havia andado? Ele pelo menos tinha escovado os dentes? Não sabia ao certo responder, mas esperava que, para o bem do meu eu do sonho, ele tivesse.

O segundo problema era que, como Will e eu não somos amigos, não fazia o menor sentido ele estar no meu quarto. Não fazia mesmo. Eu não tinha ideia do que estava acontecendo com ele para que ele estivesse em um lugar tão sombrio quanto o meu quarto. Mas, olhando pelo lado positivo, nenhum de nós estava pelado. Menos bizarro.

O terceiro, para não esquecer, é que eu não era gay! Então por que raios o Will apareceu no meu quarto, com os cabelos castanhos cacheados desarrumados, e com seus olhos instigantes, para me beijar?

E por que eu tinha a sensação de ter gostado?

Fui para a escola um pouco perdido, e não conseguia tirar aquela cena constrangedora de minha cabeça, muito menos entendê-la. Tive uma imensa vontade de mandar uma mensagem para a minha melhor amiga, Paula, para que ela me dissesse o que achava. No entanto, não era necessário, já que provavelmente ela falaria: Demorou para se tocar, não é?

Abri a porta da minha sala e apenas Alexandre havia chegado, e já estava em seu lugar de costume, o quinto, logo atrás do meu. Em suas mãos havia um celular, e Alexandre digitava furiosamente. Enquanto ele estivesse entretido com o aparelho, tudo bem. Melhor para mim.

Não me leve a mal. Alexandre pode não ser tão insuportável quanto parece. Com sua estatura razoavelmente baixa, sua pele morena e olhos travessos, ele me lembrava um hobbit, ou um diabinho.

E não era um diabinho pela sua aparência. Era porque ele sentia um imenso prazer em me provocar, e provocar todos ao seu redor. Era insuportável e eu realmente detestava quando ele começava a me cutucar em meio a alguma aula. Ou me interromper para falar de algo insignificante, como os jogos que ele joga.

Joguei a mochila no chão e joguei o meu corpo na cadeira. Era segunda feira. Isso significava que era o dia da aula depois do almoço. Exatas não era comigo. Eu queria ser médico. Sempre me perguntei onde cálculos entrariam na medicina, mas nunca tive vontade de perguntar para alguém simplesmente para não pagar mico.

Mal comecei a vasculhar meus pertences dentro de minha mochila e Alexandre me cutucou. Virei meu corpo em sua direção e revirei os olhos.

– O que que foi, Alexandre? – Não fiz esforço algum para esconder o desprezo da minha voz. “Baixa Dota?”, “você já baixou Hearthstone?”, “Dota?”, “Hearthstone?”. Era o tipo de diálogo que eu tinha com Alexandre.

Alexandre deu um sorrisinho malicioso.

– Andou pensando muito no Will? – murmurou.

Senti minhas bochechas corarem. Como ele sabia? Aliás, não tinha como ele saber. Estaria ele me testando? Ele queria que eu demonstrasse alguma reação? E por que eu me importava?

Agradeci por meu tom de pele ser bem escuro, pois não pareceria corado.

– Cala a boca, Alexandre. – murmurei em resposta. – Se ele chegar, vai interpretar mal.

Alexandre deu uma risadinha.

– Tá bom, cara. Nós já sabemos que você é – Ele se interrompeu.

– Que eu sou o quê? – perguntei.

– Gay. – respondeu.

– E se eu fosse, qual o problema com isso? – Eu já estava na defensiva. Paula, minha melhor amiga, era lésbica. E eu odiava quando alguém tinha algum preconceito com ela, ou com homossexuais no geral.

– Nada, cara. – Ele levantou os dois braços, em sinal de rendição. – Mas isso acabou de parecer uma espécie de declaração.

– Nossa, Alexandre. Você é tão idiota. – virei para frente e tratei de ignorá-lo até as aulas começarem.

Assim que meus amigos foram chegando, a conversa do aniversário foi fluindo. Ana ainda tentava se defender das nossas acusações de que ela estava gostando de Will. Iasmyn dava de ombros, aceitando o fato. Diana ria, acompanhada de Juliana. Gazela tentativa discutir com Rivelo sobre algum assunto não interessante. E Bia, bem, ela só queria saber de comer. Fosse gente, fosse comida.

A professora de química chegou e ficamos em silêncio. Ela caminhou lentamente até sua mesa, e nós observávamos sua caminhada. Todos respeitavam ela de uma maneira impressionante. Ela nos mandou fazer atividade e, logo depois, bateram na porta.

– Pode abrir. – disse ela, em sua habitual voz de líder.

E então eu prendi a respiração. O garoto que algumas horas atrás tinha me beijado em meu sonho, havia acabado de chegar. Acompanhei-o com os olhos vendo-o sentar-se em seu lugar, e sem querer, me senti envergonhado.

O que estava acontecendo?

Comecei a sentir cutucadas em minhas costas. Eu aguentei até chegar em meu limite.

– Alexandre, seu maldito. O que você quer agora? – Eu praticamente gritei.

– Nossa, hoje você está com raiva. Foi porque o Will ainda não te beijou? – perguntou.

Se eu pudesse ter ao menos um terço da força de Juliana, e um terço da coragem/loucura dela, eu iria bater naquele infeliz ali mesmo. Porém, eu tinha só palavras para tentar me defender.

– Você não sabe de nada, seu animal. – retruquei.

– Não precisa ficar esquentado. – replicou.

– Não estou esquentado, é só que você está me enchendo muito o saco. Parece um inferno. – reclamei.

– Também não gosto de sentar perto de você.

– Ah, é? Então por que não pede para a professora mudar você de lugar? – perguntei.

Ele me olhou, furioso.

– Porque você não manda em mim, seu sátiro. – Sátiro era o meu apelido. Como eu tinha problema nas pernas, e elas ainda eram feias, me chamavam de sátiro.

– Dá para as crianças pararem? – perguntou nossa professora.

Eu virei e fiquei quieto. Que inferno. Algumas vezes Alexandre se superava no nível de idiotice. Aliás, se eu quisesse beijar o Will ou não, ele não tinha nada a ver com isso.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.