Notas iniciais
Bem, esse capítulo é só o comecinho mesmo. Só para apresentar já todas as personagens, e basicamente, só. Mesmo assim, eu espero que gostem. Tenham uma boa leitura, o//

Eu nunca pensei que uma pergunta pudesse mudar a vida de alguém. Para mim, as clássicas como “quer casar comigo?” ou “vai assumir o filho, ou eu vou ter que prestar queixa?” não alteravam realmente a vida de alguma pessoa. É engraçado que, comigo, nenhuma pergunta clássica foi proferida. Apenas uma singela brincadeira fantasia de pergunta, em um simples aniversário, de uma colega antiga.

Agora pensará você, provavelmente, como é que a seguinte pergunta poderá mudar a vida de alguém. Poderá mudar a sua? Arrisco dizer que não. Quer descobrir como mudou a minha? Continue lendo.

Nos filmes da Disney, não aqueles com animações e, possivelmente, animais falando, mas os filmes da Disney com pessoas reais, as garotas sempre tinham algo especial para o aniversário de 16 anos delas. Com a minha amiga, bem, digamos que ela não era protagonista de um filme da Disney.

O combinado era chegar sete em ponto na pizzaria perto do shopping. Mas como uma pessoa importantíssima, atrasei quinze minutos, afinal, não podia chamar mais a atenção do que a própria aniversariante. Entreguei a ela o vale-livros e ela me abraçou. Fui inundado pelo cheiro de suor e baunilha que estavam presentes na cascata de cabelos castanhos e cacheados dela.

– Obrigada. – Ela sorriu e guardou o presente junto a uma pequena pilha com outros embrulhos um pouco abertos.

Peguei a cadeira mais próxima de outra amiga, e sentei.

– Estou muito atrasado? – perguntei.

Ela me ignorou totalmente. Juliana é o tipo de pessoa que faz isso quando está prestando atenção em outra, no caso, um indivíduo cabeçudo e com óculos conhecido como Rivelo.

Como Rivelo não calava a boca, tive de me intrometer.

– Vocês chegaram faz quanto tempo? – Ok. Eu sou péssimo de puxar assunto. Função fática realmente não é comigo.

– Mas como você é insuportável! – Juliana quase berrou. – Estou tentando ouvir o final da história de Rivelo.

– Nossa, Ju, calma. – Rivelo pediu. Ele ergueu o punho e eu ergui o meu. Demos nosso cumprimento.

– Ah, quer saber? Dane-se você também. – Juliana se levantou e saiu de perto, indo atrás de Diana, que tinha acabado de chegar. Vi Ana falando “obrigada” do mesmo jeito que tinha dito para mim.

– E aí? Não vai pular no pula-pula? – perguntou Rivelo.

Se tinha algo de especial naquela pizzaria, além, é claro, de terem a melhor pizza da cidade, era que eles tinham um pula-pula. Não um pula-pula qualquer, mas o maior pula-pula que eu já tinha visto. E o melhor é que nós podíamos pular nele, mesmo sendo adolescentes.

Havia, é claro, dois problemas. O primeiro deles é que eu sempre tive problema com os meus pés, eu andava parecendo uma bailarina, sempre na ponta dos pés, porque se tentasse andar do jeito “natural”, acabaria machucando muito. E eu tinha acabado de chegar à festa, não queria ficar todo ensopado de suor.

– Não vou. Eu prefiro ficar aqui e comer brigadeiro. – Dei de ombros. Rivelo pensou um pouco e, em seguida, assentiu, concordando comigo.

Festas de aniversário passam muito rápido. Eu queria que as festas durassem o mesmo tanto que as três aulas de matemática que sou obrigado a assistir na quarta-feira à tarde, essas sim parecem intermináveis.

Quando dei por mim, todos os meus outros amigos estavam lá. Alexandre, Iasmyn, Bianca, e Gazela (não, esse não é o nome dele, é o apelido carinhoso dele, e na real, eu nem mesmo lembro o nome de Gazela, e se brincar, nem ele).

Cantamos parabéns e jogamos conversa fora por meia hora até que Juliana começou.

– Não, porque se o Gazela fosse homem, ele beijava o Yuri. – Yuri era um outro garoto, amigo deles, apesar de eu não conhecê-lo.

– Ju, por que você sempre fala disso? – questionou Gazela.

– Porque é divertido. E não é verdade? – Ela piscou os dois olhos inocentemente.

– Amiga, para. – falei, fazendo uma voz fina.

– Não é. Eu disse que se eu fosse mulher eu namoraria ele. Mulher. – Era engraçado ouvi-lo dizendo isso, pois sua cara redonda e seu cabelo até o pescoço davam um ar feminino a ele.

– Hummmmm. – Juliana mordeu um brigadeiro. Seus cabelos castanhos e lisos estavam suados, e seus olhos da mesma cor encaravam Gazela de um jeito malicioso. – Mas quem vocês beijariam se tivessem outro sexo? – Ela voltou sua atenção aos demais.

Bianca devorava vários brigadeiros de uma vez, enquanto os outros comiam bolo e ignoravam Juliana.

– Ei, Vicente. Quem você beijaria se fosse mulher? – perguntou ela. E sim, essa foi a pergunta que mudou minha vida. Mas não do jeito que você vai deduzir, não totalmente. Só que, como toda confusão, é preciso alguma coisa pra começar.

– Will – respondi rapidamente enquanto esticava o braço para alcançar um doce antes que Bia devorasse tudo.

Todos começaram a rir. Estranhei, pois eu só havia respondido uma pergunta. Will tinha sido o primeiro nome que veio até mim. Em parte porque praticamente todas as garotas da sala tinham uma queda por ele, incluindo Iasmyn, Ana e Bia, e em parte porque ele realmente era bonito, legal e simpático.

Espera, o que estou dizendo?

– Viram, meninas? – Juliana se virou para vê-las. – O Vicente está tentando furar o olho de vocês.

– Eu nem estou afim dele. – Ana se fez de desentendida. Como se alguém ali acreditasse nela.

Bianca continuou comendo como se nada tivesse acontecendo e Iasmyn apenas deu de ombros, sorrindo.

– Eu te apóio, Vicente. – respondeu Iasmyn.

– Amiga, para de ser tão falsiane. – retruquei.

– Nossa, que grosso. – Ela disse, e então nós dois rimos.

Após ter sido zoado incontáveis vezes depois de ter respondido “Will”, a festa acabou e eu cheguei a minha casa. Perguntei-me se era normal ter respondido tão depressa algo assim, e o porquê de eu realmente escolhi justo o cara mais mulherengo da escola para “beijar” se eu fosse uma mulher.

Deitei em minha cama e pensei: O que está acontecendo com a minha vida?